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    Preço do hambúrguer: termômetro de uma economia mundial sob tensão

    04/11/2026
    Símbolo do soft power americano durante a Guerra Fria, o hambúrguer é consumido no mundo inteiro, com suas variações regionais, conforme o gosto dos clientes. Em um mundo sob tensões geopolíticas cada vez mais fortes e com impactos crescentes das mudanças climáticas sobre a produção agrícola mundial, o custo do sanduíche também é uma referência das pressões sobre os preços dos alimentos.
    Não à toa, ele se tornou um parâmetro informal da economia, criado há 40 anos pela revista The Economist: o índice Big Mac. Nos Estados Unidos, o preço do hambúrguer entrou na pauta das eleições parlamentares de meio de mandato, em um contexto de alta da inflação. Os americanos sentem no bolso os efeitos negativos das guerras sobre os alimentos, mas também dos bloqueios às importações impostos pelo presidente Donald Trump desde que voltou ao poder.
    Entre 2019 e 2024, o valor das ofertas da rede McDonald’s subiu 40%, levando a uma queda de 10% na frequência dos restaurantes entre as populações de menor renda, segundo números da própria empresa. Em Los Angeles, a reportagem RFI encontrou Andy, que abriu mão das grandes redes na hora do almoço e passou a optar por comerciantes independentes, com valores mais acessíveis.
    “Até pouco tempo atrás, nas redes de fast-food, o combo custava US$ 8,99. Agora, no Burger King, sai por quase US$ 18. Isso pesa para mim”, afirma ele. “Tenho a sorte de a empresa para a qual trabalho pagar a minha gasolina, mas se eu tivesse que arcar com o preço atual do combustível, eu teria que preparar meu almoço em casa e trazer.”
    Guerras, energia e cadeia do hambúrguer
    Um simples hambúrguer envolve uma grande cadeia de produtos e serviços: desde as matérias-primas – trigo, carne, verduras – até a industrialização de ingredientes, como pães e molhos, e das embalagens, sem falar nos transportes.
    Rússia e Ucrânia estão entre as maiores exportadoras de cereais do mundo, e a guerra iniciada em 2022 gerou volatilidade nos preços desde então. O conflito também impactou o mercado de fertilizantes agrícolas, que tem na Rússia a principal produtora e exportadora global.
    Na sequência, a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã fez disparar os preços da energia, com um impacto generalizado na produção de alimentos, salienta Sébastien Abis, especialista em sistemas agrícolas e alimentares e pesquisador associado do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS), em Paris.
    “Menos petróleo e menos gás são um problema para a agricultura e causam, naturalmente, um aumento nos custos de produção. Cada alta do valor da energia tem repercussões na produção agrícola e em toda a cadeia alimentar, portanto contribuirá para um aumento dos preços para o consumidor, embora essa transferência para o preço final nem sempre seja imediata”, explica.
    Clima extremo e segurança alimentar
    “Devemos temer maiores efeitos sobre a segurança alimentar no próximo ano, principalmente na África e na Ásia, inclusive porque há um fenômeno El Niño se intensificando. Ou seja, temos neste momento uma combinação de choques que precisa ser observada de perto", frisa o especialista. 
    A empresa Data Essentials criou um índice de preços do hambúrguer. Segundo seus cálculos, o preço médio aumentou 14% desde 2023 nos Estados Unidos, enquanto o da carne bovina no mesmo período subiu mais de 30% – um reflexo da redução dos rebanhos no país, em parte devido ao aumento das secas.
    Alguns profissionais aceitam diminuir as margens de lucro para não assustar os seus clientes. Outros distribuem a alta dos preços por todos os itens do cardápio, como batatas fritas ou bebidas. E muitos fazem as duas coisas.
    O hambúrguer, consumido nos quatro cantos do planeta, reflete essas tensões em vários outros países. Na Europa, uma a cada 10 refeições feitas fora de casa é hambúrguer, afirma Maria Bertoch, da consultoria de estudos de mercado de consumo e fast food Circana. Mas, diante da subida dos preços e da ampliação da oferta de outras alternativas mais baratas, como frango frito, as redes do tradicional sanduíche são obrigadas a se adaptar.
