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  • Quanto custaria para os EUA comprar a Groenlândia?

    21/1/2026
    Donald Trump não está brincando quando afirma querer comprar a Groenlândia, território autônomo sobre o qual a Dinamarca é soberana. O presidente americano parece determinado a tomar o controle do território no Ártico, e agora ameaça os países europeus que se opuserem aos seus planos com novas tarifas alfandegárias. Mas, afinal, quanto custaria comprar o país?
    Em seu primeiro mandato, o líder republicano já havia demonstrado a intenção de adquirir a maior ilha do mundo, alegando ameaças à segurança dos Estados Unidos. Agora, ele volta a tratar do assunto, com contornos de uma gigantesca transação imobiliária – numa tentativa de repetir a que foi feita em 1867, quando Washington comprou o Alasca da Rússia, por US$ 7,2 milhões na época.
    Há mais de 80 anos, a própria Groenlândia recusou uma primeira proposta dos americanos, no valor de US$ 100 milhões. O governo do território e sua população continuam a ressaltar que o país não está à venda.
    O montante sobre a mesa hoje atingiria facilmente a casa das dezenas ou até centenas de bilhões de dólares, dada a valorização estimada dos recursos minerais estocados nos seus subsolos.
    A emissora NBC News, citando especialistas e ex-membros do governo federal americano, evocou a cifra de US$ 700 bilhões, sem especificar a metodologia utilizada. No New York Times, um ex-economista do Banco Central americano (Fed), considerou os valores já pagos pelo país para a aquisição de outros territórios e cruzou com os dados de inflação e crescimento econômico dos Estados Unidos e da Dinamarca. Conforme David Baker, a nova proposta situaria entre US$ 12 bilhões e US$ 77 bilhões.
    Mas outro cálculo bem mais modesto também estaria sendo considerado: oferecer dinheiro diretamente para os 57 mil habitantes da ilha, em troca de apoio político para a ideia da separação da Dinamarca e adesão aos Estados Unidos. Nesta hipótese, o valor dos recursos naturais da ilha tende a ser minimizado.
    De olho nas terras raras e minérios
    A Groenlândia abriga algumas das maiores reservas mundiais de terras raras e minerais críticos, essenciais para o setor da tecnologia. Para além das suas fronteiras, o subsolo do Ártico ainda concentra 30% das reservas de gás natural do planeta e 13% das de petróleo.
    “Tem hidrocarbonetos por todo o lado no Ártico. Mas até hoje, na Groenlândia, nunca se conseguiu encontrar uma reserva comercialmente explorável, ou seja, um lugar no gelo, na terra ou no mar onde os recursos estejam tão concentrados que valha a pena explorar”, frisa o pesquisador sênior da Universidade do Quebec Mikaa Blugeon-Mered, especialista no papel dos polos na transição energética, à RFI. “É por isso, e para conseguir financiar a própria independência total da Dinamarca, que a Groenlândia tem buscado desenvolver o setor mineral, de terras raras, urânio, molibdênio. Dos 50 metais críticos considerados prioritários pelo governo americano, 44 estariam presentes na Groenlândia em quantidades suficientemente satisfatórias para interessar os Estados Unidos.”
    A ambição americana de acessar esses recursos sequer é disfarçada: o embaixador nomeado pelos Estados Unidos na Dinamarca é ninguém menos do que Ken Howery, bilionário que fez fortuna na Silicon Valley. Entretanto, a exemplo da Venezuela e seu petróleo, os recursos naturais da Groenlândia são de difícil acesso: 80% do seu território é recoberto por uma espessa camada de gelo, necessitando investimentos colossais que levantam dúvidas sobre a viabilidade financeira da sua eventual exploração. Quantificar o valor real destes recursos é um cálculo complexo e, ainda assim, inexato. Não à toa, existem apenas duas minas em atividade na Groenlândia atualmente. 
