Na coluna desta quarta-feira (17), Atílio Bari comenta o espetáculo “Os gigantes da montanha”, última obra de Luigi Pirandello, em cartaz no Teatro Zona Franca, em São Paulo. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1934, o dramaturgo italiano deixou a peça inacabada ao morrer, em 1936, mas revelou seu desfecho ao filho Stefano na noite anterior à morte. Considerada seu testamento poético, a obra acompanha uma trupe teatral liderada pela Condessa Ilse, determinada a encenar “A fábula do filho trocado”, texto escrito especialmente para ela por um poeta suicida e rejeitado pelos teatros.
A história se desenvolve quando os artistas chegam a uma vila mágica governada pelo Mago Cotrone, cujos habitantes vivem entre o sonho e a fantasia. O mago tenta convencer a Condessa e seus atores a abandonar o mundo real e permanecer naquele universo de imaginação, mas ela insiste em levar sua peça ao público. Como alternativa, Cotrone sugere que o grupo se apresente aos gigantes da montanha, descritos como um povo rico, poderoso e indiferente à arte. “Os chamados gigantes não o são pela estatura, mas pelo poder que exercem e pela riqueza que possuem”, representando uma sociedade voltada para a produção, o consumo e os valores materiais.
Ao discutir o papel da arte em uma sociedade cada vez mais pragmática, Pirandello questiona a sobrevivência da poesia, da imaginação e do teatro diante da indiferença cultural. “Não sabem os gigantes da montanha que ela sobreviverá a tudo isso, porque o sonho e a imaginação são necessidades intrínsecas do ser humano.” Sob a direção de Kiko Marques e com um elenco de 13 atores, a montagem reforça a atualidade da reflexão proposta pelo autor, lembrando a importância de produzir, difundir e defender a cultura em tempos de estímulos rápidos e consumo imediato.
Atílio Bari é idealizador e apresentador do programa Persona, da TV Cultura, e também participa do "Estação Cultura", todas as quartas-feiras. A coluna aborda espetáculos de teatro, livros, outras formas de dramaturgia e assuntos da atualidade, que muitas vezes se aproximam da ficção.