Pular para o conteúdo
PodcastsRadar econômico

Radar econômico

Radar econômico
Último episódio

71 episódios

  • Escândalos na campanha ofuscam debate sobre melhora da economia e futuro do Brasil

    30/09/2026
    A sequência quase diária de escândalos financeiros e institucionais no Brasil tomou conta da campanha eleitoral, deixando de lado o debate aprofundado de temas fundamentais para o futuro do país, a começar pela economia. As pesquisas mostram que o custo de vida é uma das principais preocupações dos eleitores.
    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao fim do mandato com bons indicadores, como o baixo desemprego, os juros em trajetória de queda e a inflação relativamente sob controle, em um contexto de forte pressão internacional devido ao aumento global dos preços da energia.
    Entretanto, o alto endividamento das famílias e o custo elevado do crédito pesam no orçamento dos brasileiros. A redução das perspectivas de crescimento econômico, que agora é de 2% em 2026, conforme o governo, reflete essa conjuntura sob tensão.
    “O que as estatísticas mostram é que a economia vai bem”, salienta o economista e sociólogo Gilson Schwartz, professor da USP. “Mas por que a melhora de indicadores tão importantes – renda, crescimento – não se transforma, pelo menos na mesma proporção, em um indicador de satisfação com a economia? Mesmo quando existe esse aumento de satisfação, nem sempre isso se converte em voto no governo. Existem outras dimensões que acabam afetando a expectativa política”, complementa.
    Violência no topo, à frente de corrupção, saúde e economia
    A violência é o principal problema do Brasil para cerca de 30% dos eleitores, indicam as pesquisas. Na sequência, três tópicos costumam se alternar, com em torno de 14% cada: corrupção, saúde e economia. No último levantamento da Quaest, em setembro, a situação econômica disparou entre as principais preocupações, sendo mencionada por 19% dos interrogados.
    “A inflação está sob controle, mas os preços já vêm, há algum tempo, em um patamar bastante elevado. O nosso problema é como aumentar a renda”, analisa Carlos Melo, cientista político do Insper. “Por decreto, aumentando o salário mínimo? Se você fizer só isso, você só vai criar inflação e não vai resolver nada. Você precisa aumentar renda pelo aumento de produtividade – e nós não temos tido isso há muito tempo.”
    No plano econômico, os dois principais candidatos no pleito, Lula e o senador Flávio Bolsonaro, oferecem projetos antagônicos ao país. Enquanto o petista representa a continuidade das políticas focadas no combate às desigualdades, o candidato do PL quer revisar a Reforma Tributária e promover um amplo corte de despesas públicas, a começar pelo funcionalismo, a exemplo do vizinho argentino Javier Milei ou o americano Donald Trump.
    Já Lula mantém o foco no arcabouço fiscal em vigor. O petista busca equilibrar as contas públicas pela arrecadação, e não pela diminuição dos gastos. A dívida pública ultrapassa os 82% do PIB brasileiro, a maior taxa em cinco anos.
    Receita para equilibrar as contas públicas – e das famílias
    O ajuste fiscal também se reflete nas famílias. Quase um terço da população brasileira – ou mais da metade dos adultos – está endividada. A espiral negativa é causada por fatores como acesso fácil a crédito a juros altos, apostas online e aumento dos custos de vida. O programa Desenrola, de apoio à regularização financeira, e o aperto contra as bets ainda não surtiram os resultados esperados por muitos eleitores.
    “Acho que o eleitor médio não tem informação suficiente sobre quais são os indicadores relevantes. É um tema muito aberto a debate e, em geral, ele cai em enunciados mais populistas, do tipo ‘vou gastar tudo’ ou ‘vou gastar nada’”, salienta Schwartz.
    “A realidade é mais complexa. É uma combinação de variáveis como juros, taxa de câmbio, taxa de crescimento, dívida pública e déficit público. Nem o Flávio, nem o Lula têm essa proposta”, constata o economista da USP, ao observar a ausência de um debate sobre um modelo de desenvolvimento a ser adotado no Brasil.
    Projeto de futuro
    Quanto à política externa, a guerra comercial e a diversificação de parceiros, o impacto dos conflitos internacionais nas cadeias globais de abastecimento e atração de investimentos em setores em que o Brasil tem forte potencial, como minerais críticos, são temas praticamente ausentes das campanhas, nota Carlos Melo.
