Ciência
Último episódio
83 episódios
Artigo académico analisa emoções dos portugueses em França logo a seguir ao 25 de Abril de 1974
27/07/2026Entre esperança e incerteza, milhares de portugueses instalados em França terão escrito para o programa "Emissão dos trabalhadores portugueses” nos meses logo após o 25 de Abril de 1974. Este era um programa dedicado à diáspora portuguesa que passava de segunda a sexta-feira na rádio francesa. 50 dessas cartas existem até hoje e o investigador português Manuel Antunes da Cunha transpôs num artigo científico as principais emoções de quem viveu a revolução à distância.
“Ici Paris, Office de Radiodiffusion Télévision Française. Emission en langue portugaise, destinée aux travailleurs portugais résidant en France”, assim começava o programa quotidiano da ORTF “Emissão dos trabalhadores portugueses” dedicado à comunidade portuguesa em França e que durou entre 1966 e 1992, apresentado por Jorge Reis. Neste programa, difundido na então rádio pública francesa, o objectivo começou por ser orientar os cada vez mais numerosos portugueses que chegavam a França nas papeladas administrativas, mais tarde na integração e depois com conteúdos adaptados à segunda geração já nascida em terras gaulesas.
Se até ao 25 de Abril de 1974, este programa não entrava em temas políticos de forma a evitar problemas diplomáticos entre o Portugal dominado pelo Estado Novo e França, após a Revolução dos Cravos, muitos portugueses escreveram a Jorge Reis para mostrar a sua felicidade, mas também a sua inquietação face aos acontecimentos políticos. Manuel Antunes da Cunha, professor na Faculdade de Filosofia e Ciência Sociais da Universidade Católica de Braga e investigador, documenta há duas décadas a imigração portuguesa em França e escreveu o artigo “Dire Avril en Exil” que explora as emoções dos portugueses no período pós-revolução estudando 50 cartas enviadas ao programa “Emissão dos trabalhadores portugueses” entre Maio e Junho de 1974.
“Esta emissão iniciou-se em 1966. De facto, embora a emissão fosse feita em França e fosse ouvida em França e em Portugal, de facto, por razões diplomáticas, o Jorge Reis, que era o jornalista histórico desta emissão e que era um exilado comunista, não fazia política à antena, digamos assim. Esta emissão era exactamente para ajudar os portugueses a integrar-se em França, ajudá-los a responder às suas questões com a administração pública. As cartas que eu analiso aqui são 50 cartas enviadas ao programa entre 14 de maio e 20 de junho de 1974, isto é, logo depois do 25 de Abril. E essas cartas foram deixadas no Centro de Documentação 25 de Abril. E são interessantes porque a partir deste momento solta-se a palavra. Até aí, havia milhares e milhares de cartas que eram enviadas, mas os imigrantes portugueses não diziam tudo aquilo que pensavam, até porque a PIDE estaria também presente na imigração. E aqui, digamos, solta-se a palavra e é interessante ver e ouvir como os portugueses falam da sua necessidade de emigrar, falam da sua relação com o Estado Novo e com a distância e a saudade, com Portugal, com o futuro”, explicou o investigador em entrevista à RFI.
Manuel Antunes da Cunha estima que tenham sido enviadas milhares de cartas a esta emissão durante as quase três décadas na antena, mas a maior parte perdeu-se. As 50 que analisou no artigo “Dire Avril en exil : diaspora, médiations radiophoniques et émotions communautaires” foram depositadas no Centro de Documentação 25 de Abril, na Biblioteca de Coimbra, em Portugal.
Se há uma análise das emoções destes portugueses, entre esperança e incerteza, o académico relembra que a mobilização dos portugueses na diáspora foi visível logo em 1974, quando em Agosto, os portugueses que residiam no estrangeiro organizaram uma grande manifestação de apoio à revolução em Lisboa.
