PodcastsCiência

Ciência

Ciência
Último episódio

69 episódios

  • Cientista português premiado por abordagem revolucionária contra o cancro

    28/04/2026
    Fábio Rosa, investigador português de 32 anos, acaba de ser distinguido, neste mês de Abril, com o Prémio de Inovação e Ciência 2026, atribuído pelo Instituto de Bioinovação da Dinamarca. O reconhecimento surge na sequência de uma investigação pioneira que poderá transformar o futuro do combate ao cancro.
    A investigação deste jovem cientista, natural de Aveiro, já considerado uma das mentes mais promissoras da sua geração, desafia abordagens convencionais e pretende transformar os próprios tumores em vacinas capazes de estimular o sistema imunitário a combater a doença de forma mais eficaz.
    RFI: Em que consiste a sua investigação?
    Fábio Rosa: A base da minha investigação foi desenvolver um método que permite converter qualquer célula do organismo, como células da pele ou células dos tumores, em células muito específicas do sistema imunitário, chamadas células dendríticas, que são os soldados do sistema imunitário.
    São basicamente capazes de identificar as células do cancro e induzir uma resposta imune contra o próprio cancro. Este método foi identificado originalmente na Universidade de Coimbra, quando eu estava a fazer o meu mestrado e doutoramento.
    O que é que fazemos concretamente? Nós identificámos um conjunto de três proteínas que são entregues directamente nas células do cancro, e estas três proteínas modelam a expressão dos genes e convertem a célula do cancro numa célula do sistema imunitário, que depois é capaz de induzir uma resposta imune contra ela própria.
    RFI: E em que é que esta abordagem, no fundo, é diferente de outras abordagens que já existem na luta contra o cancro?
    Fábio Rosa: A maior parte das abordagens na luta contra o cancro são focadas em destruir as células do próprio cancro, ou seja, o objectivo é induzir uma resposta imunitária directamente contra o cancro.
    Mas o cancro desenvolve mecanismos que faz com que ele fique invisível para a detecção do sistema imunitário e, consequentemente, não pode ser destruído.
    O que é que nós fazemos? Em vez de destruir directamente as células do cancro, nós convertemo-las em células do sistema imunitário, ou seja, com este método, forçamos as células do cancro a induzir uma resposta contra ele próprio. E, assim, tornamos o cancro visível de novo para o sistema imunitário.
    Isto faz com que, em vez de induzir à destruição das células do cancro directamente com o nosso tratamento, basicamente fazemos o cancro mais visível para o nosso próprio sistema imunitário, de forma a que ele consiga detectar e destruir.
    RFI: E esta terapia poderá substituir de alguma forma os actuais tratamentos de quimioterapia e radioterapia que já existem? O que é que está em cima da mesa em concreto?
    Fábio Rosa: Definitivamente. Os tratamentos mais comuns, como a radioterapia ou a quimioterapia, definitivamente poderão ser substituídos.
    O objectivo, no entanto, e é onde a área de investigação de novas terapias para o cancro está a emergir, é que a cura que todos estamos à procura vai muito provavelmente depender da combinação racional de diferentes tratamentos, que basicamente fazem o targeting de diferentes componentes do sistema imunitário. Ou seja, quanto a esta terapia, inicialmente vamos testá-la sozinha, sem ser em combinação com outros tratamentos.
    Mas, no futuro, pretendemos combiná-la com outras terapias e, consequentemente, aumentar o número de doentes que podem beneficiar deste tipo de terapias, que usam o próprio sistema imunitário para induzir uma resposta anti-cancerígena.
    RFI: O Fábio é um estudioso nesta área do cancro. O que é que ainda não sabemos sobre o cancro e que mais o intriga? É o facto de existirem diferentes tipos de cancro? De cada cancro ter, no fundo, um comportamento distinto? O que é que mais o intriga nesta doença?
    Fábio Rosa: O que mais me intriga nesta doença é que o cancro é muito complexo e heterogéneo, ou seja, quanto mais sabemos sobre o cancro e sobre o processo oncológico, sobre o processo do desenvolvimento de cancro, mais perguntas temos.