    “Se discute muito o presente, mas não o futuro”, reitera o cientista político do Insper. “Qual é o papel do Brasil no novo concerto das nações, numa sociedade altamente tecnológica, com inteligência artificial? Qual o papel do Brasil num mundo novamente dividido do ponto de vista da geopolítica e de grupos de países poderosos hegemônicos nas suas regiões? Seria muito importante que a eleição trouxesse essa agenda, mas isso simplesmente não aparece.”
  • Minerais raros: apesar de potencial único, Brasil arrisca repetir modelo de exportador de commodities

    09/09/2026
    Dono das segundas maiores reservas mundiais de minerais críticos, o Brasil acaba de aprovar no Congresso um projeto de lei que cria a política nacional de desenvolvimento do setor. O potencial da exploração desses recursos, cobiçados por potências como os Estados Unidos e a Europa, é estimado em centenas de bilhões de reais. Entretanto, o país ainda tem lacunas importantes a superar para se tornar uma liderança global.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    O projeto de lei, que seguiu para sanção presidencial, visa liberar investimentos de longo prazo, de até R$ 7 bilhões em incentivos governamentais e contribuições privadas para impulsionar projetos de exploração dessas riquezas.
    "Sem dúvida, o projeto é um avanço, principalmente porque o Brasil finalmente começa a tratar minerais críticos como uma política de Estado. Agora, quando nós estamos falando de futuro, precisamos discutir se os instrumentos criados por ele serão suficientes para mudar a nossa posição na cadeia de produção, ou apenas ampliar a nossa capacidade de produzir”, pondera Jaques Paes, executivo da indústria minerária, pesquisador e professor em MBAs de Sustentabilidade e Estratégia na Fundação Getúlio Vargas (FGV). "A partir do momento em que nós fornecemos o recurso, o retorno de curto prazo pode reduzir o incentivo para construir um retorno industrial de longo prazo."
    Uma vez adotada a lei, virá a etapa crucial da regulamentação, com o detalhamento de prioridades, procedimentos e controles da atuação das empresas. Um dos principais objetivos é desenvolver a cadeia de refino no próprio Brasil, na esperança de romper com a dinâmica histórica de o país ser apenas exportador de matérias-primas.
    Avançar no processamento e industrialização
    "É aí que eu acho que o Brasil tem que mirar. Ele tem que ter como alvo a industrialização e usar a etapa de processamento para ir ganhando espaço no mercado internacional, e conhecimento para chegar na parte de industrialização”, ressalta Rosana Santos, diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética. "Temos um parque incipiente, mas temos as condições de absorção de um parque mais complexo."
    O projeto de lei (PL) enquadra a atuação de empresas ou governos estrangeiros no país e cria um conselho, controlado pelo Estado, para homologar mudanças no controle societário de empresas do setor – o que pode acabar sendo um freio para os investidores, à mercê das mudanças no Planalto. A segurança jurídica é crucial para atrair os investimentos que a cadeia carece.
    O escopo do texto é amplo, ao incluir não apenas terras raras e os minerais críticos, com baixa disponibilidade no mundo, mas também os minerais estratégicos, importantes particularmente para o Brasil e sua balança comercial, como o minério de ferro. 
    O risco do modelo minério de ferro 
    Hoje, a China é, de longe, a maior potência global em produção e exportação desses elementos, com reservas estimadas em 44 milhões de toneladas. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) aponta que o Brasil possui cerca de 23% das terras raras mapeadas no planeta, com 21 milhões de toneladas, concentradas principalmente nos estados de Minas Gerais, Goiás, Amazonas, Bahia e Sergipe.
    No entanto, o país produz menos de 1% do consumo global desses materiais, fundamentais para as indústrias de tecnologia, de defesa e a transição energética.
    Leia tambémOCDE vê oportunidade para Brasil e América Latina com demanda mundial por terras raras
    O Brasil, afirma Paes, está "muito distante” de conseguir explorar o potencial que os minerais raros representam. A capacidade instalada de processamento e refino no país é quase nula. 
    "Nós temos um processo muito importante e muito bem avançado na lavra, que é a primeira parte. Só que na mineração, quanto mais distante nós vamos ficando da lavra, maior é o valor agregado que nós temos. Pegue o exemplo do minério de ferro: nós exportamos minério e importamos aço”, salienta o executivo. "Para mim, essa é uma das lacunas que o PL poderia explorar mais: as parcerias públicas e privadas. As empresas que estão aqui no Brasil têm competência para isso, só que elas precisam de uma segurança para fazer”, reitera.
