157 episódios
- É Agosto, mas o Sobre Carris não pára. Neste episódio, trazemos para a mesa de debate um mês de contrastes na ferrovia nacional e europeia, onde as contas positivas e os investimentos milionários colidem de frente com a realidade dos atrasos diários e dos bloqueios burocráticos.
O programa arranca com as contas da CP, que no papel parecem excelentes ao registar um lucro de quase 5 milhões de euros em 2025 e novos máximos de passageiros (muito impulsionados pelo Passe Ferroviário Verde). No entanto, a realidade revela que a operadora foi multada em 1,18 milhões de euros devido à falta de pontualidade por falhas da sua exclusiva responsabilidade. Em causa estão os prolongados tempos de paragem nas estações, provocados pela escassa informação aos utentes — que andam perdidos pelas plataformas sem saber onde o comboio vai parar — e pela persistência de degraus acentuados no acesso aos comboios regionais e suburbanos.
A viagem prossegue até ao Alentejo, onde a linha Évora-Elvas (a primeira com características de alta velocidade em Portugal e que representou um investimento de 460 milhões de euros) continua vazia, apesar de as obras de construção terem terminado em Janeiro de 2026. O impasse deve-se a atrasos da Infraestruturas de Portugal (IP) na entrega do processo de homologação ao IMT, o que ameaça a mobilidade de Évora precisamente nas vésperas de se tornar a Capital Europeia da Cultura em 2027. Sem composições de alta velocidade próprias para os testes necessários a 250 km/h, o país continua dependente do aluguer de comboios a Espanha para validar a infra-estrutura.
O episódio aborda ainda o desastroso planeamento em eventos de massas, ilustrado pelo concerto de David Guetta na Bobadela. Com a estação local encerrada por motivos de segurança, o público foi obrigado a caminhar até Sacavém. E quando um incêndio cortou a Linha do Norte, a CP demonstrou uma total falta de flexibilidade e planos de contingência, revelando-se "preguiçosa" ao limitar-se a fazer comboios de Sacavém para Lisboa em vez de escoar os passageiros até onde a via o permitia. Este desinteresse político e operacional pela proactividade ferroviária culminou no insólito transporte de autocarro, do Porto à Régua, dos convidados para as comemorações dos 25 anos do Douro como Património da Humanidade, preterindo o próprio comboio em que iam acabar por viajar.
A fechar o episódio, o programa analisa um relatório do Senado francês que faz um sério aviso contra os riscos da liberalização ferroviária. O documento alerta que a entrada de operadores privados nas rotas de alta velocidade mais rentáveis destrói as economias de escala a nível nacional, prejudica as receitas da operadora pública histórica para manter linhas deficitárias e compromete a coesão territorial, sugerindo, de forma inédita, que o financiamento para evitar a degradação da rede passe a vir das portagens das auto-estradas.
See omnystudio.com/listener for privacy information. - Neste episódio do Sobre Carris, viajamos até ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo, para discutir a política ferroviária europeia e o seu impacto directo em Portugal. Ruben Martins, Diogo Ferreira Nunes e Carlos Cipriano recebem os eurodeputados Ana Vasconcelos, da Iniciativa Liberal, e João Oliveira, do Partido Comunista Português, para um debate aceso sobre o modelo de gestão do sector.
Em cima da mesa está a liberalização do mercado. Enquanto Ana Vasconcelos defende que a concorrência entre operadores é o motor para baixar preços, aumentar frequências e reduzir a dependência do investimento público, citando exemplos de sucesso em Espanha e Itália, João Oliveira contesta esta visão, apontando o caso do Reino Unido como um fracasso que comprometeu a segurança e o direito ao transporte. O eurodeputado do PCP introduz a metáfora do "lombo e do osso", alertando que os privados vão procurar apenas as linhas rentáveis (como a de Cascais), deixando para o Estado o encargo das linhas deficitárias no interior.
A discussão aborda ainda a estratégia industrial: deverá Portugal apostar na criação de uma "fileira ferroviária" e produzir o seu próprio material circulante, aproveitando o conhecimento de oficinas como as de Guifões, ou deve limitar-se a comprar no mercado único europeu?
Ainda neste episódio debatemos o paradoxo dos fundos europeus, que financiam ligações entre capitais e corredores transeuropeus, mas levantam obstáculos ao financiamento da coesão territorial interna e da rede capilar nacional. Falamos também do regresso (difícil) dos comboios nocturnos e do reforço dos direitos dos passageiros face à concorrência das companhias aéreas low-cost.
Um debate essencial para perceber se o comboio europeu está a ir no sentido certo ou se corre o risco de deixar passageiros pelo caminho.
A série do Sobre Carris dedicada à política europeia de transportes conta com o apoio do Parlamento Europeu.