    China e 'freedom city'
    Neste aspecto, uma grande preocupação americana é conter a expansão da concorrência chinesa na região, salienta Mikaa Blugeon-Mered, autor de «Alors tu veux acheter le Groenland...” ("Então você quer comprar a Groenlândia?”, em tradução livre)
    “Quem está lá querendo comprar hidrocarbonetos e minerais do Ártico? Hoje, a principal compradora é a China. Ela tem um papel fundamental, porque tem tentado estabelecer posições estratégicas em toda esta região do Ártico, solicitando licenças, tentando comprar minas e assim por diante”, complementa o pesquisador. “Nos últimos 15 anos, eles têm tentado internalizar essa cadeia de valor, controlá-la desde a mina até o seu uso final, particularmente no que diz respeito aos elementos de terras raras, nos quais a China tem uma presença significativa na Groenlândia. Hoje, é precisamente isso que os Estados Unidos estão tentando neutralizar e se apropriar”, afirma.
    Outro aspecto que entra na conta dos americanos é o potencial da ilha como uma "freedom city". O conceito, elaborado pela ala libertária das tech e aliada de Trump, imagina paraísos fiscais com regulação mínima, ideais para se tornarem laboratórios da inovação em inteligência artificial, veículos autônomos, lançamentos espaciais e micro reatores nucleares.
    Além de embaixador na Dinamarca, Ken Howery é cofundador de uma poderosa empresa de venture-capital ao lado de Peter Thiel, defensor da ampla desregulação do setor de tecnologias e um dos financiadores de projetos do gênero. Ambos são amigos de Elon Musk e Thiel, grande doador das campanhas de Trump, foi um dos responsáveis pela ascensão política do vice-presidente americano, J.D. Vance.
  • Em crise e com Trump, Fórum de Davos de 2026 tem edição desafiadora para o futuro do evento

    14/1/2026
    A edição deste ano do Fórum Econômico Mundial é decisiva para o futuro do evento, que reúne há 55 anos algumas das maiores empresas e líderes mundiais na pequena cidade suíça de Davos. Não apenas a instituição enfrenta uma crise interna, como o multilateralismo vive o momento de maior instabilidade desde a Segunda Guerra Mundial.
    O encontro começa na próxima segunda-feira (19), com foco no diálogo “em um mundo cada vez mais contestado”. Durante cinco dias, empresários, chefes de Estado e de Governo, além da sociedade civil, debaterão temas como novas fontes de crescimento econômico, o aumento da cooperação e a “busca da prosperidade respeitando os limites do planeta” – um contorcionismo de linguagem para não ferir os melindres do convidado mais aguardado este ano, Donald Trump.
    A última vez que o presidente dos Estados Unidos se deslocou para o evento foi em 2020, no último ano de seu primeiro mandato. Em 2025, de volta ao poder, ele fez um discurso por teleconferência, no qual prometeu o “maior corte de impostos da história dos EUA”, anunciou o fim do Green New Deal implementado por seu antecessor, Joe Biden, e sinalizou o início da guerra comercial que encamparia com o resto do mundo.
    Desta vez, a presença de Trump em Davos, acompanhado de nomes como o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, o secretário de Estado, Marco Rubio, e os enviados de Washington para as guerras na Ucrânia, sugerem que o presidente aposta alto no fórum de 2026.
    “Ele vai lá para falar verdades, que é o que ele sabe fazer. E isso é bom, porque o fórum se tornou um grande berço da hipocrisia internacional”, afirma Alberto Pfeifer, coordenador do grupo de Análise de Estratégia Internacional da USP. “Ele deve repetir que este modelo de mundo, que fez sentido em um determinado momento da história, acabou e não é mais o que organiza o mundo”, complementa.
    Ao mesmo tempo, o presidente americano estará entre seus pares empresários e não deve desperdiçar a oportunidade de fazer negócios. “Ele sabe que são esses caras que movem o mundo, porque ele é um deles. Ele poderá restabelecer uma coalizão com os grandes empresários europeus e de outros países, que vão afluir lá, dizendo que ‘os Estados Unidos são o melhor país do mundo para investir, venham para os Estados Unidos’”, diz Pfeifer.
