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Planeta Verde

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    Em ano de recordes climáticos, pauta ambiental desaparece da campanha eleitoral no Brasil

    17/09/2026
    As eleições de 2026 no Brasil ocorrem em um ano marcado por enchentes e ciclones no sul e sudeste do país, enquanto o risco de uma nova seca extrema ameaça o norte. No mundo, recordes sem precedentes de temperaturas foram registradas no hemisfério norte e os desastres climáticos, como as enchentes no Nepal e no Tibete, dão mais uma amostra da desregulação do clima. Mesmo assim, a pauta ambiental desapareceu da campanha eleitoral, a poucas semanas do encontro dos eleitores brasileiros com as urnas.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    O vazio é reflexo dos próprios programas de governo apresentados pelos candidatos. Dos seis principais nomes, apenas o atual mandatário, Luiz Inácio Lula da Silva (coligação da esquerda liderada pelo PT), traz uma proposta à altura do desafio climático. Para os demais cinco aspirantes a presidente – Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema –, a questão é colocada de forma vaga, sem detalhes sobre aspectos importantes como a redução de emissões de gases de efeito estufa.
    A campanha eleitoral ocorre em meio à maior crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), que monopoliza as atenções da imprensa no país. Mas isso não significa que o eleitor brasileiro menospreze a importância do combate às mudanças climáticas. Pesquisas acadêmicas já demonstraram que os fenômenos extremos influenciam o voto.
    “Eu acho que o que está faltando para aumentar a convicção do voto ‘verde' é esse candidato que incorporou a questão colocar a discussão no cotidiano das pessoas. As chuvas, os eventos extremos, etc., fazem parte do nosso cotidiano das pessoas e isso tem que estar na boca dos candidatos a presidente do Brasil”, pontua Leila da Costa Ferreira, professora de sociologia ambiental da Unicamp. "Quando se fala disso, fica uma coisa que parece estratosférica, parece que é em outro planeta. Não é: é aqui no seu quintal, na sua cidade e no seu estado, no seu país – e é global”, afirma.
    Eleitor se importa com a crise climática 
    Um levantamento realizado pelo instituto Ipsos a pedido do Observatório do Clima – rede de quase 200 organizações socioambientais – acaba de mostrar que 91% dos brasileiros consideram “importante” que os candidatos façam propostas para enfrentar as mudanças climáticas; para 62%, essa é uma questão “muito importante”.
    “Com todas as crises políticas que nós tivemos, e também as atuais, houve um desvio da preocupação do eleitor em relação a essa questão. Só que esse desvio é péssimo, porque essa discussão é política, é social e tem a ver com as questões da nossa vivência contemporânea”, frisa Ferreira.
    O Observatório do Clima passou um pente fino nos programas de governo dos principais candidatos e na atuação parlamentar dos que já exerceram no Legislativo. O resultado é que não apenas a pauta ambiental é quase inexistente, como a maioria dos presidenciáveis trabalha no sentido contrário, de negar ou rejeitar a importância do assunto.
    “Eu acho que a explicação para isso é que a maioria das candidaturas são ligadas ao campo da direita ou da extrema direita. Você tem muitos candidatos que acham que a crise climática, o furacão, a seca, a enchente, é uma questão ideológica, que eles podem negar e que, ao negar, não vai acontecer”, sublinha o secretário-executivo do OC, Márcio Astrini. “Quando o presidente da República vira as costas para a realidade, ele não trata do assunto. Ele não toma medidas para proteger a população, que fica totalmente entregue às circunstâncias.”
    Risco para o meio ambiente e a Amazônia 
    O principal opositor de Lula no pleito, o senador Flávio Bolsonaro, nem mesmo reconhece a existência de uma crise do clima, e menciona sete propostas “antiambientais”, como ampliar a infraestrutura de petróleo e liberar a controversa técnica do fracking para a extração do óleo. Em sua participação na série de entrevistas com os candidatos no Jornal Nacional, da TV Globo, o filho do ex-presidente minimizou a ação humana como causadora dos “eventos climáticos extremos”, como preferiu se referir às mudanças do clima.
    Entretanto, a pesquisa Ipsos revelou que 87% dos eleitores concordam que a crise climática está provocando secas, chuvas intensas e ondas de calor. Para 79%, o tema deve ser uma prioridade do próximo governo, “mesmo que implique custos econômicos”.
