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Histórias de ter.a.pia

ter.a.pia
Histórias de ter.a.pia
Último episódio

239 episódios

  • Histórias de ter.a.pia

    A médica me mandou pra casa esperar meu bebê nascer morto

    29/1/2026 | 7min
    Com três meses de gestação, Marcely entrou no hospital acreditando que sairia dali com uma notícia leve, o sexo do bebê, um detalhe feliz para guardar. Em vez disso, sentiu o chão sumir quando a médica avisou que ela estava dilatando cedo demais, e iria perder o bebê.
    O choque foi tão grande que ela mal conseguiu reagir, só chorou. E, no meio do banheiro do hospital, uma desconhecida, sem saber de nada, ofereceu uma frase atravessada de fé que a fez buscar outra opinião médica.
    No segundo hospital, veio a confirmação e uma aposta diária: internação e repouso absoluto para manter a gestação o máximo possível.
    Era pandemia, e a Marcely passou dias deitada, olhando para o teto, vivendo de pequenos marcos, celebrando a cada 24 horas por mais um dia conquistado.
    Quando soube que o bebê que ela gerava era menina, também soube que ela ainda era pequena demais para o mundo. Mesmo assim, Laura ganhava peso e ia crescendo dentro da mãe, e isso dava esperança para Marcely.
    Duas semanas depois, uma nova infecção mudou tudo. Para proteger mãe e a bebê, os médicos optaram por uma cesárea. Laura nasceu com 1,05 kg e, ficou na UTI neonatal. Por muito tempo, foi mais fios e eletrodos do que pele aos olhos de Marcely.
    O colo da mãe veio só três meses depois e, justamente ali, no primeiro contato pele a pele, Laura teve uma parada e foi tirada às pressas de seus braços.
    Marcely saiu daquele momento achando que não era um colo seguro.
    Os dias seguiram. Intubação, sonda, cada avanço era uma luz acesa na vida da Marcely e da Laura.
    A bebê nasceu em 15 de março e recebeu alta por volta de 16 de junho. Marcely acreditou que, em casa, a vida finalmente ficaria bem. Mas foi ali que tudo desabou.
    A força que ela sustentou por meses virou silêncio, e uma depressão pós-parto tomou espaço. Só quando Marcely conheceu outras mães de prematuros, entendeu que sua dor poderia ser compartilhada.
    Hoje, Laura tem quatro anos. Saudável, brincalhona, sem sequelas. E Marcely aprendeu que cuidar da filha também passa por se cuidar de si, para que a segurança que ela oferece não seja apenas uma máscara, mas um chão firme.
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    Meu pai não aceitava minha família, até meus filhos chegarem

    22/1/2026 | 10min
    A Acácia sempre acreditou que algumas verdades não precisavam ser ditas em voz alta. Ela amava uma mulher, dividia a vida com ela, e achava que os pais sabiam, mas nunca houve um anúncio formal, nem pedido de permissão.
    Até que o desejo de ser mãe, um sonho antigo da Acácia, exigiu coragem. Depois de entrar na fila da adoção e, no mesmo dia, iniciou o processo de fertilização in vitro.
    Quando o teste deu positivo logo na primeira tentativa, a primeira pessoa para quem ela ligou foi o pai, a notícia foi bem recebida, sem perguntas, sem detalhes. Acácia acreditou que ele já entendia tudo.
    Mas quando ela explicou que aquele bebê teria duas mães e que ele seria a principal referência masculina da criança, algo mudou. A ficha caiu e o pai se fechou.
    A alegria deu lugar ao silêncio e a uma culpa que Acácia nunca soube como carregar. Parentes começaram a dizer que ela estava machucando o próprio pai.
    Pouco tempo depois, num ultrassom de rotina, ela descobre que coração do bebê havia parado. Ela até tentou a inseminação novamente, mas perdeu de novo.
    Nesse mesmo período, sua irmã engravidou e foi acolhida com amor. Acácia ficou feliz por ela, mas sentiu, pela primeira vez, o peso de não ter recebido o mesmo afeto.
    Quando já estava emocionalmente exausta, a vara da infância ligou. Um casal de bebês precisava de uma família.
    O menino tinha paralisia cerebral e hidrocefalia, mas para Acácia, os dois já eram seus filhos.
    Antes de seguir, ela tomou uma decisão, precisava contar ao pai. Não por ela, mas pelos filhos. Se eles não fossem aceitos, ela seguiria sem a família.
    Sentada com o pai à beira do rio, Acácia disse que iria adotar duas crianças com uma história difícil, e que ele não era obrigado a aceitar.
    Foi quando ele disse que aqueles já eram seus netos, e que os amava. Ele queria ser o primeiro a conhecê-los. E ali, sem discurso nem explicação, algo foi curado.
    Hoje, Helô e Caetano têm os melhores avós que poderiam ter. Acácia entendeu que nem todo tempo é o tempo certo, e seus filhos estavam sendo gerados de outro jeito. E não poderiam ser outros. Precisavam ser exatamente eles.
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    Perdi meu marido logo após adotar 5 crianças