    PL não direciona para política industrial clara
    Os dois analistas ouvidos pela RFI avaliam que o projeto de lei falhou ao não determinar as condições para incentivar uma política industrial para o setor, em meio a uma acirrada concorrência internacional. A mineradora americana USA Rare Earth acaba de concluir a aquisição da Serra Verde, a única produtora de terras raras no Brasil, em Minaçu (Goiás).
    "Na criação do fundo, não se diferenciou o dinheiro que vai para exploração, o que vai para o beneficiamento ou para industrialização. Se isso não for especificado na regulamentação, eventualmente essa alocação de dinheiro vai ficar toda na fase de exploração”, alerta Rosana Santos.
    A especialista em transição energética ressalta que o contexto eleitoral vivido no Brasil traz riscos à futura regulamentação, que poderá ser concluída só no ano que vem, pelo próximo governo.
    "A indústria bélica, de alta tecnologia, de chips nos Estados Unidos depende umbilicalmente de acesso a terras raras e minerais críticos. Há um interesse gigante de controlar esses minerais aqui do Brasil”, afirma. "Se você não tiver um governo muito antenado de que não é para entregar tudo, [que] é preciso sentar na mesa de negociação, você pode, de novo, replicar o nosso modelo, de sermos o segundo maior exportador de minério de ferro do mundo para a China.”
    Sustentabilidade 
    Outro aspecto negligenciado é o da sustentabilidade. Após a aprovação do PL no Senado, organizações como o Observatório do Clima e Greenpeace denunciam a ausência de salvaguardas ambientais para uma atividade que comporta riscos graves de contaminação do meio ambiente e de populações. Também exigem garantias para os municípios e comunidades locais de que os recursos beneficiarão as regiões que abrigam terras raras.
    Santos explica que as salvaguardas existem, previstas na legislação ambiental e regras de licenciamento. O que faltou é garantir que o Estado, em nível federal ou estadual, aplicará licenciamentos rígidos e efetivará a fiscalização das atividades mineradoras. "Faltou uma linha para deixar muito claro que Brumadinho e Mariana não podem acontecer mais”, diz Santos.
    O encaminhamento dos recursos dos futuros royalties desses minerais também deveria já estar claro no PL, frisa a diretora-executiva do Instituto E+. “Dinheiro de royalty não é para pagar churrasco, é para preparar a economia do município e a população para o momento em que esses minerais não existirão mais”, observa.
    Jaques Paes aponta ainda que o aspecto da rastreabilidade da cadeia, embora mencionado no texto, é insuficiente. "Nós poderíamos ter relacionado melhor essa parte. Se o Brasil pretende vender minerais, produtos processados para uma cadeia global, que é cada vez mais exigente, a rastreabilidade pode ser uma vantagem comercial, social e ambiental”, indica.
  • Crise ‘mais do que crítica’ na Volkswagen coloca filiais sob pressão, mas Brasil vê oportunidade

    26/08/2026
    A situação “mais do que crítica” da Volkswagen, nas palavras do próprio CEO de uma das montadoras mais tradicionais do mundo, coloca sob pressão as filiais espalhadas pelo globo. A reestruturação em curso poderá atingir cerca de 100 mil empregos, com foco na Alemanha.
    O grupo tem mais de 630 mil funcionários, principalmente na Europa e na China, mas também em países como México e Brasil. Nesta semana, a direção realiza uma série de reuniões na Alemanha para tentar avançar no plano de cortes de custos – um primeiro plano de 50 mil demissões já está em curso.
    O presidente do Grupo Volkswagen, Oliver Blume, disse que a empresa e a indústria automotiva alemã como um todo enfrentam “a maior turbulência de sua história”, em meio a um cenário econômico global desfavorável e à concorrência da China. Além disso, os custos da produção na Europa estariam mais de 30% acima dos concorrentes.
    Blume reconheceu que “não vê como as fábricas de Emden, Hannover, Zwickau e Neckarsulm poderão permanecer lucrativas na próxima década”.
