PodcastsPlaneta Verde

Planeta Verde

Planeta Verde
Último episódio

52 episódios

  • Planeta Verde

    No Pantanal, COP15 das espécies migratórias destaca declínio de animais ‘sem fronteiras’

    26/03/2026
    A vida delas é viajar: as espécies migratórias percorrem milhares de quilômetros entre continentes em busca de alimento, água, locais de reprodução ou condições climáticas adequadas. Mas as intervenções humanas na natureza e as mudanças do clima ameaçam sua sobrevivência. Algumas populações, como os peixes de água doce, sofreram um declínio de 81% nos últimos 50 anos.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    Nesta semana, o Brasil recebe mais de 130 países para a 15ª Conferência da ONU sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres. O evento acontece no emblemático Pantanal, a maior planície alagável do planeta e um dos principais refúgios de biodiversidade do país.
    Menos badalada que as Conferências do Clima, esta COP15 tem o desafio de proteger os corredores migratórios desses animais, que desconhecem fronteiras. Em outras palavras, de nada adianta um país garantir o trânsito das espécies se, no país vizinho, elas não encontrarem um ambiente equilibrado e seguro para seguir seu caminho.
    Nas Américas, são três principais rotas: a do Atlântico, a do Pacífico e a Central. “A gente precisa entender que não pode trabalhar sozinho. As aves, assim como toda a biodiversidade migratória, não reconhecem fronteiras de países: elas passam por todos eles e acabam nos conectando”, observou Raquel Carvalho, gerente do Programa Aves Limícolas da organização SAVE Brasil. “O que a COP nos mostra é o sentimento de conexão que as aves nos proporcionam. Se a gente não cuidar de cada ponto desses de parada, elas não conseguem fechar seus ciclos.”
    Declínio em alta
    No começo de março, a ONU revelou um relatório preocupante: 49% das espécies migratórias estão em declínio, 5% a mais do que há dois anos. Elas são vítimas de alterações de seus habitats, das mudanças climáticas, da caça e da pesca.
    À luz dos avanços do conhecimento científico sobre migrações, um dos objetivos da conferência é atualizar as duas listas de espécies protegidas pela Convenção das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias, em vigor desde 1979. Uma se refere aos animais ameaçados de extinção e a segunda inclui os que precisam de cuidados dos países para serem preservados.
    “Discutir essa lista é muito importante, porque, ao classificar uma espécie ou ajustar essa lista, você está definindo prioridades de atuação”, explicou o presidente da conferência, João Paulo Capobianco, em coletiva de imprensa em Campo Grande.
    “O segundo ponto importante são as ações consertadas. Se há uma espécie X que passa por 10 países, esses 10 países precisam definir como vão atuar, de forma integrada, para que essa espécie sobreviva. São propostas já aprovadas em outras convenções e que agora serão analisadas”, detalhou.
    Falcão-peregrino, toninha, baleia jubarte
    O Brasil, país megadiverso, possui o segundo maior número de espécies de aves do mundo, e 126 passam pelo território brasileiro em suas rotas migratórias, como o falcão-peregrino. Nos mares e rios, não é diferente: são centenas de peixes e mamíferos, como a toninha, o menor golfinho registrado, que migra entre o Brasil, o Uruguai e a Argentina, e as baleias-jubarte, que encontram em Abrolhos o local ideal para se reproduzir.
    Outro desafio é garantir que o licenciamento ambiental de grandes obras de infraestrutura leve em consideração as rotas de passagem de animais. Ainda restam lacunas importantes de conhecimento.
    “Se vai se licenciar algum empreendimento, como uma barragem ou hidrelétrica que vá impactar áreas úmidas, por exemplo, ele tem que passar por todo um protocolo já estabelecido. O Brasil tem uma legislação muito boa sobre isso, mas precisamos conhecer o mapeamento das áreas importantes para essas espécies migratórias”, frisou Carvalho.
    Ampliação de Unidades de Conservação
    A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, salientou que, no âmbito da negociação entre os países, o gargalo do financiamento continua sendo um desafio. “A comunidade internacional tem dificuldade em relação ao financiamento, seja para o clima, para a biodiversidade, contra a desertificação ou para as espécies migratórias”, ressaltou.
    “A gente tem acordos internacionais de aportes de recursos para enfrentar esses graves problemas ambientais, mas eles, infelizmente, não foram cumpridos”, disse Marina.
    A COP15 também representa uma oportunidade para o país ampliar, no plano doméstico, as medidas de proteção desses animais. Na abertura do evento, no domingo (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a criação ou ampliação de três Unidades de Conservação: a de Córrego dos Vales, no Cerrado de Minas Gerais, a do Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense e a da Estação Ecológica de Taiamã, no Mato Grosso.
    A conferência se encerra nesta sexta-feira (27). O Brasil exercerá por três anos a presidência do evento, até a COP16.
  • Planeta Verde

