Você já se perguntou por que a história da conquista do México foi, durante séculos, contada quase exclusivamente por vozes masculinas e sob uma lógica de heróis e vilões? O novo episódio do podcast Hora Americana parte desse silêncio para mergulhar nas trajetórias complexas e plurais das mulheres que habitaram, lutaram e negociaram em um mundo em profunda transformação.
Partindo da recente e simbólica decisão do governo mexicano de homenagear mulheres indígenas com estátuas no Paseo de la Reforma, conversamos com a historiadora Gabriela Theodoro para abordar trajetórias femininas como a da indígena Malintzin, conhecida ainda hoje como "Malinche", questionando visões simplistas que a descrevem como uma “traidora” e buscando compreendê-la a partir do complexo papel de tradução e negociação que exerceu junto aos espanhóis.
Neste episódio, exploramos como as sociedades mesoamericanas operavam sob uma lógica de complementaridade de gênero, onde o papel feminino, embora distinto do masculino, era vital para o equilíbrio cósmico e social, chegando ao ponto de mulheres mortas no parto serem divinizadas como guerreiras caídas em combate. Investigamos o contraste entre esse universo e o rígido patriarcalismo das espanholas que cruzaram o oceano, como Maria de Estrada, que desafiou as expectativas de sua época ao empunhar armas e lutar a cavalo ao lado dos soldados.
A discussão revela ainda as nuances da agência feminina em meio à coação, destacando a trajetória de Isabel Montezuma, filha do imperador asteca que, após sucessivos casamentos forçados e violências, tornou-se uma poderosa encomendera e deixou em seu testamento ordens para libertar os indígenas sob seu controle. Falamos também sobre como o gênero foi utilizado como arma política em algumas crônicas da época, que associavam a derrota de líderes como Montezuma a um suposto caráter "efeminado".
Este é um convite para retornarmos às fontes históricas na tentativa de descobrir que a conquista não foi um embate entre dois lados isolados, mas um processo tecido por mulheres que foram, ao mesmo tempo, vítimas e protagonistas de sua própria história.