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  • Guiné-Bissau: Estudo sobre vacina da Hepatite B pode minar a confiança das mães

    19/1/2026
    Está previsto decorrer na Guiné-Bissau um projecto clínico que está a suscitar polémica e a levantar muitas questões. Trata-se de um estudo, financiado por fundos americanos - 1,600 milhões de dólares pagos pelo Centro de Controlo das Doenças americano (CDC) - sobre os efeitos não específicos da vacina contra a Hepatite B. Em entrevista à RFI, a antiga ministra da Saúde da Guiné-Bissau, Magda Robalo, manifesta sérias reservas em relação ao estudo, alerta para fragilidades éticas, científicas e comunicacionais.
    O estudo, liderado pelo Projecto de Saúde de Bandim, pretende acompanhar 14.000 recém-nascidos ao longo de cinco anos, comparando dois grupos: um que recebe a vacina contra a Hepatite B nas primeiras 24 horas de vida e outro que segue a prática actual do país, recebendo a vacina apenas a partir das seis semanas de idade. E assim estudar os efeitos associados à vacinação contra a Hepatite B em função da data de administração da vacina.
    As recomendações da Organização Mundial da Saúde são claras: a vacina contra a Hepatite B é segura, sem efeitos adversos, e é mais eficaz quando administrada à nascença, sobretudo num país como a Guiné-Bissau, onde a prevalência da Hepatite B é elevada (18% da população está infectada).
    Actualmente, a Guiné-Bissau não administra a vacina contra a Hepatite B à nascença. No entanto, o Governo decidiu adoptar a vacinação universal de recém-nascidos a partir de 2028, em linha com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
    Segundo os investigadores do Projecto de Saúde de Bandim, esta transição cria uma “janela de oportunidade” para comparar a política actual com a futura política já decidida, mas ainda não implementada.
    Durante o ensaio, todas as crianças recebem a vacina contra a Hepatite B às 6, 10 e 14 semanas, respeitando o plano nacional de vacinação. Metade, 7.000 recém-nascidos, vão receber uma dose adicional nas primeiras 24h de vida.
    Para alguns elementos da comunidade médica internacional, o interesse deste ensaio clínico é mais político do que sanitário, como demonstra o financiamento americano de 1,6 milhões de dólares, numa altura em que o secretário norte-americano da Saúde, Robert Kennedy, é conhecido pelas suas posições antivacinação.
    O Centro Africano de Controlo das Doenças anunciou, na semana passada, o cancelamento do ensaio clínico com base nas questões éticas. Todavia, a equipa que se encontra a liderar a investigação, contactada pela RFI, desmente o cancelamento ou a suspensão.
    Em entrevista à RFI, a antiga ministra da Saúde da Guiné-Bissau, Magda Robalo, manifesta sérias reservas em relação ao estudo proposto pelo Projecto de Saúde de Bandim, alertando para fragilidades éticas, científicas e comunicacionais que podem ter consequências negativas duradouras na confiança da população nas vacinas.
    Segundo a ex-governante, o Comité de Ética da Guiné Bissau terá analisado o protocolo “com a maior das boas vontades”, mas condicionado por uma relação histórica de proximidade com o Projecto de Saúde de Bandim, que actua no país há cerca de 45 anos. Essa proximidade poderá, na sua opinião, ter limitado uma avaliação mais crítica e abrangente do impacto do estudo.
    Para Magda Robalo, faltou ao Comité de Ética uma análise da “dimensão externa” do protocolo, nomeadamente do seu alcance internacional e da real necessidade científica de testar uma vacina amplamente utilizada. “Estamos a falar de uma vacina contra a Hepatite B que é utilizada há 40 anos e que não precisa de ser testada nos recém-nascidos da Guiné-Bissau”, afirma.
    A antiga ministra acrescenta que a eficácia da vacina administrada à nascença está solidamente comprovada e é recomendada pela Organização Mundial de Saúde. Num país onde se estima que 18% da população esteja infectada com Hepatite B e onde cerca de 11% das crianças já estejam infectadas aos 18 meses, Magda Robalo considera que o estudo pode ter um efeito contraproducente.
