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  • Microplásticos e contaminantes químicos em aves marinhas subantárcticas

    02/06/2026
    Microplásticos e compostos químicos potencialmente nocivos para a saúde foram detectados em aves marinhas da Geórgia do Sul, uma ilha remota da subantárctica. Um estudo internacional liderado por investigadores do Centre for Functional Ecology (CFE) do Departamento de Ciências da Vida da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) identificou 1275 partículas de origem antropogénica em sete espécies de aves, algumas delas classificadas como vulneráveis ou ameaçadas.
    A investigação foi conduzida no âmbito de um doutoramento em Biociências na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra pela investigadora Joana Fragão, que também colabora com o British Antarctic Survey, no Reino Unido. A investigação procura avaliar a presença de microplásticos e contaminantes químicos ao longo da cadeia alimentar antárctica: “Este estudo está inserido no meu projecto de doutoramento, sendo que o projecto é uma avaliação mais global da presença de microplásticos e quais os níveis dos microplásticos, bem como dos compostos químicos em toda a cadeia alimentar da Antárctida”.
    Segundo a investigadora, os plásticos podem funcionar como vectores de contaminação. Além dos compostos adicionados durante o seu fabrico, conseguem absorver outros poluentes presentes no meio marinho, incluindo metais pesados.
    Apesar de a presença de microplásticos em regiões remotas já ter sido documentada por outros estudos, alguns dos resultados surpreenderam a equipa. “Houve um estômago de uma ave em que contabilizei 130 partículas”, revela Joana Fragão. Embora a média tenha sido de cerca de 17 partículas por indivíduo, a investigadora admite que observar directamente estas partículas durante as análises reforça a percepção do impacto da actividade humana na biodiversidade.
    O estudo detectou, também, vários compostos químicos com potencial acção como disruptores endócrinos, substâncias capazes de interferir com o sistema hormonal. Ainda assim, a investigação não conseguiu demonstrar uma relação directa entre a presença destes contaminantes e a ingestão de microplásticos.
    As amostras analisadas foram recolhidas a partir de aves encontradas mortas no âmbito de programas de monitorização realizados na Geórgia do Sul. Esta abordagem impõe limitações ao estudo, uma vez que os investigadores dependem dos animais encontrados e não podem controlar factores como o número de indivíduos ou o período exacto de recolha.
    De acordo com o comunicado oficial, “os investigadores destacam que estes dados contribuem para uma melhor compreensão da exposição da fauna marinha a diferentes tipos de poluentes, sublinhando a importância de reforçar medidas internacionais que visem a redução da poluição marinha e a protecção da biodiversidade, incluindo a implementação de programas de monitorização de plásticos e contaminantes químicos, mesmo em ecossistemas considerados isolados”.
  • Menstruação ainda é tabu e fonte de exclusão para raparigas

    26/05/2026
    Esta semana assinala-se o Dia Internacional da Higiene Menstrual. A pobreza menstrual continua a afectar milhões de mulheres e raparigas em todo o mundo. Em Moçambique, a dimensão real do problema é difícil de medir. “Nós não temos dados. A questão da pobreza menstrual está relacionada com a própria visão da mulher, do corpo da mulher”, afirma Nair Teles, directora executiva do Centro de Estudos em Direitos Humanos, Saúde e Sociedade de Moçambique. Para a investigadora, o silêncio em torno do tema impede até a sua quantificação. “Aquilo que não se fala não existe”.
    A pobreza menstrual continua a afectar milhões de mulheres e raparigas em todo o mundo. Segundo dados das Nações Unidas, cerca de 1,8 mil milhões de pessoas menstruam todos os meses, mas mais de 500 milhões não têm acesso a produtos menstruais, água potável ou saneamento adequado para gerir a menstruação de forma digna e segura. Em África, a situação é agravada pela pobreza, pela falta de infra-estruturas e pelo estigma social em torno do corpo da mulher e da menstruação. Esta semana assinala-se o Dia Internacional da Higiene Menstrual.
    Em Moçambique, a dimensão real do problema é difícil de medir. “Nós não temos dados. A questão da pobreza menstrual está relacionada com a própria visão da mulher, do corpo da mulher”, afirma Nair Teles, directora executiva do Centro de Estudos em Direitos Humanos, Saúde e Sociedade de Moçambique. Para a investigadora, o silêncio em torno do tema impede até a sua quantificação. “Aquilo que não se fala não existe”, sublinha.
