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- Há um pouco mais de um ano, a Unesco classificou a totalidade do território de São Tomé e Príncipe como 'Reserva da Biosfera', depois de já ter concedido esta distinção à ilha do Príncipe em 2012. Um título inédito no mundo que dá visibilidade ao arquipélago mas que também lhe coloca muitos desafios em termos de salvaguarda do seu meio ambiente, investimento em meios logísticos e humanos para conservar esta prestigiosa classificação e colocá-la ao serviço de um desenvolvimento mais sustentável.
São Tomé e Príncipe é um país feito de uma natureza luxuriante, com espécies únicas no mundo e é feito também de uma extensão marítima 160 vezes superior à sua superfície terrestre. Proteger o mar, a orla costeira, as suas espécies e também o modo de vida dos homens que vivem do mar faz também parte da missão do país doravante 'Reserva da Biosfera'. Estima-se que mais de 30 mil pessoas vivam directa e indirectamente de actividades ligadas à pesca no arquipélago, sendo que mais de 80% da proteína animal consumida pela população do país provem do mar.
Criada em 1999 com o apoio do Estado São-tomense mas designadamente também com a cooperação francesa, a associação ambientalista Marapa incide a sua acção sobre a pesca artesanal e a protecção do mar. Jorge Rio, responsável do pelouro das pescas nesta organização, evoca connosco algumas das acções desenvolvidas pela Marapa e faz o ponto da situação em termos de protecção do litoral são-tomense.
RFI: Em que situação se encontra São Tomé e Príncipe em termos de protecção do mar?
Jorge Rio: O primeiro aspecto que começamos a trabalhar foi na protecção das tartarugas marinhas. Como o país não tem muita areia no interior, era necessário as pessoas tirarem a areia da costa para fazer a construção civil e as praias começaram a degradar-se e as tartarugas começaram a ter problemas com o espaço para desovarem. Então, nós tivemos que iniciar todo o trabalho de sensibilização das pessoas, para criar legislações para que as tartarugas marinhas viessem a ter a sua vida normal. Fizemos todo o processo, trabalhámos bastante. Também tivemos uma outra componente, que é um outro projecto, que nas praias do aeroporto e outras zonas, nós limpávamos com os escuteiros e com os alunos das escolas, as praias, porque havia muito lixo. E no princípio, quando nós iniciámos esse processo de limpeza das praias, notamos uma questão: é que as pessoas que iam connosco para a limpeza das praias, passavam a retirar o lixo natural, as folhas de palmeira e deixavam os lixos industriais como as latas de cervejas, as garrafas, também, inclusive vimos que até as seringas encontradas na praia eles não tiravam porque achavam que era normal. Faltava uma consciencialização ambiental. E nós levamos este processo, levámos a consciencialização para as escolas também, porque é mais fácil moldar as crianças do que os adultos. E este processo foi avançando e hoje nós podemos dizer que nas escolas já temos educação ambiental, já se fala muitas coisas. Hoje as crianças já sentem que se nós sujarmos hoje, quem vai ser prejudicado são elas amanhã. E também sentimos que a nossa costa, porque nós trabalhamos mais com a costa marítima e vimos, notámos que a nossa costa começou a se degradar muito. Aqui, os nossos pescadores artesanais, que são cerca de 3 mil a 4 mil pessoas, dedicam-se à pesca diariamente nos mesmos lugares, com poucos meios, e eles não têm capacidade de ir muito além. Aliás, não é permitido ir além porque, segundo a lei nacional, a pesca sazonal tem uma limitação até 12 milhas. Então, nessa zona há muita pressão dos pescadores e quando há pressão, o recurso diminui. E isso tem provocado uma situação bastante perigosa para a actividade dos pescadores, porque cerca de 30% da nossa população sobrevive graças ao sector do mar. E se o mar não estiver mais peixe, claro, nós vamos ter problema. E somos a população também no mundo que consumimos talvez mais peixe. 80% de proteína animal provém do mar. Por isso, para nós, o mar é um aspecto muito, muito importante. Então nós começamos a reflectir que nas zonas marinhas bastante degradadas, nós começamos a trabalhar no sentido de criarmos as áreas marinhas protegidas. Portanto, em São Tomé, como no Príncipe, está em curso a criação dessas áreas. Em São Tomé, vamos ter duas áreas marinhas protegidas e no Príncipe, vamos ter seis áreas marinhas protegidas. Já temos os materiais e vamos iniciar dentro de alguns meses a instalação das áreas marinhas protegidas. E nós também sentimos que não era só a área marinha protegida, mas que há igualmente o fundo marinho. Noutras zonas, começamos a criar os chamados 'recifes artificiais'. São blocos de betão construídos na terra que nós construímos com buracos. Olha, foi uma maravilha! Tivemos um sucesso enorme com a instalação destes blocos. Os blocos estão súper povoados com espécies de peixes que nós não víamos há muito tempo. Hoje temos muito peixe naqueles lugares, por isso, o nosso propósito é de continuarmos a obter financiamentos para instalarmos mais recifes ao longo da costa, onde, sobretudo, estão sobreexplorados.
RFI: Relativamente, lá está, à protecção do mar e também da fauna que exista no mar e da própria actividade da pesca artesanal, há também outro problema que é a pesca industrial e a falta de fiscalização que existe em São Tomé e Príncipe.
