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Entre Linhas e Leis

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Entre Linhas e Leis
Último episódio

22 episódios

  • Entre Linhas e Leis

    #20 | Ao Farol, de Virginia Woolf

    02/03/2026 | 30min
    Na casa de veraneio da família Ramsay nas ilhas Hébridas, Escócia, Woolf explora como temporalidade fragmentada da memória e da experiência subjetiva desafia pressupostos jurídicos sobre linearidade temporal e causalidade. A estrutura tripartite da obra - uma tarde expandida, uma década condensada em poucas páginas, uma manhã que completa jornada iniciada anos antes - revela que tempo psicológico não corresponde a tempo cronológico que organiza processos judiciais. Woolf mostra também como trabalho reprodutivo invisível de mulheres (representado por Mrs. Ramsay) sustenta estruturas sociais que esse trabalho não reconhece juridicamente, antecipando debates contemporâneos sobre economia do cuidado e trabalho não remunerado. Para advogados que trabalham com testemunhos de traumas onde linearidade narrativa é impossível, com questões de prescrição e temporalidade processual, ou com reconhecimento jurídico de formas de trabalho e propriedade que não se encaixam em categorias tradicionais, a obra oferece compreensão sofisticada sobre como categorias jurídicas de tempo, causalidade e propriedade podem ser inadequadas para capturar realidades humanas complexas.
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    #19 | O Homem sem Qualidades, de Robert Musil

    23/02/2026 | 26min
    Na Viena de 1913, último ano de paz antes do colapso do Império Austro-Húngaro, o matemático Ulrich observa a "Ação Paralela" - comissão imperial criada para organizar celebrações do septuagésimo aniversário do Imperador Francisco José, mas que se torna microcosmo da paralisia burocrática que impedirá o império de responder efetivamente à crise que se aproxima. Musil documenta como hipertrofia normativa, fragmentação de competências, e burocratização extrema podem transformar instituições que deveriam decidir em máquinas de indecisão permanente. A obra oferece análise precoce de como direito pode se tornar autoreferencial, preocupado mais com seus próprios procedimentos do que com problemas sociais que deveria resolver. Para advogados que enfrentam morosidade judicial, fragmentação de competências entre múltiplos tribunais, ou burocratização que impede acesso efetivo à justiça, a parábola do império austro-húngaro oferece espelho perturbador que revela como mesmo sistemas juridicamente sofisticados podem colapsar por incapacidade de responder a desafios que seus próprios procedimentos tornaram invisíveis ou irresolúveis.
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    #18 | A Náusea, de Jean-Paul Sartre

    16/02/2026 | 26min
    Em Bouville, cidade francesa fictícia às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Antoine Roquentin descobre através de experiência visceral de "náusea" a contingência radical de toda existência - incluindo a contingência das normas sociais e jurídicas que a burguesia local apresenta como necessárias e naturais. Sartre oferece crítica filosófica devastadora da má-fé: a tendência de apresentar escolhas políticas como fatos naturais, decisões históricas como necessidades lógicas, e estruturas de poder como ordens inevitáveis. A galeria de personagens que Roquentin observa - o Autodidata, os "salauds" burgueses, as autoridades locais - representa diferentes formas através das quais elites utilizam linguagem de objetividade e necessidade para ocultar natureza política de suas decisões. Para advogados que trabalham em contextos de crise institucional, lawfare, ou politização explícita da justiça, a análise sartriana oferece instrumentos conceituais para identificar e contestar quando decisões jurídicas que se apresentam como aplicações neutras de normas objetivas são na verdade escolhas políticas disfarçadas de inevitabilidade técnica.
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    #17 | Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

    09/02/2026 | 20min
    Uma única tarde em Londres pós-Primeira Guerra entrelaça as experiências de Clarissa Dalloway, mulher da alta sociedade que organiza uma festa, e Septimus Warren Smith, veterano de guerra que sofre o que hoje chamaríamos de transtorno de estresse pós-traumático e que será levado ao suicídio pela intervenção psiquiátrica do Dr. Bradshaw. Woolf revela como classe social determina completamente acesso à justiça e aos cuidados: Clarissa possui recursos sociais e econômicos para lidar com suas próprias fragilidades psicológicas, enquanto Septimus é tratado como caso médico-legal cuja subjetividade deve ser normalizada ou eliminada. A obra documenta como medicina funciona como extensão do controle jurídico, transformando sofrimento psicológico em questão de ordem pública que autoriza intervenções coercitivas. Para advogados que trabalham com direito de família, saúde mental, ou defesa de pessoas em situação de vulnerabilidade psicológica, a obra oferece análise devastadora de como sistemas jurídicos e médicos podem produzir violências através de procedimentos que se apresentam como terapêuticos ou protetivos.
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    #16 | A Consciência de Zeno, de Italo Svevo

    02/02/2026 | 7min
    Um empresário italiano em Trieste tenta parar de fumar através de psicanálise, mas sua narrativa revela algo muito mais perturbador: uma consciência que não consegue distinguir responsabilidade real de culpa obsessiva, que reinterpreta constantemente o passado segundo conveniências presentes, e que utiliza justificativas racionais para encobrir motivações inconscientes. Svevo antecipa em décadas o questionamento psicanalítico do direito penal: se grande parte de nosso comportamento é determinada por forças inconscientes que não controlamos, o que significa responsabilidade jurídica? A obra oferece análise pioneira de como neuroses modernas desafiam pressupostos sobre livre-arbítrio e imputabilidade que fundamentam todo o sistema de responsabilização criminal. Para advogados criminalistas, a consciência fragmentada de Zeno oferece modelo para compreender clientes cuja culpa jurídica formal não coincide com sua responsabilidade psicológica real, revelando limitações de sistemas penais baseados em concepções simplistas de consciência e escolha.

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Sobre Entre Linhas e Leis

O Entre Linhas e Leis é um podcast da Escola Superior de Advocacia da OAB SP, concebido pelo Coordenador Acadêmico, Erik Chiconelli Gomes, que propõe um encontro entre a literatura e o direito como espaços complementares de interpretação do mundo. A proposta é atravessar as fronteiras tradicionais da formação jurídica, convidando a escuta sensível, o pensamento complexo e o olhar atento às experiências humanas — sobretudo àquelas que revelam injustiças, disputas de poder e silenciamentos históricos.
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