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  • Investida de Trump na Venezuela tende a impulsionar nova dinâmica de petróleo na América Latina

    07/1/2026

    A operação americana na Venezuela para capturar o presidente Nicolás Maduro e assumir o controle das reservas de petróleo do país tende a impulsionar a dinâmica de ampliação da exploração de óleo e gás na América Latina. Brasil, Argentina, Guiana e Suriname avançam nesta direção, mas também Bolívia, Chile e Colômbia oferecem potenciais ainda pouco explorados. A Venezuela tem as maiores reservas mundiais de petróleo, com cerca de 17% do total. Entretanto, desde a estatização do setor no país e a saída das companhias americanas e britânicas na era chavista, a capacidade de produção nacional despencou para cerca de 800 mil barris por dia – muito abaixo de concorrentes de peso como Arábia Saudita, Rússia e os próprios Estados Unidos. O economista Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e experiente especialista no mercado internacional de petróleo, vê um cenário favorável para os países detentores de reservas na América Central e do Sul ingressarem com força na corrida não só pelo óleo, como também pelo gás. “Na Argentina, o governo de direita, do Milei, é alinhado a Trump. A Bolívia também recentemente teve uma eleição e a direita ganhou”, observa, ao lembrar que os investimentos e a produção de gás de La Paz também desmoronaram após a estatização dos campos pelo ex-presidente Evo Morales. “Você tem a Guiana, grande estrela de produção de óleo, cujos dois principais investidores são as americanas ExxonMobil e Chevron. Tem a Colômbia, onde haverá eleições este ano e parece que o favorito é o candidato da direita, assim como no Chile, onde a direita venceu.” No Brasil, o cenário eleitoral para 2026 aponta o presidente Lula como favorito à reeleição. O petista não esconde o apetite pela abertura de novas frentes de exploração de petróleo no país, que hoje é o sétimo maior produtor mundial. Petrobras sob pressão A volta dos americanos à Venezuela e de Caracas como protagonista do mercado mundial tende a estimular a competição internacional pela atuação na margem equatorial brasileira, colocando a Petrobras sob pressão. Em 2025, após 12 anos, a companhia recebeu autorização para iniciar os estudos de prospecção em um dos quase 300 blocos identificados na área, ao norte do Brasil. “Você vai ter empresas de petróleo que vão começar a se questionar: coloco dinheiro na Venezuela ou coloco na margem equatorial? Está sendo criado um concorrente para esses investimentos”, pontua Pires. O provável aumento da oferta mundial de petróleo levará à queda ainda maior do preço do barril, hoje negociado em torno de US$ 60. A diminuição do valor nos próximos dois anos já era antecipada pelos analistas, devido a uma oferta abundante e não acompanhada por aumento da demanda. A esperada alta da produção venezuelana acentua o fenômeno. Aumento das vendas para a China Mas, se por um lado as receitas das vendas vão cair, com impacto nas decisões de investimentos e fluxos de caixa, por outro a derrubada do regime de Nicolás Maduro cria uma oportunidade para a petroleira brasileira: aumentar as exportações para a China. Pequim é o destino de 80% do petróleo venezuelano, a custos inferiores aos do mercado. Adriano Pires ressalta que o Brasil está em curva ascendente de produção, passando dos menos de 4 milhões de barris por dia para uma expectativa de 5 milhões em 2027. “Além disso, as empresas chinesas de petróleo que compraram campos aqui no Brasil já produzem 350 mil barris por dia, então o Brasil é cada vez mais um país hiperimportante para a China, no sentido de abastecimento de petróleo”, afirma o economista. “Aí eu não sei como é que o Trump vai olhar para isso.” Para o especialista, o objetivo número 1 do presidente americano ao intervir na Venezuela foi barrar o acesso chinês ao petróleo do país e se tornar um player incontornável deste mercado. “O que ele quer, na realidade, é ter um controle maior sobre as reservas de petróleo mundiais, para poder dar um xeque-mate na China, que hoje é a segunda maior consumidora de petróleo no mundo, e ao mesmo tempo criar uma espécie de mini-OPEP para ele. Ele pode agora sentar à mesa e ser um player que define níveis de produção e automaticamente níveis de preço no mercado internacional de petróleo”, indica Pires. “No tabuleiro da geopolítica do petróleo, Trump passa a jogar com muito mais poder.”

