264 episódios
- Durante toda a infância, Ana Beatriz acreditou que o pai era o homem que mais cuidava dela. Até descobrir que o que os “carinhos” dele, na verdade, escondiam uma violência que ela só conseguiu nomear após ver uma matéria sobre abuso infantil na TV.
Como a mãe trabalhava fora para sustentar a família, Bia passava muito tempo em casa com o pai. Ele brincava com os filhos, jogava bola, fazia tranças no cabelo dela. Era presente, amoroso, e talvez por isso ela tenha demorado tanto para entender o que estava acontecendo.
A ficha caiu quando uma reportagem sobre abuso infantil passou na TV. Pela primeira vez, ela reconheceu algo que também fazia parte da sua vida. E percebeu que a violência não vinha de um desconhecido, mas do próprio pai.
O conflito ficou ainda maior porque ela o amava e tinha medo de perdê-lo. Também tinha medo de que a mãe não acreditasse nela e de destruir a família que conhecia.
Aos 16 anos, Bia encontrou coragem para denunciar o pai ao Conselho Tutelar. A denúncia não encerrou o sofrimento. Foram anos de espera, audiências e perguntas que fizeram Bia reviver aquilo muitas vezes.
O pai permaneceu em casa por um período, até que sua mãe, que nunca duvidou da filha, encontrou forças para tirá-lo de lá. Depois de sete anos de processo, ele foi preso.
Hoje, Bia transformou a própria experiência em trabalho. Formada em Serviço Social, pesquisa formas mais humanas de acolher crianças vítimas de violência e escreveu um livro para ensinar outras crianças a se protegerem, chamado Carro Cris (https://hotmart.com/pt-br/marketplace/produtos/hagsxd-carro-cris-bvqz6/O103370091J)
Ela sabe que não pode mudar o que aconteceu. Mas pode fazer com que outras crianças sejam ouvidas antes. E talvez essa seja a maior transformação da sua história: aquilo que um dia fez Bia acreditar que estava sozinha hoje é justamente o que a faz lutar para que nenhuma criança precise passar por isso sem alguém que a escute. - O Carlos é um homem preto que vive com vitiligo universal, o que fez com que ele perdesse a pigmentação de toda a pele e passasse a ser lido socialmente como um homem branco.
Mas se a cor da pele dele mudou, as experiências que ele viveu como homem preto no Brasil continuam e se acentuam quando ele passa a ser lido como um homem branco.
O vitiligo começou a se manifestar quando ele tinha cerca de oito anos. A primeira mancha apareceu no joelho. Quando o Carlos finalmente recebeu o diagnóstico, ouviu que a doença não tinha cura e que poderia ficar completamente branco.
Carlos passou a esconder o corpo. Evitava bermudas, deixava de participar das aulas de educação física e tentava mostrar o mínimo possível das manchas. O que não doía, não coçava e não transmitia começou a produzir sofrimento de outra forma: pelo olhar das pessoas.
E enquanto tentava entender o que estava acontecendo com sua pele, Carlos também começava a compreender que havia outra questão atravessando sua história: ele era um homem preto.
Conforme o vitiligo avançava, sua aparência mudava. E ele percebeu isso de uma forma inesperada no trabalho de vendedor numa loja na Barra da Tijuca, no Rio.
Quanto mais branca sua pele ficava, melhor ele passava a ser tratado pelos clientes. Sua conversão em vendas chegou a aumentar nesse período.
Carlos começou a perceber que talvez não fosse apenas a sua pele que estivesse mudando. Era como as pessoas o enxergavam agora: como um homem branco.
E essa nova leitura não apaga as experiências de racismo que viveu antes da despigmentação. Nem as situações que continuam acontecendo quando está ao lado do pai, um homem preto, ou quando alguém se sente confortável para fazer um comentário racista acreditando que Carlos pensa como eles.
Quando finalmente percebeu que estava completamente branco, ele não sentiu que tinha vencido alguma coisa. Pelo contrário, ele não se reconhecia no espelho.
Foi na terapia que começou a reconstruir essa relação com a própria imagem e entender que aquela mudança não apagava quem ele era. - Rodrigo passou boa parte da vida acreditando que precisava escolher entre a própria fé e quem ele era. Criado na igreja, ouviu desde cedo que amar outro homem significava viver longe de Deus. Até encontrar uma comunidade que lhe mostrou um Deus diferente: um que não fazia acepção de pessoas, mas de amor.
Foi ali que também encontrou Willian. A amizade virou companheirismo, a oração virou namoro e, depois, casamento. Os dois tinham um sonho em comum desde o início: serem pais.
Quando entraram na fila da adoção, recusaram qualquer preferência. Cor, idade ou gênero nunca importou para os dois. Queriam apenas um filho. Um ano e meio depois, o telefone tocou, mas havia uma surpresa: não era uma criança. Eram duas irmãs.
A mais velha, Daniela, tinha apenas quatro anos e carregava uma história que ninguém deveria viver. Ela já havia sido adotada por outra família e, por motivos que Rodrigo e Willian nunca souberam, tinha sido devolvida ao abrigo. Foi justamente quando ela voltou que sua irmã caçula, Maria Vitória, chegou bebê ao mesmo lugar.
Diante de uma simples foto 3x4 das duas, eles tiveram certeza. Aquelas meninas eram suas filhas.
Quando Daniela entrou na sala, segurou a mão dos dois e fez uma descoberta que mudaria a vida de todos: agora ela tinha dois pais. E, pela primeira vez, também tinha uma irmã.
