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Brasil entrega roteiros para países se afastarem de combustíveis fósseis e acabarem com desmatamento
03/11/2026A menos de uma semana do início da 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, na Turquia, o Brasil apresentou nesta terça-feira (3) dois aguardados documentos que buscam manter vivo o debate sobre temas cruciais para o combate ao aquecimento global: o afastamento dos combustíveis fósseis e o fim do desmatamento. A presidência brasileira da COP30, realizada em Belém em 2025, chega ao fim na semana que vem.
Lúcia Müzell, da RFI em Paris
Às vésperas de entregar o bastão para a presidência compartilhada entre a Turquia e a Austrália este ano, a diplomacia do Brasil propõe roteiros voluntários para os países distanciarem os seus sistemas energéticos do petróleo, do carvão e do gás – cujo consumo, sobretudo nos países desenvolvidos, é a principal causa da elevação anormal das temperaturas no planeta.
“A transição para além dos combustíveis fósseis é urgente, inevitável e ainda possível”, ressalta o texto, em referência ao consenso histórico atingido na COP28 em Dubai, em 2023, e que depois foi ignorado pelos 196 países membros da Convenção do Clima das Nações Unidas.
O tema voltou à tona, puxado pelo Brasil, na conferência de Belém, no ano passado. No documento revelado nesta terça, a presidência da COP30 salienta que “o aquecimento de origem humana atingiu 1,37 °C em 2025”, e “o orçamento de carbono restante compatível” com a meta de elevação máxima de 1,5 °C até o fim deste século “está próximo do esgotamento”.
Transição além dos fósseis entra em nova fase
Diante deste diagnóstico, os países precisam converter os compromissos já acordados em políticas nacionais, com aumento da cooperação internacional e do financiamento necessários para a sua implementação de forma “justa, ordenada e equitativa” — discussões que, esperam os diplomatas brasileiros, devem prosseguir na próxima conferência, realizada em Antalya, e nas seguintes.
“O documento não é para ser analisado pelos países. Ele já é da etapa seguinte”, ressaltou o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, em coletiva de imprensa em Brasília. “Esse documento não deixa esquecer que já houve esse consenso e lembra que já temos os instrumentos para avançar nessa implementação”, frisou.
A expectativa é que o texto sirva de preparação para o próximo balanço global das ações dos países contra as mudanças climáticas, a ser apresentado na conferência de 2028, na COP33. “Esse documento é a primeira contribuição para o balanço geral, que começa formalmente agora em Antalya”, apontou Corrêa do Lago.
Ao longo do ano, o diplomata percorreu o mundo para dialogar com os países membros da Convenção do Clima e recebeu propostas de mais de uma centena deles, com vistas à elaboração dos projetos.
Caminhos distintos para um mesmo objetivo
A transição para sistemas energéticos menos emissores de gases de efeito estufa partirá, antes de mais nada, de uma radiografia que os países precisarão fazer sobre a sua própria dependência das fontes fósseis e capacidades de mudança deste cenário.
“Os países não precisam seguir caminhos idênticos para alcançar o mesmo objetivo climático”, sublinha o texto. A COP30 propõe a “Abordagem de Belém de Avaliação da Prontidão”, na qual as nações serão divididas em 12 subgrupos conforme suas semelhanças diante desse grande desafio.
A transição deverá, então, ser estruturada sobre três pilares interdependentes: demanda, em especial dos transportes, indústrias e construções, os maiores focos de emissões pelos países; oferta, visando o declínio gradual da produção de fontes fósseis na medida em que aumentam as energias renováveis; e os sistemas econômicos dos países, que, em sua maioria, ainda têm forte dependência dos recursos oriundos das fontes fósseis ou grandes dificuldades para investir nas transformações.
Brasil sem data para apresentar seu mapa do caminho
O próprio país, entretanto, ainda não divulgou o seu mapa do caminho para o afastamento dos combustíveis fósseis. O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, disse que o projeto, elaborado em conjunto com outros ministérios, como o da Fazenda e das Minas e Energia, “está sendo apresentado para o presidente Lula”, sem dar uma data para a apresentação oficial do texto.