    15/1/2026 | 9min
    Foi no meio da madrugada que Daniel entendeu que a vida pode mudar para sempre em poucos minutos. Ao sacudir o corpo do marido, tentando acordá-lo, ouviu um pedido que ainda ressoa dentro dele: que não abandonasse as crianças. Ali, sem saber, ele se despedia do amor da sua vida e assumia, sozinho, o cuidado dos 5 irmãos que o casal havia acabado de adotar.
    Daniel nasceu em Canindé, no Ceará, e saiu de casa ainda jovem para tentar sobreviver em São Paulo. Encontrou preconceito dentro da própria família, foi expulso de casa no meio da noite e dormiu sob um viaduto sem conhecer ninguém.
    Conseguiu o primeiro trabalho numa pizzaria e, junto com ele, um quarto improvisado. Depois, encontrou abrigo na casa de uma senhora que nunca tinha visto antes, que se tornou sua rede de apoio.
    Foi nesse tempo que Daniel conheceu Jhonatan. Um encontro quase por acaso, uma conversa simples, o início de uma relação que cresceu bem rápido. Eles juntaram as poucas coisas que tinham e passaram a dividir a vida.
    Jhonatan sempre quis ser pai e ficou apreensivo quando descobriu que quatro sobrinhos viviam em uma situação grave de vulnerabilidade. Quando decidiu lutar pela guarda das crianças, Daniel não se sentia pronto para ser pai, mas escolheu entrar nessa com o marido.
    As crianças chegaram. Depois, os dois descobriram que viria mais uma. Ao todo, eram cinco irmãos, uma casa pequena, noites sem dormir, medo, aprendizado e amor construído no improviso.
    Tudo estava no nome de Jhonatan. Daniel ajudava, apoiava, amava, mas não imaginava que precisaria assumir tudo sozinho tão cedo.
    Tudo aconteceu muito rápido, quando Jhonatan morreu de dengue hemorrágica e o Daniel precisou engolir o próprio luto para contar às crianças que o pai não voltaria mais. Ouviu do mais velho a pergunta que mais doeu: se ele também iria embora.
    Mas Daniel jamais abandonaria aquelas crianças porque eram seus filhos também.
    Ele enfrentou depressão, ansiedade e uma batalha judicial difícil, até conseguir a guarda definitiva. Em 2024, as crianças passaram a carregar oficialmente o sobrenome de Jhonatan.
    Hoje, Daniel olha para trás e entende que nada foi por acaso, depois de tanto cuidado que ele recebeu, é a hora dele cuidar também.
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    Fiquei preso injustamente por 3 anos e perdi o nascimento da minha filha