Naquele instante, Rodrigo entendeu que ninguém havia salvado ninguém. Eles também estavam sendo adotados. As meninas deram um novo sentido à sua fé, ao seu casamento e à própria ideia de família.
Os desafios de uma paternidade dupla surgiram: escolas que só escreviam "querida mamãe" nos bilhetes, banheiros sem espaço para um pai acompanhar a filha, olhares curiosos e preconceitos silenciosos. Em vez de responder com revolta, eles decidiram ensinar. Com paciência, abriram caminhos para que outras famílias também encontrassem acolhimento.
Hoje, Rodrigo costuma dizer que sua família não é diferente de nenhuma outra. Tem contas para pagar, dificuldades, aprendizados e muito amor. A maior prova disso talvez seja Daniela: uma menina que um dia foi devolvida como se pudesse ser descartada, mas que encontrou um lar onde nunca mais precisaria perguntar se era suficiente.
Porque família não nasce da forma como ela começa. Nasce da decisão de permanecer.
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Tenha acesso a histórias e conteúdos exclusivos do canal, seja um apoiador http://apoia.se/historiasdeterapia - Até onde o discurso “meninos vestem azul, meninas vestem rosa” pode impactar a vida de uma pessoa trans?
Desde muito pequena, a Vic já demonstrava que era uma menina trans. A Alessandra, sua mãe, demorou para compreender, mas quando a filha revelou sua identidade, ela a acolheu e começou a lutar pelos direitos da filha.
Comprou seu primeiro sutiã, dividiu roupas, segurou sua mão e tentou fazer com que os olhares de julgamento não a atingissem. Mas eles atingiam.
Na rua. Na escola. Nas pequenas violências diárias. Victória passou a viver com medo e, aos poucos, a alegria foi dando lugar à depressão. Ela já não queria sair da cama, estudar ou sonhar.
Naquele período, um discurso público feito por uma autoridade política, logo após a posse do novo governo federal, afirmando que "meninos vestem azul e meninas vestem rosa", teve um impacto profundo sobre Victória.
Para Alessandra, ouvir esse tipo de mensagem partindo de alguém em posição de liderança reforçava o preconceito que a filha já enfrentava diariamente e transmitia a sensação de que a exclusão era aceitável. Não foi um único discurso que provocou sua dor, mas ele se somou às inúmeras violências e discriminações que Victória já carregava.
Em 04 de janeiro de 2019, aos 18 anos, Victória tirou a própria vida. Um dia após o tal discurso.
A partida da Vic ainda reservava outra batalha para mãe e filha, já que a Alessandra enfrentou dias de sofrimento para conseguir que o nome social da filha fosse reconhecido em seus documentos póstumos.
A Justiça do DF negou o registro póstumo da Victória, mas em em 2021, foi sancionada a Lei nº 6.804/2021, conhecida como Lei Victória Jugnet, que assegura o direito ao uso do nome social de pessoas trans e travestis em lápides, certidões de óbito e demais documentos póstumos.
7 anos depois, Alessandra ainda convive com as marcas desse trauma. Mas decidiu que a vida da filha não terminaria naquele janeiro. Porque, para ela, Victória não passou pelo mundo em vão.
Sua história continua lembrando que nenhuma pessoa deveria perder a esperança de viver por causa do preconceito e que reconhecer a humanidade do outro nunca deveria ser motivo de debate, mas de respeito. - Desde pequena, Sabrina carregava a sensação de não pertencer a lugar algum. Na escola, era a criança que ficava sem recreio porque não conseguia acompanhar a aula, sofria bullying e acabou encontrando abrigo justamente entre os “desasjusados”.
Sem entender o que acontecia dentro de si, cresceu tentando anestesiar uma dor. Aos 13 anos, encontrou no álcool uma fuga, que só a fez afundar. Na vida adulta, suas crises emocionais passaram a afetar o trabalho, os relacionamentos e a própria vontade de continuar vivendo.
Durante muito tempo, todos enxergavam apenas uma mulher emocionalmente descontrolada. Até que vieram os laudos. Autismo, TDAH, ansiedade, depressão e síndrome de Tourette. O diagnóstico trouxe respostas, mas também o peso de aceitar que aquela diferença tinha alguns nomes.
Nessa época, o Glück já fazia parte da sua vida. Ele chegou filhote e, logo nos primeiros meses, Sabrina descobriu que ele era surdo. Em vez de desistir, aprendeu uma nova forma de se comunicar com seu cãozinho. Adaptou comandos, treinou cada gesto e construiu uma linguagem com ele..
Anos depois, aquele cachorro que já era companhia se tornou seu cão de assistência, que auxilia a Sabrina em momentos de crise.
Hoje, antes mesmo que Sabrina perceba uma crise chegando, o Glück percebe. Ele encosta a cabeça na sua perna, cutuca suas mãos e tenta chamar sua atenção.
Quando ela começa a se machucar, batendo a cabeça ou arranhando o próprio rosto, ele salta sobre seu corpo e faz o que os especialistas chamam de terapia de pressão. O peso do seu corpo interrompe o caos. Sabrina respira, acaricia seu pelo e, aos poucos, volta para a realidade.
Ela costuma dizer que existe uma diferença enorme entre sair sozinha e sair ao lado dele. Antes, uma crise no meio da rua podia fazê-la ficar totalmente perdida. Hoje, ela sabe que não está sozinha.
Porque, às vezes, o que salva uma vida não é apenas encontrar um diagnóstico, mas um ser vivo que, mesmo sem ouvir uma única palavra, aprende exatamente como cuidar de você.
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