Jorge Rio: Com certeza a pesca industrial e dependendo dos modelos das artes de pesca e técnicas de pesca que eles usam é muito prejudicial. Mas nós dentro das 12 milhas, não é permitida a pesca industrial e para informação, São Tomé e Príncipe não tem nenhum barco industrial. Todos os barcos industriais que frequentam as nossas águas são ou como licenças de pesca ou pirateando. Mas é preciso realmente que os serviços competentes façam a devida fiscalização nessas zonas, porque não se pode permitir que barcos estranhos entrem no nosso território e venham explorar os nossos recursos quando nós precisamos desses recursos para fazer funcionar a máquina do próprio país. Portanto, outros vêm tirar sobretudo uma espécie que é o tubarão. Os barcos asiáticos, sobretudo, entram para pescar o tubarão e o que eles vêem no tubarão são as aletas, porque é um produto precioso em alguns mercados. E nós aqui, a população gosta de consumir o tubarão, a carne de tubarão. Muitas vezes esses barcos rejeitam essas carnes e hoje notamos que no nosso mercado, a carne de tubarão já é muito escassa, quase que já não há carne de tubarão. E com a ausência de tubarão nas nossas águas, começamos a notar o afloramento de uma espécie de peixe que nós chamamos aqui de 'peixe-coelho', um peixe que tem dentes como o coelho e rói. Esse peixe é muito daninho para a pesca, porque os pescadores que pescam à linha, quando lançam o fio para pesca, o fio quase que não chega ao fundo do mar. Esse fio é logo cortado pelo 'peixe-coelho'. É um peixe que comercialmente não tem grande valor e isso é um problema e nós temos que buscar fórmulas e técnicas de pesca que possamos ensinar aos pescadores para pescarem estas espécies. Em São Tomé, consumimos muito pouco esse peixe quando é fresco, mas sim quando é salgado e seco. Nós consumimos bastante.
RFI: Considera que hoje em dia os pescadores artesanais são também agentes de protecção do meio ambiente?
Jorge Rio: Sim, há pescadores que dizem que o peixe não acaba no mar, mas já há muitos que já perceberam que o peixe está a acabar e já têm dificuldades de encontrar o peixe. Então, já estão a perceber que se nós esgotarmos todo o mar vamos ter problemas, eles vão ter problemas e nós também teremos problemas. E então, é preciso continuarmos com os aspectos de sensibilização, os decretos, as leis ligadas à pesca, que sejam cumpridas e que sejam seguidas pelas autoridades competentes. Aqui em São Tomé e Príncipe, gasta-se muito dinheiro com a produção de legislações e decretos, mas depois essas legislações ficam na gaveta. As pessoas que praticam o mal não são sancionadas. Isso é mau porque as ONGs não podem fazer a fiscalização. Isso não é o nosso papel. O nosso papel é sensibilizar.
RFI: São Tomé e Príncipe é 'Reserva da Biosfera'. E, por outro lado, há também muita incitação por parte da comunidade internacional, por parte do FMI, por parte do Banco Mundial, em apostar no turismo, um turismo sustentável. Mas, apesar disso, será que a actividade 'turismo' pode ter alguma consequência também sobre a protecção do mar?
Jorge Rio: Onde o turismo não respeita as regras, claro, poderá ter as suas consequências para com o ambiente marinho. Mas normalmente os turistas quando vêm, vão, por exemplo, fazer uma pesca desportiva. Eu já vi vários turistas que vão para fazer pesca desportiva e se pegam um espadarte, eles não trazem o espadarte. Eles abandonam o espadarte na água, cortam o fio, medem e deixam. Os turistas, eu acho, também querem chegar a um país tropical e ver as belezas do tropical. São Tomé é pequeno. Se um turista vem para oito dias, ele consegue contornar a ilha facilmente. Se não houver atractivos, ele pode sentir-se até frustrado, porque o país é pequeno e num dia pode fazer o sul, no outro dia fazer o norte e depois, fazer o quê? Então é preciso que nós criemos ao longo da costa, meios e instrumentos que possam realmente atrair os turistas, que venham visitar as nossas costas. Temos o exemplo de Cabo Verde. A quantidade de pólos turísticos que existe em Cabo Verde não existe aqui em São Tomé. Nós podíamos seguir por esta via e também construir pólos turísticos mais atractivos, porque a beleza natural de São Tomé e Príncipe é inédita.
RFI: O facto de o país ser inteiramente Reserva da Biosfera é uma distinção e também uma responsabilidade. Julga que o país tem meios humanos, financeiros e em termos de organização, para conservar essa distinção e não a perder?