See omnystudio.com/listener for privacy information. - Num episódio especial do Sobre Carris gravado em Vila Real de Santo António, analisamos as mudanças que a electrificação traz à Linha do Algarve. A 19 de Julho, a linha que liga Lagos e Vila Real de Santo António viu chegar novos comboios, novos horários e menos transbordos, mas há críticas sobre o estado de algumas estações e apeadeiros. No ramal de Lagos há também apeadeiros que não vêem comboios a parar durante praticamente cinco horas.
O que muda a sul do país é o ponto de partida para este episódio do Sobre Carris.
See omnystudio.com/listener for privacy information. - Era uma promessa eleitoral de Pedro Duarte, mas a data de implementação ainda era incerta. A partir da última sexta sexta-feira, a gratuitidade dos transportes públicos aplica-se a todos os moradores do município do Porto, mas não é automática - exige a posse de um "Cartão Porto". Mas há muitas dúvidas sobre a eficácia desta borla sem um reforço da oferta, numa cidade que não chega às duas dezenas de quilómetros de faixas bus e onde os transportes estão constantemente presos no meio do trânsito.
São vários os estudos que mostram que o transporte gratuito tira mais pessoas das suas caminhadas e deslocações com modos ligeiros, como bicicletas ou trotinetes, do que tira efectivamente carros da estrada. O resultado: transportes (ainda) mais lentos e mais saturados. Será este um presente envenenado para a cidade do Porto?
Quando entramos num autocarro ou num comboio, na Europa, o preço do bilhete e, sobretudo, do passe mensal, nunca cobrem totalmente os custos do serviço. O financiamento do Estado é determinante para manter os montantes relativamente baixos e em Portugal foi reforçado com a introdução do programa de apoio à redução tarifária, em Abril de 2019. Desde aí, as áreas metropolitanas e comunidades intermunicipais baixaram os preços: as regiões de Lisboa e do Porto foram os exemplos mais destacados, com a adopção dos passes de transportes públicos por 40 euros mensais. O título garante viagens ilimitadas dentro dos respectivos territórios e em todos os meios de transporte — com excepção do ferry entre Setúbal e Tróia.
O reforço do subsídio público é apresentado como um incentivo ao uso dos transportes colectivos e pelos benefícios que gera para toda a sociedade — sem a ajuda do Estado, haveria ainda mais trânsito no acesso às cidades, com mais poluição atmosférica e sonora, limitações na vida dos utentes e risco acrescido de acidentes. O mesmo princípio aplica-se em boa parte da Europa, com os transportes públicos — sobretudo os títulos mensais — a preços suficientemente baixos para poderem ser usados por todos. Pessoas com menos dinheiro, crianças, jovens e seniores beneficiam de tarifas ainda mais reduzidas ou gratuitas.
Apesar disso, os transportes públicos grátis também estão a ganhar tracção em Portugal, nos serviços locais: em Cascais, desde 2020, com a MobiCascais; São João da Madeira, no ano seguinte, aos TUS; a Comunidade Intermunicipal do Oeste arrancou no início deste ano nos 12 municípios. Houve mais gente a usar o transporte colectivo, mas não há evidências de transição modal, ou seja, de pessoas que deixaram o carro em casa e passaram a ir para a paragem do autocarro.
Neste episódio ainda falamos sobre outras conclusões tiradas na conferência dedicada à mobilidade e às cidades dos 15 minutos.
Este episódio foi gravado no Fórum Cultural de Ermesinde no âmbito da conferência Entrelinhas "Território dos 15 minutos: Ferrovia, Metro e Mobilidade para o Futuro - Do Património Ferroviário à Mobilidade Sustentável Integrada".
See omnystudio.com/listener for privacy information. - Neste episódio do Sobre Carris, discutimos a chegada da electrificação à Linha do Algarve, já a 19 de Julho, um marco histórico que, no entanto, mostra falta de ambição devido aos ganhos de tempo pouco expressivos face ao investimento realizado.
Abordamos ainda o impacto das ondas de calor no material circulante, que tem levado à supressão de comboios e a falhas no ar condicionado em frotas envelhecidas.
No sector da indústria ferroviária, detalhamos o lançamento da primeira pedra da fábrica da Alstom em Guifões, onde vão ser montados os novos comboios da CP, a partir de 2029. Destaque também para o projecto SmartWagon, liderado pela Medway, um vagão inteligente desenvolvido em Portugal com fundos do Plano de Recuperação e Resiliência.
E ainda olhamos para a tentação rodoviária da CP: por que razão a empresa mantém o uso de táxis e autocarros em linhas que estão funcionais?
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Conversas de bitola alta sobre ferrovia. Com Carlos Cipriano, Diogo Ferreira Nunes e Ruben Martins.
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