    Estas perguntas ajudam-nos a tentar perceber melhor, perceber os mecanismos e desenvolver novas terapias que realmente podem fazer a diferença.
    RFI: O Fábio é uma das vozes mais promissoras na sua idade, em Portugal, no que diz respeito ao estudo contra o cancro. Este ano recebeu o Prémio de Inovação e Ciência. Como é que se sente com este reconhecimento?
    Fábio Rosa: É um reconhecimento que, na verdade, é um prémio pessoal, mas que no final reflecte o trabalho conjunto de muitas pessoas. Eu, os meus colegas do laboratório, e todas as pessoas que directamente ou indirectamente têm trabalhado na tecnologia que nós estamos actualmente a desenvolver. É o início. Existem muitas coisas que ainda temos de fazer.
    Estamos a desenvolver esta terapia, na Asgard Therapeutics, a empresa que eu co-fundei na Suécia, juntamente com Cristiana Pires e Filipe Pereira. Para o ano vamos entrar na clínica. Este é o primeiro passo para fazer com que realmente o que temos estado a trabalhar nos últimos dez anos consiga beneficiar os doentes.
    Daqui para a frente é continuar a trabalhar com o foco de ajudar o maior número de doentes possível com a doença oncológica.
    RFI: Fábio, a última pergunta que lhe faço é o que é que o motivou a estudar o cancro e a imunologia?
    Fábio Rosa: O que me motivou a estudar o cancro é o facto de ser uma doença tão misteriosa. Ainda é incerto como é que aparece, como é que se desenvolve e como é que progride. É uma doença que, até este ponto, ainda não tem tratamento.
    Ou seja, o conjunto de perguntas que eu tinha sobre o que é que faz uma célula tornar-se numa célula cancerígena e porque é que o sistema imunitário não as consegue identificar e não as consegue eliminar, como seria de esperar, de acordo com a Biologia, de acordo com o que aprendemos nas aulas na Universidade... Portanto, toda essa complexidade foi uma motivação da minha parte para tentar perceber quais é que são os processos responsáveis por estes factos.
    E, no final de tudo, tentar arranjar maneiras de usar o conhecimento que nós desenvolvemos ao responder a estas perguntas, para desenvolver novas terapias que são mais inteligentes.
    Ou seja, que nos permitem, por exemplo, fazer as células do cancro mais facilmente detectadas pelo sistema imunitário e que sejam destruídas, de forma a conseguirmos, por um lado, aumentar a qualidade de vida dos doentes com cancro.
    Por outro lado, o objectivo de todos os cientistas que estão a trabalhar nesta área é desenvolver o que chamamos a cura. Aquilo que pretendemos é que quando um doente é diagnosticado com cancro, possa, de uma maneira rápida e eficaz, ser tratado com uma terapia que seja eficaz e que resulte na remissão completa desta doença oncológica.
  • Moçambique: Barreira de pneus ajuda a travar erosão e assoreamento na Macaneta

    16/04/2026
    Uma barreira de 13.000 pneus de uma extensão, até agora, de 600 metros, ao longo da margem do rio Incomáti, tem ajudado a travar a erosão e assoreamento na Macaneta, no sul de Moçambique. A barreira de pneus começou a ser construída em 2021, tem resistido, incluindo às recentes cheias, e já foi replicada noutra região do país, contou à RFI Clausêncio Ngovene, director de programas na Cooperativa Repensar.
    Desde 2021 e até agora, a barreira implementada pela Cooperativa Repensar tem cerca de 13.000 pneus e uma extensão de 600 metros ao longo da margem do rio Incomáti, na Macaneta, no sul de Moçambique. Os pneus de aviões, carros e tractores são carregados de entulho para resistir à força da água, mas há pneus gigantes que precisam da força de seis a sete homens. Uma tarefa hercúlea, sem ajuda mecânica, mas que tem protegido esta zona costeira e resistido inclusivamente às recentes cheias. Os pneus ganham assim uma segunda vida e ajudam a proteger o mangal e as comunidades, travando a erosão e o assoreamento. O material provém de doações do Porto de Maputo, do Aeroporto de Maputo, mas também é recuperado nas lixeiras, nas ruas e também é dado por particulares.
