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    Acostumado às altas temperaturas, Brasil menospreza riscos de ondas de calor, que têm aumentado

    09/07/2026
    As sucessivas ondas de calor que atingem a Europa, com intensidade e duração jamais vistas, além de inéditas para a época do ano, disparam o alerta sobre a aceleração das mudanças climáticas no mundo – uma advertência que vale também para países acostumados às altas temperaturas, como o Brasil. Especialistas apontam que, por ter um clima tropical, o fenômeno é menosprezado no país e carece de políticas públicas adequadas para ser enfrentado.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    Os episódios designam os períodos de pelo menos cinco dias em que as temperaturas ultrapassam em 5°C ou mais os valores médios registrados em 30 anos, em cada região. As ondas de calor sempre existiram, porém estão se tornando mais frequentes e intensas, devido às mudanças climáticas.
    No Brasil, ainda são tratadas como "normais" para o clima tropical e têm até apelidos como “calorão”, “veranico de outono” ou “de inverno”. Entretanto, pouco se ouve falar sobre as mortes que elas causam, ao contrário da Europa.
    "Em países tropicais como o Brasil, uma onda de calor significa temperaturas muito elevadas e, normalmente, umidade muito baixa. Essa é uma condição bastante prejudicial para a saúde”, explica Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagens do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
    "Em todos os estados brasileiros, desde o Rio Grande do Sul até o Rio Grande do Norte, nos últimos 40 ou 50 anos, o número de ondas de calor está aumentando sistematicamente. As mais perigosas talvez sejam aquelas da primavera, em setembro, outubro e novembro, que são meses típicos da estação seca, quando a umidade está muito baixa”, salienta.
    El Niño potencializa o aquecimento 
    Essa condição climática pode levar à proliferação de incêndios florestais, que afetam a qualidade do ar e provocam doenças respiratórias. Além disso, costuma ocorrer em momentos de seca em que os reservatórios de água estão mais baixos. A menor evaporação eleva ainda mais as temperaturas, sem falar nos impactos para o consumo humano e a agricultura.
    No Norte e no Nordeste, o aumento do desmatamento provoca ondas de calor mais frequentes e intensas desde 2020, potencializadas por fenômenos naturais como o El Niño, que volta a ocorrer na Terra em 2026. 
    "O El Niño é associado ao aquecimento do Pacífico. O oceano mais quente acaba atuando como se fosse um aquecedor 'nos pés' da atmosfera. É uma fonte de calor”, observa Seluchi. "Nas últimas décadas, tanto a atmosfera quanto os oceanos estão, de alguma forma, trabalhando no mesmo sentido para provocar ondas de calor mais frequentes”.
    120 mil mortes em 20 anos 
    Um estudo inédito publicado pela Fiocruz e pela Universidade da Bahia mostrou o amplo impacto das ondas de calor na saúde dos brasileiros: 120 mil pessoas morreram em decorrência das altas temperaturas nos últimos 20 anos.
    Pela primeira vez, os pesquisadores revisaram os dados de mortalidade e internações por doenças do aparelho circulatório e cardiovasculares no Sistema Único de Saúde (SUS) em quase todos os municípios do país, e compararam as informações com a ocorrência de calor extremo.
    "A gente normaliza esse risco de morrer por causa do calor porque nós somos um país tropical, então parece que nós somos acostumados, mas na verdade o país é muito extenso territorialmente, com perfis climáticos totalmente distintos e com vulnerabilidades também distintas”, afirma Beatriz Oliveira, especialista em saúde pública da Fiocruz e coordenadora do estudo. “A morte ou a internação por calor ocorre, e ela não é banal. O principal ponto é reconhecer isso como um problema de saúde pública”.
    Reduzir a exposição ao calor 
    Os idosos são, de longe, os mais vulneráveis ao calor, tanto para internação quanto ao risco de morte. Na sequência, as crianças e as mulheres completam os três grupos prioritários para políticas públicas nos períodos prolongados de temperaturas extremas.
    Oliveira ressalta que os residentes em cidades pequenas – que compõem a grande maioria dos municípios brasileiros e têm baixa capacidade de adaptação ao calor – são os mais expostos. “As coisas estão acontecendo mais rápido do que a nossa capacidade de agir. A gente tem que procurar estratégias para reduzir a nossa exposição”, frisa a especialista.