“Essa perspectiva de construir alternativas aos combustíveis fósseis está colocada e sendo ampliada nas políticas desenvolvidas pelo Brasil. Por outro lado, o Brasil tem esse potencial de exploração de petróleo, em um mundo que está ainda em um processo de transição, que será mais ou menos demorado, de acordo com o sucesso de implementação do nosso mapa do caminho [internacional]”, explicou o ministro Capobianco. “É um desafio coletivo da humanidade. Não existe uma perspectiva no curto prazo de se abandonar o uso de combustíveis fósseis, infelizmente.”
A segunda proposta apresentada pela presidência da COP30, relativa ao desmatamento, também oferece a adesão voluntária a um mapa do caminho para as nações detentoras de florestas, principalmente na América do Sul, na África e na Ásia, interromperem a devastação e reverterem a degradação florestal até 2030. Em linhas semelhantes, o roteiro é baseado em cinco frentes de ação: conservação, combate à degradação e ao desmatamento, restauração e manejo sustentável, agrofloresta e bioeconomia.
O texto chama a atenção para a lacuna de financiamento para a adoção de planos contra a derrubada das florestas: em 2023, os fluxos globais para este objetivo foram de US$ 84,5 bilhões, mas as necessidades são estimadas em mais de US$ 300 bilhões anuais até 2030.
Para dar escala a esses valores, o documento propõe medidas financeiras como redirecionamento de capital, acesso de povos indígenas e comunidades locais a recursos, mercados florestais de carbono de alta integridade, instrumentos de dívida e canalização de Direitos Especiais de Saque, além da criação de “taxas de solidariedade”.
“A ideia foi pegar esses dois grandes desafios que temos, quebrá-los em pequenas ações, pequenos pedaços, que podem se transformar em ação. São mapas da implementação, em que a gente vai desde o diagnóstico dos problemas em nível nacional e internacional, para a implementação”, comentou Ana Toni, CEO da COP de Belém, também presente no lançamento das iniciativas.
“Deixamos uma mensagem muito forte: primeiro, a transição é inevitável, então comece a planejar agora e o mais breve possível, porque isso vai ser bom para o seu país, a sua sociedade, a sua economia. E segundo, ela é possível”, complementou.
Sem metas nem obrigações
Em um contexto de fragilidade do multilateralismo, os dois textos não preveem obrigações nem prazos juridicamente vinculantes, assim como não sugerem metas nacionais ou consequências para quem não as cumprir.
Os roteiros são bem-vindos ao manter ativa a agenda de implementação dos compromissos internacionais, mas sua eficácia dependerá de garantir dados quantificáveis e verificáveis e financiamento suficiente.
A proposta de “Abordagem de Belém de Avaliação da Prontidão”, uma autoavaliação nacional, pode, por exemplo, levar governos a minimizarem a sua exposição aos fósseis – no caso dos grandes produtores – ou superestimarem a sua capacidade de adaptação às energias limpas, o que enfraqueceria ou inviabilizaria o mecanismo.
Mesmo assim, organizações como o Observatório do Clima (OC), que reagrupa quase 200 entidades da sociedade civil, saudaram a iniciativa brasileira.
“É uma grande contribuição que a presidência da COP30 nos dá, nesse momento em que estamos ultrapassando o limite global de aquecimento de 1,5°C e que precisamos ter medidas enérgicas para limitar o aquecimento. Acabaram as desculpas”, disse Stela Herschmann, especialista em política climática do OC. “Os países começam, sim, de pontos diferentes, e isso é muito importante do ponto de vista do princípio basilar das conversas climáticas sobre as responsabilidades comuns, porém diferenciadas. Mas todos já podem agir.”
Carolina Pasquali, diretora-executiva do Greenpeace Brasil, afirmou que o mapa do caminho internacional para o afastamento dos fósseis “é um passo crucial para avançar na implementação de uma decisão que já foi tomada na COP28”.
“No entanto, devido ao contexto internacional desafiador, o documento não chega a definir metas claras e a interrupção imediata da expansão de combustíveis fósseis, com restrição à abertura de novas fronteiras exploratórias, como a Amazônia e a Margem Equatorial”, ponderou.