"Os imigrantes não puderam estar no 1º de Maio, na grande manifestação da liberdade. E, portanto, criou-se uma nova manifestação, com os emigrantes, alguns dos quais foram a Lisboa. E há testemunhos através da imprensa da época de que foi uma grande manifestação. E Jorge Reis estava no palco com várias personalidades e falou à multidão. Portanto, havia essa questão da incerteza e essa vontade de fazer parte de um novo Portugal e de participar nesta reconstrução. E alguns deles vão constituir listas para angariar dinheiro para várias iniciativas a partir da emigração", descreveu Manuel Antunes da Cunha.
Este artigo integra a revista "La Révolution des Œillets et les Portugais en France", editada pelo Centre d'études et de recherches sur les migrations ibériques, que conta também com artigos ligados à presença dos músicos portugueses de intervenção em França ou as remessas dos emigrantes.
A RFI é uma das empresas do audiovisual público francês que resultou da desagregação da ORTF, mantendo até hoje antenas em português.- Várias observações do Universo indicam que a matéria escura é um ingrediente fundamental do cosmos: é cerca de cinco vezes mais abundante do que a matéria normal e contribui para manter as galáxias coesas. Apesar disso, a sua detecção directa é um grande desafio, uma vez que as partículas que a constituem não emitem nem interagem com a luz. A RFI falou com Isabel Lopes, responsável do grupo Matéria Escura na Universidade de Coimbra.
E se alguém lhe dissesse que tudo aquilo que conseguimos ver no Universo representa apenas cerca de 5% do que existe? Os outros 95% seriam, pois, matéria escura.
A experiência LUX-ZEPLIN é uma colaboração internacional com 250 cientistas e engenheiros de 37 instituições dos Estados Unidos, Reino Unido, Portugal, Suíça, Austrália e Coreia do Sul.
A investigadora Isabel Lopes é responsável do grupo Matéria Escura do LIP, o Laboratório de instrumentação e física experimental de partículas, da Universidade de Coimbra. Ela começa por explicar o âmbito da experiência LUX-ZEPLIN.
Essa experiência tenta detectar as partículas, hipotéticas porque não sabemos se elas sequer existem, que constituirão a matéria escura. A matéria normal, nós sabemos que é feita de partículas, então nós pomos a hipótese de que a matéria escura também seja feita de partículas. Só que não podem ser estas partículas que nós conhecemos.
As propriedades da matéria escura não são de molde a serem compatíveis com as propriedades das partículas que nós conhecemos. De modo que são partículas desconhecidas. E então a experiência LUX-ZEPLIN tem um enorme detector numa antiga mina de ouro, a 1,7 quilómetros de profundidade, a ver se consegue detectar partículas dessa matéria escura que venham da periferia da nossa galáxia.
Porque é que o detector está enterrado tão fundo?
Estas partículas da matéria escura, nós sabemos que têm pouca probabilidade de interagir com a matéria normal, portanto, com o detector. Ao mesmo tempo, por exemplo, aqui à superfície da Terra, temos imensas outras partículas que vêm da atmosfera, que vêm dos materiais, até nós próprios irradiamos partículas. E, portanto, seria impossível distinguir, no meio de tanta partícula a interagir no detector, aquelas que nós procuramos, que são muito raras. Por isso, vamos lá para baixo, e assim, no nosso detector só vamos ver os sinais das partículas de matéria escura, quando eles aparecerem claro.
Para tentar ver estes sinais, utilizam o xénon líquido. O que é e porque é importante nessa pesquisa?
Pois são dez toneladas de xénon líquido e como a probabilidade destas partículas interagirem é muito pequena, nós temos que aumentar a massa das nossas partículas normais. São os átomos de xénon líquido, compostos por electrões, protões e neutrões. Por isso temos que ter muitos desses átomos. O xénon é bom porque ele tem um gás inerte, não é perigoso. Portanto daí a escolha do xénon. E é líquido porque sendo líquido é muito mais denso que sendo gás. Densidade significa que temos mais partículas por unidade de volume. E, portanto, conseguimos maior probabilidade de observar as tais partículas da matéria escura.
Se uma partícula de matéria escura atravessar o detector, o que acontece exactamente?