    “O grande efeito nefasto deste estudo é exactamente criar na mente das populações, nomeadamente das mães, a desconfiança relativamente a esta vacina.” A ex-ministra relata que já ouviu no terreno perguntas que revelam esse receio: “Mas porque é que nós vamos introduzir uma vacina que nunca foi testada na Guiné-Bissau?”. A resposta é clara: “Várias vacinas, se não todas, que estão a ser administradas na Guiné-Bissau, nunca foram testadas particularmente na Guiné-Bissau. Não precisam de ser testadas na Guiné-Bissau, porque foram testadas em vários outros países e em populações muito maiores.”
    Magda Robalo insiste que as recomendações da OMS resultam sempre de estudos alargados e da avaliação de múltiplos peritos, antes de serem integradas nas políticas de saúde pública. Ainda assim, alerta para o perigo de as mães se sentirem usadas como “cobaias”, o que pode levar à rejeição da vacina. “É o risco que nós corremos, que as mães pensem que não se deve dar esta vacina às crianças”, afirma.
    Outra questão que se levanta prende-se com o processo de consentimento informado, num contexto de fraca literacia em saúde. “Na Guiné-Bissau, o consentimento informado é problemático”, garante Magda Robalo, lembrando que 14 mil mães teriam de ser esclarecidas no âmbito do estudo. Na sua opinião, é pouco provável que a maioria compreenda plenamente as diferenças entre os grupos e as implicações da decisão. “Posso arriscar a dizer que a maior parte das mães não irá perceber exactamente o que é que se passa”, esclarece.
    Em resposta escrita à RFI, Isaquel da Silva e Frederik Schaltz-Buchholzer, investigadores responsáveis pelo estudo no Projecto de Saúde de Bandim, salientam que o ensaio “não retira vacinas dos participantes, pelo contrário, metade dos participantes receberá uma vacina que, de outra forma, não teria recebido”. Explicam que se trata de “um ensaio clínico para avaliar os efeitos não específicos das vacinas administradas no período neonatal. (...) O estudo não questiona a eficácia da vacina contra Hepatite B na prevenção da doença. A lacuna científica está nos efeitos não específicos das vacinas - impactos sobre mortalidade geral, resistência a outras infecções e saúde global da criança. Há evidências de que o momento da vacinação pode influenciar esses efeitos, mas faltam dados robustos em contextos africanos.”
    Os investigadores acrescentam que “o ensaio resultará num maior número de recém-nascidos vacinados (e protegidos) contra a Hepatite B” e ressalvam que “o estudo segue protocolos éticos e científicos, foi aprovado pelo Comissão de Ética na Saúde de Guiné-Bissau, e vai responder perguntas importantes antes da implementação universal”.
    Questionados sobre as críticas éticas levantadas por alguns especialistas, explicam que essas críticas estão baseadas “mal-entendidos e em informação incompleta.”
    Apesar do Centro Africano de Controlo das Doenças ter anunciado o cancelamento do ensaio clínico, a equipa do Projecto de Saúde de Bandim desmente o cancelamento ou suspensão e reitera que os preparativos continuam e que será feito um anúncio aquando do arranque do projecto.
  • Guimarães Capital Verde da Europa: "A transição climática não é abstracta"

    09/1/2026
    Guimarães iniciou esta sexta-feira, 9 de Janeiro, o ano como Capital Verde Europeia 2026, com uma programação que cruza compromissos políticos, acordos estratégicos e celebração cultural, afirmando-se como território-laboratório da transição verde através de iniciativas de sustentabilidade, inovação urbana e participação cívica. Em entrevista à RFI, Isabel Loureiro, directora executiva de Guimarães 26, afirma que “a transição climática não é abstracta: acontece nas cidades, no quotidiano das pessoas, e Guimarães é hoje um exemplo disso”.
    O que representa para Guimarães ser Capital Verde Europeia em 2026?
    Significa, acima de tudo, um reconhecimento da importância das cidades no que diz respeito à transição verde e à sustentabilidade, nomeadamente à sustentabilidade ambiental. Há dez anos, quando Guimarães começou a sua jornada climática, havia muito a ideia de que o problema das alterações climáticas era um problema global. Mas, de facto, também é um problema local. Com o trabalho que está a ser feito e com todos os projectos que estão elencados para o futuro, estamos a conseguir provar que é possível fazer estas transformações e ter impacto através das cidades. É por isso que Guimarães, sendo Capital Verde Europeia, será também um hub da sustentabilidade em 2026, onde outras cidades, cidadãos e pessoas de todo o mundo poderão visitar e conhecer algumas das nossas boas práticas.