Jorge Rio: Temos problemas de quadros, sobretudo quadros no sector marítimo, portanto técnicos ligados ao mar. Temos um território em que a superfície líquida é superior à superfície sólida 160 vezes. Portanto, temos muito mar em relação ao território terrestre. O que é preciso fazer é nós trabalharmos no sentido de os nossos adolescentes serem formados também a nível do oceano, porque temos escolas de agronomia, temos universidades que formam engenheiros na agronomia, temos centros de agronomia, mas se procurar por todo o país, não vai encontrar um centro ligado ao sector marítimo. Portanto, é preciso nós trabalharmos nesse sentido e que criemos também essa oportunidade. Sabemos que muitas entidades, como referiu, o Banco Mundial, o FMI e outras organizações internacionais têm dado suporte a São Tomé e Príncipe. Alguns deles têm trabalhado muito no sector marítimo, como por exemplo, o Banco Mundial, com um projecto que tem estado a fazer muito na costa, a fazer alguma reabilitação. Hoje, com as mudanças climáticas, tem acontecido coisas que não aconteciam antes. Populações de pescadores pegadas à costa tendem a desaparecer porque quando o mar revolta e vem, muitos perdem os seus bens e vidas também. Portanto, é preciso nós trabalharmos no sentido de orientarmos essas pessoas para que saiam dos lugares onde são muito vulneráveis e se fixem noutros pontos. E é preciso realmente que o próprio poder político de São Tomé e Príncipe tenha iniciativas. Temos que propor a essas organizações o que nós queremos com o nosso país. Não são essas organizações que vêm e propõem. Nós somos daqui, somos nós que devemos propor quais são orientações que nós vamos dar e os os parceiros investirem mediante as nossas necessidades. Se não tivermos peritos nessas áreas, aí sim, podemos recrutar peritos para nos ajudarem a fazer este trabalho todo ao longo da nossa costa.
RFI: Fala-se muito das mudanças climáticas e nomeadamente da influência que, por exemplo, correntes como El Niño podem ter a nível do mar. São Tomé e Príncipe é propenso também a este tipo de fenómenos?
Jorge Rio: Claro. Isto é mundial, portanto, um exemplo: na época seca nós consumimos muito uma espécie de peixe voador que é apanhado durante os três ou quatro meses da gravana, a época seca. E esse peixe era muito abundante. E nós consumimos esse peixe em várias formas, salgado, seco, defumado, fresco e a população tinha muitas iguarias tradicionais que fazia com essa espécie. Hoje podemos dizer que quase que essas espécies já não existem. Tudo indica que é devido à influência das correntes marítimas. Antes, a corrente fria de Benguela vinha do Sul e a corrente quente do Golfo que vinha do Norte, encontravam-se aqui nas nossas águas e criava-se um sistema em que a água fria e a água quente tornava-se água morna. E esta água morna era propícia para que essa espécie viesse desovar. Entravam sobretudo nas nossas águas para desovar e os pescadores apanhavam nessa altura com alguns dispositivos capins, etc. Os pescadores apanhavam muito peixe e nós consumíamos muito esses peixes aqui na época da gravana. Hoje quase que os pescadores já não apanham essas espécies. Tudo indica que é a corrente fria de Benguela que entrava para o nosso mar, agora tende a desviar para o continente. Portanto, isto é um problema com as influências das correntes que vêm e que desviam, com o problema das alterações climáticas.
RFI: Quais são as suas expectativas para os próximos anos relativamente precisamente a essa distinção de Reserva da Biosfera em termos de protecção marinha, em termos de capacitação aqui do país, para, de facto, fazer frente a esses desafios?
Jorge Rio: A Reserva da Biosfera é um ganho para o país, porque tornámo-nos o primeiro país cujo todo o território é reserva. É preciso que nós façamos reflexões à volta desse reconhecimento do país, devido à sua propriedade, à sua natureza, ao facto de sermos o primeiro país do mundo a ter essa distinção e que sectores competentes trabalham nesse sentido, porque, apesar de nós sermos uma Reserva da Biosfera total, temos outro problema. Nós deixamos andar muitas questões, com a questão da extracção de inertes. Continuam a extrair inertes da mesma forma que extraíam há uns séculos atrás, basalto no meio de comunidades e pessoas a extraírem basalto, fazerem escavações para tirar o inerte perto da costa, deixar as zonas todas degradadas. Nós não estamos a dizer que não se pode tirar os inertes, que não se pode tirar pedras, mas tem que se fazer isso de uma forma mais cautelosa, com orientações dos serviços competentes para que não venha a criar depois outros problemas, escavações para deixar buracos por todo o lado. Portanto, é preciso que os serviços competentes façam o seu devido papel, que orientem as empresas a fazerem um trabalho mais sustentável para o próprio ambiente do país. - A Convenção sobre a Biodiversidade COP17 decorre desde 19 de Outubro até 30 de Outubro em Erevan, na Arménia. Aqui se deve fazer a primeira avaliação global do Quadro Mundial para a Biodiversidade de Kunming-Montreal, em 2022, que tinha apontado 23 metas até 2030. A acompanhar os trabalhos no local está o ambientalista Francisco Ferreira que alerta que ainda se está “realmente muito abaixo do necessário” do ponto de vista da implementação dessas metas. Quanto às expectativas desta COP17, o também Presidente da Associação Zero e Director do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa admite que ainda se está “longe de chegar a consenso” quanto aos “aspectos cruciais, como as metas que estão a ser implementadas ou em relação ao financiamento”.
Depois da COP sobre a desertificação, em Agosto, e antes da COP dedicada ao clima, em Novembro, na Turquia, esta 17.ª Conferência das Partes sobre a Biodiversidade tem como objectivo melhorar a protecção da Terra e dos oceanos, restaurar ecossistemas degradados e combater os pesticidas e a poluição.