Para a analista de políticas climáticas Fanny Petibon, da organização internacional 350.org, "o roteiro não pode acabar sendo apenas mais um relatório acumulando poeira em uma prateleira”.
“França, Países Baixos e Alemanha já publicaram seus roteiros nacionais, mas eles ficam aquém da ambição que a crise climática exige e da responsabilidade que esses países têm diante dela”, salientou. “A presidência da COP30 estabeleceu os próximos passos de forma clara, e as futuras edições da COP devem manter essa questão no topo da agenda, ano após ano, para que o impulso não se perca.”Quanto vale a biodiversidade? COP17 na Armênia faz balanço de acordo histórico de proteção
19/10/2026Apesar do aumento da importância da preservação da biodiversidade e dos acordos internacionais adotados nos últimos anos, a erosão das espécies não dá sinal de recuo. Nesta semana e na próxima, os quase 200 países membros da Convenção da Diversidade Biológica das Nações Unidas voltam a se reunir para a COP17 sobre o tema, em Yerevan, na Armênia. Na pauta, um primeiro balanço da implementação do histórico acordo de Kunming-Montreal, firmado em 2022.
Lúcia Müzell, da RFI em Paris
O tratado estabeleceu 23 objetivos a serem cumpridos até 2030 para o mundo reverter a perda da natureza, ameaçada pelo aquecimento global. Neste prazo, os países concordaram em proteger no mínimo 30% dos seus territórios marinhos e terrestres.
Nos últimos 50 anos, o tamanho das populações de vertebrados selvagens no mundo diminuiu 73%, segundo recente relatório da organização Fundo Mundial para a Natureza (WWF).
"Estamos chegando à metade do caminho até 2030 e, apesar de alguns avanços, inclusive no Brasil, o mundo ainda não está fazendo o suficiente para cumprir as metas do Marco Global de Biodiversidade", constata Michel Santos, gerente de políticas públicas da entidade no Brasil. "Não basta reconhecer que estamos atrasados. Precisamos de decisões concretas para acelerar a implementação, garantir financiamento adequado, fortalecer as políticas nacionais e melhorar o monitoramento dos resultados", diz ele, que acompanha a conferência na Armênia.
Conectividade ecológica
Para o Brasil, uma das prioridades no evento será incluir a noção da conectividade ecológica. Trata-se de melhor integrar os diferentes mecanismos de proteção – como unidades de conservação e terras indígenas, mas também a vegetação nativa nas propriedades privadas –, para beneficiar as espécies migratórias.
"É uma relação de ganha-ganha, porque os serviços da natureza e as soluções baseadas na natureza dão mais estabilidade, mais segurança a todos os negócios", pontua Rita Mesquita, secretária nacional de Biodiversidade, Florestas e Direitos Animais do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. "Não é apenas o negócio da sociobioeconomia. É também agronegócio, que é um carro-chefe do Brasil, mas que tem uma íntima dependência do funcionamento saudável dos ecossistemas", salienta.
O Brasil, o país mais megadiverso do mundo, abriga entre 15 e 20% das espécies do planeta. Brasília chega a Yerevan tendo adotado uma série de políticas públicas importantes de proteção nos últimos anos, como a sua Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (EPANB).
Entretanto, a lacuna dos recursos para a implementação, estimados num total de R$ 25 bilhões por década pelo MMA, permanece aberta – não só para o Brasil, como para outros abrigos relevantes de biodiversidade, como outras nações sul-americanas, africanas e asiáticas. A meta global por ano, acordada na última COP, é de US$ 200 bilhões até 2030.
"Não conseguiremos reverter a perda de biodiversidade enquanto os recursos destinados à sua conservação forem insuficientes e continuarmos financiando, em grande escala, atividades que degradam a natureza", frisa Michel Santos, da WWF Brasil. "É precisamos mobilizar mais recursos, reformar incentivos prejudiciais e garantir que os mecanismos financeiros respeitem os direitos e reconheçam o papel dos povos indígenas e das comunidades locais."
