51 episódios
- Nos últimos dias, a palavra machosfera voltou a circular com força, impulsionada pelo documentário de Louis Theroux naNetflix e também pelos debates sobre sua versão brasileira.
Talvez não estejamos falando de um submundo marginal, nem apenas de uma curiosidade das redes. A machosfera parece ter se tornado uma pedagogia afetiva e política: ela ensina homens e meninos a interpretar o próprio sofrimento, oferece identidade, organiza o ressentimento e transforma o feminino em inimigo, ameaça ou objeto.
Nessa direção, talvez seja interessante lembrar a reflexão da escritora estadunidense Ursula K. Le Guin, no ensaio Aficção como cesta: uma teoria. Em vez de organizar a experiência humana em torno do herói, da conquista e da arma, Le Guin chama atenção para aquilo que recolhe, contém e sustenta a vida: a cesta, o recipiente, o gesto de guardar,carregar, alimentar, cuidar. Sua leitura nos ajuda a perceber o quanto nossa cultura segue valorizando o que aparece, se impõe e conquista, em detrimento daquilo que sustenta silenciosamente a existência.
Também hoje, a vida pública, a visibilidade e o reconhecimento tendem a valer mais do que o trabalho doméstico, o cuidado etudo aquilo que permanece nos bastidores da vida social. Andy Warhol previu os “quinze minutos de fama”; as redes sociais transformaram essa profecia em mandamento cotidiano. Multiplicam-se as publicações, a busca por curtidas, aaspiração a tornar-se conhecido, influente, monetizável. Nesse cenário, o espaço doméstico, o trabalho invisível e a dependência mútua aparecem cada vez mais como rebaixamento.
Seria a machosfera uma resposta regressiva a esse mundo? O que ela promete restituir aos homens? Que sofrimento ela captura, e de que maneira o transforma em ressentimento, misoginia e fantasia de poder? E o que essa recusa do feminino revela sobre a nossa cultura hoje?
Para pensar essas questões, convidamos a filósofa YaraFrateschi e o psicanalista Ignácio Paim. - No episódio anterior do Mirante, discutimos as relações de poder na psicanálise. Hoje, damos um passo adiante. Porque, quando o poder social se exerce sob a forma de misoginia, feminicídio, transfobia e ódio às diferenças, a pergunta que se impõe já não é apenas o que a psicanálise pensa sobre isso, mas o que ela faz com isso.
Queremos interrogar justamente esse ponto em que sexualidade, cultura, violência e política se enodam. Vivemos um tempo em que o corpo das mulheres volta a ser capturado por discursos políticos que o reduzem à reprodução, em que a violência contra as mulheres se intensifica e em que a diferença sexual e de gênero se torna alvo de perseguição, medo e extermínio.
A conversa de hoje parte também da leitura pública recente de um Manifesto de psicanalistas contra o feminicídio e da mobilização em torno de uma petição que convoca colegas a se posicionarem publicamente diante dessa violência.
Esse gesto recoloca uma questão decisiva: haveria ainda lugar para uma psicanálise que se pretenda alheia à devastação do laço social? Ou seria justamente nesse ponto que sua responsabilidade ética mais se acentua?
Para pensar essas questões, convidamos aspsicanalistas Rosane Pereira e Gizela Turkiewicz. - A reflexão de Georges Bataille sobre o erotismo nos ajuda a pensar que a sexualidade toca sempre zonas de limite, interdição, transgressão e excesso. Talvez por isso mesmo,quando a sexualidade não é atravessada por uma elaboração ética, ela possa deslizar para formas de domínio, captura e objetificação do outro. Casos que nos chocam por seu caráter extraordinário também revelam algo de ordinário:cenas que se repetem em muitos espaços da vida social. E a psicanálise, como instituição, não está fora disso.
Hoje, quando falamos em sexualidade, os temas do abuso, do assédio e da violência se impõem com força. Ao pensar, por exemplo, em casos como o de Epstein, falamos de umaarticulação estrutural entre sexualidade e poder.
Neste episódio, queremos abrir um espaço de conversa sobre aquilo que o campo analítico muitas vezes hesita em nomear: abuso de poder, hierarquias de gênero, autoridade institucional, silêncio e responsabilidade.
Para esta conversa, recebemos a filósofa e psicanalista Natália Leon e a psicanalista Juliana Lang. - O que é uma amizade?
Essa pergunta persiste há algum tempo no Mirante. Emepisódios anteriores — como aqueles em que conversamos sobre “Casais, felizes para sempre?” — a amizade apareceu com força como condição para que um casal possa se constituir e, talvez, se sustentar no tempo.
A célebre frase de Michel de Montaigne, "porque eraele, porque era eu" resume sua visão da amizade verdadeira com Étienne de La Boétie como um vínculo inexplicável, único e superior a relações familiares ou amorosas. No ensaio "Da Amizade", Montaigne a descreve como uma fusão de almas, desinteressada e baseada na afinidade eletiva, tornando arelação a "mais pura e singular de todas"
A psicanálise, no entanto, nem sempre soube responderfacilmente a essa pergunta. Em alguns momentos, a amizade apareceu como um amor inibido, um afeto secundário, quase um resto. Em outros, ela foi pensada como uma experiência fundamental: aquela que sustenta a presença do outro semcaptura, sem fusão e sem utilidade imediata.
Para essa conversa, convidamos os amigos Alex Cerveny,artista plástico, e Oswaldo Ferreira Leite Neto, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. - Este episódio faz parte da temporada “O sexual na polis”,onde pensamos como o desejo, o amor e a diferença atravessam a vida coletiva.Hoje, daremos continuidade ao episódio “Casais: Felizes para sempre?”, retomando a conversa realizada no episódio anterior, quando abrimos questões sobre desigualdade, intimidade e violência nas relações afetivas.
Naquela ocasião, algo ficou nos convocando: e os homens?Como eles pensam o casal? Como se percebem no cenário atual? O que conseguem — ou não conseguem — dizer sobre amor, fragilidade, poder e cuidado?
Perguntas que ficaram ainda mais urgentes diante do aumentodos feminicídios no Brasil e de uma cultura digital marcada por misoginia, Red Pill e medo. A recém-lançada série “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, da HBO Max, reacendeu esse debate ao mostrar como a liberdade das mulheres ainda énarrada como ameaça.
No dia 7 de dezembro, presenciamos uma grande mobilizaçãonacional, quando mulheres foram às ruas para dar um basta à violência — quase sempre após o fim de uma relação amorosa. Isso não fala de casos isolados, mas de uma cultura que autoriza homens a reagirem com violência quando perdem controle ou não suportam a autonomia feminina.
Recebemos para este episódio “Casal: Felizes para sempre?parte II”, dois homens e psicanalistas Vinicius Lima, autor de “Homens em análise: Travessias da Virilidade”, e Leonardo Siqueira, da SPRJ.
O que do masculino se repete, o que precisa ser desmontado eo que pode, finalmente, se transformar?
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Sobre Mirante
Este é o MIRANTE, um podcast para ouvir psicanalistas e pensadores de outros campos debatendo temas relevantes no nosso cotidiano contemporâneo.
O MIRANTE é do Observatório Psicanalítico e pertence à Federação Brasileira de Psicanálise (Febrapsi).
Venha conosco nessa viagem de olhar o mundo a partir do mirante da psicanálise!
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