Esta é a primeira avaliação global do Quadro Mundial para a Biodiversidade de Kunming-Montreal, com 23 metas, aprovado em 2022 durante a COP15. Entre as medidas, figurava a redução, em pelo menos 500 mil milhões de dólares por ano, dos subsídios a actividades prejudiciais para o planeta, nomeadamente os combustíveis fósseis. Outra meta era chegar a “30% de áreas salvaguardadas em termos de conservação da natureza, quer num meio terrestre, quer num meio marinho à escala mundial”, assim como “garantir que 30% das áreas degradadas nestes dois meios, terrestres e marinhos, estarão a ser restauradas em 2030”, explica Francisco Ferreira.
A COP17 decorre até 30 de Outubro e o Presidente da Associação Zero admite que se está “realmente muito abaixo do necessário” do ponto de vista da implementação dessas metas. Por outro lado, o também Director do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa diz que ainda se está “longe de chegar a consenso” quanto aos “aspectos cruciais, como as metas que estão a ser implementadas ou em relação ao financiamento”.
RFI: Quais são os principais objectivos desta COP17?
Francisco Ferreira, Presidente da Associação Zero e Director do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa: “Um dos objectivos absolutamente fundamentais é fazer um balanço daquilo que é considerado o Quadro Global da Biodiversidade - que corresponde um pouco ao Acordo de Paris na área do clima só que aqui aplicado à biodiversidade. Em 2022, houve um conjunto de 23 metas que foram fixadas para 2030 e ainda depois um conjunto de objectivos globais para 2050 e já para 2030. É fundamental fazermos a avaliação de como é que estas metas estão a ser implementadas, nomeadamente no que diz respeito ao atingir de um objectivo crucial que é 30% de áreas salvaguardadas em termos de conservação da natureza, quer num meio terrestre, quer num meio marinho à escala mundial. Por outro lado, também garantirmos que 30% das áreas degradadas nestes dois meios, terrestres e marinhos, estarão a ser restauradas em 2030. E, entre outras metas, uma outra crucial que diz respeito ao financiamento: como é que estamos, quer no abolir de subsídios perversos às actividades que acabam por danificar fortemente a natureza e, por outro lado, que apoios é que estamos a conseguir principalmente para os países em desenvolvimento implementarem muitas das políticas de conservação da natureza e biodiversidade.”
Que avaliação já faz destas 23 metas e da sua realização até 2030?
“Do ponto de vista daquilo que conseguimos avaliar da implementação das metas, nós estamos realmente muito abaixo do necessário. Na área dos oceanos, estamos em 10% de demarcação de áreas salvaguardadas em termos de conservação da natureza, portanto, 20% abaixo, e, nas áreas terrestres, aproximadamente com 18%, 12% abaixo. Também no que diz respeito ao financiamento, nós não conseguimos chegar a um quarto do financiamento necessário para os países em desenvolvimento e estamos muito longe de reduzir em 500 mil milhões de dólares os subsídios perversos à escala mundial e que são danosos para a conservação da natureza. E, portanto, é realmente uma necessidade de urgência enorme para respondermos às metas que são para cumprir dentro de quatro anos.”
Que medidas concretas vão poder sair desta COP 17 para acelerar a implementação das metas e as tornar realizáveis até 2030?
É, acima de tudo, espera-se, um entendimento entre os países participantes, que deverá ter lugar no documento final, chamado ‘O Caminho de Erevan’ e, obviamente, também um conjunto de documentos já específicos, com um calendário, uma resposta, não apenas reconhecendo o que em vários documentos já está patente e são ajustes que são necessários fazer para serem finalizados de que estamos longe dos objectivos e depois concretizar compromissos do ponto de vista financeiro e do ponto de vista da demarcação destas áreas, olhando, por exemplo, também para a ligação com a primeira reunião da conferência relativa ao Tratado do Alto Mar, que vai ter lugar em Nova Iorque e que vai ter um significado muito importante numa das áreas fundamentais de biodiversidade que são os oceanos e que, fora das zonas económicas exclusivas, neste momento não tem um enquadramento legal de salvaguarda da biodiversidade como seria desejável. Por isso mesmo, é fundamental esta interligação entre diferentes convenções, nomeadamente entre a biodiversidade, o clima e esta nova área de intervenção do chamado Tratado do Alto Mar.”
O resultado das eleições presidenciais no Brasil é uma boa notícia para a defesa do ambiente e da biodiversidade?
“Sem dúvida que é porque nós conseguimos ter uma redução da área desflorestada agora no último ano no Brasil e sabemos que as políticas defendidas entre os dois adversários que estiveram na disputa das eleições no último fim-de-semana havia diferentes visões da utilização da Amazónia ao longo dos próximos anos. Pelo menos, o facto de que com o presidente Lula da Silva, no ano passado, ter havido esta inversão no que respeita ao agravar da desflorestação, dá-nos alguma esperança porque a salvaguarda das florestas muito significativas equatoriais onde está a Amazónia, mas que também estão em África e nalgumas latitudes da Ásia, é um elemento crucial quer para o clima por causa de serem importantíssimos sumidouros, de retirarem dióxido de carbono na atmosfera, mas acima de tudo repositórios cruciais em termos de biodiversidade à escala mundial.”
Olhando para os países afro-lusófonos, de que forma é que eles estão a ter um impacto na perda da biodiversidade e de que forma é que isso afecta as populações mais vulneráveis?