Vemos um sinal eléctrico, não no xénon directamente. No xénon directamente, essa partícula vai alterar os átomos, vai produzir luz. E essa luz que é uma luz no ultravioleta, vai ser detectada por uns sensores que nós temos no detector, no pote, digamos assim, cheio de xénon líquido. Temos um conjunto de sensores de luz no topo e na base. E então esta luz é detectada por esses sensores. Esses sensores convertem a luz num sinal eléctrico e o que nós vimos é nos computadores um sinal eléctrico.
Depois há todo o trabalho de ver se o sinal eléctrico observado é compatível com que nós esperamos da partícula da matéria escura. E aí entra a física.
Se o encontrassem matéria escura, o que mudaria na física?
Isso me ajudaria imenso, porque é um mistério enorme. Termos provas de que exista matéria escura, que não só existe como é 90% de toda a massa do universo. Nós temos aqui na nossa galáxia toda um halo de matéria escura à volta da parte luminosa e que não sabemos o que é. E, portanto, além disso, seriam partículas novas, totalmente desconhecidas. Iremos ter que estudar todas estas partículas e ver se compreendemos o comportamento dessas massas. Era realmente uma revolução.
Ao contrário, se o LUX-REPLIN terminar sem encontrar matéria escura, significa que não existe ou que temos de a procurar de outra forma?
Já está a ser desenhado um detector ainda maior, também de xénon líquido, muito parecido com LUX-ZEPLIN, porque o tamanho importa muito. Portanto já está a ser desenhado esse detector que se chama XLZD. Essa é a fase seguinte. Prevê-se que esteja pronto para 2030, 2031 e depois, se esse não der, então temos que procurar outras maneiras.
Nesses projetos, qual é o papel de Portugal?
Há só uma instituição em Portugal a participar que é o LIP. E então nós fomos responsáveis e mantemos a manutenção. Fomos nós que desenhámos e construímos, digamos, o cérebro da experiência que se chama o sistema de controlo, que é o sistema, como o nome indica, que controla as várias partes do detector e toma a acção quando ela é necessária. Por exemplo, estas dez toneladas de xénon estão sempre a circular, não estão quietinhas no detector.
Isso obriga a que abram e fechem as torneiras e sejam lidos muitos sensores. Esta experiência tem 10.000 sensores, para além dos sensores de luz, têm 10.000 sensores de pressão, temperatura porque o cheiro só é liquido a -100 graus.
Também fizemos um sistema todo software para ir analisando os dados da experiência, ou seja, os sinais dos sensores de luz para ver se está tudo a correr bem. Isso é bastante complexo porque nós temos que ter a certeza que o detector está estável a um nível muito elevado. A precisão tem que ser muito grande. E agora somos responsáveis por analisar os dados à procura do tal sinal da matéria escura. Temos uma parte dessa tarefa. Portanto, temos várias valências. É um grupo que não é muito grande. Tem 12 pessoas, entre investigadores e estudantes.
Fizeram uma operação de 417 dias entre 2023 e 2025, na qual não encontraram matéria escura, mas aprenderam muito. Considera que é um sucesso?
Ah sim é um sucesso. Ela foi um sucesso. Nós já temos resultados posteriores a estes, mas estes foram um sucesso porque não só mostraram que era possível operar um detector tão grande. E, por outro lado, ficámos a saber um pouco mais da matéria escura, quanto, por exemplo, a sua potencial massa.
Era Isabel Lopes, investigadora e responsável do grupo Matéria Escura do LIP da Universidade de Coimbra, que nos acompanhou neste magazine de Ciência. - Moldada pelo isolamento geográfico, pela agricultura em socalcos e pelas tradições centenárias, a aldeia das Fontainhas preserva costumes como o fongo, uma iguaria artesanal associado à Páscoa. Considerada, várias vezes, como o segundo lugar com a vista mais bonita do mundo, impulsionada pelo crescente turismo e pelo reconhecimento da UNESCO, a aldeia da ilha de Santo Antão, em Cavo Verde, procura conciliar a valorização do seu património com a preservação da sua identidade.
Chegar às Fontainhas é, por si só, uma experiência memorável. Encravada nas montanhas da ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, esta pequena aldeia revela-se apenas depois de uma longa viagem por uma estrada sinuosa, que serpenteia entre escarpas e precipícios, aumentando a expectativa a cada curva.