  • Eleições e Copa do Mundo impactarão a agenda econômica no Brasil em 2026

    24/12/2025

    Em um contexto geopolítico de tantas incertezas, o que esperar da economia em 2026? Com o mundo ainda sob o impacto da gestão agressiva do presidente Donald Trump, reconfigurando suas antigas alianças, o aumento do protecionismo e a ameaça das guerras levam o crescimento mundial a continuar fraco, antecipa o FMI. No Brasil, a perspectiva de eleições embaralha ainda mais as cartas. Mesmo assim, há razões para otimismo. Lúcia Müzell, da RFI em Paris Segundo o Fundo Monetário Internacional, o crescimento do PIB mundial em 2026 será quase o mesmo que em 2025: 3,1%. As tarifas comerciais mais elevadas, a instabilidade das políticas econômicas, a começar pelos Estados Unidos, e os conflitos geopolíticos impactam no comércio e nos investimentos, aponta também a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). “Será, acima de tudo, um ano de surpresas, porque assim é o governo americano. Muitas coisas podem acontecer, desde as mais assustadoras até as mais pitorescas”, observa Jorge Arbache, professor de Economia da Universidade de Brasília e ex-economista sênior do Banco Mundial. “É possível que o que está aí se aprofunde e a gente tenha uma ainda maior polarização em nível global. E, para um país como o Brasil, que procura manter uma certa neutralidade política e econômica, vai exigir, num ano de eleições, um certo malabarismo para não elevar tensões ou não criar dificuldades num ambiente muito frágil e sensível. O país, obviamente, vai adiar grandes decisões, esperando um novo governo – qualquer que seja ele”, afirma Arbache. Impacto das eleições e da Copa do Mundo “A gente fala que é um ano mais curto porque tem eleições e também a Copa do Mundo, que é algo muito importante no Brasil”, lembra ainda a economista Patricia Krause, especialista na economia da América Latina da Coface, líder mundial de seguro de crédito. “A agenda no Congresso fica reduzida e, no segundo semestre, tudo fica mais focado nas eleições. Elas podem trazer sempre alguma volatilidade cambial – e câmbio é a pior variável que tem para tentar fazer previsões”, frisa. No ano que passou, a desigualdade caiu ao menor índice em 10 anos no Brasil, e o país atingiu o pleno emprego. No segundo semestre, o crescimento econômico desacelerou, o que era esperado há meses pela maioria dos especialistas, preocupados com a inflação. “A economia brasileira, de modo geral, tem surpreendido para cima nos últimos anos, com crescimento mais resiliente do que esperado e os economistas revisando para cima as projeções. E este ano, de fato, ocorreu essa desaceleração do crescimento que há muito era esperada”, indica Patricia Krause. Queda dos juros? Com uma taxa Selic de 15% ao ano, num contexto de inflação de 4,5%, a projeção de crescimento da Coface para 2026 é de 1,9%. Mas a perspectiva agora é de queda da inflação. “Com isso, a grande questão é a esperança de que o Banco Central brasileiro comece a reduzir juros no começo do próximo ano”, salienta Krause. Ano eleitoral costuma ser sinônimo de aumento de gastos – e, no caso do Brasil, este é um dos aspectos mais delicados que ficam de 2025 para 2026. A situação das contas públicas se deteriora ano após ano e o descontrole fiscal é hoje a maior preocupação da economia do país, com o déficit e a dívida pública em curva ascendente. A alta da taxa de juros, aplicada pelo Banco Central para controlar o aumento dos preços, joga ainda mais lenha nesta fogueira, ao corroer a fraca margem de manobra dos gastos do governo federal. Se nada for feito, o orçamento tende a ficar cada vez mais estrangulado, com o peso das