    Investigação e saída do fundador
    O encontro, que sempre foi uma ocasião para reunir a elite econômica do planeta, está cada vez mais marcado pela influência americana. Em agosto, Larry Fink, CEO da líder mundial de gestão de ativos BlackRock, assumiu a copresidência do fórum, ao lado do vice-presidente do laboratório suíço Roche.
    Os dois substituíram o fundador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, que deixou a presidência em meio a uma investigação interna sobre a governança da instituição, incluindo uso indevido de recursos. Schwab foi absolvido das suspeitas de “irregularidades materiais”, mas não retomou o posto.
    O escândalo ocorre em um momento em que o evento já vinha perdendo eficácia como instrumento de regulação internacional, na avaliação do professor da USP.
    “O fórum cumpriu um papel relevante e de projeção em particular nos anos 1990 e 2000, quando ele poderia ser considerado uma ONU alternativa, paralela. Ele juntava o que a governança multilateral não conseguia e, assim, desenvolvia agendas comuns para toda a humanidade. Ele fez sentido naquele período, mas hoje não faz mais tanto”, explica. “Hoje, essa agenda perdeu tração e esse espaço de interlocução perdeu relevância, assim como o que acontece na ONU e na OMC, para definir os rumos dos investimentos privados e das políticas externas dos países.”
    Presença brasileira esvaziada
    Até o momento, o Brasil não informou sobre a presença de autoridades em Davos. Em 2025, o ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, representou o governo.
    O presidente Lula participou de todas as edições durante os seus primeiros dois mandatos, à exceção de 2009. Mas, desde que voltou ao poder, não retornou à cidade suíça.
    “Pela presença do Trump, seria importante o Brasil estar lá, por ser um espaço em que há certa informalidade, em que você pode ter conversas de corredor e de bastidores. Tendo a alta cúpula do governo americano lá, seria interessante ter algum representante do alto escalão do governo brasileiro”, observa Pfeifer.
    Pelo segundo ano consecutivo, um espaço de conferências e reuniões focadas no país será montado na Promenade, a principal avenida da cidade, que dá acesso ao evento oficial. A Brazil House é uma iniciativa de um grupo de grandes empresas – Gerdau, Vale, BTG Pactual, Randoncorp e BE8 – e dará ênfase à sustentabilidade.
  • Investida de Trump na Venezuela tende a impulsionar nova dinâmica de petróleo na América Latina

    07/1/2026
    A operação americana na Venezuela para capturar o presidente Nicolás Maduro e assumir o controle das reservas de petróleo do país tende a impulsionar a dinâmica de ampliação da exploração de óleo e gás na América Latina. Brasil, Argentina, Guiana e Suriname avançam nesta direção, mas também Bolívia, Chile e Colômbia oferecem potenciais ainda pouco explorados.
    A Venezuela tem as maiores reservas mundiais de petróleo, com cerca de 17% do total. Entretanto, desde a estatização do setor no país e a saída das companhias americanas e britânicas na era chavista, a capacidade de produção nacional despencou para cerca de 800 mil barris por dia – muito abaixo de concorrentes de peso como Arábia Saudita, Rússia e os próprios Estados Unidos.
    O economista Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) e experiente especialista no mercado internacional de petróleo, vê um cenário favorável para os países detentores de reservas na América Central e do Sul ingressarem com força na corrida não só pelo óleo, como também pelo gás.
    “Na Argentina, o governo de direita, do Milei, é alinhado a Trump. A Bolívia também recentemente teve uma eleição e a direita ganhou”, observa, ao lembrar que os investimentos e a produção de gás de La Paz também desmoronaram após a estatização dos campos pelo ex-presidente Evo Morales. “Você tem a Guiana, grande estrela de produção de óleo, cujos dois principais investidores são as americanas ExxonMobil e Chevron. Tem a Colômbia, onde haverá eleições este ano e parece que o favorito é o candidato da direita, assim como no Chile, onde a direita venceu.”
    No Brasil, o cenário eleitoral para 2026 aponta o presidente Lula como favorito à reeleição. O petista não esconde o apetite pela abertura de novas frentes de exploração de petróleo no país, que hoje é o sétimo maior produtor mundial.
