29 episódios
- Estava a preparar Casino (1995), Martin Scorsese, quando descobriu a primeira co-produção entre a URSS de Nikita Khrushchev e a Cuba de Fidel Castro. Virtuoso obsessivo, ficou a matutar nos impossíveis movimentos de câmara que o georgiano Mikhail Kalatozov (1903-1973) concretizara em Havana em 1964. Onde desembarcara, vindo do frio da URSS, para fazer um filme que cantasse a revolução tropical, caribenha, que descera da serra Maestra e derrubara o regime de Fulgencio Batista, e para dessa forma a acrescentar à internacional comunista. E assim prolongar, cinematograficamente, as suas invenções formais que tinham estado ao serviço da propaganda soviética nos anos 30.
Ficaram, Scorsese e Coppola, embasbacados com Soy Cuba (1964). Scorsese ficou a cismar naquela câmara que sobe ao terraço de um edifício, onde as potências internacionais se divertem, fazendo do regime do Presidente Fulgencio Batista (1901-1973) o seu parque de diversões e espoliações, e depois desce do outro lado e mergulha numa piscina de hotel.
Ou aquele, ainda mais "impossível": o plano começa na rua, a câmara sobe a um edifício, passa para outro, onde está instalado um atelier de charutos, percorre-o, sai pela janela e voa sobre uma rua onde decorre o funeral de um estudante morto durante uma manifestação contra Batista.
Por isso decidiram juntar-se, Coppola e Scorsese, e distribuir Soy Cuba comercialmente nos Estados Unidos. Foi então que o filme que os soviéticos e os cubanos tinham esquecido mal tinha sido acabado — sobre essa incompreensão mútua conversamos neste episódio do podcast — pôde recomeçar a viver e ser redescoberto, três décadas depois. Com um aval de tipo absolutista de Scorsese: se tivesse sido difundido e conhecido em 1964, dizia o realizador em 2003 numa entrevista ao crítico de cinema e escritor Richard Schickel, "o cinema teria mudado", "o cinema teria sido diferente mais cedo".
É este filme que vamos descobrir no dia 13 de Agosto. Um Verão quente (cinéfilo) confirma-se: A Saga de Anatahan, de Josef von Sternberg (dia 6), Soy Cuba, de Mikhail Kalatozov (dia 13), A Piscina, de Jacques Deray (dia 20) integram um programa de clássicos que descem às salas.
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema
See omnystudio.com/listener for privacy information. Tom Cruise vai salvar o mundo (de novo). Seth Rogen não sabe se se salva a si mesmo — e isso tem graça
24/07/2026 | 36minRei morto, rei posto: ainda Ulisses não chegou a casa (mas a Odisseia de Christopher Nolan, como se previa, bateu recordes de bilheteira logo nos primeiros dias) e já as redes sociais se agitam com imagens do próximo blockbuster.
Para vermos o filme completo, temos de esperar por Outubro, mas o trailer já está aí. Falamos de Digger de Alejandro Iñarritu, mas falamos sobretudo da sua estrela, um quase irreconhecível Tom Cruise, envelhecido e mais gordo através de próteses, no papel de um bilionário excêntrico.
O discurso motivador do actor na cerimónia de encerramento do Mundial de Futebol, no estádio MetLife, em Nova Jersey (há quem diga que ficou desiludido porque esperava um impacto maior) começou logo a ajudar como promoção do filme. E fez lembrar o seu voo sobre outro estádio, noutra cidade, noutro país: Paris, Stade de France, final das Olimpíadas de 2024. Diferente cenário, mas a mesma vontade de tornar o mundo (a América, ele próprio) grande outra vez. Será impressão nossa ou a cadência da voz de Trump pareceu ecoar no discurso de Cruise?
Actor corajoso e talentoso — não esquecemos De Olhos Bem Fechados, um salto de fé com Kubrick — é o tipo de estrela que parece engolir tudo à sua volta. Nós pusemo-nos a olhar para esse hype.
O que nos levou a outro actor. Que em alguns casos é também realizador e produtor: Seth Rogen. Junta-se a Oliva Wilde, realizadora e actriz de O Convite, e a Penélope Cruz e Edward Norton, numa comédia dramática sobre a vida de casal. É um inesperado sucesso neste Verão. E é o pretexto para falarmos sobre intérpretes — por exemplo: haverá demasiada auto-irrisão em Rogen, o eterno anti-galã desajeitado que, apesar disso, muitas vezes fica com a miúda?—, os registos televisivo e cinematográfico, a influência do humor de canadianos e judeus em Hollywood, e até o que faz o sotaque de Penélope Cruz à sua carreira.
E porque nem só de blockbusters ou de sucessos inesperados se faz o cinema, não esquecemos uma pequena pérola indiana que está nas salas, O Canto das Árvores Esquecidas, de Anuparna Roy — a Índia das castas, as pressões sociais, os homens que usam as mulheres, as mulheres que usam os homens mas que criam laços únicos entre elas. Um filme muito pessoal, profundamente corajoso, feito com poucos recursos — nos antípodas de Digger.
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See omnystudio.com/listener for privacy information.- A Frederico Lourenço devemos-lhe estes épicos trabalhos: em 2003 traduziu em verso, do grego, a Odisseia de Homero (pela qual recebeu o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus e o Grande Prémio de Tradução APT/Pen Clube), e, dois anos depois, a Ilíada; em 2016, passou dos clássicos gregos para a Bíblia grega, e isso foi o pretexto mais próximo para a atribuição do Prémio Pessoa.