    Independentes em busca de margem
    “As marcas otimizam a oferta de produtos, aumentando as opções com frango e vegetarianas, em que elas podem ter maior lucratividade. Também propõem ofertas menores, ao mesmo tempo em que continuam a tentar limitar o aumento do preço daqueles produtos ‘carro-chefe', que atraem os clientes e geram tráfego nos restaurantes”, indica.
    Para os independentes, a margem de manobra é mais limitada. O espanhol Madison Smash Burger acaba de conquistar o terceiro lugar no concurso europeu The Champions Burger, disputado em Paris. Mas manter o preço do sanduíche básico a € 13 está cada vez mais difícil, reconhece o cofundador da marca, Christopher Fenelon:
    “Todos os custos estão aumentando: carne, pão, realmente tudo está mais caro. Precisamos fazer esforços constantes para nos adaptar”, diz Fenelon. “Nosso negócio está sofrendo com uma situação internacional, mas não podemos aumentar o preço do hambúrguer para € 15 ou € 16, porque ninguém compraria. Nos resta ajustar as margens e apertar o cinto.”
    As entrevistas ouvidas neste podcast foram feitas ao programa de economia Eco d’Ici et d’ailleurs, da RFI em francês.
  • Radar econômico

    Exportações disparam com acordo Mercosul-UE, mas barreiras ainda travam setores estratégicos

    28/10/2026
    A entrada em vigor provisória, em 1º de maio de 2026, do Acordo Comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE) aumentou as expectativas de produtores brasileiros que buscam ampliar sua presença no mercado europeu. Dos grandes frigoríficos aos pequenos fruticultores, empresas e cooperativas estão de olho em novos consumidores e esperam se beneficiar de tarifas mais competitivas para conquistar espaço nos países do bloco.
    Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris
    É o caso de José Fábio Soares, de Minas Gerais, que começa a levar para a França produtos originários do Cerrado. A Cooperativa Grande Sertão acaba de entregar três toneladas de óleo de pequi a um parceiro comercial francês. Para ele, a redução dos custos de importação já começa a fazer diferença na competitividade do produto.
    “Com certeza essa carga de óleo de pequi que nós mandamos para cá já foi, de certa forma, beneficiada com redução dos impostos com esse acordo com o Mercosul", comemora. "Nós tivemos uma redução bastante significativa de imposto no processo de importação dos nossos parceiros aqui na França. Então, automaticamente, a gente consegue entregar um produto de nicho de mercado. Não é uma commodity. E quando tem esse benefício fiscal e tributário, com certeza a gente vai conseguir entregar ele com preço mais competitivo, um preço mais baixo e consequentemente, nós vamos conseguir ampliar um pouco mais os volumes entregues”, acredita. 
    Rico em vitamina A, o óleo de pequi é usado na alimentação e também pela indústria de cosméticos. Para Soares, a exportação representa ainda a possibilidade de gerar renda para famílias ligadas ao extrativismo sustentável.
    “É a realização de um sonho. A gente está conseguindo trazer esses produtos que beneficiam de fato as famílias, que beneficiam a mulher, o jovem, as pessoas que estão no campo, que praticam extrativismo sustentável. É um trabalho, uma oportunidade, com base na agroecologia, na conservação, na proteção do meio ambiente”, analisa. 
    Exportações em alta
    Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras para a União Europeia somaram US$ 27,2 bilhões entre maio e setembro de 2026, alta de 30,6% em relação ao mesmo período de 2025.
    O novo ambiente comercial pode ampliar o acesso de produtos brasileiros ao mercado europeu, avalia Pedro Neto, gerente de Agronegócios da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). Segundo ele, as oportunidades não se limitam às grandes empresas e podem chegar a cooperativas e pequenos produtores.
    “O acordo com a União Europeia abre muita oportunidade real para o cooperativismo brasileiro, para micro, pequenas empresas e para os pequenos negócios do setor rural e também da economia urbana, da economia industrial do nosso país", avalia. "No caso da apicultura, por exemplo, uma cooperativa do semiárido brasileiro de pequenos produtores começou a conseguir exportar para a Alemanha, porque agora, com o acordo, a questão tarifária ficou mais favorável frente aos nossos concorrentes. Estamos concorrendo numa igualdade de condições", completa. "Então, temos vários exemplos disso acontecendo, das oportunidades do acordo chegando lá na ponta”, destaca.