despesas em saúde e previdência também em crescimento. “O aumento significativo dos gastos já está contratado. Ele não vai nos surpreender”, adverte o professor da UnB, que foi secretário para Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento. “Hoje, 95% dos gastos públicos são praticamente definidos. O espaço de manobra efetivo é muito menor do que as pessoas imaginam.” Brasil em posição favorável no mundo O economista pondera, entretanto, que, do ponto de vista relativo, o Brasil hoje está melhor em relação à maioria dos outros países, inclusive as potências. “Não que o Brasil tenha feito o dever de casa, mas porque o mundo piorou. Fazer negócios hoje nos Estados Unidos é muito mais arriscado do que no Brasil”, diz Arbache. “Muita coisa tem mudado também na Europa, e a guerra cria uma insegurança brutal. O mundo hoje não está para peixe, e do ponto de vista relativo, o Brasil está melhor.” Os dois economistas avaliam que, em meio à guerra comercial de Donald Trump contra os antigos parceiros, o Brasil demonstrou resiliência. “O fato de o Brasil ser uma economia ainda muito fechada ao comércio nesse momento acabou ajudando. Isso não é algo positivo, mas neste momento em que o comércio internacional preocupa, você está menos exposto”, sublinha a especialista da Coface. “Teve queda nas exportações para os Estados Unidos, porém o Brasil conseguiu aumentar vendas para outros mercados. Isso foi, de certa forma, algo positivo.” No plano interno, a aprovação das reformas fiscal e tributária trouxe avanços. O arcabouço legal relativo à economia verde, com um imenso potencial para o Brasil, coloca o país na rota de investimentos em setores como energia renovável, mercado de carbono e combustíveis limpos. Em 2025, o Brasil demonstrou que entendeu qual é o seu lugar nesta promissora economia, constata Jorge Arbache. “Eu acho que não existe outra estratégia para o país, do ponto de vista econômico e de desenvolvimento. É essa ou nenhuma”, destaca. “Não só a capacidade de atração de investimentos no âmbito do powershoring, mas também aquilo que é pertinente aos minerais críticos para a transição e às terras raras, que vêm atraindo uma crescente atenção, especialmente da Europa, dos Estados Unidos e da China. Muita coisa deverá se passar nos próximos meses e anos. Esse caminho é sem volta.” Acordo UE-Mercosul  Neste ponto, o economista chama a atenção para as falhas do acordo comercial negociado entre a União Europeia e o Mercosul, que esteve prestes a ser ratificado em 2025. Travado devido a resistências na questão agrícola, o texto sequer aborda o potencial de cooperação na área da transição energética. Os europeus deixam passar a oportunidade de serem parceiros privilegiados dos países latino-americanos neste comércio. “O maior ganho, para a Europa, nem está nas manufaturas. Eu acho que é tudo aquilo que tem a ver com a abertura de novas fronteiras e possibilidades de negócios para ajudar a solucionar muitos dos mais graves problemas econômicos que a Europa tem, associados à energia e à produção de vários produtos manufaturados e insumos a custos muito menores, fundamentais para dar maior competitividade para a própria indústria europeia”, explica. “Essas coisas passam ao largo do acordo atual.” Ainda na área de energia, mas também das commodities, as perspectivas são positivas. “A gente tem uma produção de petróleo em alta e pode ter um ano importante, em termos de volume. A estimativa de safra indica recorde, além de uma demanda por proteína aquecida”, antecipa Patricia Krause. “Eu diria que o canal de exportação e também um consumo resiliente podem trazer alguma sustentação para o PIB brasileiro no próximo ano.”