    A narrativa de Flávio Bolsonaro antecipa um eventual governo focado em desregulamentações ambientais para facilitar atividades como agricultura, pecuária e mineração – muitas vezes em detrimento do meio ambiente e das populações locais.
    “Não me surpreenderia se ele seguisse os passos do pai e que o Brasil amanhã se veja fora do Acordo de Paris, virando as costas para qualquer agenda de clima”, diz Astrini. “É extremamente preocupante: refazer o que o Bolsonaro exercitou durante o seu período presidencial é a gente decretar que nós vamos, por exemplo, empurrar a Amazônia para uma situação de colapso.”
    Compromissos internacionais e papel do Congresso 
    O próximo presidente terá o desafio de manter os compromissos internacionais assumidos pelo país, a começar pelo Acordo de Paris. Caberá ao futuro mandatário assegurar o corte de 1,2 bilhão de toneladas de CO2 equivalente e o fim do desmatamento ilegal em todos os biomas até 2030, além de restaurar ao menos 12 milhões de hectares de vegetação nativa.
    Para esses e outros objetivos essenciais para que o país proteja a população, a biodiversidade e os ecossistemas, a nova configuração do Congresso também será decisiva. "Não existe nenhum outro grupo de pessoas no Brasil hoje que trabalhe de forma tão intensa contra o meio ambiente do que o Congresso brasileiro. É dia e noite retrocessos sendo votados lá”, ressalta Astrini.
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    'Mutirão' na Amazônia tenta salvar botos de nova seca com chegada do El Niño

    10/09/2026
    Foi uma das imagens mais marcantes da seca recorde na Amazônia, em 2023 e 2024: centenas de botos não sobreviveram à última ocorrência do fenômeno climático El Niño, que, associado ao aumento das temperaturas no planeta, levou à morte em massa de um dos animais mais simbólicos do bioma. Agora, com o fenômeno voltando a se configurar com uma intensidade ainda maior, instituições, governos e comunidades locais se mobilizam para que a tragédia ambiental não se repita.
    Da última vez, mais de 300 botos não resistiram a uma temperatura que chegou quase aos 41 ºC nos lagos Tefé e Coari, no Amazonas. O caso, com repercussão internacional, ilustrou um drama que se multiplicou em diversos outros lagos amazônicos, mais vulneráveis à alta dos termômetros, à seca e à redução dos níveis de oxigênio na água.
    Milhões de peixes morreram, com impacto nos ecossistemas e também na alimentação e na economia locais, à base da pesca.
    "Os lagos são o ambiente mais vulnerável a esses eventos de seca, porque o rio tem um fluxo muito contínuo. Ele é fundo, não vai secar completamente. O rio, por ter essa turbulência, em uma velocidade alta, não esquenta da mesma maneira”, explica o pesquisador Ayan Fleischmann, engenheiro ambiental do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em Tefé.
    Os alertas da Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada à ONU, sobre a chegada de um novo El Niño, desta vez “muito forte”, ampliaram a vigilância na região, em um contexto em que os recordes de calor continuam a ser batidos. A entidade antecipa que, nessas condições, pelo menos um ano entre 2026 e 2030 será o mais quente jamais registrado – marca que hoje é de 2024.
    Outros fatores do aquecimento 
    "Não é só o El Niño que justificou isso. A gente teve outros elementos importantes na origem dessa seca, como o aquecimento de parte do Oceano Atlântico Tropical Norte, diferente do El Niño, que aquece parte do Pacífico”, acrescenta Fleischmann. "Tudo indica que agora vai ser um El Niño muito forte, mas que tende a afetar mais a seca do ano que vem [na Amazônia]. A gente está na expectativa de que não gere uma seca tão forte nesse período de seca de 26, entre setembro, outubro e novembro.”
    O pesquisador coordena o projeto Lagos Sentinela da Amazônia, lançado em 2025 para a prevenção de uma nova catástrofe ambiental em cinco principais lagos dos rios Solimões e Amazonas. O programa conta com a participação ativa de cerca de 50 comunidades locais nos estados do Amazonas e Pará, que atuam na troca de informações – como alterações no comportamento dos animais – e na resposta imediata a eventuais anomalias. 
    O objetivo é identificar com antecedência quando a situação se aproximar de um estado crítico e coordenar a reação para proteger os ecossistemas e populações. O acesso à água potável é uma das consequências mais dramáticas para ribeirinhos e moradores de áreas de várzea em períodos de seca extrema.