Quando finalmente surge diante dos olhos, o cenário é arrebatador: um conjunto de casas coloridas parece desafiar a gravidade, agarrado à encosta da falésia e suspenso sobre um vale coberto por socalcos verdejantes que se estendem até onde a vista alcança.
Em 2024, as Fontainhas foram classificadas como Património Mundial da UNESCO, um reconhecimento que veio reforçar a projecção internacional da aldeia, já anteriormente distinguida pela revista National Geographic como uma das localidades com a segunda vista mais bonita do mundo.
A estrada dos Namorados
Durante décadas, o acesso à aldeia foi difícil e reservado aos mais destemidos. A antiga estrada, escavada na própria rocha, era tão estreita que quem sofresse de vertigens dificilmente conseguia percorrê-la, fosse a pé ou de automóvel.
Em 2025, as autoridades cabo-verdianas concluíram um projecto de valorização turística e ambiental da aldeia, inaugurando uma nova via de acesso. No entanto, a antiga estrada continua a fazer parte da memória colectiva e é conhecida como a "Estrada dos Namorados".
Vítor Monteiro recorda a história que deu origem ao nome. A estrada foi mandada construir por João Serra, então administrador do concelho, para poder visitar a esposa, Bárbara, natural das Fontainhas. Proprietário do único camião Bedford existente na região, fez questão de abrir uma estrada com a largura exacta necessária para a passagem do veículo.
Construída integralmente em pedra seca, a obra permanece como testemunho da perícia e da dedicação dos trabalhadores da época. Anos mais tarde, porém, o próprio João Serra perdeu o controlo do camião numa das curvas, devido a uma falha nos travões. O veículo caiu na ribeira e ficou destruído, mas o condutor sobreviveu ao acidente.
Agricultura e caminhadas entre montanhas
Apesar da crescente escassez de água, as Fontainhas continuam a manter alguma actividade agrícola. Nos socalcos cultivam-se produtos como inhame, cana-de-açúcar e bananeiras, culturas que ainda garantem parte do sustento das famílias locais.
A aldeia das Fontainhas é igualmente um dos pontos de passagem obrigatória para os amantes das caminhadas. O percurso entre Cruzinha e Ponta do Sol, com cerca de 15 quilómetros, é considerado um dos mais espectaculares de Cabo Verde. Todos os dias, dezenas de visitantes percorrem este trilho costeiro e, durante a época alta, esse número ascende facilmente às centenas.
O desafio de preservar a autenticidade
O reconhecimento internacional trouxe uma crescente procura turística. Actualmente, mais de 500 visitantes passam - na época alta- diariamente pelas Fontainhas.
Para Vítor Monteiro, o turismo representa uma oportunidade importante para o desenvolvimento económico da comunidade, mas alerta para os riscos associados ao crescimento descontrolado.
A sua principal preocupação é a construção de edifícios modernos que possam descaracterizar a aldeia. Com a melhoria dos acessos, receia que aumente o interesse de investidores externos, comprometendo a autenticidade que distingue as Fontainhas.
O fongo: um sabor que atravessa gerações
Entre as tradições mais emblemáticas das Fontainhas encontra-se o fongo, uma especialidade gastronómica profundamente ligada às celebrações da Páscoa.
Na casa de Dona Antónia, de 90 anos, descobrimos uma receita artesanal transmitida de geração em geração. A preparação começa com banana madura esmagada, à qual se juntam sal, açúcar, farinha de milho, farinha de mandioca e fermento. Depois de bem amassada, a massa é envolvida em folhas de bananeira.
Dona Antónia aprendeu a confeccionar o fongo quando tinha pouco mais de quarenta anos, ensinada por uma mulher mais velha da aldeia. Desde então, nunca deixou de manter viva esta tradição. Ao contrário das versões mais modernas, preparadas no forno, Dona Antónia continua fiel ao método antigo: o fongo é cozinhado lentamente sobre palha e brasas, uma técnica que lhe confere um sabor e uma textura muito característicos.
Para os habitantes das Fontainhas, o fongo é mais do que um alimento. É um símbolo de identidade, de partilha e de memória colectiva.