    "A gente precisa pensar em cidades, sejam as menores ou maiores, mais arborizadas. Cidades em que suas residências possam ter ventilação, possam ter sombra, e em novos materiais que possam absorver esse calor. Ter transportes públicos de qualidade, com ar-condicionado, e que os locais onde as pessoas esperam o transporte tenham sombra”, exemplifica.
    Registros históricos confirmam tendência de aquecimento 
    Nas últimas semanas, o calor extremo na Europa e também nos Estados Unidos reacendeu na internet a disseminação de teorias alternativas para subestimar o fenômeno, como a de que o planeta poderia estar próximo de um novo período de resfriamento. "Na comunidade científica séria, isso não está previsto”, garante Marcelo Seluchi, doutor em Ciências Meteorológicas pela Universidade de Buenos Aires.
    Ele lembra que os registros históricos dos últimos três séculos reafirmam a tendência de aquecimento da Terra, causado pelas emissões de gases de efeito estufa gerados, principalmente, pela industrialização e demanda global de energia.
    "Ao longo dos séculos, sempre tivemos oscilações do clima, como eras polares, a Pequena Era Glacial, nos séculos 17 e 18, com uma série de invernos mais rigorosos. Mas, se nós observarmos os últimos 100, 120 anos, é muito claro que a temperatura está agora aumentando numa taxa sem precedentes na história – inclusive, a taxa é maior do que a prevista algumas décadas atrás”, adverte Seluchi.
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    Falta de embalagens compostáveis limitam reaproveitamento do lixo orgânico

    25/06/2026
    A redução dos resíduos é um dos grandes desafios do combate à poluição, em especial por microplásticos, que afetam solos, oceanos, ecossistemas e a saúde humana. Na gestão do lixo orgânico, o baixo índice de biodegradabilidade das embalagens freia a expansão da compostagem, inclusive nas grandes economias desenvolvidas.
    Um país como a França gera 10 milhões de toneladas de lixo orgânico que poderia ser transformado em adubo orgânico e usado na fertilização dos solos. Mas na hora de recolher esse material das casas ou empresas, a maioria é desperdiçada: apenas 17% é coletado, e uma quantidade insignificante está embalada corretamente, com material biodegradável.
    Ao entrar em contato com resíduos orgânicos, na presença de oxigênio e umidade, a embalagem compostável se decompõe, sendo "consumida" pelos microrganismos presentes nesse ambiente. Nas usinas de revalorização, a triagem do plástico não compostável encarece o serviço, de modo que, de um total de quase 800 plataformas de compostagem no país, apenas 91 aceitam receber o lixo das famílias.
    Porção pequena de embalagens
     “É realmente muito, muito limitado, visto que existem apenas três aplicações autorizadas: cápsulas de café, saquinhos de chá e etiquetas de frutas e legumes, além de sacolas para resíduos orgânicos, que são tolerados, embora não constem tecnicamente da lista europeia”, explica Emmanuelle Gastaldi, professora associada da Universidade de Montpellier e considerada uma das maiores especialistas da França sobre o tema. 
    A pesquisadora integra uma equipe que, há cinco anos, busca soluções concretas para reduzir o impacto ambiental das embalagens alimentares. "Se você for a outros países, como a Itália, encontrará embalagens de massa, de papel-toalha e muitas outras aplicações."
    O exemplo italiano 
    Na Europa, a Itália é o melhor exemplo nessa questão questão, que se tornou cultural no país: 72% do lixo orgânico das famílias é coletado e levado à compostagem. Na sequência, Noruega, Dinamarca, Luxemburgo e Alemanha promovem uma coleta moderada, entre  30% e 56%. Já em Portugal, Polônia ou Grécia, menos de 10% do lixo é encaminhado a um centro de revalorização.
    "A Itália consome relativamente poucos alimentos ultraprocessados. Creio que há uma ligação direta entre a forma como nos alimentamos e como lidamos com os resíduos”, afirma Gastaldi. "Quando se consome apenas alimentos ultraprocessados, tende-se a não refletir muito sobre essas questões: tudo gira em torno da embalagem que, no fim das contas, será simplesmente incinerada”, observa.