    Em que é que se traduz esta designação de Capital Verde?
    Traduz-se sobretudo num esforço colectivo que foi feito e num conjunto de políticas que foram adoptadas e que alteraram o percurso ambiental da cidade a partir de 2014. Guimarães fez um diagnóstico da sua situação ambiental e, como sabe, somos uma cidade industrial, com alguns impactos resultantes dessas dinâmicas. Ao longo dos anos houve um grande investimento na educação ambiental. O programa Pegadas, por exemplo, impacta hoje 800 alunos de 88 escolas. É um programa voluntário, dirigido aos quase 20 mil alunos da cidade, com uma equipa dedicada do Laboratório da Paisagem que realiza diariamente acções de sensibilização.
    Traduz-se também numa alteração dos indicadores ambientais, nomeadamente daqueles avaliados pela Comissão Europeia. Guimarães apresentou três candidaturas e foi na última que conquistou este título. O que verificámos ao longo desta jornada de dez anos é que os indicadores ambientais melhoraram. Hoje, por exemplo, 97% dos nossos cidadãos respiram ar de boa qualidade. Incrementámos em 30% as zonas pedonais e criámos quiet zones. Actualmente, toda a rede de transporte público é eléctrica, o que reduz significativamente as emissões. Há, portanto, um conjunto de boas práticas que, como refere o senhor Presidente da Câmara, Dr. Ricardo Araújo, se reflectem directamente na qualidade de vida dos cidadãos.
    Ao longo do ano estão previstas várias iniciativas. Quais serão as áreas mais privilegiadas?
    A Capital Verde desenvolver-se-á em dois grandes momentos. Um deles será marcado pela realização de conferências, congressos e seminários, incluindo importantes encontros internacionais e nacionais subordinados às temáticas da Capital Verde Europeia e às áreas dos indicadores. Paralelamente, durante o ano de 2025 lançámos duas chamadas à comunidade para que pudesse propor eventos. Recebemos mais de 200 propostas, que serão agora implementadas ao longo do ano.
    As grandes áreas serão a água, a qualidade do ar e a saúde, não apenas a saúde física, mas também a saúde mental e a forma como o ambiente impacta a saúde e vice-versa. Abordaremos também a energia, a resiliência, o espaço público, a arquitectura das cidades e a melhoria da conectividade das áreas verdes, permitindo a circulação de pessoas e animais, preservando a natureza e a biodiversidade. Teremos ainda eventos ligados à economia circular e à gestão de resíduos.
    No fundo, será um programa que tocará todas as áreas elencadas na candidatura de Guimarães a Capital Verde Europeia: sete áreas ambientais e uma oitava, desenhada por nós, dedicada à democracia participativa, explorando de que forma a participação, a mobilização e a ciência suportam esta transformação.
    Quais serão os benefícios desta Capital Verde para a população?
    Quando adoptamos, por exemplo, um sistema de transporte público totalmente eléctrico, isso tem impacto nas emissões e nas partículas PM2,5, melhorando a qualidade de vida das pessoas. É um exemplo claro de como uma estratégia pública pode beneficiar directamente os cidadãos. Por outro lado, ao permitir que os cidadãos participem, desenhem e criem projectos e iniciativas, estamos a sensibilizar e a formar futuras gerações.
    Alterar os comportamentos?
    Sim. Quando falamos da população, falamos também dos sectores económico e empresarial. Na hotelaria e restauração, por exemplo, desenhámos uma declaração de compromisso que pode ser subscrita por estes estabelecimentos, permitindo-lhes identificar as boas práticas que implementam nas várias áreas de indicadores. Ao longo do ano, as equipas destes negócios receberam acções de formação e sensibilização, bem como um dístico que sinaliza aos visitantes que aquele restaurante ou hotel segue critérios ambientais. Alterar comportamentos significa também transformar os negócios, e esse é um legado importante que queremos deixar.
    O que é que ainda falta fazer na área ambiental?