“Curiosamente, dependendo dos países que estão em jogo, nós até temos já legislação aprovada nos últimos anos que nos dá uma enorme segurança do ponto de vista do enquadramento legal. Estou a pensar, por exemplo, no caso de Cabo Verde e na salvaguarda de diferentes espécies de tartarugas. Mas o que é facto é que é um pouco como a missão que temos nesta conferência: é preciso passar dos textos à implementação e aí são precisos recursos financeiros, aí é preciso uma acção concertada e é preciso uma resposta que realmente que não temos tido ainda como chegada porque os apoios dos países desenvolvidos têm sido demasiado limitados. Mas há, sem dúvida, um forte envolvimento da parte de muitos dos países lusófonos que estão aqui presentes e que, com os secretários de Estado, ministros, directores-gerais e na sua concertação, terão sem dúvida uma voz para que estes recursos sejam mobilizados pelos países desenvolvidos para dar resposta às metas que queremos atingir em 2030.”
O gabinete francês da ministra da Transição Ecológica fez saber que há “resistências” em alargar o círculo dos países contribuidores do financiamento mundial da biodiversidade. A lista oficial dos países contribuintes não teria mudado desde 2006. A China, a Índia, os países do Golfo fazem parte dessa lista ou ainda estão de fora?
“Essa é uma das questões pertinentes não apenas aqui na Convenção da Biodiversidade, mas também noutras convenções como o clima. Nós temos países já com muitos recursos, mas que são considerados países desenvolvidos e que estão fora das obrigações de cumprimento do apoio financeiro a países em desenvolvimento. Essa é uma questão que será difícil de discutir e de ultrapassar, que não foi ainda resolvida e que está esta semana em cima da mesa.”
Entre eles estão, de facto, a China, a Índia, os países do Golfo?
“Neste momento não estão porque não são considerados países envolvidos.”
Mas a China e a Índia são dos maiores poluidores do planeta e os países do Golfo dos maiores produtores de combustíveis fósseis e do petróleo...
“Exactamente, mas são países que têm tido enormes resistências. Portanto, vamos ver se realmente há aqui, tal como houve um pouco na cimeira do clima, essa cedência. Já agora, dizer que há aqui também uma questão crucial no que respeita ao sector privado. Uma das áreas que aqui está em cima da mesa é o fundo Cali criado há dois anos para apoiar as comunidades indígenas e nós não temos conseguido ter resposta. Só houve três empresas que mobilizaram aproximadamente 7.000 dólares quando o objectivo eram mil milhões. É realmente uma vergonha.”
O doutor Francisco Ferreira está em Erevan. Está esperançoso de que saiam progressos desta cimeira?
“Ainda temos vários dias pela frente e ainda há muito por consensualizar. E não vai ser fácil. Já houve alguns progressos, já houve decisões tomadas, por exemplo, em relação às espécies invasoras já na última sexta-feira. Mas os aspectos cruciais, como as metas que estão a ser implementadas ou em relação ao financiamento, nós estamos longe de chegar a consenso. Vamos ver se há realmente ambição e compromissos dos países que são chave para chegarmos a estes resultados.” - O Museu de História Natural de Paris organiza uma exposição para celebrar os seus 400 anos em que estão expostas obras de mais de 120 artistas. Estes artistas frequentaram o museu, inspiraram-se nas plantas e animais que aí viram e produziram obras tendo como ponto de partida este museu nos últimos séculos e são agora expostos para alertar para os perigos da extinção e das alterações climáticas.
Em 1626, o rei Luís XIII, muito interessado pela botânica, cria um jardim real dedicado ao cultivo e estudo das plantas medicinais à proximidade do Palácio do Louvre, então residência oficial dos monarcas franceses. 400 anos depois estes jardins são ainda hoje conhecidos como o Jardim das Plantas, mas deram lugar ao Museu de História Natural de Paris que têm como principal função abrigar, expor e descodificar as ciências humanas, dos animais, das plantas ou a geologia para cientistas e visitantes.
Para celebrar os quatro séculos de história, o Museu, ou Museum como é conhecido em França, decidiu levar a cabo uma exposição intitulado “Artistes aux Museum”, dando destaque para todos os pintores, desenhistas e escultores que se inspiraram no Museu para levar a cabo as suas obras, mas também os próprios cientistas, muitos deles com excepcionais capacidades de desenho.
Uma parceria mais estreita do que imaginamos à partida, como explicou Alice Lemaire, comissária geral da exposição e directora das Bibliotecas e da Documentação do Museu de História Natural de Paris, em entrevista à RFI.
“O diálogo entre Arte e Ciência sempre esteve muito presente na instituição, pois não é possível estudar ciências naturais sem uma representação artística. Precisamos de desenhos para conhecer as plantas e os animais, para poder descrevê-los, compará-los, identificá-los e dar-lhes nomes. Então, esse vínculo é, sem dúvida, muito forte. E essa riqueza também é uma fonte de inspiração para artistas que vêm por conta própria, para utilizar o acervo do Museu na sua própria prática artística e na sua própria inspiração”, explicou.