    O acordo entre o Mercosul e a UE prevê a redução ou eliminação progressiva de tarifas aduaneiras. Alguns produtos passam a contar com benefícios tarifários mais rapidamente, enquanto outros seguem cronogramas graduais de redução ao longo dos próximos anos.
    Para Pedro Neto, a legislação ambiental brasileira oferece condições para que o país responda às exigências do mercado europeu.
    “A gente tem no Brasil uma legislação ambiental muito restritiva, que é muito acima do que vai acontecer no mundo todo e que é, inclusive, fiscalizada por satélite. É uma coisa que qualquer um pode ver. Então, a gente tem uma legislação muito robusta. A gente está muito seguro quanto a ela. A gente está na mínima histórica de desmatamento no nosso país. É claro que o ideal é o desmatamento ilegal zero. Mas a gente consegue ver que está dando certo”, analisa.
    Barreiras ainda preocupam setor de carnes
    A abertura comercial, no entanto, não elimina os obstáculos enfrentados pelos exportadores brasileiros. Questões sanitárias e requisitos de acesso ao mercado europeu continuam no centro das preocupações de setores ligados aos produtos de origem animal.
    Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), considera contraditório que, depois de duas décadas de negociações, produtos importantes da pauta brasileira ainda encontrem restrições para entrar no mercado europeu.
    “O acordo do Mercosul União Europeia demorou 20 anos para sair e não é admissível que os principais produtos produzidos pelo Brasil, no dia um do acordo sejam impedidos de acessar o mercado europeu", lamenta. "Então, o Brasil tem que olhar isso com muito cuidado do ponto de vista do setor privado. O Brasil tem que falar: olha, se for para fazer o acordo desse jeito, não sei se vale a pena para o Brasil. E não sei se vale a pena para o Mercosul", avalia "Eu acho que o governo está olhando isso. O próprio acordo prevê consequências para essas coisas. Então, medidas compensatórias de retaliação nós temos no Brasil, pois foi aprovada uma legislação de reciprocidade", destaca. "Mas eu acho que o acordo é um bom instrumento jurídico, mas ele precisa ser utilizado na sua plenitude”, completa. 
    Na avaliação de Perosa, as dificuldades enfrentadas pela carne brasileira não são apenas comerciais. O dirigente atribui parte das resistências a questões políticas dentro da União Europeia.
    “A briga não é comercial. A briga é política. Só que tem coisas que se impõe a necessidade de consumo da maioria da população. É a necessidade de controle do preço de alimentos nos países e a capacidade produtiva de cada país. Essas são premissas que acabam se impondo com o decorrer do tempo, porque você pode tentar proteger um setor durante um período, deixar a população sem acesso a produto de qualidade, com preço competitivo, cria um problema. E onde pode se produzir mais e com mais competitividade? Onde se tem vasta extensão territorial, onde se tem água, onde se tem sol e onde se tem gente preparada para fazer isso? É no Brasil.”
    Produtores de ovos também esperam acesso ao mercado
    A expectativa de uma abertura maior também está presente entre empresas de outros segmentos. A Netto Foods, de São Paulo, especializada em ovos processados, espera conquistar espaço no mercado da União Europeia.
    O gestor de negócios Fausto Clemente afirma que a empresa já conta com certificações e está preparada para atender às exigências necessárias para exportar.
    “Abre uma janela de oportunidades muito grande para a região. E um ponto importante é que nós estamos prontos para isso. Nós já temos todas as certificações, nós atendemos todos os requisitos legais, não só relacionado a lei, mas com relação à segurança do alimento, ao Ministério da Agricultura de cada país. Então nós estamos prontos para fazer negócio”, explica
    Apesar das oportunidades proporcionadas pela abertura comercial, Clemente ressalta que a competitividade das empresas continuará sendo determinante para conquistar novos mercados.
    “O mais importante é você ser eficiente e ter um custo para poder ser competitivo. Quando você fala no mercado de ovo processado, ele não é tão comum. Então, o produtor muitas vezes não é tão impactado. Mas nada impede também de você ter parceria com os países, com produtor local e inclusive pensando em expansão”, acrescenta.
    Para o executivo, uma maior integração dos mercados também pode favorecer a troca de conhecimento e de tecnologias entre produtores de diferentes países.