    Monitoramento intenso da água e do clima 
    Por enquanto, os níveis da água, da temperatura e da oxigenação estão normais, indica Fleischmann, depois de um ano em que as cheias até superaram os números habituais.
    "A gente tem em dois pontos do lago sensores automáticos de temperatura da água, oxigênio dissolvido, que medem esses parâmetros de dez em dez minutos em várias profundidades do lago. Depois, em cinco comunidades, a gente tem temperatura de água sendo monitorada junto com as escolas das comunidades e também com sensores automáticos”, detalha.
    "Temos duas estações meteorológicas, que medem, de cinco em cinco minutos, o vento, a velocidade do vento, direção do vento, a chuva, a temperatura do ar, a umidade do ar. A gente ainda tem seis pontos do lago que a gente monitora mensalmente, e aí já são mais de 30 parâmetros físico-químicos e biológicos. Ou seja, a gente chega nessa nova seca com uma análise bastante avançada de como é o estado do lago, a normalidade dele”, complementa. 
    Medidas de emergência
    O pesquisador sublinha que é impossível impedir uma nova mortalidade de botos, peixes e outros animais, uma vez que o aquecimento dos lagos não pode ser contido. Entretanto, medidas como o redirecionamento das espécies para áreas menos afetadas se mostraram eficazes no último episódio de seca – algo que poderá se repetir, com o apoio técnico do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), habilitado para este tipo de operação.
    "Essa imprevisibilidade do clima é um fator presente agora. Isso traz, por um lado, muito medo, mas, por outro, traz uma certa tendência de mobilização em direção a uma adaptação maior”, salienta.
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    Na COP da Desertificação, Brasil apresenta metas e EUA lideram oposição a novo marco global

    27/08/2026
    A 17ª Conferência da ONU de Combate à Desertificação, na Mongólia, chega à reta final em um impasse sobre a adoção de um instrumento internacional que envolva os países nesta pauta após 2030. Apesar da seca e ondas de calor recordes que afetam o hemisfério norte, os países desenvolvidos, com os Estados Unidos à frente, se opõem a um acordo diplomático à altura do problema.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    Realizada a cada dois anos, a COP da Desertificação dá destaque para as regiões mais esquecidas do sul do globo – a conferência chegou a ter o apelido de “COP dos pobres”. Entretanto, as mudanças do clima estão ameaçando os solos e levando seca a muitos outros lugares, o que acabou por reforçar a importância da reunião.
    O próprio Brasil, que costumava participar timidamente do evento, desta vez desembarcou em Ulaanbaatar com uma delegação recorde de cerca de 100 pessoas, incluindo representantes do Ministério da Agricultura. As áreas de clima semiárido aumentaram, em média, cerca de 75 mil km² por década no país, conforme dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O processo de aridez é mais avançado na Caatinga e em partes do Cerrado.
    “Me parece que alguns setores e países passam a olhar para essa conferência com um olhar um pouco mais de atenção, porque sabem que, se a gente seguir nessa rota de perda da capacidade produtiva, avançando na degradação da terra e no processo de desertificação, também haverá um prejuízo do ponto de vista das economias globais, da segurança alimentar, da disponibilidade de água”, constata Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
    Ameaça de retrocesso 
    Com grandes áreas ameaçadas pelos efeitos da seca, os Estados Unidos participam da conferência. Trata-se da única das três grandes convenções ambientais da ONU da qual Washington não se retirou. No entanto, os americanos mantêm uma postura de bloqueio que ameaça uma das principais expectativas do evento na Mongólia: adotar um marco global para o enfrentamento da seca, a exemplo dos que existem para as mudanças climáticas e a biodiversidade.
    “Tem um contexto geopolítico que está alterando as decisões do multilateralismo de um modo geral. Eu tenho muita dúvida se nós vamos conseguir construir um instrumento vinculante”, lamenta Pires. “A diplomacia do Brasil segue com o cuidado de não perder aquilo que nós já avançamos na COP16, em Riad, na Arábia Saudita. O que nós estamos buscando é não retroceder ao que já foi decidido pelas partes.”
    A discussão sobre o financiamento das medidas de combate à desertificação, em especial nos países pobres, é um dos principais focos de atrito nas negociações. Enquanto as nações africanas têm pressa por soluções, as desenvolvidas alegam que já disponibilizam bilhões em recursos para a descarbonização das economias.