Bioeconomia e créditos da biodiversidade
Neste contexto, outra discussão em alta na conferência na Armênia é o cálculo do valor da biodiversidade, que inclui os debates sobre a bioeconomia. A chave é estabelecer parâmetros de sustentabilidade, com boas práticas e salvaguardas que garantam a proteção das espécies a longo prazo.
Emerge também o debate sobre a formalização dos "créditos da biodiversidade", ou seja, a possibilidade de comercializar benefícios gerados à natureza ou compensar os danos causados a ela. O Brasil ainda não construiu o seu consenso interno sobre o tema, indica Rita Mesquita.
"Créditos de biodiversidade, ou qualquer outro nome que deem, não vão ter um paralelo com créditos de carbono, porque a biodiversidade é insubstituível. Você tem uma biodiversidade de um lugar, você não vai compensar essa perda em outro lugar, com outra biodiversidade", explica a secretária do MMA. "Eu acho que essa é uma das razões que tem colocado um desafio para avançar a questão do conceito."
A COP 17 sobre a Biodiversidade termina no dia 30 de outubro.Eleição e o 'ponto de não retorno' dos biomas: compromissos ambientais do Brasil até 2030 estão ameaçados
09/10/2026O presidente que subir a rampa do Planalto em 5 de janeiro de 2027 assumirá o cargo em um período determinante para compromissos internacionais assumidos pelo Brasil na pasta ambiental – a começar pelo fim do desmatamento ilegal até 2030. O eventual descumprimento desses objetivos, em um momento em que os efeitos das mudanças climáticas se intensificam no planeta, coloca em risco o futuro dos biomas brasileiros, em especial a Amazônia, e suas populações.
Lúcia Müzell, da RFI em Paris
O professor Carlos Nobre, um dos cientistas do clima mais respeitados do Brasil e do mundo, tem alertado há anos sobre a necessidade de a devastação da Amazônia acabar antes mesmo de 2030. A redução da cobertura vegetal expõe o bioma a um colapso; um ponto a partir do qual a floresta não conseguirá mais se regenerar, e corre o risco de se transformar em uma savana.
"A conexão entre o desmatamento e o aquecimento global está colocando a Amazônia muito próxima do ponto de não retorno”, salienta.
"Se não zeramos o desmatamento, a degradação, o fogo e, ao mesmo tempo, acelerarmos a restauração florestal, até 2040 quatro dos nossos biomas – Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga – passarão do ponto de não retorno. Depois disso, entre 30 e 50 anos, nós vamos perder esses quatro biomas”, explica Nobre, pesquisador sênior no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).
Metas de desmatamento zero e restauração florestal
No principal documento formalizado pelo Brasil junto à ONU, conhecido pela sigla de NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada), o país se compromete a zerar a devastação das vegetações nativas e a restaurar 12 milhões de hectares de florestas no período do mandato do próximo presidente.
"Essa meta não é difícil porque a maior parte do desmatamento no Brasil é ilegal. Com o governo Lula e a entrada da ministra Marina Silva, tivemos a reativação do Ibama, dos programas de combate ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado, e isso fez com que os níveis de desmatamento ficassem em um nível historicamente baixo”, salienta Caroline Medeiros Frasson, diretora-executiva da Laclima, que reúne especialistas em Direito ambiental. "Ou seja, mostra que é muito possível."
Carlos Nobre chama a atenção para o fato de que vários países amazônicos – Colômbia, Equador, Bolívia, Peru – estão sob governos de direita com tendência negacionista climática, o que pode comprometer o esforço conjunto regional de acabar com os desmatamentos. “Como são negacionistas da emergência climática, é difícil imaginar que eles vão zerar rapidamente o desmatamento, como esses países haviam se comprometido em 2023. É um enorme risco que a Amazônia está correndo agora”, reitera o cientista. "É realmente essencial acabar com os desmatamentos, independentemente de quem seja o nosso presidente."
O fim da devastação é uma etapa fundamental para o Brasil atingir outro importante compromisso perante o Acordo de Paris sobre o clima: o de reduzir, até 2030, 43% das emissões de gases de efeito estufa, em relação aos índices de 2005. O corte e a queima da vegetação nativa respondem por cerca de 42% do total de emissões brasileiras, seguidos pela agricultura (29%) e o setor de energia (20%), conforme dados oficiais.