Em 2024, esta tradição foi registada pelo Instituto do Património Cultural de Cabo Verde, integrando o processo de valorização do património cultural imaterial da aldeia. - Na madrugada de 11 de Agosto de 2025, uma tempestade de intensidade excepcional atingiu Cabo Verde, provocando oito mortos e um rasto de destruição nas ilhas de São Vicente, Santo Antão e São Nicolau. Quase um ano depois, as marcas da tragédia ainda permanecem. Raquel Melício, agricultora que perdeu toda a sua exploração agrícola, recomeça lentamente a actividade, enquanto Elídio Gomes da Luz, que viu o táxi arrastado para o mar, continua à espera da indmenização. Duas histórias que revelam o impacto humano dos fenómenos meteorológicos extremos num dos países mais vulneráveis às alterações climáticas.
Há quase um ano, Cabo Verde foi palco de uma das maiores tragédias provocadas por condições meteorológicas extremas dos últimos anos. Na madrugada de 11 de Agosto de 2025, as ilhas de São Vicente, Santo Antão e São Nicolau foram atingidas por chuvas torrenciais que deixaram um rasto de destruição, provocaram oito vítimas mortais e alteraram profundamente a vida de centenas de famílias.
Em São Vicente, caíram cerca de 163 milímetros de chuva em apenas uma hora, o equivalente a aproximadamente 81,5% da precipitação média anual da ilha. A violência da tempestade destruiu habitações, arrastou viaturas, danificou estradas e devastou explorações agrícolas, evidenciando a crescente vulnerabilidade do arquipélago perante os fenómenos climáticos extremos.
"O mais importante era estarmos vivos"
Entre as pessoas afectadas está Raquel Melício, antiga profissional de saúde que, meses antes da tragédia, tinha decidido dedicar-se à agricultura. O projecto familiar incluía a produção de tomate e papaia , um investimento construído ao longo de vários meses de trabalho.
Naquela noite, Raquel, o marido e os filhos permaneceram dentro de casa enquanto a tempestade se intensificava.
"Começámos a ouvir um barulho estranho. Havia relâmpagos constantes e percebíamos que muita coisa estava a cair. Estávamos em pânico. A certa altura, o meu marido disse apenas: 'Raquel, vamos rezar, porque já não temos mais nada para fazer'."
Pouco depois, a água começou a invadir a habitação "vi a água entrar pela porta. Lá fora já tinha cerca de um metro de altura e começou a passar pelas fissuras. Ficámos aterrorizados. Não sabíamos o que fazer."
Raquel recorda que quando amanheceu, conseguiu finalmente sair de casa e o primeiro sentimento foi de alívio.
"Nem pensei no que tinha sido destruído. A única coisa que senti foi que estava viva. Olhámos uns para os outros e dissemos: 'Ainda bem que estamos vivos'.
Um investimento perdido numa única noite
A força da chuva e do vento destruiu a exploração agrícola. Três estufas foram arrasadas, cerca de 600 plantas de papaia desapareceram, o poço que abastecia a exploração ficou coberto por cinco metros de lama e toda a vedação caiu.
"Foi um momento de terror", confessa
Quase um ano depois, a reconstrução avança lentamente. Nas estufas começam novamente a crescer tomates e morangos, enquanto os primeiros produtos já voltam a chegar aos clientes. Apesar da recuperação gradual, todo o investimento está a ser suportado exclusivamente pela família.
"Estamos a reconstruir devagar, pouco a pouco, aproveitando os materiais que conseguimos recuperar. A agricultura não tem seguros. Estamos a reconstruir com as nossas poupanças."
Para Raquel, recuperar da tragédia exigiu muito mais do que recursos financeiros.
"No início é preciso ter muita força de vontade e muita resiliência. É um choque enorme. Mas também sabemos que, se ficarmos parados, nada muda."
A tempestade deixou igualmente um receio permanente sempre que se aproxima o mês de Agosto.
"Hoje penso duas vezes antes de fazer novos investimentos. O meu marido mostrou-me equipamentos agrícolas, mas eu disse-lhe para esperarmos primeiro que Agosto passe."