    RFI: Como nasceu esta barreira de pneus na Macaneta?
    Clausêncio Ngovene, Director de programas na Cooperativa Repensar e coordenador do programa Lixo Marinho: “De forma geral, estamos na Macaneta desde 2021 a implementar um programa designado de Lixo Marinho. O programa visa combater a poluição, principalmente plástica, no meio aquático, no estuário da Macaneta e em todo o ambiente costeiro. No meio destas actividades, nós percebemos que a Macaneta sofre bastante da erosão costeira e assoreamento. No estuário do Incomáti, que é um rio que nasce na vizinha África do Sul e que desagua na Macaneta, nós temos verificado o assoreamento e erosão costeira e fluvial. No meio disto, nós tentámos várias técnicas para conter os impactos da erosão e assoreamento e fizemos várias tentativas até chegarmos a conclusão de aplicarmos os pneus.”
    Para quem não conhece, explique-nos o que é a erosão e o assoreamento.
    “Erosão é o processo de desgaste dos sedimentos, quer na zona costeira, quer também na zona fluvial, causando impactos directos no ambiente. Assoreamento também é o processo de desgaste de sedimentos, a areia. Esses sedimentos são arrastados para o interior do rio e aumentam, portanto, o caudal do mesmo rio. Assoreamento é o arrastamento dos sedimentos da areia para o interior do rio e aumenta, portanto, a sua extensão.”
    Como é que isso tem impacto na vida das populações costeiras?
    “Isto tem um impacto directo na vida das populações. Primeiro, a questão da destruição da vegetação costeira e que é uma vegetação que protege contra os ventos fortes. Temos também a questão da degradação do ecossistema do mangal, que é um ecossistema muito preponderante para a reprodução dos peixes, dos caranguejos e outros seres costeiros. Isto afecta directamente a vida da comunidade.”
    Vamos então aos pneus. Porquê os pneus?
    “Nós usamos os pneus como uma solução viável. Primeiro, nós estamos a falar de uma zona costeira onde temos sal, a água é salina. Outras técnicas que já tentámos não se mostraram eficientes. E já houve uma tentativa de aplicação de gabiões, mas também sem sucesso, por causa da salinidade da água. E porquê pneus? Porque é um material literalmente descartado, sem valor em Moçambique, que termina nas lixeiras, termina na rua, em qualquer ambiente e nós recuperamos para reutilizar, nós recuperamos para travar os impactos da erosão e assoreamento. Também o pneu é um material consistente que dura mais tempo, que não tem problema com a salinidade, resiste mais no ambiente salino.”
    Na prática, como é que os pneus formam então uma barreira para proteger a comunidade? E que tipo de pneus é que são?
    “Nós usamos vários tipos de pneus. São pneus que, na maioria, recebemos de doação do Porto de Maputo e recebemos também do Aeroporto Internacional de Maputo. São pneus também que recebemos de vários doadores singulares e pessoas que desejam trocar os pneus dos seus carros, em vez de jogar na lixeira. Nós usamos pneus também que recuperamos nas lixeiras, que estão em risco de serem queimados. Então, nós vamos lá recuperar e usamos todo o tipo de pneus.
    A estrutura de montagem é bem simples. Nós montamos uma estrutura à base, com pneus gigantes e depois da montagem dos pneus, nós colocamos o entulho, que são pedras, para garantir a consistência do pneu e vamos subindo em forma de escadaria. Nas últimas fiadas, nós já colocamos a vegetação, ou seja, a areia orgânica, e vamos reabastecer a vegetação. Nós usamos este conceito para também contrabalançar os possíveis impactos que os pneus possam causar naquele ambiente. Então, é uma forma de compensar, uma forma de contrabalançar. Nós estamos a restaurar as dunas, estamos a restaurar o ecossistema costeiro fluvial degradado, mas à base de pneus.”