    “A gente não pode falar que a Volkswagen é uma empresa que semana que vem vai fechar. Volkswagen está vendendo muito. A questão é o que está sobrando para reinvestimento. Esse é o grande problema”, resume Milad Kalume Neto, experiente analista do mercado automobilístico e diretor-executivo da K-Lume Consultoria. “Não é um cartão vermelho. É um sinal de atenção do presidente: ‘a gente precisa agir porque, no longo prazo, vai ter problema. No longo prazo, as nossas operações aqui estão sob risco’.”
    Diante do avanço dos modelos elétricos chineses, a maior fabricante de veículos da Europa enfrenta o desafio do excesso de produção, com um excedente anual de 500 mil unidades no continente. As margens atuais da Volkswagen, de em torno de 4%, são insuficientes para financiar os investimentos em novas tecnologias, produtos e fábricas. Plantas como a de Osnabrück poderão migrar para outros setores industriais, como a defesa.
    Choque chinês e guerra comercial
    “Uma empresa chinesa pensa assim: em processos produtivos de estamparia, ferramentaria, pintura, eu faço como vocês todos, Volkswagen, empresas alemãs, italianas, coreanas. O que vocês têm de diferente? Eu tenho eletrificação, conectividade e tenho itens de segurança de baixo custo. E vocês, o que têm para mostrar ao mundo?”, explica Kalume Neto.
    “Essa é a grande briga entre os dois modelos industriais. O problema não está na Alemanha, está na indústria tradicional. A indústria alemã já era de alta escala, mas quando a gente vê o modelo chinês, é de muito mais alta escala”, afirma.
    O mercado chinês, pilar da rentabilidade da marca alemã por décadas, desmoronou: no segundo trimestre, as vendas da Volkswagen no país caíram 31% no período de um ano. Para piorar, a guerra comercial dos Estados Unidos impacta ainda mais na conta, em especial sobre a Porsche e a Audi, controladas pela Volkswagen. As tarifas americanas pesam cerca de € 5 bilhões anuais para o grupo.
    Neste contexto delicado, as negociações com os sindicatos de trabalhadores e governos estaduais na Alemanha – o da Baixa Saxônia é um grande acionista do grupo – ocorrem sob tensão. O poderoso sindicato IG Metall alertou que não aceitará o fechamento de fábricas.
    Brasil bem posicionado
    Milad avalia que cortes mais drásticos de custos serão inevitáveis e permitirão ao grupo atuar de forma mais globalizada. “Pode ser uma oportunidade para a Volkswagen do Brasil, que tem zero problemas. Não vejo nenhum tipo de risco. Tem uma rede de concessionários gigante, uma das maiores que a gente tem aqui, uma marca muito forte e um histórico consolidado”, salienta. “Isso significa dizer que a Volkswagen Alemanha vai trazer a produção dela para cá? Não, não vejo isso. Mas vejo como um potencial contributivo para a Volkswagen como um todo.”
    O especialista menciona a expertise na fabricação de veículos de pequeno e médio porte e a tecnologia do etanol como diferenciais do grupo no país, que poderiam ser levados a outros mercados. Essa também é a aposta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, onde estão situadas três das quatro unidades da marca alemã no Brasil.
    “O que nós vamos ser cobrados é para fazer algum tipo de pequenas estruturações ou reduções de custos. A empresa sempre coloca isso, não é uma novidade para nós”, indica o presidente do sindicato, Wellington Messias Damasceno, funcionário da Volkswagen há 25 anos.
    A operação brasileira representa um alívio no contexto turbulento: a empresa registrou o maior crescimento de vendas na região (+10,6%) no primeiro semestre de 2026, tornando-se o terceiro maior mercado global do grupo. Os planos de investimento de R$ 20 bilhões até 2028 estão mantidos.
    "As quatro fábricas estão equalizadas. Elas produzem com sua capacidade máxima, em dois turnos”, observa Damasceno. “A Volks tem mantido um crescimento constante e sólido aqui no mercado – o que é positivo, mesmo com a entrada dos chineses, muito em função dos anúncios de investimento, dessa cultura de tropicalização dos modelos que estão sendo produzidos aqui e dos acordos negociados com os sindicatos”, destaca.
  • Calor extremo derruba produção agrícola na Europa e expõe riscos de modelo intensivo

    30/07/2026
    As ondas sucessivas de calor que atingem a Europa anunciam um ano dramático para a agricultura no bloco. Os números, ainda provisórios, colocam o setor em alerta e aceleram a necessidade de adaptação às mudanças do clima, com a ampliação de técnicas de cultivo mais resilientes ao aumento das temperaturas e períodos de seca.
