127 episódios
- Na coluna desta quarta-feira, Atílio Bari comenta o espetáculo “Boca a boca – um solo para Gregório”, que apresenta a obra de Gregório de Matos, poeta barroco baiano conhecido como “Boca do Inferno”. Advogado de formação e considerado o primeiro grande poeta do Brasil colonial, Gregório ficou marcado por seus versos satíricos contra autoridades, religiosos, ricos e os costumes da sociedade de seu tempo.
A crítica de Gregório de Matos não poupava sequer a população diante da exploração e dos maus-tratos que marcavam a Bahia colonial. Em um de seus poemas, questionava: “De que pode servir o calar de quem cala, / Nunca se há de falar, o que se sente?”. A postura combativa lhe rendeu perseguições, prisões e, posteriormente, o exílio em Angola. Expulso da Bahia, ele retornou ao Brasil sob a condição de não voltar a Salvador e morreu em Recife. Seus poemas só seriam publicados cerca de um século depois de sua morte, preservados principalmente por meio de cópias feitas por admiradores.
No espetáculo, o ator baiano Ricardo Bittencourt leva ao palco a fúria, o sarcasmo, o lirismo, a religiosidade e o erotismo do poeta. Segundo Bari, Bittencourt “explode em cena os poemas do Boca do Inferno”, explorando a sonoridade dos versos e transitando entre as sátiras, os textos religiosos e os poemas eróticos. Com direção de Bittencourt e João Sanches e trilha sonora ao vivo de Adriano Salhab, que reúne nomes como Ramones, Nirvana, Gilberto Gil e Caetano Veloso, “Boca a boca” encerra sua curta temporada neste domingo, no Sesc Belenzinho. - Na coluna desta quarta-feira (29), Atílio Bari comenta o livro “Teatro aberto: escritos de um diretor”, publicado em abril pela Editora Cobogó. O título foi organizado por Patrick Pessoa, encarregado de ordenar o material deixado por Aderbal Freire-Filho (1941-2023), um dos grandes diretores teatrais do Brasil e pensador das artes. O livro é uma coletânea de reflexões e textos que ele produziu para os programas das suas peças, tais como “Apareceu a Margarida”, “O tiro que mudou a história”, “As centenárias” e “O carteiro e o poeta”.
A mente do autor desses escritos se torna o objeto central da publicação e, de maneira descontínua, mergulha num amante da arte que criou companhias teatrais, dirigiu espetáculos em diversos locais do mundo e fez parte do reerguimento da SBAT, a centenária Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. - Na coluna desta quarta-feira (22), Atílio Bari comenta “Viva! Vida!”, espetáculo estrelado por Regina Casé, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso. A montagem, com texto de Estêvão Ciavatta e direção de Daniela Thomas, parte de uma espécie de biografia do planeta — do Big Bang aos dias atuais — para abordar temas como aquecimento global, desmatamento e poluição.
No palco, Regina alia interpretação e tecnologia em uma encenação marcada pela interação com um grande painel de LED e pelo uso do celular como elemento narrativo. A partir daí, estabelece um paralelo entre a internet criada pelos seres humanos e a chamada "wood wide web", rede subterrânea de comunicação das árvores, mostrando de forma acessível conceitos científicos complexos. Para Bari, é "encantadora a forma como conceitos como esse são apresentados em cena".
Após quase três décadas longe dos palcos paulistas, Regina retorna com uma temporada curta, até 2 de agosto, mas com um espetáculo que o colunista define como inteligente, divertido e emocionante. Segundo ele, a peça reforça a necessidade de uma convivência mais equilibrada entre sociedade e natureza e lembra que "é possível convivermos de maneira harmoniosa com o shopping e a mata", uma reflexão que considera essencial para a própria sobrevivência humana. - Na coluna desta quarta-feira (15), Atílio Bari comenta o espetáculo “Édipo”, do grupo Círculo de Atores, em cartaz no Auditório do Masp. A montagem é uma revisita do dramaturgo inglês Robert Icke a “Édipo Rei”, peça de mais de 2.400 anos escrita pelo grego Sófocles. Na trama, o protagonista Édipo, Rei de Tebas, perfura os próprios olhos ao se deparar com a previsão de que mataria seu pai e se casaria com a própria mãe.
Já Robert Icke buscou reimaginar o trabalho de Sófocles, trazendo o protagonista para os dias atuais. Édipo é apresentado como um político popular que aguarda sua eleição por grande margem de votos. No foco da obra está a noite de espera pelo resultado das urnas e a relação com sua esposa, Jocasta, com quem mantém forte vínculo.
“Édipo” traz à modernidade os conflitos e dramas humanos que, mesmo produzidos dois milênios atrás, apresentam a capacidade de serem transportados para dilemas contemporâneos. O espetáculo está em cartaz de sexta a domingo, até 6 de setembro. Espetáculo em cartaz no Sesc Pompeia evidencia a dramaturgia minimalista de Samuel Beckett
01/07/2026 | 4minNa coluna desta quarta-feira (01), Atílio Bari comenta o espetáculo “Dias felizes”, montagem da Armazém Companhia de Teatro com direção de Paulo de Moraes. A peça é um dos textos mais emblemáticos de Samuel Beckett, dramaturgo irlandês que viveu em Paris durante a Segunda Guerra Mundial, onde colaborou com a resistência francesa. A experiência marcou profundamente sua obra, que passou a explorar o absurdo da existência por meio de situações repetitivas e aparentemente sem sentido.
Em “Dias felizes”, Patricia Selonk interpreta Winnie, uma mulher enterrada até a cintura. Ela passa os dias presa ao mesmo espaço, se apoiando apenas em pequenos objetos guardados na bolsa e na rotina entre o despertar e o anoitecer. Ao seu lado está Willie, personagem lacônico que pouco responde às longas falas da protagonista. Na segunda parte, ela surge ainda mais soterrada, com apenas a cabeça para fora da terra, mas continua aguardando, sem questionar sua situação, que um dia consiga se libertar.
A peça sintetiza características presentes em toda a dramaturgia de Beckett: personagens presos à espera, à repetição e à incomunicabilidade, em cenários minimalistas que revelam, de forma poética, os medos, as esperanças e as contradições da condição humana. Como observa Atílio Bari, "Beckett nos traz inquietações, nos desestabiliza, nos mexe por dentro". Em cartaz no Sesc Pompeia até 19 de julho, “Dias felizes” reafirma a atualidade de um autor que transformou o absurdo em reflexão.
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