É também ficcionista, ensaísta e poeta. E professor universitário. Concentrado nos estudos e na tradução do grego e do latim, não deixou no entanto de ser o cinéfilo que sempre foi. Trabalhou inclusivamente como crítico deste jornal.
E foi por isso também que tivemos o prazer de fazer este herói regressar a casa. Por um episódio do podcast No Escuro. Para nos explicar as suas razões: é que decidiu não ir ver A Odisseia, de Christopher Nolan.
Têm de ouvir a conversa para saber porquê. Resumido seria assim: desde os oito anos, quando leu pela primeira vez uma versão juvenil de Odisseia, que o futuro helenista tem todo esse filme na cabeça; por isso, tudo o que alguém queira acrescentar com actores e efeitos especiais, não menosprezando a capacidade de uma grande produção em levar mais leitores aos clássicos, parece-lhe redundante.
Mas nós vimos o filme. E como o resto do mundo, estamos divididos. Entre a crença na proposta de aventura e, do outro lado, a confirmação de que Christopher Nolan pensa e opina como um cineasta do século XX — a importância das salas e o sortilégio da película, o braço de força com as plataformas de streaming — mas faz filmes do século XXI: uma sopa triturada, sem dar a provar a distinção, a nobreza, dos ingredientes que utiliza.
Em suma, também se pode perguntar: é redundante ou é útil esta entrega de Ulisses a quem nunca pensaria em ler a Odisseia e pode, afinal, aventurar-se por ela?
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See omnystudio.com/listener for privacy information. - Quais são os filmes mais quentes do cinema norte-americano? Há ondas de calor na tela pelo menos desde os anos 50 do século passado. Mas se nesse tempo de alguma inocência, elas libertam — as pernas de Marilyn quando o seu vestido branco é levantado pelo ar do respiradouro do metro em O Pecado Mora ao Lado —, em tempos de maior tensão, elas oprimem: veja-se, já nos anos 90, a fúria de um homem vulgar numa cidade que lhe é hostil, o Michael Douglas de Um Dia de Raiva.
Há calor que traz os segredos para onde podem ser vistos por todos, como em Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, e calor que faz os ódios acumulados explodirem nas ruas, como o de Não Dês Bronca, de Spike Lee ou o de Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, com Al Pacino num falhado assalto a um banco num dia de calor excepcional.
Nos filmes adaptados de peças de Tennessee Williams, é o calor sufocante do Sul dos Estados Unidos que molda os conflitos. O corpo suado de Marlon Brando em Um Eléctrico Chamado Desejo é a imposição de um lado selvagem contra o frágil verniz social da cunhada, a Blanche Dubois de Vivien Leigh. Em Gata em Telhado de Zinco Quente, os conflitos familiares explodem mas o cinema, esse meio de massas, não pode ir tão longe quanto a escrita de Tennessee Williams e, por isso, a homossexualidade de Brick, a personagem de Paul Newman, é apenas sugerida — tal como a possibilidade de infidelidade de Richard Sherman (Tom Ewell) de O Pecado Mora ao Lado não passará de uma fantasia nunca concretizada.
O calor opressivo — de diversas formas — do Sul é diferente das temperaturas escaldantes de cidades como Los Angeles ou Nova Iorque. Mas ambos marcam no nosso imaginário essa América criada pelo cinema. Neste episódio do No Escuro, a partir de um Portugal que enfrenta uma onda de calor, perguntamos o que nos querem dizer os filmes em que os termómetros não param de subir.
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See omnystudio.com/listener for privacy information. Muitos dos melhores filmes do ano são feitos por mulheres. "L’ Aventura" confirma-o
03/07/2026 | 37minPara Vasco Câmara, este filme - L'Aventura, da realizadora francesa Sophie Letourneur - é "um dos acontecimentos cinematográficos do ano em Portugal". Foi, por isso, para nós o ponto de partida para uma conversa sobre o cinema realizado por mulheres e a forma como, não só este ano mas este ano de uma maneira muito evidente, nos tem trazido algumas das melhores surpresas.
No caso deste filme, o Verão, mas um Verão, em viagem por Itália, colado à pele das pequenas coisas que são as férias: crianças que fazem birras, quartos alugados que não são o que se esperava, uma filha mais velha que exige atenção, a decisão de onde se vai comer, o que se vai comer, a que praia se vai, tudo o que corre mal, e também o que corre bem, os momentos de tédio e, de repente, algo que os faz rir todos juntos. E, no meio disto, um casal (ela é a própria Sophie Letourneur, ele é o actor e músico Philippe Katherine) que se vai afastando. Nada de dramático. A vida, afinal. Mas não é fácil filmá-la assim, tão perto do que é a banalidade do quotidiano, e é isso que torna o trabalho de Sophie Letourneur tão extraordinário - antes deste filme houve outro, Voyages en Italie (2023) também as férias, também Itália, o mesmo casal, outro momento.
Little Trouble Girls também está nas salas e também foi realizado por uma mulher, a eslovena Urska Djukic, sobre mulheres, neste caso sobre raparigas, meninas de coro (literalmente) às voltas com o corpo e o desejo. Aqui, temos a música como manifestação de um corpo (individual e, depois, colectivo), as perguntas, a fé (das outras), as traições, a culpa, o aprender a crescer, a descoberta de que se é uma pessoa de corpo inteiro. Mais um pretexto, a juntar ao filme de Sophie Letourneur, para nos interrogarmos sobre o que é isso de um cinema de mulheres, feminino - se é que faz sentido a pergunta. Não fugimos dela neste episódio 24 do No Escuro.
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