    08/1/2026 | 4min
    Quando o Rafael foi preso, ele tinha acabado de descobrir que ia ser pai. A notícia, que deveria inaugurar um novo começo, chegou no mesmo instante em que sua vida desabou.
    Em poucos minutos, tudo o que ele acreditava estar construindo foi interrompido por uma acusação que nunca foi ouvida de verdade.
    Rafael cresceu em Sobral, um bairro periférico de Rio Branco, no Acre, marcado pelo estigma da violência, mas que para quem vive ali sempre foi, antes de tudo, um lugar de gente simples tentando sobreviver.
    Em fevereiro de 2018, uma troca de tiros tomou a rua onde ele morava. Na fuga, dois homens invadiram casas da região, e um deles entrou na casa do Rafael, sem que ele visse.
    A polícia entrou na casa de Rafael, que comentou não ter mais ninguém além dele ali. Ainda assim, os policiais entraram.
    Um dos homens foi encontrado dentro da casa do Rafael e, naquele instante, a voz de Rafael deixou de existir.
    Jovem, negro, morador da periferia, sozinho. Para os policiais, não havia dúvidas. Mesmo repetindo que não tinha envolvimento algum, a suspeita se impôs e o Rafael foi levado preso.
    Foram três anos encarcerado. Três anos em que ele tentou entender como aquilo podia estar acontecendo com alguém que trabalhava. Mas também foram três anos longe da gestação da filha, do nascimento, do colo, dos primeiros dias de vida. Uma ausência que não se explica, ele simplesmente carrega consigo.
    Durante o julgamento do caso, tudo mudou rápido demais. O próprio criminoso encontrado, que havia se escondido na casa, confirmou que Rafael era inocente. Os promotores não viram motivo para acusação e o juiz pediu perdão, absolvendo Rafael.
    Do lado de fora, veio a descoberta mais dura: o tempo não se recupera. Não existem horas extras para os primeiros passos, a primeira palavra, o primeiro olhar de referência.
    Hoje, Rafael não tenta mais compensar o tempo perdido com a filha. Ele tenta estar presente, inteiro. Porque algumas ausências não se apagam, mas podem ser cuidadas com amor, todos os dias.
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    Eu precisei reencontrar jesus para continuar na igreja

    18/12/2025 | 11min
    Antes de virar criador do perfil @afrocrente, Jackson Augusto já sabia que fé não era sinônimo de poder, mas cuidado e comunidade. E essa foi a pergunta que atravessou toda a sua vida: o que, afinal, significa ser evangélico no Brasil?
    Jackson nasceu na favela dos Coelhos, uma comunidade ribeirinha do Recife. Filho de uma mulher profundamente religiosa, encontrou na igreja um dos poucos espaços possíveis de socialização. 
    Não havia dinheiro, nem conforto, mas a igreja foi abrigo e o lugar de infância possível.
    O pai de Jackson morreu quando ele tinha apenas 7 meses, e a dor transformou a vida da mãe, que precisou criar um filho negro, sozinha, dentro da favela. 
    Enquanto ela trabalhava, eram as mulheres da igreja, do círculo de oração, que cuidavam dele. A igreja foi proteção num país que expõe corpos como o dele à violência desde cedo.
    Foi ali que Jackson se formou enquanto pessoa, mas também foi ali que começou o conflito. Quando entrou em contato com o movimento negro evangélico, passou a questionar a fé que havia aprendido. 
    Um pastor tentou confrontá-lo usando a Bíblia para justificar a escravidão, mas Jackson saiu dali com a certeza de que aquele não era o Jesus que o havia formado.
    Ao pesquisar a história da igreja batista no Brasil, encontrou raízes escravocratas, racistas, excludentes. Missionários que proibiam casamentos inter-raciais, que associavam a pele negra ao pecado. 
    Percebeu que a imagem de um Jesus branco não era só estética, mas mais profunda. Um Jesus moldado para servir às elites, não à libertação.
    Hoje, Jackson defende que ser evangélico não pode ser reduzido a figuras de poder. 
    Ser evangélico também é ser a mãe de João Pedro, adolescente assassinado dentro de uma comunidade. É ser mulher solo, empregada doméstica, estudante, gente comum tentando sobreviver.
    No fim, a pergunta segue aberta: ser evangélico é sustentar um projeto de poder ou lutar pela vida?

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