    Impacto ambiental da guerra: ‘Não haverá nem vencedor, nem vencido: apenas vítimas da poluição’

    19/03/2026
    Na medida em que o conflito no Oriente Médio se estende, desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, aumentam também as preocupações sobre o impacto ambiental da guerra. As instalações de petróleo no Golfo têm sido um dos alvos prioritários de bombardeios, gerando uma chuva tóxica com efeitos ainda inestimáveis na região.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    As “chuvas ácidas” ocorridas após a explosão de milhares de toneladas de óleo levaram a ONU a emitir um alerta sobre os riscos à saúde dos iranianos. Os poluentes como enxofre e compostos de nitrogênio, liberados na explosão, se dispersam na atmosfera.
    Quando entram em contato com as partículas de água presentes no ar, esses químicos se transformam em ácidos tóxicos, como o sulfúrico e o nítrico. As precipitações levam os poluentes de volta para o solo e a água, causando danos prolongados à agricultura e à qualidade da água.
    Jacky Bonnemains, diretor da organização ecologista francesa Robin des Bois, lembra que o Golfo Pérsico é um mar quase fechado, particularmente vulnerável à contaminação por vazamentos de petróleo e restos de navios militares ou petroleiros atacados.
    Biodiversidade em risco
    “As atividades dos pescadores artesanais, que são milhares na região e contribuem para a segurança alimentar de todos os países litorâneos, quaisquer que sejam os beligerantes, estarão condenadas por muito tempo”, comentou. “A biodiversidade, da qual tanto se fala em tempos de paz e tão pouco em tempos de guerra, também será prejudicada a longo prazo. São tartarugas marinhas, dugongos, baleias-jubarte, cachalotes, peixes, pepinos-do-mar. É uma verdadeira catástrofe ambiental e sanitária.”
    No total, mais de 2.000 espécies marinhas vivem nessas águas quentes, às quais se somam 100 espécies de corais. Além disso, os manguezais e os prados marinhos da região são zonas de reprodução para peixes e crustáceos.
    As aves marinhas também são ameaçadas: o óleo destrói a impermeabilidade de suas penas, provocando hipotermia e afogamentos. A migração delas também pode ser perturbada pelo ruído das explosões e pelas colunas de fumaça tóxica.
    Poluição abala acesso já restrito à água
    Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos, Omã e Arábia Saudita – as consequências serão sentidas muito além do Irã, embora o país seja o mais diretamente atingido, explica Doug Weir, diretor da ONG britânica Observatório de Conflitos e Meio Ambiente (CEOBS). A entidade já identificou cerca de 300 incidentes envolvendo riscos ambientais desde o início da guerra.
    “O Irã enfrenta uma seca prolongada há muitos anos. Já sofre forte estresse hídrico, portanto qualquer poluição adicional nos aquíferos e nos recursos hídricos iranianos é particularmente problemática, porque eles já são escassos”, ressaltou. “Outro ponto: grandes derramamentos de petróleo no Golfo Pérsico podem afetar as usinas de dessalinização de água — e cerca de 100 milhões de pessoas ao redor do Golfo dependem dessas usinas.”
    As dezenas de navios bloqueados na região, carregando cerca de 21 bilhões de litros de petróleo, constituem uma "bomba-relógio ecológica" alertou a organização Greenpeace.
    Balanço ambiental esquecido
    Nos bombardeios mais recentes, Washington visa a ilha de Kharg, terminal que concentra 90% das exportações de petróleo bruto iraniano. As infraestruturas foram preservadas até o momento, mas o cenário pode mudar de acordo com o andamento do conflito.
    “Fala-se muito do balanço econômico desta guerra, e muito pouco do balanço humano, que não conhecemos. Mas o despertar após o choque petrolífero será bastante violento, em relação às consequências ambientais”, insistiu Bonnemains. “Com o passar do tempo, não haverá nem vencedor, nem vencido: haverá apenas vítimas da poluição.”
    A gestão desses danos é outro ponto de preocupação. A história mostra que, ao final de conflitos armados, a descontaminação das áreas atingidas fica longe do topo das prioridades.
    “O que vemos na maioria das áreas afetadas por conflitos é que o dano ambiental muitas vezes não é tratado posteriormente. A recuperação ambiental é cara, e países que estão saindo de um conflito têm menos capacidade de proteger o meio ambiente”, observou Doug Weir.
    “São necessários recursos e assistência técnica da comunidade internacional, o que nem sempre acontece. E, no caso do Irã, embora o país tenha enorme capacidade e expertise em questões ambientais, também possui um governo muito fechado e centralizado, que pode não ser particularmente transparente sobre a necessidade de limpar o ambiente ao redor desses locais”, frisou.
  • Planeta Verde