    “Vemos que é uma oportunidade muito interessante para ambos os lados. O mundo precisa disso, uma vez que os mercados estão abertos. Você consegue compartilhar boas práticas, novas tecnologias. Você consegue atender aos novos padrões que muitas vezes você não tinha no seu próprio país”, afirma.
    Um levantamento da ApexBrasil identificou 407 oportunidades comerciais para produtos brasileiros somente na França. Para produtores e empresas que buscam ampliar as exportações, a expectativa agora é transformar a redução das barreiras comerciais em maior presença nas prateleiras e nas cadeias produtivas europeias.
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    Brasil aposta em SIAL Paris para ampliar exportações e prevê US$ 3,5 bilhões em negócios

    21/10/2026
    De bebidas a carnes, passando por frutas, castanhas e produtos da agricultura familiar, o agronegócio brasileiro está reunido nos arredores de Paris para a SIAL, uma das maiores feiras profissionais do setor agroalimentar do mundo. O evento termina nesta quarta-feira (21) com a expectativa de gerar US$ 3,5 bilhões em negócios para os produtores nacionais.
    Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris
    Ao todo, 156 empresas brasileiras ocupam mais de 2,5 mil metros quadrados de estandes para apresentar seus produtos a compradores do mundo inteiro. A participação reflete a diversidade do setor, reunindo desde grandes exportadores de proteínas animais até pequenas cooperativas da agricultura familiar.
    Entre as empresas presentes está a Netto Foods, de São Paulo, especializada em ovos processados. Com mais de 25 anos de mercado, a empresa destina atualmente 90% da produção ao Brasil, mas já está presente em 15 países e quer ampliar sua participação no mercado internacional.
    “Nós processamos atualmente mais de 5 milhões de ovos por dia em três plantas produtivas no Brasil", explica Fausto Clemente, gestor de negócios da empresa. "Nós produzimos o ovo líquido processado, o ovo líquido em pó e você também encontra o ovo separado, ou seja, a clara em pó, a clara líquida, a gema em pó e a gema líquida, que são aplicáveis para os diversos segmentos onde o mercado necessita”, completa. 
    Segundo Clemente, entre as vantagens desse tipo de produto estão a segurança alimentar, a redução do desperdício e uma maior padronização na indústria. “Você tem alguns benefícios. A questão da segurança alimentar, que é o fator primordial, mas você consegue padronizar suas receitas. Então você consegue controlar os seus processos, controlar os seus custos e evitar desperdício”, acrescenta.
    A participação na SIAL também faz parte da estratégia da empresa para ganhar espaço na Europa. “O nosso plano é realmente estar aqui, olhar, ver o que está acontecendo. E o mais importante: construir o relacionamento com parceiros na União Europeia”, afirma.
    Carne brasileira busca ampliar presença internacional
    As proteínas animais ocupam um lugar de destaque entre os produtos brasileiros apresentados em Paris. O setor de carne bovina participa da feira por meio do projeto Brazilian Beef, desenvolvido pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) em parceria com a ApexBrasil.
    Segundo Roberto Perosa, presidente da ABIEC, a presença continuada em eventos internacionais é importante para consolidar mercados para o produto brasileiro.
    “Faz 12 anos que a gente vem pra cá junto com a Apex, onde nós temos um projeto em parceria com a Apex que chama Brazilian Beef. A gente divulga a carne de boi no mundo inteiro. Em todos os continentes. E a gente exporta para 177 países. Então, por isso a importância da gente fazer essa promoção comercial contínua e continuar as vendas de carne bovina para o mundo.”
    Perosa também destaca o crescimento da capacidade produtiva do setor nos últimos anos. “Veja que há seis anos, em 2020, o Brasil abateu cerca de 30 milhões de animais e processou 30 milhões de bois nos frigoríficos e, no último ano, nós processamos 42,9 milhões, crescemos quase 50%. Isso mostra a capacidade da produção pecuária brasileira de aumentar a produção, mas também a capacidade da indústria de processar todo esse material”, destaca Perosa.
    Ao todo, a SIAL reúne 295 mil profissionais de aproximadamente 194 países. Importadores, distribuidores, varejistas, redes de supermercados, indústrias, restaurantes e hotéis circulam pela feira em busca de fornecedores, produtos e tendências para o mercado de alimentos e bebidas.