  • Acordo UE-Mercosul: bode expiatório de uma agricultura francesa em crise prolongada

    17/12/2025

    A Comissão Europeia e o Mercosul esperavam confirmar nesta semana a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o bloco sul-americano – mas a França, mais uma vez, resiste à adoção do tratado, negociado há mais de 25 anos. No país, o pacto se transformou no bode expiatório de um modelo de agricultura em sucessivas crises. Lúcia Müzell, da RFI em Paris A mais recente delas é sanitária: uma dermatose nodular contagiosa bovina ameaça o rebanho francês e obriga o governo a promover abates em massa de animais, para conter a epidemia. Ao mesmo tempo, o país combate a gripe aviária, que ameaça a região de Landes, principal produtora de patos para o renomado foie gras. As crises sanitárias correm em paralelo a dificuldades mais profundas em setores emblemáticos da produção agrícola francesa, do trigo aos vinhedos, vítimas da concorrência internacional, das mudanças climáticas e das reviravoltas no comércio mundial. Em 2025, pela primeira vez em 50 anos, a agricultura da França poderá registrar déficit comercial, importando mais do que exporta. A inversão se explica pelo aumento dos preços do cacau e do café no mercado internacional, de um lado, e, do outro, pela diminuição das exportações de vinhos e destilados após a guerra tarifária de Donald Trump, somada à safra ruim e à queda dos preços dos cereais. “Foi mais conjuntural, mas se soma a recuos em relação a outros países europeus, como no setor de frutas e legumes. Temos um problema de conjuntura e outro de competitividade, em alguns setores”, explica Jean-Christophe Bureau, professor de Economia da AgroParisTech e especialista em comércio agrícola internacional. “O nosso déficit nos últimos anos se acentuou, principalmente, com os países da União Europeia”, salienta. Corte nos subsídios à vista Os riscos de cortes na Política Agrícola Comum (PAC) do bloco europeu aumentam a preocupação: o próximo orçamento (2028-2034) poderá ser 20% menor, com impacto maior na França, principal beneficiária do programa de subsídios. Os agricultores franceses recebem cerca de € 9 bilhões de ajuda a cada ano, o que representa dois terços da sua renda. Os números evidenciam o déficit de competitividade agrícola francesa, que valoriza a produção local, o savoir-faire familiar e tradicional, em detrimento da agricultura intensiva praticada pelas maiores potências mundiais. O país é o líder europeu de produção agrícola e agroalimentar, mas passou de segundo para sexto maior exportador do planeta, com 4,3% do mercado em 2024. Desde 2015, a França importa mais do que exporta aos vizinhos da União Europeia. A cada duas frutas ou legumes consumidos no país, um vem de fora. “Em alguns casos, temos de fato diferença de custo da mão de obra, que é menor na Espanha, graças à imigração e aos salários mais baixos, ou na Alemanha, onde os encargos trabalhistas são bem menores”, aponta Bureau. “Mas também podemos citar as nossas deficiências em pesquisa e desenvolvimento e até de formação de algumas técnicas.” Normas ambientais europeias O êxodo