    Petrobras sob pressão
    A volta dos americanos à Venezuela e de Caracas como protagonista do mercado mundial tende a estimular a competição internacional pela atuação na margem equatorial brasileira, colocando a Petrobras sob pressão. Em 2025, após 12 anos, a companhia recebeu autorização para iniciar os estudos de prospecção em um dos quase 300 blocos identificados na área, ao norte do Brasil.
    “Você vai ter empresas de petróleo que vão começar a se questionar: coloco dinheiro na Venezuela ou coloco na margem equatorial? Está sendo criado um concorrente para esses investimentos”, pontua Pires.
    O provável aumento da oferta mundial de petróleo levará à queda ainda maior do preço do barril, hoje negociado em torno de US$ 60. A diminuição do valor nos próximos dois anos já era antecipada pelos analistas, devido a uma oferta abundante e não acompanhada por aumento da demanda. A esperada alta da produção venezuelana acentua o fenômeno.
    Aumento das vendas para a China
    Mas, se por um lado as receitas das vendas vão cair, com impacto nas decisões de investimentos e fluxos de caixa, por outro a derrubada do regime de Nicolás Maduro cria uma oportunidade para a petroleira brasileira: aumentar as exportações para a China. Pequim é o destino de 80% do petróleo venezuelano, a custos inferiores aos do mercado.
    Adriano Pires ressalta que o Brasil está em curva ascendente de produção, passando dos menos de 4 milhões de barris por dia para uma expectativa de 5 milhões em 2027. “Além disso, as empresas chinesas de petróleo que compraram campos aqui no Brasil já produzem 350 mil barris por dia, então o Brasil é cada vez mais um país hiperimportante para a China, no sentido de abastecimento de petróleo”, afirma o economista. “Aí eu não sei como é que o Trump vai olhar para isso.”
    Para o especialista, o objetivo número 1 do presidente americano ao intervir na Venezuela foi barrar o acesso chinês ao petróleo do país e se tornar um player incontornável deste mercado.
    “O que ele quer, na realidade, é ter um controle maior sobre as reservas de petróleo mundiais, para poder dar um xeque-mate na China, que hoje é a segunda maior consumidora de petróleo no mundo, e ao mesmo tempo criar uma espécie de mini-OPEP para ele. Ele pode agora sentar à mesa e ser um player que define níveis de produção e automaticamente níveis de preço no mercado internacional de petróleo”, indica Pires. “No tabuleiro da geopolítica do petróleo, Trump passa a jogar com muito mais poder.”
  • Eleições e Copa do Mundo impactarão a agenda econômica no Brasil em 2026

    24/12/2025
    Em um contexto geopolítico de tantas incertezas, o que esperar da economia em 2026? Com o mundo ainda sob o impacto da gestão agressiva do presidente Donald Trump, reconfigurando suas antigas alianças, o aumento do protecionismo e a ameaça das guerras levam o crescimento mundial a continuar fraco, antecipa o FMI. No Brasil, a perspectiva de eleições embaralha ainda mais as cartas. Mesmo assim, há razões para otimismo.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    Segundo o Fundo Monetário Internacional, o crescimento do PIB mundial em 2026 será quase o mesmo que em 2025: 3,1%. As tarifas comerciais mais elevadas, a instabilidade das políticas econômicas, a começar pelos Estados Unidos, e os conflitos geopolíticos impactam no comércio e nos investimentos, aponta também a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
    “Será, acima de tudo, um ano de surpresas, porque assim é o governo americano. Muitas coisas podem acontecer, desde as mais assustadoras até as mais pitorescas”, observa Jorge Arbache, professor de Economia da Universidade de Brasília e ex-economista sênior do Banco Mundial.
    “É possível que o que está aí se aprofunde e a gente tenha uma ainda maior polarização em nível global. E, para um país como o Brasil, que procura manter uma certa neutralidade política e econômica, vai exigir, num ano de eleições, um certo malabarismo para não elevar tensões ou não criar dificuldades num ambiente muito frágil e sensível. O país, obviamente, vai adiar grandes decisões, esperando um novo governo – qualquer que seja ele”, afirma Arbache.
