PodcastsSociedade e culturaHistórias de ter.a.pia

Histórias de ter.a.pia

ter.a.pia
Histórias de ter.a.pia
Último episódio

243 episódios

  • Histórias de ter.a.pia

    Eu não tenho vergonha de ser PUTA

    05/03/2026 | 6min
    “Eu sou puta!” É assim que Lourdes se apresenta, sem rodeios. Mas sua história não começa num lugar específico, começa quando o mundo decide que a culpa, quase sempre, cai no colo de uma mulher.
    Aos 14 anos, Lourdes sofreu abuso sexual de um tio, e o jeito que a família encontrou de lidar com a situação foi expulsando ela de casa, como se ela tivesse culpa.
    Foi numa praça que Lourdes foi encontrada por uma pessoa que percebeu que ela estava assustada, sem força para explicar o que tinha acontecido, e a levou até um bordel.
    O que surpreende é que Lourdes se sentia mais segura na casa de prostituição do que em casa, dentro da própria família, afinal, ali estava num ambiente em que outras mulheres estavam juntas, todas se ajudando.
    No bordel existia união, rotina e uma rede de apoio muito forte. Quando a exploração apertava, elas se organizavam, faziam greve por comida, descanso e dignidade.
    Lourdes rodou todo o nordeste brasileiro e passou por várias casas até chegar a Belém, cidade em que ela construiu família, criou 4 filhos e virou avó de 10 netos.
    Em nenhum momento ela romantizou nada. Ela foi empurrada para sobreviver do jeito que dava, e hoje é contra que alguém tão jovem precise passar por isso.
    Mas Lourdes nunca teve vergonha do que fazia também. Sua profissão sempre alimentou sua família, por isso, ela não mentiu para os filhos sobre de onde vinha o dinheiro, porque para ela a mentira também é uma forma de abandono.
    Lourdes sempre lutou pelos direitos das prostitutas, dentro dos bordeis e na política também.
    Na primeira reunião do Conselho dos Direitos da Mulher, em Belém, aconselharam que não dissesse que era puta. Lourdes disse mesmo assim e, ao dizer, conseguiu mobilizar o poder público para existirem direitos para quem vive essa realidade: educação, saúde, moradia, creche para os filhos e, acima de tudo, respeito.
    No fim, Lourdes mostra que coragem, às vezes, é simplesmente não se esconder, sendo puta ou não.
  • Histórias de ter.a.pia

    Eu aceitei a CURA GAY por não aceitar gostar de mulheres

    26/02/2026 | 6min
    Thais Araujo aprendeu cedo a desconfiar de si. Dentro da igreja, tudo que ela sentia parecia ter nome de pecado, e o amor, quando apontava para outra mulher, virava motivo de medo.
    Ela tentou por anos caber no que esperavam dela, seguia padrões, orava mais e jejuava.
    Foi nessa mesma época que Mayara entrou na vida da Thais. As duas se conheceram na igreja, no grupo musical. Thais com o trombone, Mayara com o violino. Um olhar bastou para nascer aquela vontade de conversar todo dia, como se o mundo ficasse mais leve na presença da outra.
    Por anos, elas juraram que seriam só amigas. Até o beijo acontecer. E, com o beijo, veio a culpa, a sensação de erro, o impulso de se esconder.
    Elas ficavam em segredo, até Thais não aguentar mais. Na cabeça dela, Mayara virou um “bloqueio” espiritual, algo a ser cortado para que a vida voltasse ao rumo que lhe prometeram. Thais mudou de igreja tentando fugir da própria verdade. Mas o problema não era Mayara.
    Quando ofereceram a ela a ideia da “cura gay”, Thais embarcou na falácia. Aos poucos, ela foi perdendo o gosto pelas coisas, a vontade de existir. O gatilho era o fato dela não poder ser quem era.
    Após algumas crises seríssimas, Thais conseguiu ajuda psicológica e começou a se escolher. Acabou saindo da igreja porque não se sentia acolhida quando mais precisou.
    Ela melhorou aos poucos, aprendeu que podia viver sem se esconder e amar quem quer que fosse.
    Com o tempo, até dentro de casa as coisas mudaram. Um dia, a mãe mandou uma mensagem convidando-a para um churrasco e pedindo que levasse a pessoa que amava.
    Thais quase não acreditou, a mãe era muito religiosa e tinha o mesmo pensamento das pessoas da igreja. Com essa atitude da mãe, ela guardou essa atitude como quem guarda um milagre concreto: pessoas podem mudar.
    10 anos depois do rompimento com Mayara, Thais, que nunca a esqueceu, decidiu entrar em contato com aquele amor do passado. As duas se reencontraram mais maduras, prontas para um amor inteiro.
    Thais não quis deixar a vida passar de novo e perguntou se podiam namorar. Mayara disse sim e, dessa vez, ninguém precisou se esconder.
  • Histórias de ter.a.pia