Assim, os jardins foram acolhendo ao longo dos anos todos os documentos vindos de inúmeras expedições realizadas em várias latitudes, ao mesmo tempo que as competências científicas do Museu, criado formalmente em 1793, foram crescendo, incluindo a criação da Menagerie, o segundo jardim zoológico mais antigo do Mundo.
Logo a partir do século XVII, o desenho mostrou-se muito importante no avanço das ciências, nomeadamente realizado em pergaminho de pele de cordeiro. Esta exposição permite pela primeira vez aos visitantes ver alguns originais destes desenhos, que devido à sua fragilidade raramente são mostrados ao grande público. Para esta exposição, foram criados três novos desenhos, mostrando ainda a sua utilidade, como lembra Alice Lemaire.
“Precisamos de representações para fazer ciência, mas também, posteriormente, para a divulgar. Numa época em que o desenho era a única maneira — tendo mais tarde evoluído para gravura — de divulgar todas essas descobertas. É claro que, posteriormente, a fotografia também desempenhou esse papel, mas nunca substituiu o desenho. Porque o desenho traz a possibilidade de mostrar mais detalhes. Parece contraditório, mas, na verdade, num desenho, é possível representar todas as características de uma espécie. Enquanto que, numa foto, vem um único indivíduo num determinado ambiente”, indicou.
O desenho era algo tão essencial para a ciência, que o próprio museu dava aulas de desenho científico, tendo passado pelos seus bancos artistas como Auguste Rodin, Henri Matisse ou Marie de Laurencin.
Mais de 120 artistas estão presentes nesta exposição, como Eugène Delacroix que vinha observar os animais à menagerie para os desenhar melhor e esteve mesmo presente na dissecação de um dos leões desse zoo. No entanto, não só de artistas muito conhecidos conta esta exposição que traz à luz, pela primeira vez, mulheres cientistas e desenhistas, assim como homens e mulheres nativos que trabalharam em expedições lideradas por franceses durante o período colonial.
“O nosso objectivo era realmente estudar a trajectória dos artistas e destacar pessoas que não receberam o devido reconhecimento durante a sua vida. Essa é, na verdade, a questão: a fronteira um tanto ténue entre arte e desenho científico. Muitos desenhistas científicos, homens ou mulheres, eram considerados técnicos, quando, obviamente, são artistas. E há o paradoxo de ter pessoas muito famosas que se inspiraram na coleção do Museu, como Delacroix, Antoine Louis Barye, Emmanuel Frémiet. Alguns eram mesmo professores de desenho no Museu como Pierre-Joseph Redouté ou Emmanuel Frémiet. Mas muitas pessoas trabalharam nos bastidores dos laboratórios, nos territórios coloniais, cujos talentos foram aproveitados sem que necessariamente lhes fosse dado o devido reconhecimento. Portanto, o objectivo da exposição é dar destaque a todas essas pessoas. Muitas mulheres trabalharam na ilustração da flora, por exemplo em Madagascar. E não estamos só a falar de mulheres, muitas pessoas foram invisibilizadas por serem consideradas simples técnicos ou por trabalharem num contexto colonial”, descreveu.
O Museu de História Natural de Paris acolhe a maior colecção de espécimes ao Mundo, são 77 milhões, entre fósseis, ossadas, animais embalsamados ou conservados em formol. Mas também uma das maiores bibliotecas de ciências naturais do Mundo, com dois milhões de documentos e obras, incluindo obras artísticas. Por exemplo, François Pompom, pai da escultura de urso polar mais conhecida do Mundo, legou todo o seu atelier, incluindo as obras que ainda estavam na sua posse, a este museu já que sentia que lhe devia todo o interesse e conhecimento que tinha pelos animais.
Um trabalho de grande envergadura e responsabilidade para construir um futuro melhor como explica Alice Lemaire.
“É claro que é um património único no mundo, mas eu diria mesmo único para a humanidade em geral. Trata-se de uma contribuição, mesmo hoje em dia, para as descobertas e para o avanço da ciência. A biblioteca do Museu é uma das mais ricas do mundo no que diz respeito à história natural, ela possui um acervo iconográfico artístico extremamente vasto devido a essa forte ligação entre arte e ciência; e, portanto, o facto de ser absolutamente indispensável recorrer à prática artística para construir o conhecimento naturalista contribui para que as nossas colecções sejam tão ricas. Em termos de iconografia, temos tantas peças quanto um museu de arte. É um trabalho a tempo inteiro para uma vasta equipa que preserva tudo isto, que adquire porque continuamos a enriquecer as colecções com doações e aquisições, a fim de reflectir toda essa vitalidade e a riqueza dessa ligação entre arte e ciência. E essa colecção não tem apenas um valor patrimonial, mas também desempenha um papel importante na consciencialização das gerações que virão. Trata-se de um arquivo, um arquivo da vida na Terra e um recurso para alertar sobre a perda da biodiversidade e o impacto das mudanças climáticas. Alguns dos nossos desenhos retratam espécies que estão extintas. Logo, não se trata apenas de uma colecção muito rica de museu, mas também de uma ferramenta para as futuras gerações e para os desafios que enfrentamos hoje”, concluiu.
A exposição “Artistes Au Museum” está patente até dia 7 de Março no Museu de História Natural de Paris. - Assinala-se o Outubro Rosa, um mês dedicado à prevenção do cancro da mama, que continua a representar um importante problema de saúde pública em Moçambique. Leia Liquidão, presidente da Associação Moçambicana Outubro Rosa, refere que o cancro da mama é a segunda causa de morte entre as mulheres no país e afirma que o diagnóstico tardio é um dos principais responsáveis por esta realidade.