    Prioridade europeia à reciclagem 
    A pesquisadora salienta que, ao contrário do que possa parecer, o custo das embalagens biodegradáveis não é o maior empecilho para o avanço da cadeia. A União Europeia optou por privilegiar as políticas de reciclagem e o reutilização dos resíduos, em vez da compostagem, considerada um nicho específico e limitado da gestão de resíduos. Assim, a Regulamentação Europeia sobre Embalagens obriga que, a partir de 2030, todas as embalagens que circulam no bloco sejam recicláveis.
    Neste contexto, Gastaldi lamenta que o desenvolvimento da cadeia da compostagem, carente de investimentos em pesquisa, tenha sido deixado em segundo plano.
    "Hoje, fabricantes asiáticos têm demonstrado interesse nesses tipos de materiais e estão produzindo, porque não enfrentam as mesmas limitações que nós. O risco é que esse setor específico seja impedido de se sustentar e evoluir”, ressalta.
    "Há muitas questões em torno do desenvolvimento de materiais que chamamos de barreira, para as atmosferas modificadas. O aspecto mais complexo das embalagens de alimentos não é embalar pós, farinhas ou alimentos secos, que podem ser armazenados praticamente em qualquer lugar”, complementa a professora.
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    Sob o silêncio da Fifa, Copa de 2026 será recordista em emissões de CO2

    11/06/2026
    O vencedor da Copa do Mundo de futebol será definido no campo, mas esta edição da competição já tem um título nada honroso a exibir: o de Mundial mais emissor de gases de efeito estufa da história do esporte. Disputada em três países, 16 cidades e com um recorde de 48 seleções, a Copa provocará um uso inédito de transporte aéreo pelas seleções e torcedores – sem falar do volume de dados para as transmissões dos jogos por streaming.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    O alto volume de voos será inevitável não apenas para levar um recorde de 6 milhões de espectadores do mundo todo para os países-sede, Estados Unidos, México e Canadá, como para os deslocamentos internos até os locais das partidas. A distribuição dos jogos desconsiderou o balanço ambiental das distâncias – a maior delas é de mais de 4 mil quilômetros, entre o Estádio Azteca, na Cidade do México, e o BC Place, em Vancouver.
    O resultado é que as emissões geradas pela Copa serão no mínimo o dobro da última edição, no Catar: 7,8 milhões de toneladas de CO₂ equivalentes, avalia um estudo da plataforma internacional de contabilidade de carbono Greenly. Isso corresponde às emissões anuais de um país pobre como Serra Leoa ou de 1,7 milhão de carros a combustível.
    "O que nos impressionou nesta Copa do Mundo é que ninguém falou sobre essa questão. É uma completa negligência, como se as mudanças climáticas não existissem", observa o CEO da plataforma, Alexis Normand.
    Antes da Greenly, outros estudos já haviam alertado para um resultado ainda mais pesado, como o do New Weather Institute e a rede Sport for Climate Action, que antecipa um total de emissões de 9 milhões de toneladas de CO₂.
    Distâncias maiores, por mais gente e mais tempo
    A média da distância da viagem de ida e volta percorrida por cada torcedor nesta Copa será de 19,4 mil quilômetros, contra 13 mil no Catar em 2022. Para piorar, esta edição será 10 dias mais longa e terá nada menos do que o triplo de torcedores do que o último Mundial. As emissões dos transportes representarão, assim, 87% das emissões totais desta Copa, estima a Greenly.
    A maioria das partidas vai ocorrer nos Estados Unidos de Donald Trump, um presidente negacionista climático que, em momento algum da organização do evento, se preocupou em diminuir a sua pegada de carbono. O que chamou a atenção foi o silêncio da Federação Internacional de Futebol (Fifa) sobre o tema, apesar de a entidade ter um objetivo de redução de 50% das emissões de seus eventos até 2030 e de atingir a neutralidade de carbono até 2040.
    Papel da Fifa
    A decisão de aumentar de 32 para 48 equipes participantes, assim como a de estabelecer uma parceria com a gigante petroleira saudita Aramco, não avançam neste esse sentido.