rural é outra preocupação. A renda média dos agricultores estagnou nos últimos 20 anos, e o aumento das dificuldades do setor afasta a nova geração do campo, na comparação com outras potências agrícolas do bloco, como a Itália ou a Alemanha. Alguns sindicatos agrícolas também criticam o que seria um excesso de regulamentações sanitárias e ambientais no bloco. “A agricultura francesa é caracterizada pela sustentabilidade, na comparação com as grandes potências agrícolas mundiais. Ao mesmo tempo, começa a enfrentar cada vez mais dificuldades ambientais, exacerbadas pelas mudanças climáticas. Temos impasses técnicos para lidar com pragas sanitárias em animais e vegetais”, observou Aurélie Cathalo, diretora de Agricultura do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais (IDDRI), à RFI. “Temos problemas com a fertilidade dos solos, e isso explica a estagnação ou até diminuição da renda dos agricultores. Precisamos colocar a agronomia a nosso favor, fazer o esforço de nos adaptarmos e podermos continuar a produzir, apesar do andamento da situação.” Acordo visto como uma ameaça Neste contexto, para a maioria dos agricultores da França, o acordo com o Mercosul representa um perigo. Eles denunciam a concorrência desleal devido a padrões de produção menos rigorosos na América Latina, principalmente do ponto de vista ambiental. A França obteve da Comissão Europeia garantias de salvaguardas para os setores mais ameaçados – mas as barreiras são insuficientes aos olhos dos produtores. “Segundo os nossos cálculos, o acordo com o Mercosul não tem impactos grandes, afinal foram inseridos limites de importação. Entretanto, é um acordo que se soma a outros que já temos, o que faz com que, para alguns setores, como a carne bovina, as aves e o mel, ele se torne desfavorável”, pondera o professor da AgroParisTech. “Há uma insatisfação generalizada, e é evidente que, em um ano de renda muito baixa, devido a safras fracas, em que os problemas climáticos se sucederam, como inundações e incêndios, o acordo com o Mercosul vira a gota d’água que faltava”. Nesta terça-feira (16), o Parlamento Europeu aprovou uma série de medidas de proteção e criou um mecanismo para supervisionar o impacto do acordo em produtos sensíveis, como carne bovina, aves e açúcar. Os trechos abrem as portas para a aplicação de tarifas em caso de desestabilização do mercado no bloco. Os eurodeputados desejam que a Comissão Europeia intervenha se o preço de um produto latino-americano for pelo menos 5% inferior ao da mesma mercadoria na UE e se o volume de importações isentas de tarifas aumentar mais de 5%. Mesmo assim, é provável que a França não aprove o texto. Paris solicitou à União Europeia (UE) o adiamento da assinatura do pacto comercial, que Bruxelas gostaria de concretizar no próximo sábado (20), no Brasil. Resta saber se a Itália, que mostrou sinais contraditórios nos últimos meses, se colocará ao lado da Comissão ou ao lado dos franceses – neste caso, uma maioria qualificada de Estados-membros seria formada para bloquear o pacto, com o apoio da Polônia e da Hungria, também contrárias ao projeto. Com AFP