Meta de redução de emissões
"A gente tem uma meta de redução das emissões da nossa economia como um todo, para que a gente chegue em 2030 com 1,2 bilhão de toneladas de CO2 equivalentes. Para se ter uma ideia, só sete países hoje têm mais de 1 bilhão de toneladas emitidas por ano, e nós estamos nesse quadro dos grandes emissores mundiais”, explica Natalie Unterstell, especialista em políticas climáticas do Instituto Talanoa. "A gente está no caminho de cumprir. Por isso que esses próximos anos são fundamentais para a gente poder chegar lá."
Além disso, em outros fóruns ambientais das Nações Unidas, o país também promete proteger 30% das suas áreas terrestres, costeiras e marinhas, com ênfase nas zonas prioritárias para a preservação da biodiversidade, e reabilitar 163 mil km² de terras degradadas – o equivalente a 1,9% do território brasileiro. Para alcançar esses e outros objetivos até 2030, e garantir o cumprimento da legislação ambiental em vigor, recursos financeiros e humanos para políticas públicas não poderão ser interrompidos.
"Se a gente não atingir essas metas, vamos ter um aumento muito exponencial dos riscos de que os eventos extremos, como aconteceram no Rio Grande do Sul e como acontece agora quase todos os anos na Amazônia, de seca dos rios. Vai comprometer, de uma forma muito significativa, vários setores produtivos brasileiros, incluindo o nosso carro-chefe, que é a agropecuária”, ressalta Caroline Frasson.
A diretora-executiva da Laclima observa ainda que as populações mais vulneráveis e de menor poder econômico são “as que mais vão sofrer” se o país descontinuar os esforços que têm sido feitos nos últimos anos.
Mineração, petróleo e riscos na margem equatorial
Outro ponto importante para o próximo mandato presidencial é a regulamentação para a exploração de minerais críticos e terras raras, atividades com alto impacto ambiental, e o avanço dos projetos de exploração de petróleo e gás na margem equatorial do país – outra frente com elevados riscos. As salvaguardas de proteção do meio ambiente e das comunidades, a fiscalização e o cumprimento da legislação serão determinantes para minimizar os impactos e riscos de catástrofes.
Embora tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Flávio Bolsonaro planejem ampliar a exploração destes recursos, a abordagem de ambos é oposta.
Em seu programa de governo, o atual presidente mantém o compromisso com o Acordo de Paris. Já Flávio não menciona as mudanças do clima, relativiza o impacto humano na crise climática e promete reduzir “as amarras ambientais”. O candidato do PL incluiu o fim do desmatamento ilegal no seu programa, mas defende a mineração em áreas preservadas, inclusive em terras indígenas.
Posições como essas levam organizações da sociedade civil a temerem que, se eleito, Flávio possa seguir os passos de Donald Trump e retirar o país do principal tratado internacional para combater o aquecimento anormal do planeta. A saída do Acordo de Paris comprometeria recursos internacionais hoje destinados ao Brasil para a preservação das florestas e da biodiversidade, a exemplo do Fundo Amazônia.
Além disso, programas nacionais destinados à captação de investimentos, como o Fundo Clima, o Eco Invest Brasil e a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP), são condicionados ao respeito a compromissos ambientais.
Congresso ainda mais hostil às pautas ambientais
A preocupação é ainda maior quando se olha para a nova configuração do Congresso, eleito no pleito de 4 de outubro. O PL, hostil às pautas de meio ambiente, terá a maior bancada da Câmara e se tornará a principal força política do Senado.
O Observatório do Clima analisou a próxima legislatura e constatou que 79% dos senadores e 67% dos deputados têm apego baixo ou muito baixo às questões ambientais.
"As nossas leis ambientais brasileiras podem ser mudadas. Há uma preocupação grande de que o Congresso eleito queira mexer no conjunto de salvaguardas que nós temos, e em primeiro lugar a Constituição brasileira de 1988”, alerta Natalie Unterstell. "Ela é a nossa principal fonte de direitos ao meio ambiente equilibrado, no seu artigo 5°, e direitos indígenas, de populações tradicionais e assim por diante, mas ela pode ser alterada”, sublinha a fundadora do Instituto Talanoa.