    Salinização dos solos obriga regiões costeiras a reinventarem a agricultura

    26/02/2026
    A interação entre um clima mais quente e práticas agrícolas prejudiciais está tornando as regiões costeiras cada vez menos férteis. A salinização dos solos se expande nos cinco continentes e, nas zonas áridas e semiáridas, coloca em risco cultivos tradicionais.   
    Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mais de 10% da superfície terrestre é afetada pelo fenômeno. A presença de sal é natural na terra e na água. No entanto, a crise climática e a má gestão humana têm levado a desequilíbrios que abalam a fertilidade destes solos.
    Um bilhão de hectares do planeta estão ameaçados nas próximas décadas. As zonas diretamente em contato com o mar são as mais vulneráveis – é onde a água dos lençóis freáticos costuma ser mais explorada para o consumo humano, abrindo espaço para a substituição pela água salgada. Em entrevista à RFI, o hidrologista Claude Hammecker, especialista no estudo dos solos do instituto francês de Pesquisas para o Desenvolvimento (IRD), afirma que as mudanças climáticas pioram este contexto.
    “Por um lado, o aumento dos períodos de seca, e consequentemente o aumento da evaporação, contribuirá para agravar a salinização em áreas onde o sal já está presente. Mas quando a evaporação é forçada, devido ao uso de água dos lençóis freáticos para a irrigação, a acumulação de sal aumenta”, sublinha. “Além disso, com a diminuição das chuvas, que naturalmente ‘lavam’ o excesso de sal no solo, teremos um acúmulo ainda maior deste sal”, complementa.
    Litoral do Brasil e desmatamento
    Nas regiões mais áridas, os governos locais recorrem aos lençóis freáticos para compensar a falta de chuva. Mas mesmo onde as precipitações são abundantes, a prática é comum, observa o especialista.
    “Eu trabalhei no Brasil, e todas as grandes megalópoles localizadas no litoral brasileiro consomem quantidades enormes de água, bombeando-a diretamente dos aquíferos e contribuindo para o que se chama de ‘beijo de sal’. A água doce é extraída e gradualmente substituída pela do mar, tornando a água cada vez mais salgada”, aponta.
    Em seu relatório mais completo sobre o tema, publicado há pouco mais de um ano, a FAO alerta que 16% das águas subterrâneas já são afetadas pelo fenômeno, tornando uma área ainda maior em torno da costa pouco propensa à agricultura.
    Outros processos naturais de salinização também podem ocorrer, relacionados a antigos depósitos marinhos transformados em camadas geológicas. Conforme as movimentações da água ou escavações, essas camadas, formadas há milhares de anos, podem emergir à superfície.
    Entretanto, este processo pode se acelerar com a degradação do meio ambiente pela ação humana. “Na Tailândia, temos antigos depósitos de sal enterrados profundamente no subsolo e que, à primeira vista, não representavam uma ameaça para a agricultura. Mas eles ressurgiram devido ao desmatamento, que fez com que a água da chuva se infiltrasse muito mais profundamente, subisse à superfície e criasse um lençol freático salgado, que afeta as plantações”, salienta Hammecker.
    Reviravolta nas culturas tradicionais
    Entre os países que mais sofrem com a salinização, estão Argentina, China, Estados Unidos, Rússia e Irã. Nos países mediterrâneos, o problema tem se acentuado nos últimos anos, tanto no norte da África, quanto na Europa.
    No sul da França, a região de Camargue exemplifica os desafios. Tradicional produtora de sal e de culturas que se desenvolvem bem em solos arenosos e salinizados, como o arroz, Camargue agora sofre os efeitos dos excessos de calor e das secas, mas também da expansão do próprio sal, com o aumento do nível do mar. Os prejuízos dos viticultores se acumulam, e muitos produtores de arroz agora têm preferido se voltar para cereais menos dependentes de irrigação.
    A necessidade de mudança causa tensões, observou à RFI o ecólogo Raphaël Mathevet, ligado ao respeitado Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) da França. O pesquisador tem tentado convencer os agricultores a experimentar culturas resilientes às novas condições, como o melão ou o tomate.
    “Temos um choque cultural. Estamos falando de agricultores que vêm desenvolvendo a Camargue há muito tempo graças à irrigação, às escavadeiras e à tecnologia, e que se consideram os próprios criadores desta Camargue que precisa ser protegida hoje”, detalha. “Eles se enxergam como um contraponto aos cientistas e ativistas que dizem que, ao contrário, devemos aproveitar esta crise para pensar em uma recomposição territorial, repensar o desenvolvimento econômico do delta, em outras culturas e em outras formas de atuação.”
    Especialistas da Parceria Global para o Solo estimam que, nos países mais afetados pela salinização, as perdas de produtividade podem chegar a 72% para o arroz, 68% para o feijão, 45% para a cana-de-açúcar e 37% para o milho. O impacto é maior nos países em desenvolvimento, menos preparados para lidar com o problema.
  • Planeta Verde