Em Moçambique, o cancro da mama continua a ser uma das principais causas de morte entre as mulheres. Qual é a situação actual?
Em Moçambique, segundo as últimas estatísticas, o cancro da mama continua a ser a segunda maior causa de morte entre as mulheres, depois do cancro do colo do útero. Isto leva-nos a afirmar, com mais certeza, que ainda há muito trabalho a fazer no que diz respeito à prevenção, à consciencialização e à importância do diagnóstico precoce desta doença. De acordo com as estatísticas o cancro da mama atinge cerca de 2 mil mulheres, cerca de 800 acabam por morrer.
Esta continua a ser uma grande preocupação para nós, activistas, para os profissionais de saúde e para a sociedade em geral. É importante percebermos que, quanto mais cedo identificarmos a doença, melhor.
Quais são os factores de risco? Em que idades é que esta doença se manifesta com maior frequência?
Há algum tempo, esta era uma doença que se associava sobretudo a mulheres adultas ou de idade avançada. Contudo, hoje em dia, não se verifica apenas ssa situação:
Quero dizer com isto que existem vários casos de cancro da mama diagnosticados em mulheres jovens que não apresentam nenhum factor de risco conhecido. São, supostamente, pessoas que levam uma vida saudável e têm uma alimentação regrada.
Os factores de risco continuam a ser mencionados, porque fazem parte do trabalho de consciencialização, mas já não são, por si só, determinantes para estabelecer se uma pessoa terá ou não cancro da mama.
O que é que ainda leva as mulheres e os homens a não procurarem uma consulta ou a não fazerem a palpação da mama?
Em primeiro lugar, o tabu. Estamos a falar de uma sociedade moçambicana que, na sua maioria, é tradicionalista. A ideia de tocar na própria mama, nomeadamente através da palpação regular, continua a ser um tabu.
Depois, temos a falta de conhecimento. A informação tem circulado, sim, através das redes sociais, dos canais televisivos, da rádio e de vários outros meios de comunicação. Mas temos de nos lembrar de que uma boa parte da população moçambicana vive em zonas semi-urbanas ou rurais e não tem acesso a esta informação.
Além disso, ainda temos algumas insuficiências no sistema de saúde, onde, por vezes, as primeiras suspeitas são encaradas com ligeireza, o que acaba por levar as pessoas a desvalorizar a situação.
Também acompanhamos casos em que houve um diagnóstico incorrecto. Inicialmente, parecia não ser nada, mas, tempos depois, meses depois, a pessoa descobriu que, afinal, era cancro da mama.
Podemos, por isso, apontar como principais razões a falta de conhecimento, a ausência de um sistema regular e estruturado de diagnóstico e, por vezes, algum desleixo da nossa parte, enquanto sociedade, no que diz respeito à incorporação do auto-exame e da preocupação com a saúde no nosso quotidiano.
Muitas pessoas ainda não consideram estes cuidados importantes e vão adiando: «Ai, vou fazer depois». Não incorporam este hábito no seu dia-a-dia.
É precisamente para esta questão que temos o dever de chamar a atenção. É importante encararmos a palpação da mama como uma forma de contribuir para o diagnóstico precoce do cancro da mama.
Qual é a importância do diagnóstico precoce?
Quanto mais cedo descobrirmos o cancro, maiores são as hipóteses de cura. Há também menos probabilidades de a pessoa ter de ser submetida a uma cirurgia de remoção da mama ou a tratamentos ainda mais agressivos, como acontece nos casos em que o cancro é descoberto numa fase avançada.
Muitas vezes, quando a doença já se encontra numa fase avançado, há pouco que se possa fazer. Nesses casos, a pessoa poderá ter de passar por tratamentos como a quimioterapia e a radioterapia, pela remoção da mama e por todo um conjunto de procedimentos destinados aos casos mais graves de cancro da mama.
Qual é a taxa de sucesso nos casos em que a doença é detectada precocemente?
Não temos estatísticas registadas, mas acompanhamos muitos casos de sucesso a nível da associação. Temos acompanhado vários casos de pacientes que descobriram a doença precocemente e conseguiram levar uma vida saudável.
Temos, inclusive, na associação, o caso de uma sobrevivente de cancro que descobriu a doença muito cedo e não teve de passar pela remoção da mama. Teve apenas de se submeter a tratamento, porque cada caso é um caso.
Ainda assim, os casos que acompanhamos com maior frequência são os de pacientes internadas em hospitais para receber tratamento, bem como os de mulheres em regime ambulatório, que se deslocam ao hospital para fazer quimioterapia. Infelizmente, muitas delas tiveram de passar pela remoção da mama, em situações de doença mais avançada.
O cancro da mama também pode ocorrer nos homens. Como é feito o diagnóstico nestes casos?
Em Moçambique, temos muito poucos casos de cancro da mama em homens. A nível da associação, acompanhámos apenas um caso. Não temos muitos registos desta doença entre a população masculina.