    Impacto das eleições e da Copa do Mundo
    “A gente fala que é um ano mais curto porque tem eleições e também a Copa do Mundo, que é algo muito importante no Brasil”, lembra ainda a economista Patricia Krause, especialista na economia da América Latina da Coface, líder mundial de seguro de crédito. “A agenda no Congresso fica reduzida e, no segundo semestre, tudo fica mais focado nas eleições. Elas podem trazer sempre alguma volatilidade cambial – e câmbio é a pior variável que tem para tentar fazer previsões”, frisa.
    No ano que passou, a desigualdade caiu ao menor índice em 10 anos no Brasil, e o país atingiu o pleno emprego. No segundo semestre, o crescimento econômico desacelerou, o que era esperado há meses pela maioria dos especialistas, preocupados com a inflação.
    “A economia brasileira, de modo geral, tem surpreendido para cima nos últimos anos, com crescimento mais resiliente do que esperado e os economistas revisando para cima as projeções. E este ano, de fato, ocorreu essa desaceleração do crescimento que há muito era esperada”, indica Patricia Krause.
    Queda dos juros?
    Com uma taxa Selic de 15% ao ano, num contexto de inflação de 4,5%, a projeção de crescimento da Coface para 2026 é de 1,9%. Mas a perspectiva agora é de queda da inflação. “Com isso, a grande questão é a esperança de que o Banco Central brasileiro comece a reduzir juros no começo do próximo ano”, salienta Krause.
    Ano eleitoral costuma ser sinônimo de aumento de gastos – e, no caso do Brasil, este é um dos aspectos mais delicados que ficam de 2025 para 2026. A situação das contas públicas se deteriora ano após ano e o descontrole fiscal é hoje a maior preocupação da economia do país, com o déficit e a dívida pública em curva ascendente.
    A alta da taxa de juros, aplicada pelo Banco Central para controlar o aumento dos preços, joga ainda mais lenha nesta fogueira, ao corroer a fraca margem de manobra dos gastos do governo federal. Se nada for feito, o orçamento tende a ficar cada vez mais estrangulado, com o peso das despesas em saúde e previdência também em crescimento.
    “O aumento significativo dos gastos já está contratado. Ele não vai nos surpreender”, adverte o professor da UnB, que foi secretário para Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento. “Hoje, 95% dos gastos públicos são praticamente definidos. O espaço de manobra efetivo é muito menor do que as pessoas imaginam.”
    Brasil em posição favorável no mundo
    O economista pondera, entretanto, que, do ponto de vista relativo, o Brasil hoje está melhor em relação à maioria dos outros países, inclusive as potências. “Não que o Brasil tenha feito o dever de casa, mas porque o mundo piorou. Fazer negócios hoje nos Estados Unidos é muito mais arriscado do que no Brasil”, diz Arbache. “Muita coisa tem mudado também na Europa, e a guerra cria uma insegurança brutal. O mundo hoje não está para peixe, e do ponto de vista relativo, o Brasil está melhor.”
    Os dois economistas avaliam que, em meio à guerra comercial de Donald Trump contra os antigos parceiros, o Brasil demonstrou resiliência. “O fato de o Brasil ser uma economia ainda muito fechada ao comércio nesse momento acabou ajudando. Isso não é algo positivo, mas neste momento em que o comércio internacional preocupa, você está menos exposto”, sublinha a especialista da Coface. “Teve queda nas exportações para os Estados Unidos, porém o Brasil conseguiu aumentar vendas para outros mercados. Isso foi, de certa forma, algo positivo.”
    No plano interno, a aprovação das reformas fiscal e tributária trouxe avanços. O arcabouço legal relativo à economia verde, com um imenso potencial para o Brasil, coloca o país na rota de investimentos em setores como energia renovável, mercado de carbono e combustíveis limpos. Em 2025, o Brasil demonstrou que entendeu qual é o seu lugar nesta promissora economia, constata Jorge Arbache.