    Diversos cultivos antecipam graves prejuízos em 2026, como hortaliças, frutas, cereais, leite e frango. Uma análise da Energy and Climate Intelligence Unit revelou que as ondas de calor recorde de junho, que ocorreram no momento crítico do enchimento dos grãos de cereais, cortaram pelo menos 9 milhões de toneladas da safra na Europa.
    A estimativa de prejuízo, ainda provisória, é de € 2 bilhões, com o milho representando a metade desta cifra.
    Entre os países mais atingidos, a França está em primeiro lugar, seguida da Hungria, Espanha, Alemanha e Áustria. Na França, o setor do leite também “desmoronou” até 30%, conforme a região, indicou a ministra da Agricultura, Annie Genevard, em um balanço nesta segunda-feira (27).
    A produtora Amandine Yverneau, na região parisiense, relata à RFI o que viveu. “Tivemos uma queda de cerca de 5 quilos por animal na produção de leite, ao longo de uma semana, o que representa uma perda de cerca de € 2 mil”, lamenta. “A temperatura ideal para as vacas fica entre 2°C e 15°C. É nessa faixa que elas se sentem mais confortáveis”.
    Durante a segunda onda de calor excepcional que atingiu o país, no fim de junho, Amandine correu para instalar um sistema de ventilação na propriedade e evitar prejuízos ainda maiores. Valor do investimento: € 30 mil, para atender a 200 vacas leiteiras.
    “É um custo que beneficia os animais, mas assumir esse investimento não é fácil. É preciso ter fluxo de caixa à disposição”, disse. “Seria bom se pudéssemos contar com subsídios para financiar esses ventiladores. Muitas pequenas propriedades não têm esse dinheiro sobrando”.
    Impacto no ritmo de trabalho
    Além da queda da produção, as altas temperaturas representam uma ameaça real à vida dos animais. O governo francês contabilizou mais de 9,1 mil toneladas de animais mortos em todo o país após a onda de calor de junho, principalmente aves.
    As condições climáticas extremas e a ameaça de incêndios florestais também prejudicam o ritmo de trabalho nas fazendas. Dezenas de prefeituras proibiram a colheita das 14h às 19h, para evitar o risco de fogo em meio à seca extrema, gerando custos adicionais para os agricultores.
    Outras atividades paralelas também são afetadas, com um efeito dominó na economia. O governo francês diminuiu a previsão de crescimento do PIB de 0,9% para 0,7% em 2026.
    “Tem um problema de produtividade, que nós compreendemos. Estão todos aguentando essa situação”, afirma Didier Massy, presidente da Confederação de Pequenas e Médias Empresas de Nouvelle-Aquitaine, uma das regiões mais afetadas pelo fogo. “Seria interessante poder ter um regime de desemprego parcial, porque, mesmo se a gente começar às 6h, continuar até depois do meio-dia é arriscado e perigoso”.
    Agricultura regenerativa e agroflorestal
    Especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas para a Agricultura, a Alimentação e o Meio Ambiente (Inrae) chamam a atenção para a urgência de práticas agrícolas que favoreçam os estoques de água nos solos, como a regenerativa e a agroflorestal. O cultivo intensivo, advertem, contribui para o empobrecimento da terra, deixando-a mais sensível às secas.
    Entretanto, em um país profundamente apegado às tradições agrícolas históricas de cada região, a ideia de diversificação da produção gera tensões.
    As temperaturas 3°C acima da média histórica no continente são uma amostra do que está por vir pela frente, afirmam climatologistas. Ignorar este alerta levará os prejuízos a se tornarem cada vez maiores, ressalta o economista Frédéric Bizard, à RFI.
    “Precisamos integrar tudo isso num plano de saúde pública, que nos falta absurdamente. Senão, a cada onda de calor, teremos uma crise”, frisa. “Isso precisa ser integrado na gestão normal do mundo do trabalho, afinal as altas temperaturas não são mais surpresas, e sim são cada vez mais algo para o qual podemos nos programar”.