    "Durante a Copa do Mundo do Catar, a Fifa fez algumas confusões porque, depois de prometer que o Mundial seria neutro em carbono, soubemos que ela 'esqueceu' de calcular as emissões indiretas relacionadas ao transporte de passageiros", lembra Normand. "Então, ela disse: 'Não é um problema, porque vamos comprar projetos de compensação de carbono, financiar florestas, etc.'. Só que os projetos em questão não foram verificados. Isso se tornou um problema de comunicação para eles, de modo que, agora, aparentemente, eles decidiram nem sequer tocar mais no assunto."
    Desta vez, a federação reconhece o peso dos transportes no balanço ambiental do evento. No entanto, a Fifa alega que a decisão de espalhar as competições por estádios tão distantes foi para privilegiar as instalações e infraestruturas existentes, outro eixo relevante na pegada de carbono de um grande evento esportivo. Nenhum novo estádio precisou ser construído para o Mundial de 2026.
    A entidade delega aos países organizadores a missão de reduzir as emissões relacionadas a transportes, energia, alimentação e gestão de resíduos, entre outros aspectos relevantes.
    "A Fifa precisa assumir a responsabilidade por seu papel crescente na crise climática", afirma Stuart Parkinson, autor principal do relatório do New Weather Institute. 
    "A Copa do Mundo de 2026 está prevista para ser a mais poluente de todos os tempos, e espera-se que os torneios futuros continuem dependendo fortemente de viagens aéreas e outras atividades com alta emissão de carbono. À medida que a crise climática se agrava rapidamente, a única resposta sensata é a federação tomar medidas imediatas para reduzir significativamente as emissões dos torneios."
    Próximas Copas
    Daqui a quatro anos, o formato em que os jogos são divididos entre diferentes países voltará a acontecer, na Copa do Mundo em Portugal, Espanha e Marrocos. Alexis Normand assinala que será uma oportunidade de retomar o exemplo dos Jogos Olímpicos de Paris, que limitou o impacto ambiental a 2,08 milhões de toneladas de carbono, o mais baixo desde a Olimpíada de Londres de 2012.
    Ele defende que os recursos investidos nas infraestruturas, especialmente no Marrocos, país em desenvolvimento, sejam direcionados à sustentabilidade, e que os critérios ambientais sejam uma condição para as licitações de obras.
    "Estão previstos grandes investimentos, então por que não imaginar, como fez Paris, um Plano Marshall para investimento em infraestrutura de baixo carbono?", sugere o especialista francês. "Você pode aproveitar para renovar a rede ferroviária, modernizar as instalações esportivas e fazê-las consumir menos energia, conectá-las a fontes de energia renováveis e assim por diante. Dessa forma, minimiza-se o impacto de carbono do transporte e se constrói edifícios que serão menos poluentes."
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    Às vésperas de outro El Niño, Brasil segue vulnerável a catástrofes, alertam especialistas

    04/06/2026
    Menos de dois anos depois da última ocorrência do fenômeno meteorológico El Niño, que contribuiu para as enchentes históricas no Rio Grande do Sul de 2024 e as secas inéditas na Amazônia, o Brasil progrediu no combate a desastres, mas não aprendeu as lições para avançar na resiliência climática. Os impactos de mais um El Niño devem começar a aparecer no país no segundo semestre, estendendo-se até 2027.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    A configuração do fenômeno já está instalada nas águas do oceano Pacífico, salienta o doutor em meteorologia José Marengo, membro do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU) e coordenador-geral de pesquisas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
    “Você vê o padrão de aquecimento no Pacífico Tropical, e está claro. O que nós não sabemos ainda é a intensidade”, frisa. “Estamos em início de junho, e fazer uma previsão em junho para um fenômeno cujo pico de intensidade seria mais ou menos novembro, é muito cedo.”
    Uma das interpretações dos modelos climáticos aponta para um aquecimento de 4°C das águas do Pacífico Central, o que seria um El Niño "super forte". A grande preocupação agora é se 2026 vai bater novamente os recordes globais de altas temperaturas, como tem ocorrido desde 2023.