    O Brasil tem defendido um melhor equilíbrio nos investimentos internacionais, de modo que as verbas também beneficiem a conservação e regeneração dos solos. A COP17 da Desertificação se encerra nesta sexta-feira (28), ao fim de duas semanas de reuniões entre os 197 países participantes.
    Brasil apresenta metas
    O governo brasileiro formalizou no evento as metas do país para a pasta, mais de 10 anos depois da adoção do primeiro compromisso global sobre o tema. O objetivo será beneficiar 367 milhões de hectares de terras com políticas de preservação ou neutralização do processo de degradação.
    Entre as medidas, estão a demarcação de territórios indígenas e de unidades de conservação, além de programas de combate a incêndios e de promoção da agricultura sustentável. Um dos primeiros desafios para a implementação será a captação de recursos, aponta Carlos Magno de Moraes (Brasil), coordenador executivo do Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá, na Caatinga, e observador da COP17.
    “O Brasil coloca uma meta bastante ambiciosa, ficou entre os top 20 de mais ambição. Tem alguns recursos alocados, e é importante também puxar os bancos para essa conversa, só que a gente não tem um fundo que destine recursos para a degradação. É algo que a gente tem sugerido”, aponta Moraes. “Mesmo assim, eu tendo a acreditar que o Brasil, que está entre as 10 economias do mundo, tem a obrigação de destinar recursos nacionais para isso.”
    De acordo com dados oficiais, cerca de 28% do território brasileiro apresentam algum nível de degradação e mais de 55 milhões de hectares já apresentam tendência à deterioração, com impacto na vida de 39 milhões de pessoas no país.
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    COP da Desertificação na Mongólia: seca pode atingir 75% da população mundial e desafia também o Brasil

    17/08/2026
    Mudanças climáticas, desmatamento, práticas agrícolas inadequadas e expansão das monoculturas estão acelerando a degradação dos solos em diversas regiões do planeta. Para discutir soluções para essa crise ambiental crescente, representantes de governos, cientistas, organizações da sociedade civil e do setor privado participam da COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), aberta nesta segunda-feira (17) e que acontece até 28 de agosto em Ulan Bator, na Mongólia. 
    Menos conhecida do que as grandes conferências internacionais sobre clima e biodiversidade, a COP da Desertificação busca chamar atenção para um problema que afeta diretamente a segurança alimentar, a disponibilidade de água e os meios de subsistência de bilhões de pessoas.
    A desertificação não é o avanço do deserto, como explica Jean-Luc Chotte, pesquisador emérito do Instituto Francês de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) e especialista em solos. "É a degradação dos solos, a deterioração de suas propriedades físicas, químicas e biológicas, observada em áreas de climas áridos, semiáridos e subúmidos secos. Mas estes lugares não estão desertos: ali vivem agricultores, pastores, muita gente. O termo desertificação é, portanto, complicado", completa.
    Sob o lema "Restaurar as terras, restaurar a esperança", a conferência ocorre em um contexto alarmante. Cerca de 40% das áreas terrestres do planeta apresentam algum grau de degradação, afetando diretamente 3,2 bilhões de pessoas. A cada ano, aproximadamente 100 milhões de hectares de terras saudáveis e produtivas são perdidos, com prejuízos econômicos estimados em US$ 880 bilhões. 
    As projeções também preocupam. Segundo dados apresentados no âmbito da Convenção, até 2050 a seca poderá atingir três quartos da população mundial. Já a partir de 2030, cerca de 700 milhões de pessoas poderão ser deslocadas em consequência dos efeitos da escassez de água e da degradação dos ecossistemas. 
    Para Tamsir Mbaye, pesquisador do Instituto Senegalês de Pesquisa Agrícola, o evento da Mongólia acontece em um momento decisivo.
    "A COP17 acontece num momento em que a degradação das terras se tornou uma ameaça global, com consequências diretas para a segurança alimentar, a disponibilidade de água e os meios de subsistência de milhões de pessoas."
    Após uma COP16 que terminou sem grandes avanços em Riad, na Arábia Saudita, há dois anos, Mbaye considera que chegou o momento de transformar compromissos em ações concretas. Segundo ele, a degradação dos solos assume características diferentes conforme o nível de desenvolvimento dos países. Nas economias mais ricas, ela é frequentemente mascarada pelo uso intensivo de fertilizantes e outros insumos agrícolas. Já nos países mais pobres, especialmente na África Subsaariana, a baixa produtividade e o difícil acesso a esses recursos aumentam a vulnerabilidade das populações rurais.
