267 episódios
Cresci vendo minha mãe sofrer violência doméstica e precisei protegê-la aos 13 anos
24/09/2026 | 12minIsabela tinha três anos quando começou a guardar na memória cenas que nenhuma criança deveria precisar lembrar. O pai agredia a mãe dentro de casa, e ela ainda se recorda da mesa, da irmã atrás dela e do lugar exato onde ele estava quando um soco quebrou os dentes da mãe.
A mãe tinha cinco filhos e não podia trabalhar porque o marido não permitia. Quando ele ficou doente e deixou de ser caminhoneiro, a família passou a enfrentar dificuldades, até que ela voltou a fazer unhas para sustentar a casa.
Mesmo trabalhando, a mãe continuava sendo controlada. O marido aparecia bêbado no trabalho, fazia escândalos e, dentro de casa, qualquer motivo podia virar violência física.
Isabela cresceu naquele ambiente conturbado até que, aos 13 anos, chegou em casa e encontrou o pai agredindo novamente a mãe. Pela primeira vez, sentiu que era grande o suficiente para enfrentá-lo, pegou um pedaço de madeira e entrou na sala. Aquele seria o último dia que ele levantaria a mão para alguém dentro daquela casa.
A violência diminuiu depois disso e anos depois, o pai morreu. Para Isabela e a família, a morte trouxe uma sensação inesperada de alívio.
Foi também depois disso que ela viu a mãe reconstruir a própria vida, as duas voltaram a estudar juntas e sua mãe chegou à faculdade, mudando a realidade da família.
Anos depois, já casada, Isabela viveu a própria violência doméstica. Grávida, foi agredida pelo companheiro e conseguiu fugir quando ele saiu para trabalhar. Com as coisas que conseguiu carregar, foi para a casa da mãe.
Quando abriu o portão, encontrou o acolhimento que talvez mais precisasse naquele momento. Ali, entendeu que tinha uma casa, tinha uma família e tinha para onde voltar para encerrar aquele ciclo.
A partir da própria experiência, Isabela passou a trabalhar para que outras mulheres e crianças tenham acesso às possibilidades que sua mãe não teve.
Hoje, ela carrega a ausência da mãe, que morreu em 2024, mas também tudo o que aprendeu com ela.- Em poucos anos, Keila Maria perdeu o filho, o pai, o marido e a mãe. Mas, em meio a tantos lutos, encontrou uma missão que fez com que ela continuasse de pé: cuidar de 110 pessoas com deficiência.
Em 2017, seu filho morreu em um acidente de carro no interior do Ceará, aos 24 anos. A notícia chegou de forma inesperada, e Keila entrou em um período de profunda depressão. Ela, que tinha uma vida confortável e muitos bens, percebeu que nada daquilo era capaz de preencher o vazio que ficou.
Foi então que recebeu um convite para assumir um instituto que estava fechado e cuidar de pessoas com deficiência. Começou com sete assistidos. Um ano depois, já eram 30.
Enquanto reconstruía a própria vida, Keila precisou enfrentar outros lutos: do pai, marido e da própria mãe. Nesse meio tempo, já havia 110 pessoas esperando por ela no Instituto Léa Rosenberg.
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Quer nos ajudar a contar mais histórias, considere apoiar o Histórias de ter.a.pia com um pix de qualquer quantia: contato@historiasdeterapia.com - Aos 12 anos, Bianca era uma criança que acreditou ter encontrado na internet um amigo que finalmente enxergava nela tudo aquilo que ela mesma não conseguia ver. Do outro lado da tela, porém, estava um homem adulto de 24 anos.
Durante três anos, enquanto ela ainda crescia, ele foi transformando aquela amizade em uma relação de controle, até fazer Bianca acreditar que obedecê-lo era uma forma de não perdê-lo.
Tudo começou quando ela, aos 7 anos, começou a jogar um jogo para crianças no computador. Nesse jogo, ela fez muitos amigos virtuais, mas todos jogavam de forma anônima. Até que um adulto, se passando por criança, começou a demonstrar interesse não pelas partidas, mas por saber quem era a Bianca.
Ele começou a encher ela de elogios, e isso a motivava a continuar naquela relação digital. Aos poucos, o homem passou a influenciar suas roupas, seu cabelo e sua rotina, e o que parecia cuidado começou a se transformar em controle.
Ele queria saber onde Bianca estava, com quem falava e o que fazia. Fez com que ela se afastasse de outras pessoas, inclusive da própria mãe, e passou a usar cobranças e ameaças para controlar suas emoções.
A relação chegou a um ponto em que Bianca era pressionada a enviar imagens do próprio corpo diariamente. Ela se sentia mal, mas tinha mais medo de desobedecer.
Foi quando ele pediu que ela viajasse sozinha até sua casa para acompanhá-lo em uma suposta cirurgia. Nesse momento, Bianca finalmente percebeu que precisava interromper aquilo.