    Presidência da COP30 abrirá consultas para ter 'mapa do caminho' sobre fósseis antes de novembro

    18/02/2026
    A presidência brasileira da Conferência do Clima da ONU em Belém convida os países e organizações internacionais a contribuírem, a partir da semana que vem, com a elaboração de um “mapa do caminho internacional” para o afastamento dos combustíveis fósseis, os principais causadores do aquecimento global. O presidente da COP30, André Corrêa do Lago, realiza um giro internacional para reunir apoio técnico para a proposta, lançada pelo Brasil em novembro passado.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    Depois de se encontrar com a autoridade climática da ONU (UNFCCC) na Turquia, para iniciar os preparativos para a próxima COP, em Antalya, o embaixador esteve na sede da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO), em Roma. Na sequência, esteve em Paris para reuniões na Agência Internacional de Energia e com a Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena).
    O primeiro passo é compilar os dados mais recentes para fundamentar uma proposta equilibrada, no contexto em que a maioria dos países ainda tem uma forte dependência das fontes fósseis de energia, explicou Corrêa do Lago à RFI.
    "A primeira parte são os dados. A maior parte deles já está publicada, mas há muitas publicações sobre diversos temas e nós queremos que o mapa do caminho internacional seja um instrumento de desmistificação dos problemas relacionados a isso e de simplificação do grande volume de informações existentes”, indicou. "Todas as instituições relacionadas à energia podem contribuir.”
    Incluir a Opep na conversa
    O embaixador também busca agregar visões divergentes sobre o tema, incluindo a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep). A entidade, que reúne as economias que mais se opõem à conversa sobre o fim do petróleo (como os países do Golfo e a Rússia), defende que o foco deve ser a redução das emissões de gases de efeito estufa em geral, e não direcionada a setores específicos. Além disso, sustenta que esse objetivo deve ser atingido mediante ações voluntárias dos países.
    "É muito importante que a gente incorpore as diferentes visões de diferentes organismos. Não é que um deles vá guiar o processo, até porque, desses organismos todos, só um é das Nações Unidas, o relacionado à energia atômica [AIEA]”, observou o diplomata.
    Na COP30 em Belém, os grandes produtores de petróleo exerceram forte pressão para que, nos textos finais da conferência, não houvesse menção aos combustíveis fósseis.
    Dimensão política e dimensão diplomática das COPs
    A partir da semana que vem, os países-membros da Convenção do Clima também estarão convidados a dar suas contribuições sobre o tema. Corrêa do Lago salienta que o Brasil teve sucesso em trazer de volta às negociações a discussão sobre a redução da dependência dos fósseis, que se tornou um assunto “central para a preparação da COP31".
    “O presidente Lula sabia que a COP era a ocasião política de se falar disso. Mesmo que o tema não estivesse formalmente dentro da agenda, é um tema incontornável do ponto de vista político”, disse o embaixador. "Por isso que eu sempre tento separar a dimensão diplomática das COPs. A diplomacia é a arte do possível."
    O objetivo de Corrêa do Lago é propor um documento antes da próxima conferência, sediada na Turquia, com negociações presididas pela Austrália. A ideia de um roteiro para o afastamento dos fósseis está longe de um consenso: dentro do próprio Brasil, os diferentes ministérios envolvidos na discussão (Casa Civil, Minas e Energia, Meio Ambiente e Fazenda) não conseguiram convergir sobre as diretrizes básicas dentro do prazo de 60 dias estabelecido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva logo após o evento em Belém. Pela complexidade do assunto, o roteiro brasileiro provavelmente não estará pronto até a próxima COP.
    "Todos os países estão divididos quando discutem esse tema, porque há interesses econômicos imensos, desafios de financiamento, desafios tecnológicos e muitos outros. A ambição desse mapa do caminho internacional é contribuir para que a transição seja feita de maneira racional e nos termos aprovados pela Convenção do Clima em Dubai: de forma justa, ordenada e equilibrada”, salientou o presidente da COP30.
    Testes antes da COP31
    Dois grandes encontros preparatórios da próxima conferência serão determinantes para a diplomacia brasileira testar a abertura dos 195 países à ideia de um roteiro para o afastamento do petróleo e do carvão: a reunião multilateral em Bonn (Alemanha), em junho, e a Pré-COP, a ser realizada em outubro em uma ilha do Pacífico, semanas antes do evento em novembro.
    Além disso, em abril, a Colômbia e a Holanda organizam uma conferência incluindo os países que demonstraram disposição em avançar nesse tema durante a COP de Belém. Corrêa do Lago avaliou a iniciativa como “muito importante”, mas ressaltou que ocorre em paralelo ao processo oficial de negociações diplomáticas da ONU.
    O evento na Colômbia estará focado na queda da produção de petróleo, enquanto que, para a presidência brasileira da COP30, a prioridade é avançar na discussão sobre o consumo, passando pela eletrificação das economias e o desenvolvimento das energias renováveis.
  • Planeta Verde