    Como é o processo de montagem? Falou-me em pneus gigantes, que devem ser os pneus dos aviões. Estes são pneus muito pesados. Têm máquinas para os ajudar?
    “Na verdade, é um verdadeiro martírio. Este trabalho demanda muita força humana. Infelizmente, nós não temos nenhum equipamento, nenhuma máquina industrial ou uma máquina a motor. Nós usamos a força humana. Só para ter uma ideia, um pneu gigante, o mais pesado, requer no mínimo sete homens. Seis ou sete homens com força para o conseguir manusear. Então, é um trabalho muito hábil que nós temos feito. Para ter uma ideia, já conseguimos montar mais de 13.000 pneus no total.”
    Esses mais de 13.000 pneus estão espalhados por onde? A barreira vai de onde a onde?
    “Toda a barreira está no estuário do Incomáti, onde desagua o rio, Incomáti. É uma extensão de mais ou menos de 600 metros, com uma altura média de cinco metros.”
    Nas últimas cheias, em Janeiro, a barreira como é que resistiu?
    “Mostrou que é possível aplicar os pneus em qualquer ambiente para controlar, para conter a erosão. Mostrou que é possível haver uma replicabilidade deste conceito. Mostrou resistência, resiliência.”
    A barreira manteve-se intacta? Resistiu?
    “Sim, resistiu e tem resistido também às marés altas. Nós estamos num estuário, portanto depende do comportamento da maré. A maré alta vai afectar o rio e o estuário. Na maré baixa, também haverá o vazamento das águas. Então tem mostrado esta resistência fora das cheias, mas também a dinâmica de comportamento da maré.”
    Como é que se lembraram dos pneus?
    “Nós iniciámos este projeto de restauro no ano de 2021, um ano em que nós iniciamos o nosso projecto principal, designado Lixo Marinho, que visa combater a poluição, principalmente plástica. Daí nós identificámos esses problemas. Fizemos um diagnóstico ambiental detalhado, identificámos os problemas que é erosão costeira e fluvial e também o assoreamento. Fomos vendo também o histórico da região, percebemos que várias técnicas foram usadas, mas não surtiram efeito. E olhando a nossa realidade, temos assistido que vários pneus terminam nas lixeiras, terminam em ambientes inadequados, e fizemos um pequeno estudo sobre a consistência de pneus, recuperámo-los e fizemos esta barreira que mostra ser muito eficiente.”
    Falou-me na replicabilidade do projecto. Já há ideias para levarem este projecto para outros locais?
    “Coincidentemente, nós já fomos solicitados para prestar uma assessoria em Inhambane numa outra zona costeira e lá conseguimos montar e conseguimos travar. Já temos o primeiro caso de replicabilidade, que é numa das praias de Inhambane.”
    Há quanto tempo é que foi e está a resistir?
    “Está a resistir. Nós intervimos no final do ano passado, no mês de Novembro, e até agora resistiu.”
  • Coimbra testa limites da IA na música com máquinas que escutam emoções

    14/04/2026
    Na Universidade de Coimbra, uma equipa liderada por Rui Pedro Paiva está a ensinar máquinas a interpretar emoções na música. O projecto MERGE cruza inteligência artificial, áudio e linguagem natural para mapear canções num espaço emocional. Mais do que inovação tecnológica, trata-se de uma tentativa de aproximar algoritmos de algo profundamente humano: perceber o que a música “é”, antes mesmo do que nos faz sentir.
    Na Universidade de Coimbra, a pergunta não é nova, mas a abordagem é radicalmente contemporânea: pode uma máquina compreender emoções na música? O projecto MERGE: “reconhecimento de emoções na música de próxima geração”, responde com um cauteloso “talvez”, sustentado por ciência, dados e alguma humildade perante a complexidade humana.
    Coordenado por Rui Pedro Paiva, o projecto combina inteligência artificial, processamento de áudio e análise de linguagem natural para classificar automaticamente emoções nas canções. O objectivo é claro: “criar um sistema capaz de colocar cada tema num mapa emocional entre valência e intensidade”.