    Guimarães tem uma visão clara: ser uma cidade de um só planeta em 2050. A última vez que foi calculada a pegada ecológica do município, Guimarães consumia 2,28 planetas. Para alcançar esta ambição, é necessária uma transformação não apenas do território e das infra-estruturas, mas sobretudo dos cidadãos. Esta mudança leva tempo. O que sabemos hoje é que estamos a preparar as gerações para que esta transição aconteça de forma mais acelerada, permitindo que em 2050 vivamos dentro dos limites planetários.
    Há também o compromisso com a neutralidade climática em 2030…
    Sim. Em 2022, Guimarães foi uma das seis cidades eleitas pela Missão das Cidades para atingir a neutralidade climática em 2030. Foi elaborado o Plano Municipal de Acção Climática, focado tanto na adaptação como na mitigação, acompanhado por um plano de investimento e de monitorização. Neste momento, o trabalho passa por implementar e monitorizar essas medidas para alcançar a neutralidade climática em 2030.
    É este o legado que Guimarães quer deixar, enquanto capital verde da Europa?
    Sim, é um legado de transformação das pessoas, de melhoria da qualidade de vida e de partilha com outras cidades. Queremos inspirar e mobilizar outros territórios. Guimarães é uma cidade de média dimensão, e se nós conseguimos, outras cidades da mesma dimensão também poderão conseguir. Cerca de 75% das cidades europeias são de pequena e média dimensão. Se conseguirmos inspirá-las, acredito que juntos poderemos transformar este planeta.
  • Angola lança rede de educação ambiental contra o plástico

    05/1/2026
    Foi lançada em Dezembro, em Angola, a REEDUCA – Rede de Educação Ambiental Angolana para a Prevenção, Redução, Reutilização e Reciclagem do Resíduo Plástico, uma iniciativa conjunta da Agência Nacional de Resíduos e da EcoAngola. A rede tem como objectivo reforçar a educação ambiental no país e promover uma gestão mais sustentável do lixo plástico.
    Dara Correia, coordenadora do projecto pela EcoAngola, explicou à RFI que o REEDUCA visa criar uma intervenção estratégica a nível nacional para mitigar os impactos do resíduo plástico. “O projecto é a nível nacional e teve como piloto a cidade de Luanda, entre Outubro e Dezembro. A intenção é expandir a rede para outras províncias”, afirmou.
    Na prática, o projecto começou com a elaboração de um diagnóstico que envolveu diferentes intervenientes do sector da gestão de resíduos, desde cooperativas de catadores a empresas especializadas. Em seguida, foram realizadas formações direccionadas a públicos distintos, incluindo líderes de cooperativas, catadores individuais e professores do ensino primário.
    Além das formações, o projecto promoveu uma campanha digital de sensibilização sobre prevenção, redução e reciclagem de resíduos plásticos. O lançamento da rede culminou num seminário com 72 participantes do sector, onde se enfatizou que a implementação efectiva da economia circular em Angola depende da união entre os diferentes intervenientes.
    Segundo a coordenadora do projecto, a educação ambiental é fundamental para mudar comportamentos. “Ainda estamos numa fase embrionária de consciencialização. É necessário um trabalho contínuo de educação ambiental no país”.
    O problema do plástico em Angola, de acordo com Dara Correia, é visível e urgente: “O plástico demora anos a decompor-se e transforma-se em microplásticos. Já se encontram resíduos plásticos nos peixes que consumimos e nos ambientes costeiros. É um problema que afecta a saúde e o meio ambiente de todos. Todos devemos mudar as nossas atitudes diárias”.
  • Rede Lusófona para o Clima visa fortalecer cooperação climática entre países de língua portuguesa

    15/12/2025
    Foi oficialmente lançada em Novembro, à margem da COP30, a Rede Lusófona para o Clima, uma iniciativa conjunta da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável e da Oikos – Cooperação e Desenvolvimento, que pretende criar um espaço de cooperação entre países lusófonos na mitigação e adaptação às alterações climáticas. A primeira fase da rede foca-se em África, mas a ambição é estender a acção a toda a lusofonia, incluindo Brasil e Timor-Leste.
