Nos últimos dias, a palavra machosfera voltou a circular com força, impulsionada pelo documentário de Louis Theroux naNetflix e também pelos debates sobre sua versão brasileira.
Talvez não estejamos falando de um submundo marginal, nem apenas de uma curiosidade das redes. A machosfera parece ter se tornado uma pedagogia afetiva e política: ela ensina homens e meninos a interpretar o próprio sofrimento, oferece identidade, organiza o ressentimento e transforma o feminino em inimigo, ameaça ou objeto.
Nessa direção, talvez seja interessante lembrar a reflexão da escritora estadunidense Ursula K. Le Guin, no ensaio Aficção como cesta: uma teoria. Em vez de organizar a experiência humana em torno do herói, da conquista e da arma, Le Guin chama atenção para aquilo que recolhe, contém e sustenta a vida: a cesta, o recipiente, o gesto de guardar,carregar, alimentar, cuidar. Sua leitura nos ajuda a perceber o quanto nossa cultura segue valorizando o que aparece, se impõe e conquista, em detrimento daquilo que sustenta silenciosamente a existência.
Também hoje, a vida pública, a visibilidade e o reconhecimento tendem a valer mais do que o trabalho doméstico, o cuidado etudo aquilo que permanece nos bastidores da vida social. Andy Warhol previu os “quinze minutos de fama”; as redes sociais transformaram essa profecia em mandamento cotidiano. Multiplicam-se as publicações, a busca por curtidas, aaspiração a tornar-se conhecido, influente, monetizável. Nesse cenário, o espaço doméstico, o trabalho invisível e a dependência mútua aparecem cada vez mais como rebaixamento.
Seria a machosfera uma resposta regressiva a esse mundo? O que ela promete restituir aos homens? Que sofrimento ela captura, e de que maneira o transforma em ressentimento, misoginia e fantasia de poder? E o que essa recusa do feminino revela sobre a nossa cultura hoje?
Para pensar essas questões, convidamos a filósofa YaraFrateschi e o psicanalista Ignácio Paim.