#142 – Afinal: um escritor pode viver de sua escrita? E sob quais condições?
Que fique claro: ninguém abraça a literatura para ficar rico. Se esta é a sua única intenção, recomendo que busque outros caminhos, menos incertos. Escrevemos porque amamos os livros, e é saudável para a sua escrita que continue assim.
Se você me acompanha, sabe que raramente trato do tema dinheiro e vida artística, por mais importante que eu o considere. Em primeiro lugar, porque não sou e não quero ser mais um influencer que se vale das nossas angústias fiduciárias para alavancar-se, como a legião que há por aí no seu feed. Em segundo lugar, porque é muito fácil ser mal interpretado quando tratamos desse tema em complexidade – as pessoas facilmente encontram um modo de encaixar algo que dissemos em determinada caixinha interpretativa. Existem tantos preconceitos e melindres sobre dinheiro (e seus desdobramentos – merecimento, exclusão, comparações etc.), ele é tão carregado de distorções, que acabo concluindo que teria de escrever um ensaio mais longo apenas para começar a conversa.
Só que também acho que não falar de dinheiro e vida artística acaba reiterando um certo pudor, um recato farisaico sobre o tema. Ainda que não considere a literatura uma carreira, mas um ofício (podemos vender livros, mas não a alma que os enseja; a insubordinação ao tempo da produção moderna é tremendamente necessária), tentar preservá-la na categoria de ofícios intocáveis no fundo nos distancia do que fazemos, e acho isso um erro e um problema.
Também acho que não é porque amo o que faço que não possa receber por isso. Eu amava atender em consultório, quando trabalhava como psicólogo; por que não deveria ganhar dinheiro com isso? E por que não pode ser o mesmo com a escrita? Nem toda atividade direta ou indiretamente remunerável é alienada (todo um capítulo sobre isso...).
Mais: conheço muita gente que, assim como eu, vive de atividades ligadas à escrita. Uns vivem melhor do que outros. Ou seja: é possível. Existem caminhos, mais do que há vinte ou trinta anos. E se é verdade que quem tenta te convencer de que sabe como vender 500.000 exemplares de seu romance é um charlatão (ainda que esta pessoa tenha ela própria vendido essa quantidade), também sei que, com um bom livro e algum conhecimento, não é tão difícil vender 1.000 exemplares de seu livro na pré-venda (ou seja, antes do lançamento). Em outras palavras: há um conhecimento (como em qualquer ofício), e vale a pena adquiri-lo.
Esse é o tema do nosso vídeo da semana e do novo episódio de Prelo. Na segunda parte do Prelo, falamos sobre o livro Bolsa Amarela, da Lygia Bojunga.
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