     
    De acordo com o comunicado de lançamento, a iniciativa assinala a criação de uma nova aliança destinada a fortalecer a cooperação climática entre os países de língua portuguesa. A Rede Lusófona para o Clima nasce com o propósito de promover a acção climática conjunta entre organizações da sociedade civil, jovens líderes, activistas e representantes comunitários dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e de outros territórios lusófonos. O objectivo é reforçar a presença e a influência das vozes lusófonas nos processos globais de decisão sobre o clima, incentivando o diálogo, a partilha de conhecimento e o desenvolvimento de soluções sustentáveis alicerçadas em laços culturais e linguísticos comuns.
    “Como pode um espaço lusófono comum fortalecer a sociedade civil e as comunidades dos países de língua portuguesa na influência da política climática global, promovendo uma governação inclusiva e equitativa?” foi o ponto de partida para o debate que contou com a participação de Miguel de Barros director executivo da Tiniguena (Guiné-Bissau), Ilda Cerveja, da Youth for Climate Action Platform (Moçambique), Jédio Fernandes, coordenador do Colégio de Engenharia Ambiental da Ordem dos Engenheiros de Angola e em representação das organizações fundadoras, Francisco Ferreira, presidente da ZERO (Portugal), e José Luís Monteiro, da Oikos (Portugal).
    Miguel de Barros, director executivo da Tiniguena (Guiné-Bissau), destacou a urgência da cooperação: “Esta iniciativa é muito importante se tomarmos em consideração que só no ano passado nós tivemos cerca de 18% da população africana em situação de pobreza climática. Isso significa mudanças estruturais no sistema produtivo, no acesso à terra, na segurança alimentar, mas também provoca uma incidência muito forte na migração juvenil das zonas rurais, atendendo às dificuldades de inserção na agricultura familiar. A ausência de modernização da agricultura familiar tem levado a uma certa reconfiguração do espaço das cidades, com maior concentração, sobretudo nas zonas urbanas.” O investigador guineense sublinhou ainda os desafios da erosão costeira, da salinização dos campos agrícolas e da falta de tecnologias adaptadas: “As fragilidades existentes fazem com que esta oportunidade de lançamento da rede nos permita trabalhar numa perspectiva de harmonização de políticas públicas, detecção da variabilidade climática e adaptação às transformações, promovendo simultaneamente a transição energética e a educação para o clima.”
    Para Francisco Ferreira, presidente da ZERO (Portugal), a acção climática deve ser integrada e inclusiva: “Em Portugal temos de garantir que as políticas climáticas conseguem atingir os seus objectivos em termos de adaptação e mitigação. A responsabilidade é muito maior, porque somos um país desenvolvido, com excesso de emissões em vários sectores. Além disso, a CPLP é uma comunidade com uma elevada percentagem de áreas classificadas como Reserva da Biosfera, o que nos dá potencial para trabalhar nas várias linhas da biodiversidade, terrestre e oceânica.” Francisco Ferreira enfatizou ainda a importância do financiamento: “O financiamento deve ser uma prioridade. Temos apoiado Portugal, como ZERO, na negociação da dívida e na conversão da dívida em projectos climáticos em cada um dos países. É preciso que isso se expanda para além de Cabo Verde, que é o único institucionalizado. Já se falou em São Tomé e Príncipe, mas é necessário que haja financiamento de forma ampla, não apenas pelo sistema público, mas também pelo privado.”
    Ilda Cerveja, da Youth for Climate Action Platform (Moçambique), abordou a vulnerabilidade de Moçambique aos fenómenos climáticos extremos: “Moçambique é um dos países mais afectados pelos eventos climáticos extremos, principalmente os ciclones, que acabam resultando em cheias e secas. Pelo menos dois ciclones afectam o país por ano, o que compromete a capacidade de resposta a este desafio. O país é extremamente vulnerável devido à forma como a terra é usada, à ocupação e às infra-estruturas. A maior parte da nossa população são crianças e jovens, e este grupo é particularmente afectado pelos eventos climáticos extremos. Um dos principais desafios na nossa participação nos espaços de debate climático é a língua, o que limita a nossa capacidade de intervenção.”