    “Essa é a ambição”, afirma o investigador. “É ambicioso justamente porque há muita ambiguidade na interpretação de emoções na música e nas emoções em geral.”
    Mas o ponto de partida do MERGE não é o que sentimos ao ouvir música. E essa distinção é central. “Quando falamos de emoção na música, podemos entender três níveis: a emoção expressa pelo artista, a emoção percebida pelo ouvinte e a emoção sentida. No projecto estamos focados na percepção: aquilo que a música ‘tem’ em si própria.”
    Entre o que a música diz e o que a música faz
    Essa escolha metodológica procura reduzir a variabilidade. Afinal, duas pessoas podem reagir de forma completamente distinta à mesma canção. “Com certeza”, reconhece Rui Paiva. “Mas o nosso projecto não aborda a emoção sentida pelas pessoas. Aborda um ponto mais objectivo: a emoção inerente à música.”
    Um exemplo simples ajuda a perceber: “Uma música com batida intensa está tipicamente associada a emoções alegres ou tensas, não a algo relaxado ou melancólico.” Ainda assim, o investigador admite: “eu posso sentir emoções diferentes em resposta a esse estímulo musical. Estão relacionadas, mas não são a mesma coisa.”
    O MERGE tenta, assim, encontrar um terreno comum entre a subjectividade e a estrutura. E fá-lo recorrendo a um modelo clássico da psicologia: o de James Russell. “Esse modelo propõe dois eixos: valência, que indica se a emoção é positiva ou negativa, e activação, que mede a intensidade”, explica. “Com isso, conseguimos um espaço onde identificamos quatro emoções básicas: alegria, relaxamento, tensão e melancolia.”
    Relação entre som e letra
    Um dos desafios mais interessantes do projecto está na relação entre som e letra. “Há músicas onde a melodia sugere uma coisa e a letra outra”, reconhece Rui Paiva, evocando o caso de canções dos The Beatles em que o contraste é evidente.
    Ainda assim, o sistema tenta lidar com essa ambiguidade. “A componente acústica capta melhor a intensidade. A componente textual ajuda a perceber se a emoção é positiva ou negativa.”
    E há um factor adicional: o contexto do ouvinte. “Se a pessoa não compreender a língua, vai apoiar-se mais no som. Se compreender, a letra tende a dominar.” No fundo, mesmo quando a máquina tenta ser objectiva, a experiência humana continua a infiltrar-se no processo.
    Um mapa emocional para o streaming
    O impacto potencial do MERGE vai além da investigação académica. Num tempo em que as plataformas digitais moldam o consumo musical, a possibilidade de procurar música por emoção pode alterar a relação com o som.
    “A música é muitas vezes chamada a linguagem da emoção”, lembra Rui Paiva. “Pesquisar por emoção, em vez de artista ou género, pode ser uma ferramenta particularmente vantajosa.”
    A aplicação prática já está em desenvolvimento. “Temos um protótipo que será disponibilizado online. Qualquer pessoa poderá testar, embora com limitações de direitos de autor, apenas excertos de 30 segundos.”
    Limites, simplificações e futuro
    Apesar do entusiasmo, o investigador não ignora as limitações. Reduzir emoções a dois eixos pode parecer simplista. “Sim, pode ser visto como uma simplificação excessiva”, admite. “Mas permite controlar a ambiguidade. Se usarmos centenas de categorias emocionais, o problema torna-se ainda mais complexo.”
    E há também limites tecnológicos. “Neste momento, modelos de linguagem conseguem cerca de 50% de sucesso neste problema, enquanto nós atingimos 80% na nossa base de dados.” A razão? Falta de dados em larga escala e a dificuldade de anotação emocional. “É um processo muito trabalhoso e inevitavelmente subjectivo.”
    Ainda assim, o horizonte é claro. “No momento em que existam bases de dados de grande dimensão, a inteligência artificial poderá aproximar-se mais da capacidade humana.”