    “Eu acho que não existe outra estratégia para o país, do ponto de vista econômico e de desenvolvimento. É essa ou nenhuma”, destaca. “Não só a capacidade de atração de investimentos no âmbito do powershoring, mas também aquilo que é pertinente aos minerais críticos para a transição e às terras raras, que vêm atraindo uma crescente atenção, especialmente da Europa, dos Estados Unidos e da China. Muita coisa deverá se passar nos próximos meses e anos. Esse caminho é sem volta.”
    Acordo UE-Mercosul 
    Neste ponto, o economista chama a atenção para as falhas do acordo comercial negociado entre a União Europeia e o Mercosul, que esteve prestes a ser ratificado em 2025. Travado devido a resistências na questão agrícola, o texto sequer aborda o potencial de cooperação na área da transição energética. Os europeus deixam passar a oportunidade de serem parceiros privilegiados dos países latino-americanos neste comércio.
    “O maior ganho, para a Europa, nem está nas manufaturas. Eu acho que é tudo aquilo que tem a ver com a abertura de novas fronteiras e possibilidades de negócios para ajudar a solucionar muitos dos mais graves problemas econômicos que a Europa tem, associados à energia e à produção de vários produtos manufaturados e insumos a custos muito menores, fundamentais para dar maior competitividade para a própria indústria europeia”, explica. “Essas coisas passam ao largo do acordo atual.”
    Ainda na área de energia, mas também das commodities, as perspectivas são positivas. “A gente tem uma produção de petróleo em alta e pode ter um ano importante, em termos de volume. A estimativa de safra indica recorde, além de uma demanda por proteína aquecida”, antecipa Patricia Krause. “Eu diria que o canal de exportação e também um consumo resiliente podem trazer alguma sustentação para o PIB brasileiro no próximo ano.”
  • Acordo UE-Mercosul: bode expiatório de uma agricultura francesa em crise prolongada

    17/12/2025
    A Comissão Europeia e o Mercosul esperavam confirmar nesta semana a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o bloco sul-americano – mas a França, mais uma vez, resiste à adoção do tratado, negociado há mais de 25 anos. No país, o pacto se transformou no bode expiatório de um modelo de agricultura em sucessivas crises.
    Lúcia Müzell, da RFI em Paris
    A mais recente delas é sanitária: uma dermatose nodular contagiosa bovina ameaça o rebanho francês e obriga o governo a promover abates em massa de animais, para conter a epidemia. Ao mesmo tempo, o país combate a gripe aviária, que ameaça a região de Landes, principal produtora de patos para o renomado foie gras.
    As crises sanitárias correm em paralelo a dificuldades mais profundas em setores emblemáticos da produção agrícola francesa, do trigo aos vinhedos, vítimas da concorrência internacional, das mudanças climáticas e das reviravoltas no comércio mundial. Em 2025, pela primeira vez em 50 anos, a agricultura da França poderá registrar déficit comercial, importando mais do que exporta.
    A inversão se explica pelo aumento dos preços do cacau e do café no mercado internacional, de um lado, e, do outro, pela diminuição das exportações de vinhos e destilados após a guerra tarifária de Donald Trump, somada à safra ruim e à queda dos preços dos cereais.
    “Foi mais conjuntural, mas se soma a recuos em relação a outros países europeus, como no setor de frutas e legumes. Temos um problema de conjuntura e outro de competitividade, em alguns setores”, explica Jean-Christophe Bureau, professor de Economia da AgroParisTech e especialista em comércio agrícola internacional. “O nosso déficit nos últimos anos se acentuou, principalmente, com os países da União Europeia”, salienta.
    Corte nos subsídios à vista
    Os riscos de cortes na Política Agrícola Comum (PAC) do bloco europeu aumentam a preocupação: o próximo orçamento (2028-2034) poderá ser 20% menor, com impacto maior na França, principal beneficiária do programa de subsídios. Os agricultores franceses recebem cerca de € 9 bilhões de ajuda a cada ano, o que representa dois terços da sua renda.