Em Maputo, especificamente, não dispomos de dados suficientes para dar uma resposta mais exacta. Enquanto associação, não acompanhámos de perto muitos casos, mas o processo de diagnóstico passa pela realização dos exames necessários, de acordo com os sintomas apresentados, tal como acontece nos casos de cancro da mama nas mulheres.
Referiu que, muitas vezes, as mulheres têm de retirar a mama. Como é feito o acompanhamento destas mulheres depois da cirurgia? Como regressam ao trabalho e como é a sua vida em casa?
Acho que este é um dos grandes desafios, mas também tem sido uma das partes mais bonitas deste processo, porque a associação presta apoio psicossocial a estas sobreviventes.
Procuramos colocá-las em contacto com outras mulheres que já passaram pelo processo de tratamento e que hoje conseguem levar uma vida relativamente normal.
Temos ainda um aspecto importante: contamos com várias parcerias com organizações que fornecem próteses mamárias, por exemplo, para mulheres que foram submetidas a uma cirurgia de remoção da mama. Com estas próteses, conseguem voltar a usar as suas roupas como faziam normalmente antes da doença, recuperando um pouco da sua auto-estima.
Respondendo à questão sobre a vida destas mulheres, é difícil, é complicado. Trata-se de uma nova realidade que exige tempo para ser assimilada. Quando uma pessoa perde uma parte do corpo, deixa de se olhar da mesma maneira.
É aqui que nós, enquanto associação, procuramos prestar apoio psicossocial, tanto individualmente como através de grupos de terapia. Nestes grupos, em contacto com outras sobreviventes, as mulheres conseguem perceber que é possível, sim, ter uma vida relativamente normal e construir uma nova vida.
O que falta fazer em Moçambique para que as mulheres procurem mais os serviços de saúde e para que tanto as mulheres como os homens estejam mais atentos a esta doença?
A divulgação da informação e a melhoria dos serviços de atendimento dos casos de suspeita de cancro da mama são, certamente, duas prioridades. Estes dois aspectos continuam a ser o nosso calcanhar de Aquiles, se me permite a expressão.
Temos de continuar a trabalhar sem cessar, não apenas em Outubro, mas também nos restantes meses do ano. Naturalmente, podemos aproveitar o Outubro Rosa para intensificar um pouco mais esse trabalho.
É fundamental divulgar informação em zonas cada vez mais abrangentes e garantir serviços de saúde de qualidade, pelo menos ao nível dos hospitais próximos de cada uma destas comunidades, de modo a assegurar um diagnóstico rigoroso e mais fiável. Moçambique: 42% das adolescentes grávidas em Quelimane ficaram infelizes ao saber da gravidez
05/10/2026Cerca de 24,5% das mulheres grávidas inquiridas em Quelimane disseram não ter ficado felizes quando souberam da gravidez, os dados são de um estudo do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça (CISM). Entre adolescentes, a percentagem sobe para 42,2%.
O estudo analisou 1.546 mulheres grávidas, acompanhadas entre 2023 e 2024 no distrito de Quelimane, província da Zambézia. O estudo sobre o estado emocional da mulher grávida foi liderado pelo demógrafo Ariel Nhacolo, investigador do Centro de Investigação em Saúde de Manhiça.
Para Ariel Nhacolo o resultado mostra que a realidade das gravidezes em Quelimane é mais complexa do que a ideia de que a maternidade é sempre desejada.
“É um número grande, muito alto”, mas os resultados são semelhantes aos encontrados noutros estudos realizados em países da África subsaariana.
Entre as principais razões apresentadas pelas mulheres que não ficaram felizes estão a falta de planeamento da gravidez, com cerca de 30%, a gravidez não desejada, com 26,5%, e o medo das consequências, referido por 17%.
A investigação, realizada entre 2023 e 2024, mostra que a proporção de mulheres infelizes com a gravidez chega aos 42% entre adolescentes dos 12 aos 19 anos. Para o investigador, o dado é particularmente preocupante porque esta faixa etária enfrenta também maiores riscos de saúde e interrupção dos estudos.
“Em adolescentes de 12 a 19 anos, isso é preocupante porque é o grupo que tem mais problemas de saúde e, de facto, muitas deixam de estudar”, explica.
A reacção do parceiro também parece ter um peso importante. Entre as mulheres que disseram que o parceiro ficou infeliz com a gravidez, 74% também se declararam infelizes.
O investigador admite, contudo, uma limitação importante do estudo: os homens não foram entrevistados directamente. “O nosso estudo era sobre mulheres”, explica, reconhecendo que esta é uma lacuna que deverá ser considerada em futuras investigações.
Para Ariel Nhacolo, a resposta passa por aproximar rapazes e raparigas dos serviços de saúde sexual e reprodutiva e reforçar o acesso ao planeamento familiar: “É preciso continuar a trabalhar num contexto em que se aproximem os dois lados, os rapazes e as meninas”.
O investigador considera que ainda existe trabalho a fazer no acesso dos jovens à informação e aos serviços de planeamento familiar. Em Moçambique, existem programas destinados a aproximar os serviços de saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes, incluindo através das escolas e unidades sanitárias.
O estudo recomenda, assim, uma maior atenção às adolescentes e o reforço do diálogo sobre planeamento familiar, procurando reduzir as gravidezes não planeadas e garantir melhores condições para as mulheres viverem a gravidez e a maternidade.
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