    Até lá, o projecto MERGE permanece num intermédio entre ciência e sensibilidade, entre algoritmo e emoção. Um espaço onde, talvez, as máquinas ainda não sintam, mas começam, lentamente, a compreender.
  • Artemis II a caminho da Lua, não para aterrar e sim para preparar regresso em 2028

    02/04/2026
    A missão Artemis 2 partiu na quarta-feira rumo à Lua. Nesta viagem que deve durar 10 dias, os quatro astronautas a bordo - 3 homens e uma mulher - não vão atterrar na Lua, mas sim contorná-la de forma a recolherem informações sobre a geografia lunar. 
    A missão Artemis 2 partiu na quarta-feira rumo à Lua, ainda não para o regresso efectivo da humanidade a este satélite natural da Terra, mas sim para aprimorar a viagem, traçar a rota mais eficaz e preparar um possível local de estabelecimento de um módulo lunar. A bordo da Artemis 2 vão quatro astronautas, três homens e uma mulher e estes são os seres humanos que mais longe algum dia estiveram da Terra, já que passam na face oculta da Lua, percorrendo no total 800 mil quilómetros durante esta missão.
    Em entrevista à RFI, Hugo André Costa, director adjunto da Agência Espacial Portuguesa, explica os desafios desta missão.
    "Esta missão serve exactamente para preparar uma próxima alunagem do homem na Lua. Faz parte do conjunto de missões Artemis. A Artemis I que foi para testar toda a máquina, mas ainda sem humanos. A Artemis II já é uma viagem onde quatro humanos vão até até à Lua e esta sim vai testar todo o sistema de suporte de vida da nave. Vai testar também aquilo que pode ocorrer do ponto de vista de emergência durante uma missão desta natureza. E vai testar também como é que os astronautas vivem num espaço tão contíguo durante dez dias, o que é extremamente difícil e, portanto, vai ser muito útil", explicou.
    Nesta viagem de 10 dias haverá entre 30 a 40 minutos de silêncio, já que as comunicações ficarão cortadas com a nave quando os astronautas passarem no lado oculto da Lua. Esta é uma viagem também de exploração e de avaliação, com os astronautas a poderem observar o Pólo Sul deste satélite natural onde num futuro próximo se poderá instalar um módulo lunar.
    "Há muita coisa que não sabemos sobre o Pólo Sul da Lua. Nós sabemos que Pólo Sul é o local onde, à partida existe mais acesso à água e, portanto, é aí onde a NASA espera fazer uma base lunar. E mesmo a própria China já identificou esse local ideal para aterrar na Lua. E esse é um dos trabalhos dos astronautas também. A órbita que eles vão fazer vai permitir observar o Pólo Sol da Lua. Neste caso, não com sondas, mas com os olhos dos astronautas que vão observar esta área da Lua, tentando também já identificar uma zona onde podem estar em 2028, quando se espera que seja a missão para aterrar na Lua", detalhou Hugo André Costa.
    A esperança de chegar à Lua é um esforço comum liderado pela NASA, com o apoio da Agência Espacial Canadiana, mas também a Agência Espacial Europeia. Para esta missão, o novo módulo de suporte vida que vai permitir aos astronautas viverem com mais conforto, segurança e comodidade foi concebido na Europa, produzido por diferentes empresas europeias, montado na Alemanha e enviado depois para os Estados Unidos.
    Quanto à data de 2028 para voltar a ver um homem ou uma mulher a andar na Lua, Hugo André Costa tem algumas dúvidas já que o módulo que vai permitir aterrar na superfície da Lua deverá ser produzido por uma empresa privada, havendo ainda dúvidas se ficará para a Space X de Elon Musk ou Blue Origin, que pertence a Jeff Bezos.