  • Energia eólica em alto-mar desacelera no mundo e mira recuperação nas potências emergentes

    03/12/2025

    As energias renováveis, em pico de expansão, viveram um paradoxo em 2025: ao mesmo tempo em que superaram pela primeira vez o carvão na geração de eletricidade no mundo, os projetos de eólicas em alto-mar (offshore) recuaram. Na Europa e em potências como Japão e Índia, planos de novas instalações são adiados ou cancelados, em um contexto fragilizado pelo revés norte-americano no setor. Lúcia Müzell, da RFI em Paris A Agência Internacional de Energia (AIE) antecipa uma desaceleração da abertura de novos parques eólicos offshore até o fim da década. Em seu relatório anual publicado em outubro, a instituição reduziu em 27% a sua expectativa de novas capacidades até 2030. Diversos aspectos influenciam esse cenário: aumento dos custos de matérias-primas fundamentais, como aço e cobre, flutuações nas cadeias globais de suprimentos e desaceleração econômica mundial, com impacto na demanda de energia. Na Europa, o redirecionamento dos recursos para defesa, no contexto da guerra na Ucrânia, desmobilizou o impulso às offshores, mais onerosas. Em termos de volume de investimentos, a complexidade dos projetos torna a comparação com as outras fontes limpas desfavorável. "A necessidade de capital fixo é muito maior do que a eólica onshore, porque você tem que levar para o mar e, lá, você pode fazer instalações com muito maior capacidade”, salienta o professor do Instituto de Economia da UFRJ Nivalde de Castro, coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico. "Enquanto que onshore você tem torres de 4, 5 ou 10 MW de capacidade instalada, no mar você tem a possibilidade de instalar 20, 30, 50 MW. E como está no mar, todo o sistema de transmissão também é muito mais caro.” Freio nos EUA e foco nos emergentes Os ventos do negacionismo climático de Donald Trump contribuem: o presidente congelou os projetos de energias renováveis nos Estados Unidos, afetando não apenas o desenvolvimento do setor no próprio país, como o acesso a equipamentos americanos pelos clientes do planeta. Entretanto, em um mundo na rota da descarbonização, a tendência a médio e longo prazos continua de crescimento, tanto nos países europeus como, principalmente, nos emergentes. O recorde de 9 gigawatts offshore instalados em 2024 deve despontar para 37 GW até o fim desta década, segundo a AIE. A China desponta na frente e deve responder por cerca da metade das novas capacidades. O Brasil, com quase metade da sua matriz energética e 90% da elétrica já renováveis, engatinha na via das eólicas em alto-mar. Nos últimos 15 anos, investimentos em solares e eólicas terrestres dispararam, impulsionados por subsídios. Mas os projetos offshore ainda não decolaram. "Não faz sentido a gente investir agora em uma fonte que é cinco vezes mais cara do que a energia solar, por exemplo. Mas a eólica offshore não está fora do radar do planejamento energético brasileiro”, frisa Castro. Brasil espera promover leilão em 2026 As regiões do Brasil com maior atratividade para os futuros parques são o sul, o norte e o nordeste. Elbia Gannoum, presidente da ABEEOLICA (Associação Brasileira de Energia Eólica), avalia que a maturação desta indústria no mundo só trará vantagens para o país. “Quando a tecnologia eólica começou a se tornar viável no mundo e a se tornar viável no Brasil, começamos a fazer as eólicas onshore. A mesma coisa aconteceu com a energia solar, e com as offshore, vai ser igual”, indica. "Essa tecnologia está no processo de ganho de escala e redução de custos. Em 2030, quando o Brasil implementar, estaremos numa situação muito diferente”, observa. Em janeiro, o país aprovou o marco regulatório do setor, e a expectativa é realizar o primeiro leilão para eólicas offshore em 2026. Mais de 100 projetos já solicitaram licenciamento ambiental do Ibama para lançar operações na costa brasileira, uma das maiores do mundo. "Você tem que criar um arcabouço regulatório muito sólido, que envolve um alinhamento de várias instituições públicas e ministérios, como o da Marinha, da Indústria e Comércio, o Ibama. A gente está a caminho, mas a gente não tem pressa – essa é que é a diferença”, afirma o professor da UFRJ. Os desafios do curtailment Além disso, o país tem o desafio de acomodar o equilíbrio entre oferta e demanda das novas plantas energéticas. O excesso de geração dos grandes parques renováveis tem levado à repetição dos casos de curtailment, como são chamados os cortes propositais de plantas, para evitar uma pane do sistema. O problema levou a prejuízos de R$ 5 bilhões desde 2023, segundo a ABEEOLICA, e impacta as decisões de investimentos nas eólicas onshore no país, que caíram dois terços no período. Para Castro, é hora de o Brasil amadurecer os sistemas de armazenamento do excesso de energia gerado pelas novas fontes, por meio de baterias químicas e hidráulicas. “Já teremos no ano que vem um leilão de sistemas de armazenamento de baterias. Como elas podem ser instaladas rapidamente, a solução já está a caminho”, aponta. "Mas nós vamos ter ainda um período de muitos cortes e há um risco de dar um apagão no ano que vem”, adverte o especialista. Apesar dos desafios, Elbia Gannoum não tem dúvidas de que, no futuro, o potencial brasileiro em renováveis vai atrair também investimentos estrangeiros de indústrias altamente dependentes de energias limpas. "O mercado interno brasileiro está, sim, passando por uma crise neste momento, associada ao próprio ritmo da economia brasileira. No entanto, a gente já percebe uma recuperação com a chegada de data centers, projetos futuros de hidrogênio verde, descarbonização das indústrias, no conceito de powershoring”, sublinha a presidente da associação do setor. "A gente espera que, a partir de 2027, a gente já tenha uma retomada mais forte dos investimentos em renováveis." A Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas em Belém (COP30) colocou os potenciais do país sob os holofotes. Para encaminhar a transição energética, o mundo precisa triplicar as capacidades das renováveis até 2030.

  • Portugal oferece treinamento a imigrantes em profissões com falta de mão de obra