    Para Laudemir Müller, presidente da ApexBrasil, a dimensão do evento oferece às empresas brasileiras uma oportunidade de estabelecer contatos que podem se transformar em contratos mesmo depois do encerramento da feira.
    “Esperamos ter uma venda recorde em torno de 3,5 bilhões de dólares nesta feira, o que mostra a importância do Brasil e estamos muito satisfeitos não só com esse resultado que esperamos ter, mas também com o conhecimento, porque é sempre bom saber que o Brasil está aqui com consistência, que o Brasil chega cada vez com mais força e as nossas empresas, nossos produtores rurais, façam contatos e possam se engajar com compradores internacionais, porque às vezes o negócio não acontece na feira, mas acontece depois”, analisa.
    Agricultura familiar estreia na feira
    Uma das novidades da participação brasileira nesta edição é a presença de dez cooperativas da agricultura familiar. Elas apresentam produtos ligados à biodiversidade brasileira, à sustentabilidade, ao comércio justo, à bioeconomia e ao desenvolvimento regional.
    “Toda a indústria do agronegócio está aqui. Mas também estamos trazendo a agricultura familiar, os pequenos empreendimentos da agricultura familiar, e a forma de trazer isso é por meio das cooperativas. Porque o meio de um pequeno agricultor, de uma agricultora familiar chegar no mercado internacional é através da união”, observa Laudemir Müller.
    Um dos exemplos é a Unicafes, que representa 1.500 cooperativas brasileiras, reunindo cerca de 6 milhões de pessoas em diferentes regiões do Brasil. Na SIAL Paris, aproximadamente cem produtos orgânicos, entre eles mel, própolis, geleias e proteínas vegetais, integram essa vitrine.
    Luciano Monteiro da Silva, conselheiro da entidade, afirma que a variedade comercializada pelas cooperativas é ainda maior.
    “Hoje nós trabalhamos com quase 500 produtos diversos dos seis biomas brasileiros. Tudo focado na agroecologia, na produção orgânica, no cuidado com a sustentabilidade, com produção saudável. Embora respeitemos todas as exigências de mercado, que é ter qualidade, escala, compromisso, respeitando o produto na sua origem. Aquilo que eu não consumo, eu não vendo nem levo para ninguém”, ensina.
    Ele destaca ainda a diversidade de frutas cultivadas pelos produtores. "Hoje, no quintal produtivo, nos nossos sítios, nas nossas propriedades, nós temos aproximadamente 37 frutas diferentes, das quais 20 são exclusivas do Brasil. Como é o caso da mangaba, do açaí, do maracujá da caatinga, do pequi do cerrado, da siriguela, do umbu-cajá”, cita.
    Realizada a cada dois anos, a SIAL Paris aproxima empresas brasileiras de importadores, distribuidores e outros parceiros comerciais internacionais. Nesta edição, a expectativa brasileira é que os contatos iniciados nos corredores da feira continuem depois do evento e abram novos mercados para produtos que vão da carne bovina aos sabores menos conhecidos da biodiversidade nacional.
    A próxima questão para o setor é o impacto do acordo entre Mercosul e União Europeia sobre esse comércio.
  • Radar econômico

    Pela primeira vez, Salão do Automóvel de Paris tem número equivalente de marcas chinesas e europeias

    12/10/2026
    A entrada dos veículos elétricos chineses no mercado europeu atingiu uma marca simbólica: no Salão do Automóvel de Paris, aberto nesta segunda-feira (12), o número de fabricantes chinesas iguala o de europeias. A participação de marcas do país asiático dobrou em relação à última feira, em 2022, com um total de 20 montadoras.
    Não é preciso andar muito para constatar essa “invasão” chinesa: já no primeiro pavilhão, nomes ainda pouco conhecidos no continente, como a Li Auto, buscam ganhar espaço no mercado europeu.
    “Essa é a nossa primeira vez no Salão de Paris e também na Europa. Estamos muito empolgados. Trouxemos os nossos melhores modelos”, celebra Jaffy Xiao, porta-voz da montadora. “Este aqui, o i6, foi especialmente pensado nos nossos clientes europeus, e todo o chassi, a experiência dinâmica e a parte de software são daqui.”