    Os efeitos do fenômeno, que se repete no planeta há milhares de anos, são potencializados pelas mudanças do clima. Foi assim que, em 2024, o ano mais quente registrado na história até o momento, a ocorrência do El Niño impulsionou catástrofes climáticas ao redor do mundo.
    'El Niño Godzilla'
    Mas apesar das perspectivas preocupantes, o coordenador do Cemaden rejeita os discursos alarmantes sobre o tema que, segundo ele, contribuem para desacreditar a ciência.
    “Você escuta na internet os influencers e qualquer pessoa falando sobre ‘El Niño Godzilla’, ‘Super El Niño’, fazem shows com nuvens caindo e o capeta aparecendo. Nós, cientistas, tentamos participar em todo tipo de debate possível, para convencer a população de que realmente é um fenômeno, mas que não é o fim do mundo”, afirma.
    Segundo ele, o discurso alarmista sobre o tema pode gerar o efeito contrário do desejado: o de imobilismo dos gestores. “Depende de nosso papel, como seres humanos, para poder enfrentar. Uma das coisas importantes é a percepção de risco de desastre. Não adianta ter os melhores modelos, os melhores supercomputadores, se as pessoas ainda não entendem a mensagem final”, argumenta Marengo.
    A memória dos recentes desastres no Brasil aumentou a tomada de consciência de governantes, comunidades e populações, principalmente nos estados mais afetados há dois anos. O Rio Grande do Sul acelera a conclusão de obras para combater novas enchentes, e a vizinha Santa Catarina está em alerta climático. Uma série de medidas para enfrentar incêndios florestais estão previstas pelos governos federal e estaduais no centro e norte do país, mas também no Sudeste, onde o maior problema tende a ser as altas temperaturas.
    Vulnerabilidade continua
    Entretanto, de forma geral pelo país, Marengo constata que pouco foi feito contra a vulnerabilidade das populações, que determina qual será a proporção de uma tragédia. É também o que afirma a professora de Urbanismo Maria Fernanda Lemos, da PUC-Rio. Membro do IPCC, ela coordenou um capítulo do último relatório do painel da ONU sobre as cidades.
    “Não adianta eu só focar num problema de drenagem para diminuir o impacto de chuvas intensas se eu não resolver o fato de que as pessoas moram em situações precárias”, ressalta Lemos.
    “Eu vou atuar sobre aquele alagamento específico naquele lugar, mas outras situações iguais vão se reproduzir pelo território todo, porque as pessoas continuam vulneráveis: continuam tendo que morar em áreas de risco, de maneira informal, sem acesso à tecnologia, à informação”, acrescenta.
    É por isso que, apesar de avanços importantes, como a adoção do Plano Clima de Mitigação e Adaptação, o Brasil “não aprendeu as lições” da última passagem do El Niño, avalia a especialista. A professora não vê ações transformativas à altura dos desafios, ou seja, que ajudem a diminuir a exposição das pessoas aos riscos climáticos.
    Maria Fernanda Lemos menciona a redução da precariedade e das desigualdades como um pilar fundamental da adaptação, assim como a educação ambiental e a inclusão das populações na tomada de decisões. “O que há de pior é que a gente continua fazendo cidade, infraestrutura, habitação e saneamento da mesma forma que a gente sempre fez, que não é resiliente, não é adaptado ao clima. E aí só gera mais vulnerabilidade ainda para esses ambientes, que já são muito ameaçados”, lamenta. “Não tem uma visão abrangente do problema. Só no longo prazo é possível fazer uma adaptação que vai ter resultados de fato concretos”, aponta.
    Para ouvir a entrevista completa, clique no podcast, acima.
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    Antes de eleições, novo ‘pacote da destruição’ no Congresso ameaça política ambiental no Brasil

    29/05/2026
    Está nas mãos dos senadores a análise de uma série de medidas antiambientais que a bancada ruralista acaba de aprovar, a toque de caixa, na Câmara dos Deputados. Os projetos de lei visam enfraquecer os mecanismos de controle do desmatamento, amputam em 40% a área protegida de uma floresta na Amazônia e até transferem para o Ministério da Agricultura e Pecuária o poder de designar quais são os animais com risco de extinção no Brasil.