    Segundo Nair Teles, a pobreza menstrual não se resume à falta de pensos higiénicos. Está ligada à ausência de informação, à dificuldade de acesso aos serviços de saúde e à forma como o corpo feminino continua a ser encarado socialmente. “Uma jovem ou uma mulher em situação de pobreza extrema muitas vezes nem sabe porque está a menstruar. Ela só sabe que menstrua”, explica. A directora executiva do Centro de Estudos em Direitos Humanos, Saúde e Sociedade de Moçambique aponta ainda falhas na comunicação dentro das famílias, nas escolas e nas próprias instituições públicas: “Um pai não fala sobre isso com a filha. A mãe também passou pelo mesmo silêncio. Há uma naturalização desse silêncio.”
    A situação tende a ser ainda mais invisível nas zonas rurais: “A mulher rural não existe, embora seja ela que nutre, seja ela o esteio”. Em muitos casos, o custo dos produtos menstruais torna-se incomportável face às necessidades básicas de sobrevivência.
    A investigadora defende que distribuir produtos menstruais é importante, mas insuficiente sem educação e debate público: “É preciso quebrar o silêncio. Explicar o corpo da mulher, a menstruação, a tensão pré-menstrual, a menopausa. O corpo da mulher não pode continuar a ser tratado como tabu.”
    Nair Teles considera que a pobreza menstrual é apenas uma das manifestações de um problema mais profundo relacionado com a condição feminina no país: “Tudo isto tem relação directa com a visão da mulher. O que é isto que a gente chama de mulher? Ela é só para uso? Para procriar? Para cuidar da casa e dos filhos? O que nós somos?”, questiona.
  • Os sintomas iniciais de Ébola são semelhantes aos de doenças como a Malária

    18/05/2026
    A propagação inicial de um foco epidémico de Ébola deve-se em parte à semelhança dos sintomas iniciais com os de doenças comuns em África, como a Malária. Nesta edição de Ciência, o Dr. Eusébio Manuel explica-nos as dificuldades nessa etapa da epidemia e como o combate se torna mais eficaz uma vez identificado o contágio por Ébola.
    O actual surto de Ébola no leste da República Democrática do Congo foi considerado uma emergência de saúde pública de âmbito internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A OMS sublinhou, no entanto, que não responde aos critérios de uma pandemia.
    Neste magazine de Ciência, conversámos com o Dr. Eusébio Manuel, chefe do Departamento de Higiene e Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde de Angola que, afirmou, "estamos atentos e alertas em acompanhar a situação que ocorre na República Democrática do Congo."
    Relativamente à variante Bundibugyo, explica que "o vírus Ébola é o mesmo, independentemente do género, (...) a letalidade é sempre a mesma. Os sinais-sintomas são os mesmos, portanto, não há muita diferença em relação a outra estirpe de Ébola, apesar de este ter já uma alta letalidade, não há nenhuma diferença em termos de sinais-sintomas."
    Numa fase inicial da epidemia, a detecção de infecções por Ébola é difícil porque não há casos registados e os primeiros diagnósticos confundem-se com os de outras doenças comuns em África:
    "Um dos principais sintomas é febre. Muitas das vezes cruzamos nos nossos países, onde a malária é a primeira causa de morte e de doença, suspeitamos sempre como seja malária, mas depois os sintomas secundários vão aparecendo, dias depois. As pessoas apresentam sinais de febre e essa febre pode cruzar-se com astenia, dores musculares, mas são sinais-sintomas que vêm a posteriori. O sinal principal para reconhecimento é a febre. E depois vamos fazendo outros diagnósticos diferenciados. As hemorragias aparecem no quinto, sétimo dia, mas aí é onde ocorre o maior perigo, em que a pessoa esquece-se que está frente a uma doença altamente contagiosa como a doença hemorrágica. Mas nesta fase a pessoa já se envolveu com o doente. Por isso o contágio é muito frequente."
    Quando se passa a uma fase testagem já a epidemia está em curso porque nestes primeiros dias há muitos contactos. E depois, há falta de recursos laboratoriais. Em Angola "nós temos um laboratório de referência, que é o Instituto Nacional de Investigação em Saúde, que faz o diagnóstico primário. Mas caso haja evidências claras de que se trata de uma febre hemorrágica, temos que mandar as amostras ao Instituto Pasteur de Dacar [Senegal] ou Camarões, que são os únicos laboratórios que nós temos de referência em relação às doenças hemorrágicas."