    Depois do fechamento do mercado norte-americano, o continente virou uma prioridade para a expansão das marcas chinesas de carros elétricos. As exportações de veículos híbridos para a UE triplicaram no primeiro semestre do ano, atingindo US$ 7,5 bilhões.
    Focada na gama premium para famílias e na condução autônoma, a Li Auto é a número 1 dos carros elétricos e híbridos de luxo na China – que ainda têm pouca penetração na clientela europeia. “Nós entendemos esse tipo de estereótipo, mas vamos provar a nossa capacidade com os nossos produtos”, diz Jaffy Xiao.
    Grandes estandes
    Marcas com presença mais consolidada, como SAIC, Chery e a BYD, que dominam 90% das vendas de veículos chineses no bloco europeu, chegam ao Salão do Automóvel com grandes estandes e uma dezena de modelos cada. Lionel French Keogh, diretor operacional do Grupo Chery na França, nota que os preços mais competitivos, apesar das tarifas de importação impostas pela União Europeia, levam os carros da China a conquistarem cada vez mais espaço.
    “Teremos meio milhão de pessoas passando aqui e vai ser uma oportunidade para mostrarmos os nossos produtos e as nossas tecnologias, para que os clientes franceses compreendam que hoje os carros chineses são, pelo menos, tão bons quanto as montadoras tradicionais com as quais eles estão acostumados”, afirma.
    “Chegamos aqui com todos os carros eletrificados, muito seguros e com tabelas de preços mais acessíveis que as dos fabricantes europeus tradicionais. Isso dá às pessoas a chance de comprar um veículo bom e novo, algo que muitos clientes não conseguiam mais”, sublinha Keogh.
    Os carros chineses já representam 10% das vendas de veículos na Europa. A estratégia de penetração na região passa por fabricar uma parte crescente dos carros no próprio continente, mas também inclui prazos longos de garantia (sete anos no caso da Chery), ampla rede de assistência técnica e estoques de peças.
    Avanço da Geely
    Além disso, a Geely promoveu uma ambiciosa campanha de aquisição ou associação a marcas tradicionais europeias, como Volvo, Aston Martin e Smart. No ano passado, o grupo chinês comprou 26% da Renault do Brasil – o terceiro mercado mais importante da marca francesa.
    “Nós, como Renault no Brasil, temos acesso à tecnologia da Geely. Estamos produzindo a nova plataforma e no ano que vem vamos ter um carro Renault em cima de uma plataforma da Geely: um carro totalmente Renault, com a cara Renault, com design Renault e utilizando uma tecnologia híbrida disponível da marca Geely. É realmente um ganha-ganha para o consumidor brasileiro”, justifica Caique Ferreira, diretor de comunicação da fabricante no país.
    “O objetivo é produzir no Brasil. Podemos completar a gama com carros importados, mas estamos caminhando para nacionalizar o máximo, produzir no Brasil, gerar empregos no Brasil, gerar impostos no Brasil. Aqui na Europa, a Renault segue sozinha e aberta a algumas parcerias, mas sempre com a Renault liderando a parte de tecnologia”, complementa.
    Acordo para limitar importação
    Na Europa, onde a indústria automotiva tem maior peso na economia, o avanço chinês é visto com preocupação. Bruxelas acaba de finalizar um acordo com Pequim que inclui um limite de 350 mil unidades híbridas e híbridas plug-in importadas da China por ano.
    Nos pavilhões do salão nesta segunda-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a medida como “uma forma de proteger” a indústria do bloco “da concorrência desleal".
    “A concorrência faz parte do jogo. O importante sempre é ter regras claras”, observa Caique Ferreira. “Já tivemos concorrência no passado, a chegada dos americanos, dos japoneses e dos coreanos. Agora, é dos chineses.”
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    Escândalos na campanha ofuscam debate sobre melhora da economia e futuro do Brasil

    30/09/2026
    A sequência quase diária de escândalos financeiros e institucionais no Brasil tomou conta da campanha eleitoral, deixando de lado o debate aprofundado de temas fundamentais para o futuro do país, a começar pela economia. As pesquisas mostram que o custo de vida é uma das principais preocupações dos eleitores.