    "Parece-me um pouco difícil, no entanto, não quer dizer que seja impossível. Isto porque à partida e após esta missão, certamente vai correr tudo bem. Tudo aquilo que tem a ver com a parte do segmento do espaço está perfeito. Os astronautas vão regressar e, portanto, vai correr tudo bem. Mas aquilo que é mais difícil é a aterragem na Lua. Nós temos agora os desenvolvimentos, quer por parte da SpaceX, quer por causa da Blue Origin, que serão quem fará a aterragem na Lua. E, portanto, aqui nós temos que acoplar dois sistemas o sistema da NASA e um sistema privado. Há uma corrida entre os dois actores privados para ver quem é que chega à Lua primeiro, ou, neste caso, quem vai conseguir ter a melhor opção para aterrarmos na Lua. Esperemos que consigam em 2028, que é aquilo que a NASA se propõe fazer. Mas eu acredito que tecnologicamente vai ser complicado porque temos aqui dois sistemas diferentes", concluiu Hugo André Costa.
  • Transplante renal abre nova esperança para doentes em Cabo Verde

    30/03/2026
    No dia 24 de Março, Cabo Verde realizou o seu primeiro transplante renal, numa operação que decorreu no Hospital Universitário Agostinho Neto, na cidade da Praia. A intervenção durou cerca de três horas e envolveu uma parceria com especialistas de Portugal. A equipa cabo-verdiana foi liderada pelo nefrologista Hélder Tavares, que ao microfone da RFI salientou "um passo histórico". 
    A equipa cabo-verdiana foi liderada pelo nefrologista Hélder Tavares, responsável pela coordenação da selecção e preparação dos pacientes. Em declarações à RFI, Hélder Tavares explicou que o caminho até ao transplante envolveu “uma luta de vários anos… começou primeiramente com a aprovação da lei, depois reunir as condições locais, técnicas e logísticas, equipamento e recursos humanos mínimos, e só então começar a procurar pacientes e dadores adequados para o procedimento”.
    O procedimento foi realizado com um dador vivo, como prevê a primeira fase do programa. “Apresentaram-se 13 pacientes com os respectivos dadores. Todos foram submetidos a avaliação clínica e analítica, e os restantes 12 foram excluídos por diversos motivos, como diabetes, infecção pelo vírus da hepatite B ou incompatibilidade com o receptor. Nesta primeira fase, só ficou elegível este par que foi então submetido ao transplante”, detalhou o nefrologista.
    O especialista sublinhou a importância médica da cirurgia para Cabo Verde: “Este é um passo histórico porque é a primeira vez que isso é feito em Cabo Verde. Conseguimos vencer algumas barreiras e mostrar que somos capazes de fazer isto, mesmo com ajuda externa. Mas a grande parte da investigação e preparação foi feita aqui.”
    Hélder Tavares descreveu a realização do transplante como uma experiência emotiva e gratificante: “Naturalmente, a emoção é muito grande. É uma realização pessoal e um sonho antigo. Mas esta alegria não é só minha, é de toda a equipa. Quem chefiou o processo do lado de Portugal foi o Dr. António Norton de Matos, cirurgião reformado português que nos apoiou desde o início.”
    Para o paciente, os benefícios são significativos. “Significa uma melhor qualidade de vida e uma melhor taxa de sobrevida. Para o sistema de saúde, representa um tratamento mais barato e mais eficaz. Um transplante é muito mais económico do que a hemodiálise”, afirmou.
    Quanto à autonomia do país neste tipo de cirurgia, o nefrologista esclareceu que será gradual: “Não seremos totalmente autónomos de um dia para o outro. Por enquanto, estamos a trabalhar em cooperação com Portugal até adquirirmos a competência necessária para sermos totalmente independentes. Alguns procedimentos exigem ainda tempo de treino, nomeadamente a técnica de remoção por laparoscopia.”
    A insuficiência renal crónica, principal causa de necessidade de transplante, está frequentemente associada a doenças como diabetes e hipertensão.

Sobre Ciência

Uma vez por semana, os temas que marcam a actualidade científica são aqui descodificados.
Site de podcast
Informação legal
Aplicações
Social
v8.8.13| © 2007-2026 radio.de GmbH
Generated: 5/3/2026 - 7:46:11 PM