    Ao menosprezar danos à natureza, empresas ignoram riscos para elas mesmas, alerta relatório

    10/02/2026
    Ao contribuírem para a perda da biodiversidade do planeta, empresas mundo afora estão cavando a própria cova – e não fazem nada, ou muito pouco, para reverter os riscos que pesam sobre elas mesmas. Um relatório publicado nesta segunda-feira (9) apresenta as conclusões de três anos de pesquisas sobre uma relação que é, ao mesmo tempo, de dependência e de destruição.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    O estudo da respeitada Plataforma Intergovernamental de Ciência e Política para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), conhecido como “o IPCC da biodiversidade”, alerta que todos os negócios dependem da natureza. Entretanto, as atividades econômicas resultaram na redução de 40% dos estoques do capital natural a partir de 1992, aponta o texto.
    “O crescimento da economia global ocorreu à custa de uma imensa perda de biodiversidade, que agora representa um risco sistêmico crítico e generalizado para a economia, a estabilidade financeira e o bem-estar humano”, afirma o documento, elaborado por especialistas de 75 países, incluindo consultas a comunidades indígenas e tradicionais.
    O texto adverte empresas, corporações e o setor financeiro que o modo sobre o qual estruturam as suas atividades – majoritariamente predatórias – impulsiona o declínio da natureza e “nem sempre é compatível com um futuro sustentável”.
    “O fundamental é que os especialistas detalharam a exposição das empresas à perda de biodiversidade, como elas podem medir o seu impacto e as suas dependências, e assim entender os riscos. É a primeira vez que atingimos esse nível de detalhamento, com esta quantidade de especialistas e com a presença de 150 governos”, resumiu Matt Jones, um dos três copresidentes do trabalho, apresentado na conclusão da 12ª sessão plenária do IPBES, em Manchester (Inglaterra). “Com uma clareza inédita, o relatório ajuda as empresas a entenderem o que elas precisam fazer agora.”
    Dependência direta ou indireta – mas todas dependem
    Essa dependência pode ser óbvia, como na agricultura ou na mineração, ou nem tão clara à primeira vista, como nas tecnologias digitais.
    “Pode ser de uma maneira muito direta, como no caso do agronegócio, que depende diretamente dos solos, de polinização, de água etc., mas também cadeias indiretas. Uma empresa que está desenvolvendo inteligência artificial depende de recursos que estão na nuvem e necessariamente precisa de uma série de componentes primários que vêm da natureza, depende de água para resfriar os seus servidores” explicou à RFI Rafael Loyola, coordenador de um dos capítulos do relatório e diretor da Fundação Brasileira de Desenvolvimento Sustentável. “Quando as empresas começarem a entender que o risco de perda de biodiversidade e de degradação da natureza é um risco material, a mentalidade começa a mudar e as empresas vão começar a internalizar esses custos.”
    Conforme o estudo, em 2023, os fluxos globais de financiamento público e privado com impactos negativos diretos sobre a natureza chegaram a US$ 7,3 trilhões. Desse valor, um terço foram gastos públicos em subsídios que são prejudiciais ao meio ambiente.
    No caso do Brasil, Loyola ressalta que os incentivos à agricultura de baixo carbono representam uma minoria do pacote total de recursos disponibilizados para o setor.