A exploração aposta na agricultura hidropónica, um sistema que permite reutilizar a água através de um circuito fechado, reduzindo significativamente o consumo de um recurso escasso em Cabo Verde.
Contudo, este modelo implica novos desafios.
"Temos de investir num gerador. Se faltar a electricidade, podemos perder toda a produção."
Um táxi levado pelo mar
Também Elídio Gomes da Luz viu a sua vida mudar naquela madrugada. Taxista em Mindelo, perdeu uma das viaturas que garantia o sustento da família. Na véspera da tempestade, tinha regressado da ilha de Santo Antão sem qualquer indicação de que se aproximava um fenómeno daquela dimensão. Um dos seus automóveis ficou estacionado junto a uma bomba de combustível.
Durante a noite, a chuva transformou completamente a cidade e ao amanhecer, encontrou um cenário devastador.
"As pessoas diziam que mais abaixo estava tudo destruído. Fui a pé procurar o carro. O carro foi parar ao mar. Não foi só o meu. Quase todos os carros que estavam estacionados naquele local foram arrastados."
Apesar da dimensão dos prejuízos, Elídio afirma que nunca conseguiu recuperar financeiramente.Segundo explica, a seguradora recusou assumir os danos, considerando tratar-se de um fenómeno natural. Quanto ao apoio prometido pelo Governo, continua à espera.
"Disseram que iam ajudar. Algumas pessoas receberam apoio, mas quem teve perda total, como eu, até hoje não recebeu nada."
Alterações climáticas agravam vulnerabilidade
Cabo Verde continua entre os pequenos Estados insulares mais expostos aos efeitos das alterações climáticas. A irregularidade da precipitação, associada ao aumento da frequência e intensidade dos fenómenos meteorológicos extremos, coloca desafios crescentes à agricultura, às infra-estruturas e à economia local.
As histórias de Raquel Melício e de Elídio Gomes da Luz ilustram a realidade vivida por muitas famílias cabo-verdianas: perderam praticamente tudo numa única noite, mas continuam a reconstruir as suas vidas com os próprios recursos, enfrentando um futuro marcado pela incerteza e pela ameaça de novas tempestades. - Na madrugada de 11 de Agosto de 2025, uma tempestade de intensidade excepcional atingiu Cabo Verde, provocando oito mortos e um rasto de destruição nas ilhas de São Vicente, Santo Antão e São Nicolau. Quase um ano depois, as marcas da tragédia continuam bem visíveis. Raquel Melício perdeu toda a exploração agrícola e tenta recomeçar a actividade. Já Elídio Gomes da Luz viu o táxi ser arrastado para o mar e continua à espera da indemnização. Duas histórias que ilustram o impacto humano dos fenómenos meteorológicos extremos num dos países mais vulneráveis às alterações climáticas.
Há quase um ano, Cabo Verde foi palco de uma das mais graves tragédias provocadas por condições meteorológicas extremas da sua história recente. Na madrugada de 11 de Agosto de 2025, as ilhas de São Vicente, Santo Antão e São Nicolau foram atingidas por chuvas torrenciais que deixaram um rasto de destruição, provocaram oito mortos e alteraram profundamente a vida de centenas de famílias.
Em São Vicente, caíram cerca de 163 milímetros de chuva em apenas uma hora, o equivalente a cerca de 81,5% da precipitação média anual da ilha. A violência da tempestade destruiu habitações, arrastou viaturas, danificou estradas e devastou explorações agrícolas, evidenciando a crescente vulnerabilidade do arquipélago aos fenómenos meteorológicos extremos.
"O mais importante era estarmos vivos"
Entre as pessoas afectadas está Raquel Melício, antiga profissional de saúde que, meses antes da tragédia, tinha decidido dedicar-se à agricultura. O projecto familiar incluía a produção de tomate e papaia , um investimento construído ao longo de vários meses de trabalho.
Naquela noite, Raquel, o marido e os filhos permaneceram dentro de casa enquanto a tempestade se intensificava.
"Começámos a ouvir um barulho estranho. Havia relâmpagos constantes e percebíamos que muita coisa estava a cair. Estávamos em pânico. A certa altura, o meu marido disse apenas: 'Raquel, vamos rezar, porque já não temos mais nada para fazer'."