    Meu filho pode usar vestido e brincar de boneca

    19/02/2026 | 9min
    Quando o Sebá demonstrou que gostava, também, de “coisas de menina”, a Mari fez um acordo com ela mesma: não iria criar “um menino” ou “uma menina”, ela queria criar crianças. Crianças de verdade, com direito a brincar, testar, mudar de ideia, se encantar e se expressar.
    Foi assim que Sebastião fez a Mari enxergar uma infância sem rótulos. Um menino que gostava do que o irmão mais velho não gostava, que quis brincar com uma Barbie, que se apaixonou pela ‘Frozen’. E, aos poucos, Mari percebeu que o desafio não era entender o filho, mas enfrentar o mundo tentando reduzir uma criança a uma regra de gênero.
    Em casa, ela ouviu frases que parecem “preocupação”, mas vêm carregadas de controle e, por um tempo, ela cedeu aqui e ali, porque estava na casa dos pais. Tirava a boneca, fazia com que ele agisse “como um menino”.
    Até que um dia o próprio Sebastião mostrou o tamanho do estrago: ele disse que queria ser uma menina, só para poder usar a fantasia sem ser julgado. Ali, Mari entendeu que não não era uma questão de gênero, mas de diversão e, por isso, não dava mais para negociar a alegria do filho.
    Ela decidiu que, dali para frente, brinquedo e roupa seriam apenas isso: brinquedo e roupa. Sem rótulos. E fez o que muita gente tenta evitar: bancou a escolha em voz alta para a família, para a escola e para a internet.
    Com o tempo, Sebastião ganhou uma coisa que não tem preço: segurança para se nomear. “Eu sou um menino que gosta disso.”
    E com a felicidade do filho, a Mari entendeu que quando uma criança é acolhida, ela não precisa se esconder. Ela só precisa ser criança.
  • Histórias de ter.a.pia

    Minha mãe sumiu numa excursão para Aparecida e foi encontrada atropelada

    05/02/2026 | 12min
    Essa é uma história que a gente não gostaria de ter quer contar. A mãe da Ale nasceu na roça, primeira filha de dois avós negros presos a um trabalho sem salário, apenas pela promessa de um teto sem conforto.
    Ela viu o pai sair para trabalhar e não voltar. Depois viu a mãe sair para tentar um recomeço e achou que também nunca mais a veria.
    Quando engravidou, foi expulsa sem nem poder pegar as próprias roupas e partiu para São Paulo com o namorado, levando uma mala só e um enxoval pequeno. Ele saiu dizendo que buscaria um lugar melhor e nunca mais voltou também.
    Ela sobreviveu ajudando feirantes em troca de comida, conheceu o pai de Ale, teve filhos, viveu perdas cedo demais e, mesmo sem ter aprendido a ler, amava livros.
    A Mãe da Ale costurava enquanto a filha lia em voz alta. Nos fins de semana chuvosos, a casa virava abrigo: o som da máquina, a voz da filha, e uma risada que parecia desafiar a vida.
    Aos 75 anos, ela já se confundia às vezes, mas seguia fazendo tudo. Até o dia em que foi para uma excursão com seus amigos de anos da igreja e não voltou para casa.
    As pessoas da excursão disseram que na parada, quando todos retornaram para o ônibus, ela não estava mais lá. E essas pessoas deixaram para a família o impossível: saber por onde começar. Não houve ajuda.
    As câmeras da parada mostraram a mãe de Ale descendo junto com as outras pessoas, depois se afastando devagar, sendo engolida pela multidão… Depois, nada.
    Ale transformou a revolta em busca, principalmente quando encontrou a mãe, que havia sido encontrada 7km de distância o local, atropelada.
    A situação foi tão grave que ela não pôde sequer reconhecer o corpo, que havia sido reconhecido pelos peritos pelas digitais.
    Para a Ale, a dor maior não foi só a perda, mas a indiferença nessa situação. As pessoas da excursão, amigos de anos da família, sequer foram no enterro. Não rezaram uma Ave Maria.
    Hoje, a Ale carrega a mãe nas lembranças, na coragem e na decisão de contar essa história atrás de respostas.
  • Histórias de ter.a.pia

