"Eu me sinto como se fosse uma peça de museu."E o que importa hoje é a modernidade, né?"Misturando amargura, revolta e conformismo, José Luiz Ferreira Rodrigues, assume que foi esquecido. Aos 79 anos, andando com dificuldade por conta de uma cruel fascite, e da perna direita um centímetro e meio mais, curta por conta de uma fracassada operação no joelho, depende da boa vontade de um torcedor para ver jogos, no Allianz Parque, que ainda chama de Parque Antártica. Não há lugar reservado para ele. Nem para outros companheiros que foram fundamentais na imagem vencedora do Palmeiras.Talvez você não saiba quem é José Luiz Ferreira Rodrigues.O apelido Zeca talvez refresque sua memória.Última chance. Quem sabe com ele e seus parceiros todos juntos?Leão, Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca, Dudu e Ademir da Guia, Edu, Leivinha, Cesar e Nei.Sim, a segunda e maravilhosa Academia do Palmeiras.Só Zeca ganhou dez títulos com a imponente camisa verde. Os principais? Três Brasileiros, dois Paulistas. Três Ramon de Carranza, os mais importantes.Ele foi o lateral que mais jogou pelo Palmeiras, 395 partidas.Titular nove anos."Vou falar uma coisa que as pessoas nunca pararam para pensar. Ou nem quiseram saber. Nenhum jogador daquele time teve uma partida de despedida. Nenhum. Nem o Ademir da Guia, o maior ídolo da história do Palmeiras. Em outros lugares do mundo, os atletas têm reconhecimento. Infelizmente, no Brasil, e no meu clube de coração, não."Zeca fez história. Foi fundamental no time de Oswaldo Brandão. Era a segurança pelo lado esquerdo do excepcional Palmeiras do final dos anos 60 e início dos 70. 'Fizemos história. Éramos o grande time do país. Parávamos o Santos de Pelé. O São Paulo. O Corinthians não era páreo. O adversário mais complicado era o Botafogo. Só não ganhamos Libertadores porque a direção priorizava o Paulista. Os Brasileiros ganhávamos pela força da equipe. Mas o foco era o Paulista, o mais disputado torneio de todos."Ele relembra sua partida mais especial. "A que evitamos que o Corinthians quebrasse o jejum de 20 anos. Nós demos de tudo. Havia enorme pressão de todo lado para que eles ganhassem. Nós nos impomos. O Morumbi tinha uns 100 mil corintianos. E dez mil palmeirenses. Deu até pena da tristeza deles. Mas fomos campeões, em 1974. Em cima do Palmeiras, não."Zeca enfrentou não só ponteiros do nível de Jairzinho, Terto, Vaguinho, Edu (do Santos), Rogério (Botafogo). Em 1975, já tendo acumulado títulos, ele teve um problema simples no menisco do joelho direito. Por indicação do Palmeiras operou com um médico particular. "Deu tudo errado. Eu fiquei com a perna encurtada um centímetro e meio. Não conseguia dobrar a perna. Tive de operar de novo. Mas nunca mais foi a mesma coisa." Ele caiu em uma profunda depressão. Só chorava e não sabia o que fazer da vida. "Não tive o acolhimento do Palmeiras. Se não fosse o Dudu, não sei o que seria de mim. Ele me amparou. Me levou até Deus. Me reergueu. É muito triste ver que, para o clube, os jogadores não têm importância como pessoas."Relembra que, como completaria dez anos de Palmeiras, na década de 70 iria criar vínculo empregatício com o clube. "Para evitar isso, me mandaram para o Marília. Me senti muito mal. Não quero atacar o clube, que vou amar pelo resto da vida. Mas os dirigentes que o Palmeiras teve não tiveram o mínimo de consideração, de reconhecimento. Não queria favor, sim consideração. Futebol não é um simples emprego. Demos o melhor da nossa vida pelo clube."Zeca, que surgiu no Grêmio, foi parar no Palmeiras quase que por acaso. "Os dirigentes ofereceram o Tupãzinho em troca do Everaldo, lateral esquerdo da Seleção. O Grêmio não quis e me ofereceu. Eu tinha potencial. Aceitaram e fui titular nove anos. Joguei inúmeras vezes contundido. Tomei várias infiltrações para não deixar o time."Zeca foi auxiliar técnico de Felipão por quatro anos no Grêmio.