    “A gente está falando em cortar subsídios que geram impacto ou pelo menos reorientá-los, para que não sejam, em sua maioria, atividades impactantes. Estamos falando eventualmente de taxas e benefícios fiscais para as atividades positivas”, exemplificou. “O governo tem um papel estruturante, que é importante para o mercado.”
    Desconhecimento afeta a proteção
    A mensuração dos danos é insuficiente, contribuindo para que os danos à natureza sejam minimizados tanto em termos políticas públicas, quanto na alocação de investimentos por bancos e o setor financeiro. Menos de 1% das empresas reporta seus impactos sobre a biodiversidade, nota o estudo.
    “Elas vão ter que avaliar isso na cadeia de valor que têm e comparar opções entre os seus fornecedores, por exemplo. E obviamente, em um nível mais alto das empresas, olhar para a sua estratégia e ver se ela gera valor porque está alinhada à natureza, e não porque está degradando a natureza. Assim eles poderão redirecionar os seus investimentos”, complementa o especialista brasileiro.
    Em 2023, apenas US$ 220 bilhões foram direcionados para atividades que contribuem para a conservação e restauração da biodiversidade – ou seja, 3% do valor mobilizado em atividades prejudiciais à natureza. Muitas dos negócios que apostam na conservação de espécies não têm conseguido gerar receitas suficientes para prosperarem, indica o texto.
    Recomendações
    O estudo traz uma lista de 100 recomendações para agentes públicos, privados e da sociedade civil promoverem uma “mudança transformadora”, ressaltando que um dos problemas é a falta de informação sobre as oportunidades que o caminho da preservação representa.  
    Medidas como aumentar a eficiência, reduzir o desperdício e as emissões de CO2 beneficiam a biodiversidade. Um maior engajamento junto às comunidades locais, detentoras de conhecimentos tradicionais sobre a natureza, também está entre as recomendações.   
    “Com uma relação respeitosa e apropriada com povos indígenas e comunidades locais, as empresas podem tomar decisões melhores. Existem muitos conhecimentos e dados existentes e as empresas não utilizam como poderiam”, apontou Matt Jones.
    Para Rafael Loyola, o Brasil é um modelo de como é possível adaptar planos de negócios para torná-los sustentáveis e positivos para a natureza, com as cadeias do açaí e da castanha, na Amazônia. Falta, entretanto, dar escala a essas iniciativas.
    “No centro do problema, existe a necessidade de mudança de mentalidade, de se entender que a natureza é um ativo para as empresas e a sociedade, e não um problema. Só que hoje temos um conjunto de condições que fazem com que seja mais lucrativo e mais fácil desenvolver um negócio que tem impacto sobre a natureza do que um que a restaure, a recupere”, disse Loyola. “Tem um papel central do Banco Central e dos bancos de desenvolvimento de, na hora de alocar o investimento, fazer uma diligência muito bem feita e fazer um monitoramento do que está sendo reportado, para que seja possível verificar que o que está sendo dito de fato acontece.”

Sobre Planeta Verde

Entrevistas sobre os temas relacionados ao meio ambiente. Análises dos principais desafios no combate às mudanças climáticas e à poluição. Iniciativas para proteção dos ecossistemas e reflexão sobre políticas de prevenção de catástrofes naturais e industriais.
Site de podcast
Informação legal
Aplicações
Social
v8.8.6| © 2007-2026 radio.de GmbH
Generated: 4/2/2026 - 1:31:18 PM