Para ouvir os principais trechos da entrevista com Carlos Nobre, escute o podcast Planeta VerdeLula e Flávio querem aumentar exploração de petróleo e minerais, mas visões de futuro divergem
01/10/2026O meio ambiente está quase ausente da campanha eleitoral no Brasil. Para a maioria dos presidenciáveis, o tema é sinônimo de uma oportunidade econômica, por meio da exploração dos recursos naturais do país. E se há um consenso entre os principais candidatos que concorrem ao Planalto, é o de que o Brasil deve apostar suas fichas na produção de dois valiosos patrimônios que repousam em seus subsolos: o petróleo e os minerais críticos.
Ao longo do atual mandato do presidente Lula, o assunto causou embates internos no governo e arranhou a liderança climática global que o petista busca assumir. A produção e o consumo de combustíveis fósseis são a principal causa do aquecimento anormal do planeta.
Agora, o candidato Lula, que concorre à reeleição, apresenta um programa de governo prevendo aumento dos investimentos na extração de petróleo e gás, mas também visa a transição energética como impulso para a industrialização. O Brasil prometeu apresentar este ano o seu "mapa do caminho" para o afastamento dos fósseis.
Essa é a principal diferença entre a abordagem de Lula e a do candidato Flávio Bolsonaro, do PL, os favoritos para chegarem ao segundo turno do pleito, conforme antecipam as pesquisas.
"Ele sempre entende a questão do petróleo como algo que, em algum momento não muito distante no tempo, a transição para as renováveis irá ocorrer", observa Roberto Schaeffer, professor de Economia da Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), integrante da Academia Brasileira de Ciências e ex-membro do IPCC, o painel de especialistas da ONU sobre as mudanças climáticas.
"O discurso é muito alinhado a uma janela de oportunidade que se abre para o Brasil agora, enquanto ainda há uma demanda por petróleo no mundo e onde o Brasil pode oferecer esse petróleo", porém sempre chamando a atenção de que a transição energética é importante", complementa.
Diferença de abordagem
Flávio Bolsonaro, o principal candidato da direita, tem planos bem diferentes: não apenas é favorável ao aumento da produção de petróleo no Brasil, incluindo na margem equatorial, como quer liberar a controversa prática do fracking, proibida em vários países para a extração de gás não convencional.
"Com o candidato Flávio, os detalhes nunca são fornecidos. A questão de mudança climática nunca é mencionada, e inclusive a gente vê nas entrelinhas uma postura meio negacionista em relação ao problema", frisa o professor da UFRJ.
O especialista reconhece que a exploração do óleo pode ser uma oportunidade econômica para o Brasil, na medida em que a demanda global de petróleo ainda será alta nas próximas décadas. Entretanto, ao contrário do que afirmam os dois candidatos, o Brasil, um dos maiores exportadores do produto, "não precisa" aumentar o volume produzido hoje para garantir a sua própria segurança energética.
Sem garantias sociambientais
Schaeffer pontua que, independentemente de quem sair vencedor na eleição, essa nova frente de exploração, no norte do país, acarreta riscos socioambientais que hoje não estão descartados.
"A história do mundo é que a riqueza advinda dessa exploração normalmente não reverteu em benefício das populações que sofreram os grandes impactos. Essa questão não é bem discutida por nenhum deles, dos possíveis impactos ambientais de acidentes que podem ocorrer e, mais importante ainda, os impactos econômicos e sociais para aquelas regiões", avalia.
Outro argumento que o especialista desmonta é que os recursos do petróleo poderiam financiar a transição energética no país, incluindo os investimentos na eletrificação. Como a Petrobras não é uma estatal, a maior parte dos lucros vai para agentes privados, e não para o governo – embora a atividade aumente a arrecadação de impostos e gere royalties.
"Não é exatamente esse dinheiro que irá financiar a transição energética no Brasil", salienta Schaeffer.