    O diagnóstico de uma febre hemorrágica dá-se muitas vezes da forma mais dolorosa, como sublinha o Dr. Eusébio Manuel:
    "O sinal muito fatal de reconhecimento daquilo que nós chamamos o sinal de gatilho, ou gatilho para reconhecer a doença hemorrágica, é quando começam a falecer, a morrer ou apanhar a mesma doença, as pessoas que estiveram a manipular essa pessoa, os enfermeiros, médicos, familiares que estiveram em contacto, começam a apresentar os mesmos sinais-sintomas. Aí nós percebemos que essa doença é altamente contagiosa."
    Na fase actual, em que há o reconhecimento de uma epidemia em curso e um alerta internacional, o estado de preparação é outro:
    "Nós estamos numa fase de alerta máximo. Significa que a situação está a ocorrer no país vizinho e nós daqui estamos num estado de preparação para que isso não se introduza em Angola.
    Estando já a doença identificada no país, aí as condições de profilaxia e as condições de segurança já são máximas: evita-se a cumprimentar, seja qualquer pessoa, e todo e qualquer doente com sinal, síndrome febril, é considerado um doente. Tendo em conta, claro, o seu perfil, sua condição e se ele esteve em contacto com pessoas, essas pessoas devem ser isoladas imediatamente."
    60 por cento dos casos suspeitos foram detectados em mulheres que estão um pouco mais expostas às condições de contágio, refere o Dr. Eusébio Manuel:
    "Primeiro, o que é uma zoonose? É uma doença que é transmitida pelo contacto com animais infectados. Se nós repararmos, na região africana, maioritariamente quem vão, quem trabalham nas lavras, são o sexo feminino. Enquanto os homens às vezes ficam vendendo na praça ou noutros sítios. (...) Se bem que há homens também. A proporção de homens, sobretudo os que lidam com caça, e a caça é o homem, mas quem prepara é a mulher.
    Mas o que justifica isto é mesmo envolvimento das mulheres nas aldeias, nas áreas de maior risco. Os rituais fúnebres, os que fazem muitos homens e mulheres quando morre alguém? São as mulheres que estão à volta do óbito. Fazem aqueles rituais todos. Então, a probabilidade delas se contaminarem é muito maior em relação aos homens."
  • De Maputo para o espaço, primeiro astronauta análogo moçambicano sonha trabalhar com a NASA

    11/05/2026
    Aos 25 anos, Fernando Armando Cavele tornou-se o primeiro moçambicano a conquistar o título de astronauta análogo, uma distinção que reconhece participantes em missões de simulação espacial realizadas na Terra. Apaixonado pela astronomia desde 2019, o jovem vê nesta conquista um passo importante rumo ao seu maior sonho: colaborar com instituições como a NASA e ajudar a criar uma agência espacial em Moçambique.
    Em entrevista à RFI, Fernando Armando Cavele explica que o título surgiu após a participação num concurso divulgado através do LinkedIn. “Houve um concurso em que precisavam de pessoas interessadas em fazer este treinamento e eu coloquei lá as minhas motivações e os meus projectos relacionados a esta área”. Antes disso, já participava em actividades de observação astronómica em Moçambique, através do grupo “Detectives do Cosmos”.
    Um professor de Física despertou-lhe a curiosidade ao falar da relação entre arquitectura e astronomia e, a partir daí, aprofundou pesquisas e descobriu a chamada arquitectura espacial, área que une as ciências espaciais à arquitectura.
    Neste percurso, os maiores desafios são as dificuldades financeiras e a falta de infra-estruturas ligadas à exploração espacial em Moçambique: “Venho de uma família de baixa renda e, portanto, para conseguir criar essa possibilidade de logística, de sair daqui para a Índia, houve essa dificuldade”. Acrescentou ainda que teve de procurar informação fora do país para desenvolver os seus estudos. O jovem lamenta também a ausência de apoio institucional nacional. “A maior parte dos apoios que eu tive foram internacionais”, contributos vindos de amigos e contactos em Portugal, Suíça e Índia.
    Fernando Armando Cavele descreve a experiência na missão análoga realizada na Índia como transformadora e destaca as aprendizagens adquiridas: “dentro da missão tive a oportunidade de trabalhar em várias áreas que não são do meu interesse”, referindo contactos com engenharia espacial, geologia e biotecnologia.
    Além da vertente científica, a missão representou também um desafio psicológico. “Aprendi a lidar também com as minhas próprias emoções dentro de um contexto de isolamento”, afirmou, sublinhando igualmente a necessidade de gerir recursos de forma controlada.
    Fernando Armando Cavele defende que Moçambique precisa de reforçar a cooperação internacional e criar mecanismos de apoio para jovens interessados na área espacial. Está actualmente a desenvolver a startup “Space Lab”, dedicada à procura de soluções tecnológicas para problemas nacionais através de tecnologias espaciais.