    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao fim do mandato com bons indicadores, como o baixo desemprego, os juros em trajetória de queda e a inflação relativamente sob controle, em um contexto de forte pressão internacional devido ao aumento global dos preços da energia.
    Entretanto, o alto endividamento das famílias e o custo elevado do crédito pesam no orçamento dos brasileiros. A redução das perspectivas de crescimento econômico, que agora é de 2% em 2026, conforme o governo, reflete essa conjuntura sob tensão.
    “O que as estatísticas mostram é que a economia vai bem”, salienta o economista e sociólogo Gilson Schwartz, professor da USP. “Mas por que a melhora de indicadores tão importantes – renda, crescimento – não se transforma, pelo menos na mesma proporção, em um indicador de satisfação com a economia? Mesmo quando existe esse aumento de satisfação, nem sempre isso se converte em voto no governo. Existem outras dimensões que acabam afetando a expectativa política”, complementa.
    Violência no topo, à frente de corrupção, saúde e economia
    A violência é o principal problema do Brasil para cerca de 30% dos eleitores, indicam as pesquisas. Na sequência, três tópicos costumam se alternar, com em torno de 14% cada: corrupção, saúde e economia. No último levantamento da Quaest, em setembro, a situação econômica disparou entre as principais preocupações, sendo mencionada por 19% dos interrogados.
    “A inflação está sob controle, mas os preços já vêm, há algum tempo, em um patamar bastante elevado. O nosso problema é como aumentar a renda”, analisa Carlos Melo, cientista político do Insper. “Por decreto, aumentando o salário mínimo? Se você fizer só isso, você só vai criar inflação e não vai resolver nada. Você precisa aumentar renda pelo aumento de produtividade – e nós não temos tido isso há muito tempo.”
    No plano econômico, os dois principais candidatos no pleito, Lula e o senador Flávio Bolsonaro, oferecem projetos antagônicos ao país. Enquanto o petista representa a continuidade das políticas focadas no combate às desigualdades, o candidato do PL quer revisar a Reforma Tributária e promover um amplo corte de despesas públicas, a começar pelo funcionalismo, a exemplo do vizinho argentino Javier Milei ou o americano Donald Trump.
    Já Lula mantém o foco no arcabouço fiscal em vigor. O petista busca equilibrar as contas públicas pela arrecadação, e não pela diminuição dos gastos. A dívida pública ultrapassa os 82% do PIB brasileiro, a maior taxa em cinco anos.
    Receita para equilibrar as contas públicas – e das famílias
    O ajuste fiscal também se reflete nas famílias. Quase um terço da população brasileira – ou mais da metade dos adultos – está endividada. A espiral negativa é causada por fatores como acesso fácil a crédito a juros altos, apostas online e aumento dos custos de vida. O programa Desenrola, de apoio à regularização financeira, e o aperto contra as bets ainda não surtiram os resultados esperados por muitos eleitores.
    “Acho que o eleitor médio não tem informação suficiente sobre quais são os indicadores relevantes. É um tema muito aberto a debate e, em geral, ele cai em enunciados mais populistas, do tipo ‘vou gastar tudo’ ou ‘vou gastar nada’”, salienta Schwartz.
    “A realidade é mais complexa. É uma combinação de variáveis como juros, taxa de câmbio, taxa de crescimento, dívida pública e déficit público. Nem o Flávio, nem o Lula têm essa proposta”, constata o economista da USP, ao observar a ausência de um debate sobre um modelo de desenvolvimento a ser adotado no Brasil.
    Projeto de futuro
    Quanto à política externa, a guerra comercial e a diversificação de parceiros, o impacto dos conflitos internacionais nas cadeias globais de abastecimento e atração de investimentos em setores em que o Brasil tem forte potencial, como minerais críticos, são temas praticamente ausentes das campanhas, nota Carlos Melo.
    “Se discute muito o presente, mas não o futuro”, reitera o cientista político do Insper. “Qual é o papel do Brasil no novo concerto das nações, numa sociedade altamente tecnológica, com inteligência artificial? Qual o papel do Brasil num mundo novamente dividido do ponto de vista da geopolítica e de grupos de países poderosos hegemônicos nas suas regiões? Seria muito importante que a eleição trouxesse essa agenda, mas isso simplesmente não aparece.”
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Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia mundial.
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