    Apesar do cenário preocupante, o pesquisador destaca que existem soluções comprovadas. A Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação estima em cerca de US$ 1 bilhão por dia os investimentos necessários para restaurar os solos degradados no mundo.
    "Será preciso restaurar as árvores, os solos e os sistemas agrícolas. Se olharmos para o exemplo do Senegal, temos experiências promissoras. Os resultados mostram que, ao associar a pesquisa, o poder público e outros atores, como as ONGs, é possível restaurar os solos e melhorar a renda das populações", afirma. "Restaurar os solos não é apenas proteger o meio ambiente. É investir na paz, na resiliência e no desenvolvimento."
    A avaliação é compartilhada por Sandra Rulliere, vice-responsável pela Divisão de Agricultura, Desenvolvimento Rural e Biodiversidade da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD). Segundo ela, os custos da restauração são elevados, mas os retornos econômicos justificam amplamente os investimentos.
    "Os investimentos necessários são enormes, mas têm retorno econômico. Dados da Convenção de Combate à Desertificação indicam que cada dólar investido na restauração de terras degradadas gera entre sete e trinta dólares em benefícios."
    Para a especialista, recuperar áreas degradadas significa responder simultaneamente a vários desafios globais.
    "Investir na saúde dos solos é investir na segurança alimentar; é investir no clima, porque os solos armazenam carbono; e é investir na nossa capacidade de adaptação às mudanças climáticas. Uma terra saudável resiste melhor aos eventos climáticos extremos", analisa.
    Ela destaca ainda o papel dos solos na retenção de água. "Quando um solo consegue captar e conservar água por ser rico em matéria orgânica, essa água pode ser devolvida às plantas, aumentando sua capacidade de crescimento e produção."
    Brasil leva experiência do Semiárido para a COP17
    O Brasil participa da COP17 com a maior delegação de sua história em uma conferência da ONU dedicada ao combate à desertificação. Mais de 100 representantes do governo federal, da comunidade científica, de organizações da sociedade civil e do setor privado foram enviados à Mongólia. 
    A delegação brasileira pretende destacar experiências desenvolvidas no Semiárido, especialmente na Caatinga, o bioma nacional mais vulnerável à desertificação. O país também instalou um Pavilhão Brasil na área oficial da conferência para apresentar políticas públicas, projetos de pesquisa e iniciativas de restauração ecológica.
    A preocupação brasileira é respaldada pelos números. Atualmente, cerca de 18% do território nacional está localizado em áreas suscetíveis à desertificação, e aproximadamente 39 milhões de pessoas vivem em regiões afetadas pelo fenômeno. 
    Além de compartilhar experiências de adaptação às secas e recuperação de áreas degradadas, o Brasil busca reforçar o debate sobre segurança hídrica e alimentar, dois temas cada vez mais associados aos efeitos das mudanças climáticas e da degradação dos solos.
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    O cheiro também polui: livro francês evidencia impacto de poluições sensoriais nos ecossistemas

    30/07/2026
    Os excessos de luz e sons artificiais, mas também de odores estranhos à natureza, têm ganhado espaço no balanço de impacto ambiental das atividades humanas. Os sons e cheiros podem ter consequências tão nefastas aos ecossistemas quanto a iluminação noturna, estudada há mais tempo pela ciência.
    Os danos de uma atividade ou empreendimento vão muito além dos efeitos físicos e diretos no ambiente, como a derrubada de árvores e a contaminação de rios. É o que mostra o ecólogo francês Romain Sordello, autor de pesquisas que se transformaram no livro "Poluições sensoriais: face oculta da nossa pegada ecológica?".
    “Se pegamos o exemplo de uma estrada, vemos que existe um rastro físico associado ao asfalto, que é claramente definido. Mas há também uma marca sensorial ainda mais extensa, envolvendo a iluminação pública, os faróis dos carros, o ruído dos motores, os odores como os gases de escapamento dos veículos”, explica.
    “Todos esses fenômenos se propagam pelo ambiente e pela paisagem, irradiando-se a partir da fonte emissora por ondas ou partículas. Esse impacto pode se estender por centenas de metros, ou até mesmo quilômetros de distância da fonte”, complementa.