    A médica me mandou pra casa esperar meu bebê nascer morto

    29/01/2026 | 7min
    Com três meses de gestação, Marcely entrou no hospital acreditando que sairia dali com uma notícia leve, o sexo do bebê, um detalhe feliz para guardar. Em vez disso, sentiu o chão sumir quando a médica avisou que ela estava dilatando cedo demais, e iria perder o bebê.
    O choque foi tão grande que ela mal conseguiu reagir, só chorou. E, no meio do banheiro do hospital, uma desconhecida, sem saber de nada, ofereceu uma frase atravessada de fé que a fez buscar outra opinião médica.
    No segundo hospital, veio a confirmação e uma aposta diária: internação e repouso absoluto para manter a gestação o máximo possível.
    Era pandemia, e a Marcely passou dias deitada, olhando para o teto, vivendo de pequenos marcos, celebrando a cada 24 horas por mais um dia conquistado.
    Quando soube que o bebê que ela gerava era menina, também soube que ela ainda era pequena demais para o mundo. Mesmo assim, Laura ganhava peso e ia crescendo dentro da mãe, e isso dava esperança para Marcely.
    Duas semanas depois, uma nova infecção mudou tudo. Para proteger mãe e a bebê, os médicos optaram por uma cesárea. Laura nasceu com 1,05 kg e, ficou na UTI neonatal. Por muito tempo, foi mais fios e eletrodos do que pele aos olhos de Marcely.
    O colo da mãe veio só três meses depois e, justamente ali, no primeiro contato pele a pele, Laura teve uma parada e foi tirada às pressas de seus braços.
    Marcely saiu daquele momento achando que não era um colo seguro.
    Os dias seguiram. Intubação, sonda, cada avanço era uma luz acesa na vida da Marcely e da Laura.
    A bebê nasceu em 15 de março e recebeu alta por volta de 16 de junho. Marcely acreditou que, em casa, a vida finalmente ficaria bem. Mas foi ali que tudo desabou.
    A força que ela sustentou por meses virou silêncio, e uma depressão pós-parto tomou espaço. Só quando Marcely conheceu outras mães de prematuros, entendeu que sua dor poderia ser compartilhada.
    Hoje, Laura tem quatro anos. Saudável, brincalhona, sem sequelas. E Marcely aprendeu que cuidar da filha também passa por se cuidar de si, para que a segurança que ela oferece não seja apenas uma máscara, mas um chão firme.

Mais podcasts de Sociedade e cultura

Sobre Histórias de ter.a.pia

Histórias reais, de gente como a gente, para você ouvir e se inspirar.
Site de podcast

Ouça Histórias de ter.a.pia, Prato Cheio e muitos outros podcasts de todo o mundo com o aplicativo o radio.net

Obtenha o aplicativo gratuito radio.net

  • Guardar rádios e podcasts favoritos
  • Transmissão via Wi-Fi ou Bluetooth
  • Carplay & Android Audo compatìvel
  • E ainda mais funções

Histórias de ter.a.pia: Podcast do grupo

Informação legal
Aplicações
Social
v8.7.2 | © 2007-2026 radio.de GmbH
Generated: 3/9/2026 - 6:44:18 AM