    O primeiro  astronauta análogo revelou ainda que foi admitido num mestrado em Arquitectura Avançada e Fabricação Digital, em Espanha, mas enfrenta dificuldades financeiras para concretizar a inscrição. “Falta financiamento para poder me inscrever e também pagar as minhas despesas de estadia na Espanha”, apesar dos obstáculos, mantém-se optimista. “Estou com fé que vou conseguir” e, para o efeito, tem nas diferentes redes sociais uma campanha de angariação de fundos em marcha. 
    O sonho maior é tornar-se arquitecto espacial e contribuir para o desenvolvimento de um programa espacial moçambicano: “Um dos meus maiores sonhos é ver Moçambique a construir uma agência espacial e também um programa espacial nacional”.
  • “O plástico nos mangais sufoca o ecossistema”

    05/05/2026
    A gestão de resíduos urbanos e do plástico descartado estão no centro de um problema crescente à escala mundial e Moçambique não é excepção. A incapacidade de dar resposta ao volume de lixo produzido expõe fragilidades estruturais e ambientais. Fenómenos como chuvas intensas ou falhas nos canais de drenagem aceleram o problema. No centro desta crise está o plástico, um material omnipresente e cada vez mais difícil de gerir, agravado por um sistema de produção e consumo que dificulta qualquer solução eficaz.
    Em Maputo, basta chover com intensidade para que o problema dos resíduos urbanos se revele à superfície: canais de drenagem entupidos, ruas inundadas e toneladas de lixo arrastadas em direcção aos rios e ao oceano. O plástico assume papel central nesta problemática da gestão de resíduos urbanos. O problema não está apenas na falta de civismo ou de infra-estruturas, mas num sistema que produz lixo difícil - ou impossível - de reciclar.  “Num único produto […] tem-se vários tipos de plástico, o que torna a reciclagem muito desafiadora e até insustentável”, deixando uma parte significativa destes resíduos sem destino eficaz e mais propensa a acumular-se no ambiente e a ser arrastada para rios e oceanos, alerta Sharon Clésia, assistente de projectos e ponto focal do aplicativo KOLEKT na AMOR - Associação Moçambicana de Reciclagem.
    A omnipresença do plástico tem consequências directas nos ecossistemas e na saúde humana. “Acaba, de facto, forçosamente no nosso prato”, diz, referindo-se ao percurso dos resíduos que, sem tratamento adequado, chegam aos oceanos e entram na cadeia alimentar sob a forma de microplásticos.
    Embora mais visível em grandes centros urbanos, o problema estende-se a todo o país. “Eu diria que é igual no país todo. Contudo, os volumes variam consoante o nível de poder de compra”. Mesmo em zonas remotas, a situação é alarmante: “Vimos a presença de resíduos sólidos no mangal de uma forma escandalosa”, explicou a jovem engenheira ambiental, após projectos realizados em regiões como Inhambane.
    As consequências são múltiplas. Em meio urbano, incluem inundações provocadas pelo entupimento de sistemas de drenagem. Já nos ecossistemas naturais, o impacto é devastador: “O plástico nos mangais […] sufoca o ecossistema” e afecta espécies que dependem destes habitats. “Certos animais confundem pequenos pedaços de plástico com alimento […] e, por meio da cadeia alimentar, vão parar ao prato dos seres humanos.”
    Perante este cenário, a técnica da AMOR não hesita: “É uma bola de neve […] que precisa ser travada, porque, ao contrário, caminhamos para um precipício, para uma crise de saúde pública.”
    Uma das respostas encontradas pela AMOR foi a criação do sistema das “moedas azuis”, que incentiva a recolha de resíduos através de compensação financeira: “Colocamos um valor económico como forma de incentivo para a recolha desses resíduos sólidos”.
    O modelo é simples: por cada quilograma de resíduos entregue, há um pagamento variável consoante o tipo de material.
    A iniciativa surgiu em 2020, durante a pandemia de Covid-19, quando campanhas tradicionais de limpeza foram interrompidas. “Pensámos que era mais interessante estimular aquelas pessoas que estavam sem trabalho […] com um preço simbólico” e o resultado surpreendeu: “Em cinco semanas tivemos mais de 300 toneladas de resíduos recolhidos.”
    Desde então, o projecto evoluiu, incorporando tecnologia digital através da aplicação KOLEKT e alargando o seu alcance com financiamento internacional. “Passámos de uma fase experimental para uma estratégia que funciona”, afirmou.
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