Em 1978, tempos de ditadura militar no Brasil, a “Ópera do malandro” chegou ao palco do Teatro Ginástico, no Rio de Janeiro. Uma criação de Chico Buarque, com direção de Luís Antônio Martinez Corrêa, irmão de Zé Celso. Na versão brasileira da “Ópera dos três vinténs”, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht — que, por sua vez, foi inspirada na “Ópera dos mendigos”, de John Gay —, a história se passa na Lapa, famoso bairro boêmio do Rio que, nos anos 1940, entra em processo de decadência. A trama acompanha malandros, prostitutas, contrabandistas, policiais desonestos e empresários inescrupulosos, propondo-se a retratar a sociedade brasileira e denunciar costumes enraizados desde a política até a classe mais baixa.
Na coluna desta quarta-feira (04), Atílio Bari comenta uma nova versão do espetáculo, cuja crítica que carrega se prova atemporal. A montagem, em cartaz até março no Teatro Renault, apresenta, segundo o diretor Jorge Farjalla, uma nova visão do clássico. “Ressaltou as personagens femininas, ampliou o papel de algumas delas, trouxe a travesti Geni para o centro da trama, trouxe a umbanda, misturou tudo com melodrama, tiroteios, e incorporou canções que não faziam parte da montagem original”.
Para o colunista, Farjalla “criou um espetáculo grandioso, em que ressalta, mais do que em algumas das montagens anteriores, a face mais hipócrita dos valores da família brasileira. E dos nossos políticos. E das nossas policias. Enfim, do nosso país, corrupto, venal, injusto e violento”. No elenco, Ernani Moraes, Totia Meireles e José Loreto dão vida aos personagens centrais do enredo concebido por Buarque que, claro, está presente na trilha sonora com clássicos como “Geni e o zepelim”, “Folhetim” e “Homenagem ao malandro.
Atílio Bari é idealizador e apresentador do programa Persona, da TV Cultura, e também participa do Estação Cultura, todas as quartas-feiras. A coluna aborda espetáculos de teatro, livros, outras formas de dramaturgia e assuntos da atualidade, que muitas vezes se aproximam da ficção.