O fim não trouxe alívio imediato. Durante anos, Bianca acreditou que a culpa era dela, pensava que não deveria ter respondido a um adulto, que não deveria ter confiado, que talvez tivesse provocado tudo aquilo.
Só muito tempo depois começou a compreender: ela era uma criança.
Quando conseguiu contar para a mãe, foi à delegacia e reuniu tudo o que ainda tinha sobre aquele homem. Ele desapareceu depois do fim da relação, e o processo segue em sigilo.
Bianca decidiu transformar aquilo que viveu em informação. Criou um canal para falar sobre violência e passou a ajudar outras pessoas a reconhecer situações que, assim como ela, talvez ainda não consigam nomear.
Porque uma criança não tem como saber se proteger da manipulação de um adulto. E Bianca passou anos precisando aprender isso depois que tudo aconteceu. - Durante toda a infância, Ana Beatriz acreditou que o pai era o homem que mais cuidava dela. Até descobrir que o que os “carinhos” dele, na verdade, escondiam uma violência que ela só conseguiu nomear após ver uma matéria sobre abuso infantil na TV.
Como a mãe trabalhava fora para sustentar a família, Bia passava muito tempo em casa com o pai. Ele brincava com os filhos, jogava bola, fazia tranças no cabelo dela. Era presente, amoroso, e talvez por isso ela tenha demorado tanto para entender o que estava acontecendo.
A ficha caiu quando uma reportagem sobre abuso infantil passou na TV. Pela primeira vez, ela reconheceu algo que também fazia parte da sua vida. E percebeu que a violência não vinha de um desconhecido, mas do próprio pai.
O conflito ficou ainda maior porque ela o amava e tinha medo de perdê-lo. Também tinha medo de que a mãe não acreditasse nela e de destruir a família que conhecia.
Aos 16 anos, Bia encontrou coragem para denunciar o pai ao Conselho Tutelar. A denúncia não encerrou o sofrimento. Foram anos de espera, audiências e perguntas que fizeram Bia reviver aquilo muitas vezes.
O pai permaneceu em casa por um período, até que sua mãe, que nunca duvidou da filha, encontrou forças para tirá-lo de lá. Depois de sete anos de processo, ele foi preso.
Hoje, Bia transformou a própria experiência em trabalho. Formada em Serviço Social, pesquisa formas mais humanas de acolher crianças vítimas de violência e escreveu um livro para ensinar outras crianças a se protegerem, chamado Carro Cris (https://hotmart.com/pt-br/marketplace/produtos/hagsxd-carro-cris-bvqz6/O103370091J)
Ela sabe que não pode mudar o que aconteceu. Mas pode fazer com que outras crianças sejam ouvidas antes. E talvez essa seja a maior transformação da sua história: aquilo que um dia fez Bia acreditar que estava sozinha hoje é justamente o que a faz lutar para que nenhuma criança precise passar por isso sem alguém que a escute. - O Carlos é um homem preto que vive com vitiligo universal, o que fez com que ele perdesse a pigmentação de toda a pele e passasse a ser lido socialmente como um homem branco.
Mas se a cor da pele dele mudou, as experiências que ele viveu como homem preto no Brasil continuam e se acentuam quando ele passa a ser lido como um homem branco.
O vitiligo começou a se manifestar quando ele tinha cerca de oito anos. A primeira mancha apareceu no joelho. Quando o Carlos finalmente recebeu o diagnóstico, ouviu que a doença não tinha cura e que poderia ficar completamente branco.
Carlos passou a esconder o corpo. Evitava bermudas, deixava de participar das aulas de educação física e tentava mostrar o mínimo possível das manchas. O que não doía, não coçava e não transmitia começou a produzir sofrimento de outra forma: pelo olhar das pessoas.
E enquanto tentava entender o que estava acontecendo com sua pele, Carlos também começava a compreender que havia outra questão atravessando sua história: ele era um homem preto.
Conforme o vitiligo avançava, sua aparência mudava. E ele percebeu isso de uma forma inesperada no trabalho de vendedor numa loja na Barra da Tijuca, no Rio.
Quanto mais branca sua pele ficava, melhor ele passava a ser tratado pelos clientes. Sua conversão em vendas chegou a aumentar nesse período.
Carlos começou a perceber que talvez não fosse apenas a sua pele que estivesse mudando. Era como as pessoas o enxergavam agora: como um homem branco.
E essa nova leitura não apaga as experiências de racismo que viveu antes da despigmentação. Nem as situações que continuam acontecendo quando está ao lado do pai, um homem preto, ou quando alguém se sente confortável para fazer um comentário racista acreditando que Carlos pensa como eles.
Quando finalmente percebeu que estava completamente branco, ele não sentiu que tinha vencido alguma coisa. Pelo contrário, ele não se reconhecia no espelho.
Foi na terapia que começou a reconstruir essa relação com a própria imagem e entender que aquela mudança não apagava quem ele era.
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