  • Tarifas dos EUA empurraram Brasil para outros parceiros comerciais, mas dependência chinesa preocupa

    15/07/2026
    A instabilidade do comércio com os Estados Unidos desde a volta de Donald Trump à Casa Branca reduziu a fatia das exportações brasileiras para o país ao menor patamar em 200 anos, mas impulsionou a diversificação de parceiros. O choque provocado por Trump também serviu de alerta para os riscos da dependência de um número limitado de grandes compradores – a começar pela China, destino de 31,5% dos produtos vendidos pelo Brasil.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    O impacto do vai e vem das tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos ainda está sendo assimilado pelos setores não beneficiados por isenções. Muitos haviam estruturado suas cadeias produtivas em torno do mercado americano, como o de metais, da madeira e de diversas manufaturas.
    "No setor de café solúvel, 50% da exportação brasileira ia para os Estados Unidos. Eles aumentaram as vendas para outros destinos, mas mesmo assim a participação era muito grande. A mesma coisa ocorre com aço, alumínio e cobre", explica Welber Barral, especialista em comércio internacional com vasta experiência na pasta. "Os Estados Unidos eram um grande comprador há muitas décadas, então você não consegue diversificar imediatamente. Para os calçados, por exemplo, os EUA não são um grande destino para o setor como um todo, mas algumas empresas em particular dependiam muito do mercado americano", observa.
    As barreiras comerciais prejudicam também os importadores. Grandes empresas como Coca-Cola e Tesla sinalizaram que não é tão simples substituir o café, o suco de laranja e os metais raros que costumavam comprar do Brasil com tarifas baixas. O consumidor americano acaba pagando essa conta.
    A confiança abalada acelera o afastamento
    Do lado dos parceiros do país, a confiança sai abalada. “No caso do Brasil, a consequência imediata é apressar um divórcio ou um processo de decoupling que já está sendo feito nos últimos 20 anos. É claro que a conjuntura afeta, mas é a continuação de uma tendência de um país que era o maior parceiro comercial brasileiro em muitas décadas, e que deixou de ser e vem em queda constante”, salienta Carlos Frederico Coelho, professor de comércio internacional da PUC Rio. "O tarifaço não inaugurou esse movimento, mas ele certamente o acelera.”
    Os anúncios intempestivos de Trump amplificaram no mundo um movimento de abertura de novas parcerias e intensificação das existentes. Desde 2025, junto com o Mercosul, cinco frentes avançaram para o Brasil: os acordos comerciais com a União Europeia, o EFTA (Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia) e Singapura foram fechados, além da abertura de negociações com o Japão e a reativação diplomática para a conclusão das tratativas com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Índia, Vietnã e Indonésia.
    O resultado é que, até 2024, apenas 12% das exportações brasileiras eram cobertas por acordos comerciais, e a parcela subiu para 31%. No ano passado, os números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) confirmam a diversificação, com recordes de exportações para 42 países. A Alemanha, por exemplo, se consolidou como a quarta maior parceira e pretende dobrar as trocas com o Brasil nos próximos cinco anos.
    “Um efeito indireto e provavelmente não desejado por Trump foi o aumento desses acordos do Brasil e de vários outros países, para tentar diversificar do mercado americano. E não é só o Mercosul”, sublinha Welber Barral, ex-secretário brasileiro de Comércio Exterior. “Se você olhar, países como Indonésia avançaram muito em novos acordos. A própria União Europeia avançou no acordo com a Índia”, aponta.
    O risco chinês 
    A queda de 6,6% nas importações do Brasil pelos Estados Unidos foi compensada pelo aumento equivalente para a China e a Argentina, respectivamente o primeiro e o terceiro principais parceiros comerciais do Brasil. Hoje, Pequim absorve quase um terço das exportações brasileiras.
    "Diversificar é um pouco mais complexo do que se fala. O que preocupa nas trocas comerciais com a China é que, quando você analisa essa pauta, quase 90% está concentrado em quatro produtos: carnes, minério, soja e petróleo”, adverte Coelho. "Isso deveria nos assustar, porque se a China desacelerar, o Brasil vai sofrer imensamente. Não é desejável, para países tão distantes, que o Brasil tenha 30% das exportações indo para um só país."
    Barral concorda com os riscos dessa nova dependência, mas pondera que as trocas com os países asiáticos em geral também estão em alta, a exemplo da Índia, Indonésia e Vietnã. "Outros países asiáticos também podem se tornar grandes importadores no futuro, principalmente de commodities agrícolas”, afirma.
Sobre Radar econômico
Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia mundial.
Site de podcast
Aplicações
Social
v8.20.0 | © 2007-2026 radio.de GmbH
Generated: 9/30/2026 - 3:42:52 PM