Pouco depois, a água começou a invadir a habitação "vi a água entrar pela porta. Lá fora já tinha cerca de um metro de altura e começou a passar pelas fissuras. Ficámos aterrorizados. Não sabíamos o que fazer."
Raquel recorda que quando amanheceu, conseguiu finalmente sair de casa e o primeiro sentimento foi de alívio.
"Nem pensei no que tinha sido destruído. A única coisa que senti foi que estava viva. Olhámos uns para os outros e dissemos: 'Ainda bem que estamos vivos'.
Um investimento perdido numa única noite
A força da chuva e do vento destruiu a exploração agrícola. Três estufas foram arrasadas, cerca de 600 plantas de papaia desapareceram, o poço que abastecia a exploração ficou coberto por cinco metros de lama e toda a vedação caiu.
"Foi um momento de terror", confessa
Quase um ano depois, a reconstrução avança lentamente. Nas estufas começam novamente a crescer tomates e morangos, enquanto os primeiros produtos já voltam a chegar aos clientes. Apesar da recuperação gradual, todo o investimento está a ser suportado exclusivamente pela família.
"Estamos a reconstruir devagar, pouco a pouco, aproveitando os materiais que conseguimos recuperar. A agricultura não tem seguros. Estamos a reconstruir com as nossas poupanças."
Para Raquel, recuperar da tragédia exigiu muito mais do que recursos financeiros.
"No início é preciso ter muita força de vontade e muita resiliência. É um choque enorme. Mas também sabemos que, se ficarmos parados, nada muda."
A tempestade deixou igualmente um receio permanente sempre que se aproxima o mês de Agosto.
"Hoje penso duas vezes antes de fazer novos investimentos. O meu marido mostrou-me equipamentos agrícolas, mas eu disse-lhe para esperarmos primeiro que Agosto passe."
A exploração aposta na agricultura hidropónica, um sistema que permite reutilizar a água através de um circuito fechado, reduzindo significativamente o consumo de um recurso escasso em Cabo Verde.
Contudo, este modelo implica novos desafios.
"Temos de investir num gerador. Se faltar a electricidade, podemos perder toda a produção."
Um táxi levado pelo mar
Também Elídio Gomes da Luz viu a sua vida mudar naquela madrugada. Taxista em Mindelo, perdeu uma das viaturas que garantia o sustento da família. Na véspera da tempestade, tinha regressado da ilha de Santo Antão sem qualquer indicação de que se aproximava um fenómeno daquela dimensão. Um dos seus automóveis ficou estacionado junto a uma bomba de combustível.
Durante a noite, a chuva transformou completamente a cidade e ao amanhecer, encontrou um cenário devastador.
"As pessoas diziam que mais abaixo estava tudo destruído. Fui a pé procurar o carro. O carro foi parar ao mar. Não foi só o meu. Quase todos os carros que estavam estacionados naquele local foram arrastados."
Apesar da dimensão dos prejuízos, Elídio afirma que nunca conseguiu recuperar financeiramente.Segundo explica, a seguradora recusou assumir os danos, considerando tratar-se de um fenómeno natural. Quanto ao apoio prometido pelo Governo, continua à espera.
"Disseram que iam ajudar. Algumas pessoas receberam apoio, mas quem teve perda total, como eu, até hoje não recebeu nada."
Alterações climáticas agravam vulnerabilidade
Cabo Verde continua entre os pequenos Estados insulares mais expostos aos efeitos das alterações climáticas. A irregularidade da precipitação, associada ao aumento da frequência e intensidade dos fenómenos meteorológicos extremos, coloca desafios crescentes à agricultura, às infra-estruturas e à economia local.
As histórias de Raquel Melício e de Elídio Gomes da Luz ilustram a realidade vivida por muitas famílias cabo-verdianas: perderam praticamente tudo numa única noite, mas continuam a reconstruir as suas vidas com os próprios recursos, enfrentando um futuro marcado pela incerteza e pela ameaça de novas tempestades.
Sobre Ciência
Uma vez por semana, os temas que marcam a actualidade científica são aqui descodificados.
Site de podcast