Regulamentação da extração de minerais críticos
Os dois principais candidatos também planejam ampliar a produção de minerais críticos e terras raras. Nos solos brasileiros, estima-se que estejam as segundas maiores reservas mundiais dessas matérias-primas, essenciais para a fabricação de produtos de alta tecnologia e a transição energética das economias para baixo carbono.
O país acaba de aprovar um marco legal para o setor, primeiro passo para a definição das regras de criação da cadeia. Na próxima etapa, a cargo do futuro presidente, serão detalhadas as prioridades, procedimentos e controles da atuação das empresas, incluindo salvaguardas socioambientais e avaliação de impactos. É neste ponto que residem os riscos.
"Para você fazer isso, tem que ser uma coisa bem pensada, porque é uma atividade capital intensiva e ambientalmente muito danosa", adverte o professor. "Não é uma tradição brasileira de planejar as coisas. Você entra de cabeça naquilo sem pensar exatamente todas as consequências."
O pesquisador chama a atenção para a ausência de estratégias de longo prazo para as regiões que abrigam os recursos. Petróleo e minerais são finitos e sua extração ocorre em ciclos de algumas décadas. "Se você não tiver uma preparação bem feita, aquela cidade, aquela região, ela morre e você cria um problema social grave. A miséria se instala", alerta.
Temor de 'entreguismo'
Na campanha, a exploração minerária e seu potencial bilionário para o país entraram em campo sob a bandeira da soberania.
O candidato petista está determinado a criar uma cadeia de valor dos minerais críticos e terras raras no próprio país, para que a etapa do refino, que agrega maior valor ao produto, ocorra no próprio Brasil. A esperança é romper com a dinâmica histórica de o país ser apenas exportador de matérias-primas.
Já para Flávio Bolsonaro, a prioridade é acelerar os procedimentos de licenciamento ambiental, atrair o setor privado e minimizar a atuação do Estado, o que, em um contexto de proximidade ideológica com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, suscita o temor de "entrega" dos recursos naturais brasileiros aos americanos.
"Não há a menor dúvida: o candidato Flávio Bolsonaro parece ser um pouco mais alinhado do que deveria com os interesses americanos", nota Schaeffer. "Há o risco, sim, de ele simplesmente fazer o Brasil ser um grande exportador de minerais, para que outros se apropriem melhor do valor desses minerais."- As eleições de 2026 no Brasil ocorrem em um ano marcado por enchentes e ciclones no sul e sudeste do país, enquanto o risco de uma nova seca extrema ameaça o norte. No mundo, recordes sem precedentes de temperaturas foram registradas no hemisfério norte e os desastres climáticos, como as enchentes no Nepal e no Tibete, dão mais uma amostra da desregulação do clima. Mesmo assim, a pauta ambiental desapareceu da campanha eleitoral, a poucas semanas do encontro dos eleitores brasileiros com as urnas.
Lúcia Müzell, da RFI em Paris
O vazio é reflexo dos próprios programas de governo apresentados pelos candidatos. Dos seis principais nomes, apenas o atual mandatário, Luiz Inácio Lula da Silva (coligação da esquerda liderada pelo PT), traz uma proposta à altura do desafio climático. Para os demais cinco aspirantes a presidente – Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema –, a questão é colocada de forma vaga, sem detalhes sobre aspectos importantes como a redução de emissões de gases de efeito estufa.
A campanha eleitoral ocorre em meio à maior crise institucional envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), que monopoliza as atenções da imprensa no país. Mas isso não significa que o eleitor brasileiro menospreze a importância do combate às mudanças climáticas. Pesquisas acadêmicas já demonstraram que os fenômenos extremos influenciam o voto.
“Eu acho que o que está faltando para aumentar a convicção do voto ‘verde' é esse candidato que incorporou a questão colocar a discussão no cotidiano das pessoas. As chuvas, os eventos extremos, etc., fazem parte do nosso cotidiano das pessoas e isso tem que estar na boca dos candidatos a presidente do Brasil”, pontua Leila da Costa Ferreira, professora de sociologia ambiental da Unicamp. "Quando se fala disso, fica uma coisa que parece estratosférica, parece que é em outro planeta. Não é: é aqui no seu quintal, na sua cidade e no seu estado, no seu país – e é global”, afirma.