    Jédio Fernandes, coordenador do Colégio de Engenharia Ambiental da Ordem dos Engenheiros de Angola, descreveu a situação no seu país: “Províncias como Cunene, Huíla e Namibe enfrentam a pior seca dos últimos 40 anos, com consequências graves para a vida das populações. A actividade económica destas regiões depende da produção de gado em massa. Sem vegetação e água, o gado morre. Isto força as populações a abandonarem as zonas rurais, aumentando a pressão sobre Luanda, que foi projectada para 500.000 pessoas e hoje acolhe cerca de 9 milhões. Vemos com bons olhos o lançamento da Rede Lusófona, que permite agir em bloco e comunicar com maior clareza na nossa própria língua.”
    Miguel de Barros acrescentou, ainda, que a rede deve focar-se na justiça climática e apoio a grupos vulneráveis: “Numa primeira instância, a própria rede tem de ser capaz de trazer esse diálogo na forma como quer estar e quer se posicionar. E nesse campo há duas perspectivas que, para mim são essenciais: a questão da responsabilização dos países emissores e, ao mesmo tempo, uma abordagem para a justiça climática; outra questão, que para mim é estrutural, é que, por exemplo, no caso africano, mais de 64% da mão-de-obra na agricultura familiar depende das mulheres. E quando vamos olhar o impacto das mudanças climáticas dos últimos cinco anos, há uma projecção de perda de pelo menos de 34% da mão-de-obra na agricultura, afectando sobretudo as mulheres. Então, devemos olhar por uma perspectiva de como é que a rede traz uma abordagem sobre os grupos vulneráveis, em particular as mulheres, permitindo, por um lado, salvaguardar os grandes biomas, mas também toda a transição ecológica em termos de emprego, educação, profissionalização e criação de colectivos.”
    José Luís Monteiro, da Oikos, reforçou a dimensão prática do projecto: “A rede existe para produzir resultados concretos, não apenas declarações. Queremos apoiar projectos, formação e formas de dar escala ao trabalho das comunidades dos PALOP”.
  • Chuvas e inundações na Ásia: O efeito das mudanças climáticas

    08/12/2025
    As fortes chuvas que afectaram recentemente vários países da Ásia provocaram inundações devastadoras e causaram mais de 1.800 mortos. A Indonésia, o Sri Lanka e a Tailândia estão entre os países mais fustigados. Cientistas afirmam que as tempestades estão a intensificar-se devido às alterações climáticas, que aquecem a atmosfera e aumentam a capacidade de reter humidade. Francisco Ferreira, presidente da organização ambientalista Zero, explica o fenómeno e alerta ainda que a diferença de temperatura entre o Equador e os Pólos está a diminuir, o que faz com que as tempestades se desloquem de forma mais lenta, intensificando, por consequência, a quantidade de precipitação.
    As chuvas extremas que fustigam a Ásia são o resultado das alterações climáticas?
    Sem dúvida que sim. Nós estamos a ter a resposta não apenas na Ásia, onde talvez seja mais visível percebermos as consequências, porque, efectivamente, os efeitos destes eventos meteorológicos extremos acabam por ser mais visíveis e ter maior expressão. Mas o que é facto é que, se temos um clima mais quente, temos uma maior evaporação e também a atmosfera retém mais água, que depois acaba por cair sobre as zonas afectadas em grandes tempestades. E há uma outra circunstância muito importante que também se tem vindo a verificar, quer no caso das tempestades na Ásia, quer também noutros locais. É que a diferença de temperaturas entre o Equador e os pólos está a ser menor, porque os pólos estão a aquecer mais. E, portanto, à escala global, a dinâmica da atmosfera está a ser afectada na medida em que as tempestades se deslocam de forma mais lenta. Isso leva a que a quantidade de precipitação de chuva que cai numa mesma zona seja muito mais significativa do que era antes.
    Esta é outra consequência da desregulação climática?
    Sem dúvida alguma. Ou seja, o facto de termos um aquecimento global, mas que está a ter maior expressão, quer no Árctico, quer na Antárctida, está a fazer com que estas tempestades tenham realmente um impacto maior. A diferença de temperaturas em relação ao Equador está a ser menor e, portanto, os movimentos atmosféricos estão mais lentos.
    A desflorestação pode estar também na origem das cheias mortais na Ásia?
