A música Fábrica de Bico, do MC Zói de Gato, pode ser considerada um dos marcos em termos de consumo de música pela internet no Brasil. O registro mais antigo no YouTube é de 16 anos atrás, e o vídeo mais acessado tem cerca de 13 milhões de visualizações. Mas a música é mais antiga que isso, e seu impacto foi maior.
Muito provavelmente, essa é uma impressão localizada, especialmente para quem cresceu no estado de São Paulo no começo dos anos 2000 e estudou em escola pública. Ainda assim, a combinação de MC Zói de Gato, MC Bill e Bolinho com “Buffalo Bill” e “Bonde da Juju”, do Backdi e Bio G3, remonta a uma paisagem que pode ser enriquecida por três elementos: o celular Motorola V3, a Escola da Família e as lan houses.
Por um lado, esses sons foram virais. Jovens periféricos, independentemente do gênero musical que preferiam, não escapavam de refrões que se tornavam clássicos quase instantaneamente. Por outro, vemos ali um modo de produção, da música aos clipes, que não só antecipou, mas pautou produções futuras, como as do Kondzilla, e contaminou, de um jeito ou de outro, linguagens mais recentes, como o trap e o grime.
Pegando o bonde dessa história a partir de Zói de Gato, conversamos com Fleezus sobre o que marca o gosto e as pesquisas dessa geração paulistana no começo dos anos 2000 e como isso representa um fio que liga outras estéticas e discursos.