Eleitor se importa com a crise climática
Um levantamento realizado pelo instituto Ipsos a pedido do Observatório do Clima – rede de quase 200 organizações socioambientais – acaba de mostrar que 91% dos brasileiros consideram “importante” que os candidatos façam propostas para enfrentar as mudanças climáticas; para 62%, essa é uma questão “muito importante”.
“Com todas as crises políticas que nós tivemos, e também as atuais, houve um desvio da preocupação do eleitor em relação a essa questão. Só que esse desvio é péssimo, porque essa discussão é política, é social e tem a ver com as questões da nossa vivência contemporânea”, frisa Ferreira.
O Observatório do Clima passou um pente fino nos programas de governo dos principais candidatos e na atuação parlamentar dos que já exerceram no Legislativo. O resultado é que não apenas a pauta ambiental é quase inexistente, como a maioria dos presidenciáveis trabalha no sentido contrário, de negar ou rejeitar a importância do assunto.
“Eu acho que a explicação para isso é que a maioria das candidaturas são ligadas ao campo da direita ou da extrema direita. Você tem muitos candidatos que acham que a crise climática, o furacão, a seca, a enchente, é uma questão ideológica, que eles podem negar e que, ao negar, não vai acontecer”, sublinha o secretário-executivo do OC, Márcio Astrini. “Quando o presidente da República vira as costas para a realidade, ele não trata do assunto. Ele não toma medidas para proteger a população, que fica totalmente entregue às circunstâncias.”
Risco para o meio ambiente e a Amazônia
O principal opositor de Lula no pleito, o senador Flávio Bolsonaro, nem mesmo reconhece a existência de uma crise do clima, e menciona sete propostas “antiambientais”, como ampliar a infraestrutura de petróleo e liberar a controversa técnica do fracking para a extração do óleo. Em sua participação na série de entrevistas com os candidatos no Jornal Nacional, da TV Globo, o filho do ex-presidente minimizou a ação humana como causadora dos “eventos climáticos extremos”, como preferiu se referir às mudanças do clima.
Entretanto, a pesquisa Ipsos revelou que 87% dos eleitores concordam que a crise climática está provocando secas, chuvas intensas e ondas de calor. Para 79%, o tema deve ser uma prioridade do próximo governo, “mesmo que implique custos econômicos”.
A narrativa de Flávio Bolsonaro antecipa um eventual governo focado em desregulamentações ambientais para facilitar atividades como agricultura, pecuária e mineração – muitas vezes em detrimento do meio ambiente e das populações locais.
“Não me surpreenderia se ele seguisse os passos do pai e que o Brasil amanhã se veja fora do Acordo de Paris, virando as costas para qualquer agenda de clima”, diz Astrini. “É extremamente preocupante: refazer o que o Bolsonaro exercitou durante o seu período presidencial é a gente decretar que nós vamos, por exemplo, empurrar a Amazônia para uma situação de colapso.”
Compromissos internacionais e papel do Congresso
O próximo presidente terá o desafio de manter os compromissos internacionais assumidos pelo país, a começar pelo Acordo de Paris. Caberá ao futuro mandatário assegurar o corte de 1,2 bilhão de toneladas de CO2 equivalente e o fim do desmatamento ilegal em todos os biomas até 2030, além de restaurar ao menos 12 milhões de hectares de vegetação nativa.
Para esses e outros objetivos essenciais para que o país proteja a população, a biodiversidade e os ecossistemas, a nova configuração do Congresso também será decisiva. "Não existe nenhum outro grupo de pessoas no Brasil hoje que trabalhe de forma tão intensa contra o meio ambiente do que o Congresso brasileiro. É dia e noite retrocessos sendo votados lá”, ressalta Astrini.
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Entrevistas sobre os temas relacionados ao meio ambiente. Análises dos principais desafios no combate às mudanças climáticas e à poluição. Iniciativas para proteção dos ecossistemas e reflexão sobre políticas de prevenção de catástrofes naturais e industriais.
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