    26/11/2025

    Em um contexto de leis de imigração cada vez mais restritivas em Portugal, uma iniciativa se destaca pela formação e integração de imigrantes. O programa Integrar, uma parceria entre o Departamento Nacional de Turismo, a confederação patronal do setor de hotéis, bares e restaurantes e a AIMA (Agência de Imigração e Asilo), visa formar um total 1.000 pessoas até o fim do ano para trabalhar nesses estabelecimentos. Com informações de Theo Raizon, da RFI O objetivo é selecionar estrangeiros, em situação legal ou em processo de regularização, para encontrarem emprego num setor que precisa de mão de obra. Na Escola de Hotelaria e de Turismo de Lisboa, acompanhamos uma aula sobre ovos. Laura, 34 anos, é angolana e aluna do curso de formação do programa Integrar. Ela não conseguiu emprego na sua área, psicologia do esporte, e teve de se requalificar. "Organizar minha documentação levou tempo. Por isso, recorri a este estágio. O que não é um problema, porque eu adoro cozinhar. Mas sem isso, seria difícil, porque a vida é complicada. Se você quer ficar aqui e não tem um emprego que lhe agrade, é difícil. O que eu amo são pratos quentes. Eu não tinha experiência, estou descobrindo, e é fascinante!", diz. Laura estava prestes a voltar para Angola e ficou feliz com a oportunidade. Ela faz um alerta a outros interessados em viver no país. "Não venha com visto de turista se pretende ficar no país. Venha com visto de estudante, visto de trabalho ou com uma situação que o ajude a evitar armadilhas. Imigrar já é difícil... Mas se não tiver o visto certo, ficará preso numa série de problemas, sem conseguir obter a documentação adequada ou regularizar a sua situação," diz. A jovem angolana é uma das 1.000 pessoas selecionadas para receber formação em turismo, hotelaria e gastronomia: três meses numa das 12 escolas de hotelaria de Portugal e um mês de estágio em uma empresa. Um programa que poderia parecer comum se não fosse pelo seu público-alvo específico. A motivação é fundamental, acredita João Antunes, instrutor de culinária. "São pessoas altamente motivadas. O que noto nestes grupos é que são pessoas muito interessadas. Pessoas mais velhas, com mais experiência de vida, que aproveitam estas oportunidades que lhes são oferecidas. É valorizado porque se vê claramente a vontade deles de aprender", destaca. O Hotel Vila Galé Ópera, em Lisboa, é um dos 329 estabelecimentos parceiros do programa Integrar. Foi no restaurante do hotel que Raas, um indonésio, encontrou o seu lugar. Até então, ele tinha se contentado com trabalhos temporários. "Em Portugal, como indonésio, é difícil encontrar emprego por causa do idioma. Então, procurei um instituto que ensinasse português. Comecei o estágio há três ou quatro meses e agora falo um pouco de português. Antes, eu só podia comer em lanchonetes de fast food", conta. Raas está feliz. Ele é um dos 15 estagiários do programa Integrar a serem contratados em regime permanente — uma raridade na indústria hoteleira. Contrato permanente "Um contrato permanente oferece segurança. Tem um período de experiência e depois eles são efetivados aqui no hotel, e isso lhes dá segurança e a possibilidade de alugar um apartamento, comprar uma casa, fazer um empréstimo no banco", explica Victor Ferreira, o gerente assistente do Vila Galé Ópera. O hoteleiro, assim como seus colegas, enfrenta uma rotatividade significativa no setor. Poucos funcionários se comprometem a longo prazo. "É muito difícil ter funcionários fixos a longo prazo, porque eles precisam trabalhar no fim de semana, no mês de agosto, quando todo mundo vai à praia, e isso é difícil", acrescenta. Os salários também são alvo de críticas em um setor exigente. No Hotel Vila Galé Ópera, Raas, que está apenas começando, ganha 1.200 euros brutos por mês, o que representa 330 euros a mais que o salário mínimo — aproximadamente R$ 7.400. Catarina Paiva é responsável pelo programa Integrar, junto à Autoridade Nacional de Turismo. Ela considera o treinamento um sucesso e se mantém distante do debate político sobre imigração. "Temos uma visão otimista e muito positiva da integração dos migrantes em nosso setor. Como eu disse, não queremos nos envolver no debate político. Nosso papel é garantir que aqueles que obtêm status legal tenham a oportunidade de construir uma carreira. Trata-se de garantir as condições necessárias para que as pessoas possam ser formadas em todo o país e de prestar apoio personalizado a quem estiver determinado a viver em Portugal", afirma. O programa Integrar pode servir de exemplo a outros setores. "O objetivo final do programa, e ficaríamos muito felizes se fosse alcançado, é a sua replicação. Gostaríamos de aproveitar o sucesso da nossa experiência para que sirva de modelo a outros setores profissionais capazes de integrar migrantes", conclui.  A parceria inédita entre o Departamento de Turismo de Portugal, empresários do setor e a agência de imigração será renovada em 2026. Isto representa um investimento de € 5 milhões para formação profissional no país. 

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Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia mundial.
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