    O novo “pacote da destruição”, denunciado por entidades ambientalistas, começou a ser apresentado no chamado “Dia do Agro” na Casa, em 19 de maio. Com apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sem debate público nem aprofundamento técnico sobre as propostas, as votações ocorreram em ritmo acelerado, sem que houvesse margem de manobra para obstrução.
    A coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, vê um governo de mãos amarradas diante da bancada ruralista. “O Congresso tem se mostrado uma arena muito complexa, e o executivo, que não tem mais o controle do Orçamento, principalmente, não tem armas para fazer impor a sua vontade. É muito preocupante o que está acontecendo”, afirma.
    O ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, advertiu que a ofensiva representa “um esforço concentrado dos Deputados para aprovar projetos que interferem diretamente na gestão ambiental do país”. “É um movimento extremamente grave, porque opera em várias frentes simultâneas, com poder de impacto sobre a gestão ambiental no Brasil, de proporções nunca vistas”, disse ele, em coletiva de imprensa na semana passada. “É uma ação coordenada: diferentes projetos que atacam diferentes áreas e competências e, portanto, é um retrocesso inimaginável. São projetos que vão exigir um trabalho grande do governo federal nas próximas semanas.”
    Proteção de áreas não-florestais
    Quatro textos são particularmente preocupantes: o PL 2.564/2025, que altera a Lei de Crimes Ambientais; o PL 5.900/2025, que amplia os poderes do Ministério da Agricultura na agenda ambiental; o PL 2.486/2026, ao diminuir os limites da Floresta Nacional do Jamanxim, uma das mais ameaçadas do Pará; e o PL 364/2019, destinado a reduzir o escopo da Lei de Proteção da Vegetação Nativa.
    Este último impacta zonas preservadas em todos os seis biomas brasileiros, adverte Suely Araújo. “Tudo o que não for floresta tecnicamente passa a ser considerado área consolidada. Isso significa que não vai ter qualquer proteção ambiental, e ninguém está nem falando. Você vai estar atingindo grande parte do cerrado, da caatinga, do pantanal”, lamenta a ex-presidente do Ibama. “Isso dá mais ou menos 48 milhões de hectares, uma boa parte do território brasileiro.”
    A aceleração da tramitação das pautas ocorre a cinco meses das eleições no Brasil, em um contexto de incerteza quanto ao futuro das políticas de proteção do meio ambiente no país. Organizações de proteção do meio ambiente já se preparam para uma nova derrota do governo no Senado e esperam que, na sequência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vete o pacote. Entretanto, neste caso, é esperado que o Congresso barre os vetos, como ocorreu com a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, em 2025.
    “A partir da aprovação no Congresso, vêm os vetos, depois o Congresso derruba tudo. Nós temos apoiado ações judiciais, principalmente movidas por partidos políticos, diretamente no Supremo Tribunal Federal e outras ações também na Justiça Federal de primeiro grau, o que não é uma boa saída”, indica Araújo. “A ação judicial deveria ser a última alternativa, mas elas têm se tornado cada vez mais frequentes.”
    Prejuízos para o próprio agronegócio
    Os projetos de lei enfraquecem o arcabouço brasileiro de combate às ilegalidades ambientais num momento em que as exigências para a compra de commodities brasileiras aumentam na Europa, um dos principais parceiros comerciais do Brasil. A aprovação do pacote pode acabar acarretando prejuízos para as exportações do agronegócio, frisou o ministro Capobianco.
    “Isso tem relação direta com a própria credibilidade do setor frente a contextos muito desafiadores, como as diretivas da União Europeia, que exigem a comprovação de não desmatamento nas exportações de um conjunto importante de produtos brasileiros. A sociedade internacional vem cobrando”, enfatizou. “Nós estamos fragilizando um sistema de controle ambiental que não vai beneficiar o conjunto do agro. Vai beneficiar uma parcela reduzida que segue desconsiderando a legislação.”
Sobre Planeta Verde
Entrevistas sobre os temas relacionados ao meio ambiente. Análises dos principais desafios no combate às mudanças climáticas e à poluição. Iniciativas para proteção dos ecossistemas e reflexão sobre políticas de prevenção de catástrofes naturais e industriais.
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