    Claro! Há aqui duas componentes muito importantes. Uma é a ocorrência de enormes precipitações num curto espaço de tempo, e aí tem a ver com o clima. Mas os efeitos podem ser muito potenciados de acordo com o ordenamento do território em cada um dos locais. E sabemos que, com o aumento muito grande da população na Ásia, a construção tem vindo a ocorrer em locais onde o deslizamento de terras, que é uma das consequências que está a ter maior expressão, pode acontecer mais facilmente. O deslizamento de terras também tem a ver com a desflorestação que ocorre nas zonas próximas, onde a água deixa de se infiltrar e escorre a grande velocidade, levando ao arrastamento de terras. E, obviamente, também afecta as casas das pessoas que não estão em locais de construção mais adequados.
    A resposta pode passar pelo reforço dos sistemas de drenagem e protecção de margens dos rios ou infra-estruturas mais resilientes?
    Acima de tudo, a resposta está a dois níveis. Por um lado, a resposta do ponto de vista de reduzirmos as emissões para evitarmos alterações climáticas que, infelizmente, são cada vez mais expressivas, porque estamos num aumento de temperatura de dois graus e meio em relação à era pré-industrial. Depois, do ponto de vista do ordenamento do território, é muito importante criarmos soluções com base na natureza, sem agravarmos ou irmos contra aquilo que é a dinâmica dessa própria natureza. É evidente que, em locais onde não temos os recursos financeiros ou a capacidade técnica para o fazer, continuaremos a estar cada vez mais vulneráveis, como acontece em muitas cidades asiáticas.
    As notícias sobre estes fenómenos falam sempre na importância do reforço dos sistemas de alerta precoce, de transferência de tecnologia e de conhecimento entre os países. Há fenómenos climáticos nos Estados Unidos idênticos, mas que não provocam o mesmo número de mortos. Provocam menos vítimas. Porque é que não se usa esta tecnologia de traçar a rota das tempestades, dos ciclones, tufões? Porque razão não se partilha esta tecnologia para beneficiar outros países?
    O problema está exactamente na transferência de recursos financeiros entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento. Claro que é isso que deveríamos fazer. Claro que é absolutamente crucial que, quando falamos que são necessários uns 3 biliões, em inglês, falamos, aliás, de triliões de dólares por ano dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento, é precisamente para permitir, em grande parte, investimentos na adaptação a um clima que está em mudança, para evitar estes prejuízos. Mesmo nos Estados Unidos, temos prejuízos muito avultados, mas eles têm a capacidade económica para ultrapassar essas situações, o que não acontece em muitos países da Ásia.
    Esssa partilha de conhecimento, de fundos, chamaríamos uma transição justa?
    E isso seria uma transição justa, porque realmente muitos destes países [não têm capacidade de resposta]… Podemos pegar, por exemplo, nas Filipinas. Noutros. Mas as Filipinas têm sido um dos casos em que as tempestades de maior expressão têm tido impactos ao longo dos últimos anos. E o que é facto é que precisamos, por um lado, que a economia passe do uso dos combustíveis fósseis para fontes renováveis, do ponto de vista das emissões. E, por outro lado, também que haja essa capacidade de adaptação. E os responsáveis pelas alterações climáticas não são estes países, são os países desenvolvidos que usufruíram durante muitos anos da queima de carvão, petróleo e gás natural. Agora, deveriam transferir esses benefícios conseguidos na sua economia para estes países.
    Relativamente às Filipinas, há uma questão que é recorrente, que tem a ver com o facto de a extracção de areias colocar o país numa situação mais vulnerável face a estes fenómenos climáticos extremos.
    Há muitas práticas desadequadas em países em desenvolvimento. Por exemplo, a floresta da Indonésia tem sido completamente devastada à custa da poluição da plantação para a produção de óleo de palma e, obviamente, isso leva a uma erosão enorme. Temos visto isso também em várias florestas tropicais, quer em África, quer no Brasil, com a queima também de florestas. Portanto, há realmente práticas que deveriam ser evitadas. Mas, para isso, também, mais uma vez, é preciso o apoio económico dos países desenvolvidos para que não seja esse o caminho. E os países que têm de desenvolver a sua economia têm vindo a traçar alternativas mais sustentáveis.

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