    Os números evidenciam o déficit de competitividade agrícola francesa, que valoriza a produção local, o savoir-faire familiar e tradicional, em detrimento da agricultura intensiva praticada pelas maiores potências mundiais. O país é o líder europeu de produção agrícola e agroalimentar, mas passou de segundo para sexto maior exportador do planeta, com 4,3% do mercado em 2024.
    Desde 2015, a França importa mais do que exporta aos vizinhos da União Europeia. A cada duas frutas ou legumes consumidos no país, um vem de fora.
    “Em alguns casos, temos de fato diferença de custo da mão de obra, que é menor na Espanha, graças à imigração e aos salários mais baixos, ou na Alemanha, onde os encargos trabalhistas são bem menores”, aponta Bureau. “Mas também podemos citar as nossas deficiências em pesquisa e desenvolvimento e até de formação de algumas técnicas.”
    Normas ambientais europeias
    O êxodo rural é outra preocupação. A renda média dos agricultores estagnou nos últimos 20 anos, e o aumento das dificuldades do setor afasta a nova geração do campo, na comparação com outras potências agrícolas do bloco, como a Itália ou a Alemanha. Alguns sindicatos agrícolas também criticam o que seria um excesso de regulamentações sanitárias e ambientais no bloco.
    “A agricultura francesa é caracterizada pela sustentabilidade, na comparação com as grandes potências agrícolas mundiais. Ao mesmo tempo, começa a enfrentar cada vez mais dificuldades ambientais, exacerbadas pelas mudanças climáticas. Temos impasses técnicos para lidar com pragas sanitárias em animais e vegetais”, observou Aurélie Cathalo, diretora de Agricultura do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais (IDDRI), à RFI. “Temos problemas com a fertilidade dos solos, e isso explica a estagnação ou até diminuição da renda dos agricultores. Precisamos colocar a agronomia a nosso favor, fazer o esforço de nos adaptarmos e podermos continuar a produzir, apesar do andamento da situação.”
    Acordo visto como uma ameaça
    Neste contexto, para a maioria dos agricultores da França, o acordo com o Mercosul representa um perigo. Eles denunciam a concorrência desleal devido a padrões de produção menos rigorosos na América Latina, principalmente do ponto de vista ambiental. A França obteve da Comissão Europeia garantias de salvaguardas para os setores mais ameaçados – mas as barreiras são insuficientes aos olhos dos produtores.
    “Segundo os nossos cálculos, o acordo com o Mercosul não tem impactos grandes, afinal foram inseridos limites de importação. Entretanto, é um acordo que se soma a outros que já temos, o que faz com que, para alguns setores, como a carne bovina, as aves e o mel, ele se torne desfavorável”, pondera o professor da AgroParisTech. “Há uma insatisfação generalizada, e é evidente que, em um ano de renda muito baixa, devido a safras fracas, em que os problemas climáticos se sucederam, como inundações e incêndios, o acordo com o Mercosul vira a gota d’água que faltava”.
    Nesta terça-feira (16), o Parlamento Europeu aprovou uma série de medidas de proteção e criou um mecanismo para supervisionar o impacto do acordo em produtos sensíveis, como carne bovina, aves e açúcar. Os trechos abrem as portas para a aplicação de tarifas em caso de desestabilização do mercado no bloco.
    Os eurodeputados desejam que a Comissão Europeia intervenha se o preço de um produto latino-americano for pelo menos 5% inferior ao da mesma mercadoria na UE e se o volume de importações isentas de tarifas aumentar mais de 5%.
    Mesmo assim, é provável que a França não aprove o texto. Paris solicitou à União Europeia (UE) o adiamento da assinatura do pacto comercial, que Bruxelas gostaria de concretizar no próximo sábado (20), no Brasil. Resta saber se a Itália, que mostrou sinais contraditórios nos últimos meses, se colocará ao lado da Comissão ou ao lado dos franceses – neste caso, uma maioria qualificada de Estados-membros seria formada para bloquear o pacto, com o apoio da Polônia e da Hungria, também contrárias ao projeto.
    Com AFP

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