    Vaga-lumes ameaçados
    Já faz mais de 10 anos que o pesquisador do Museu de História Natural de Paris estuda a poluição luminosa, cujo efeito é fatal para alguns tipos de insetos — mas ainda é pouco levado em conta nas decisões de iluminação dos espaços públicos, principalmente nas cidades.
    “As mariposas ficam ‘presas’ pela luz dos postes: elas voam em círculos em volta da luz a noite toda e morrem de exaustão, pelo superaquecimento das lâmpadas, por se chocarem contra elas”, indica.
    No Brasil, uma das principais vítimas são os vaga-lumes: a luz artificial afeta a comunicação e a reprodução destes besouros bioluminescentes, que correm risco de extinção em 30 anos, alertam pesquisadores.  
    Os impactos negativos da iluminação nas cidades são conhecidos há mais de um século – e foram apontados pela primeira vez por astrônomos, cujo trabalho de observação do espaço é diretamente afetado.
    “O problema é como você utiliza a luz artificial. A gente usa de modo excessivo e sempre muito mal instalado. A luz acaba indo para cima da linha do horizonte e para além das áreas para as quais ela foi planejada, e aí ocorre o efeito de apagamento das estrelas”, detalha Tânia Dominici, doutora em Astronomia e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). “Além disso, como a gente vem descobrindo nas últimas décadas, tem um impacto muito grande na biodiversidade e na saúde humana”.
    Sensibilidades de espécies são distintas das de humanos
    O mais grave, salienta Romain Sordello, é que as poluições sensoriais só são levadas a sério pelos decisores quando afetam os humanos — enquanto plantas e animais têm sensibilidades diferentes das nossas à luz, aos sons e aos odores.
    A luz desempenha papel fundamental no desenvolvimento dos vegetais. Junto com os sons, serve de guia para milhões de espécies se localizarem, se comunicarem, se alimentarem ou se protegerem, durante o dia como à noite.
    Para outras, é o olfato o sentido mais importante, que acaba perturbado por odores dispersados no ambiente pelos humanos, como agrotóxicos, lixo e indústrias. O óxido de nitrogênio, por exemplo, altera os aromas florais e prejudica a polinização pelos insetos.
    Mas a poluição olfativa começa antes mesmo da dispersão de novos odores, explica o pesquisador: ela se inicia no momento da intervenção humana em um ambiente, que interfere na produção natural de odores pelas plantas e os solos. A simples modificação de uma paisagem enfraquece os seus cheiros originais, importantes para os seres vivos que nela habitam.
    Noção de ‘sobriedade’ minimiza impactos
    O ecólogo salienta que não apenas os ecossistemas terrestres são atingidos, mas também os aquáticos e aéreos. Algumas espécies terão mais facilidade para se adaptar, enquanto outras entrarão em declínio e até em risco de vida.
    “Para mim, o principal é o conceito de sobriedade, moderação: tentar minimizar o nosso impacto, agir com sensatez quanto à forma como utilizamos os recursos. Iluminar as áreas o mínimo possível e apenas quando necessário, quando alguém passa pelo local”, sublinha o pesquisador francês. “Quanto a ruídos e odores, estamos falando dos processos industriais, do planejamento do uso do solo e da nossa mobilidade, incluindo o uso de automóveis. Essa reflexão pode nos levar a desafiar práticas, hábitos e comportamentos em uma ampla gama de setores, da agricultura à indústria”.
    O autor nota que, por enquanto, nenhum país é referência na dimensão transversal das poluições sensoriais, que podem ter maior potencial de dispersão no ambiente do que a poluição física. O combate às perturbações luminosas avançou bastante, principalmente na Europa, com a noção de corredores ecológicos noturnos que procuram respeitar padrões luminosos menos invasivos. A França é considerada na vanguarda da questão, introduzindo também a noção de corredor ecológico sonoro em cidades como Lille.
    No Brasil, o tema ainda é emergente, lamenta Tânia Dominici, membro da Rede Céus Estrelados do Brasil. “As pessoas ficam muito surpresas ao descobrir esses outros tipos de poluição que não aquela das águas, do ar, sobre a qual a gente está mais acostumado a conversar. É sempre um choque”, relata a astrônoma. “Mobilizar as pessoas passa por uma outra questão, que é a cultural. A gente vive num sistema que exige que sejamos produtivos e consumidores o tempo inteiro”.
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