126 episódios
- Na coluna desta quarta-feira (29), Atílio Bari comenta o livro “Teatro aberto: escritos de um diretor”, publicado em abril pela Editora Cobogó. O título foi organizado por Patrick Pessoa, encarregado de ordenar o material deixado por Aderbal Freire-Filho (1941-2023), um dos grandes diretores teatrais do Brasil e pensador das artes. O livro é uma coletânea de reflexões e textos que ele produziu para os programas das suas peças, tais como “Apareceu a Margarida”, “O tiro que mudou a história”, “As centenárias” e “O carteiro e o poeta”.
A mente do autor desses escritos se torna o objeto central da publicação e, de maneira descontínua, mergulha num amante da arte que criou companhias teatrais, dirigiu espetáculos em diversos locais do mundo e fez parte do reerguimento da SBAT, a centenária Sociedade Brasileira de Autores Teatrais. - Na coluna desta quarta-feira (22), Atílio Bari comenta “Viva! Vida!”, espetáculo estrelado por Regina Casé, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso. A montagem, com texto de Estêvão Ciavatta e direção de Daniela Thomas, parte de uma espécie de biografia do planeta — do Big Bang aos dias atuais — para abordar temas como aquecimento global, desmatamento e poluição.
No palco, Regina alia interpretação e tecnologia em uma encenação marcada pela interação com um grande painel de LED e pelo uso do celular como elemento narrativo. A partir daí, estabelece um paralelo entre a internet criada pelos seres humanos e a chamada "wood wide web", rede subterrânea de comunicação das árvores, mostrando de forma acessível conceitos científicos complexos. Para Bari, é "encantadora a forma como conceitos como esse são apresentados em cena".
Após quase três décadas longe dos palcos paulistas, Regina retorna com uma temporada curta, até 2 de agosto, mas com um espetáculo que o colunista define como inteligente, divertido e emocionante. Segundo ele, a peça reforça a necessidade de uma convivência mais equilibrada entre sociedade e natureza e lembra que "é possível convivermos de maneira harmoniosa com o shopping e a mata", uma reflexão que considera essencial para a própria sobrevivência humana. - Na coluna desta quarta-feira (15), Atílio Bari comenta o espetáculo “Édipo”, do grupo Círculo de Atores, em cartaz no Auditório do Masp. A montagem é uma revisita do dramaturgo inglês Robert Icke a “Édipo Rei”, peça de mais de 2.400 anos escrita pelo grego Sófocles. Na trama, o protagonista Édipo, Rei de Tebas, perfura os próprios olhos ao se deparar com a previsão de que mataria seu pai e se casaria com a própria mãe.
Já Robert Icke buscou reimaginar o trabalho de Sófocles, trazendo o protagonista para os dias atuais. Édipo é apresentado como um político popular que aguarda sua eleição por grande margem de votos. No foco da obra está a noite de espera pelo resultado das urnas e a relação com sua esposa, Jocasta, com quem mantém forte vínculo.
“Édipo” traz à modernidade os conflitos e dramas humanos que, mesmo produzidos dois milênios atrás, apresentam a capacidade de serem transportados para dilemas contemporâneos. O espetáculo está em cartaz de sexta a domingo, até 6 de setembro. Espetáculo em cartaz no Sesc Pompeia evidencia a dramaturgia minimalista de Samuel Beckett
01/07/2026 | 4minNa coluna desta quarta-feira (01), Atílio Bari comenta o espetáculo “Dias felizes”, montagem da Armazém Companhia de Teatro com direção de Paulo de Moraes. A peça é um dos textos mais emblemáticos de Samuel Beckett, dramaturgo irlandês que viveu em Paris durante a Segunda Guerra Mundial, onde colaborou com a resistência francesa. A experiência marcou profundamente sua obra, que passou a explorar o absurdo da existência por meio de situações repetitivas e aparentemente sem sentido.
Em “Dias felizes”, Patricia Selonk interpreta Winnie, uma mulher enterrada até a cintura. Ela passa os dias presa ao mesmo espaço, se apoiando apenas em pequenos objetos guardados na bolsa e na rotina entre o despertar e o anoitecer. Ao seu lado está Willie, personagem lacônico que pouco responde às longas falas da protagonista. Na segunda parte, ela surge ainda mais soterrada, com apenas a cabeça para fora da terra, mas continua aguardando, sem questionar sua situação, que um dia consiga se libertar.
A peça sintetiza características presentes em toda a dramaturgia de Beckett: personagens presos à espera, à repetição e à incomunicabilidade, em cenários minimalistas que revelam, de forma poética, os medos, as esperanças e as contradições da condição humana. Como observa Atílio Bari, "Beckett nos traz inquietações, nos desestabiliza, nos mexe por dentro". Em cartaz no Sesc Pompeia até 19 de julho, “Dias felizes” reafirma a atualidade de um autor que transformou o absurdo em reflexão.- Na coluna desta quarta-feira, Atílio Bari comenta as transformações na imagem pública dos magistrados brasileiros. Ele recorda uma época em que juízes, especialmente os ministros do Supremo Tribunal Federal, mantinham-se distantes dos holofotes e eram conhecidos apenas por suas decisões judiciais. Segundo ele, esse cenário mudou radicalmente: “Hoje os juízes do Supremo tornaram se presença constante nas mídias, estão a toda hora concedendo entrevistas, aparecendo na TV”.
A reflexão conduz o leitor ao universo do teatro, onde a figura do juiz há séculos é retratada de forma satírica. Bari destaca que magistrados vaidosos, corruptos ou excessivamente poderosos aparecem com frequência na dramaturgia popular e cita como exemplo a comédia “O Juiz de paz na roça”, escrita por Martins Pena (1815-1848) quando tinha apenas 18 anos. Considerada uma das obras fundadoras do teatro brasileiro, a peça acompanha um juiz do interior encarregado de resolver disputas triviais, mas que frequentemente age em benefício próprio, chegando a ficar com um leitão disputado por moradores da cidade.
Para o colunista, a obra permanece atual ao expor privilégios, favorecimentos e distorções no exercício do poder. Ele observa que o personagem principal “não hesita em aceitar presentes” e utiliza interpretações convenientes da lei para atender a interesses particulares. Ao relacionar a sátira do século XIX ao Brasil contemporâneo, Bari argumenta que a obra oferece um retrato ainda reconhecível da realidade nacional e conclui que o texto permanece relevante por mostrar “o teatro falando de coisas sérias, mesmo quando nos faz rir”.
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