268 episódios
- Marta cresceu acreditando que tinha apenas dois irmãos, mas na adolescência descobriu que existia um terceiro: Márcio, filho do mesmo pai, mas de outra família.
Filha de uma relação que aconteceu fora do casamento, Marta foi criada sem saber que o homem que a criava não era seu pai biológico. A verdade só apareceu quando ela já era adolescente, quando sua mãe, preocupada com os namoros da filha, repetia para ela não se envolver com nenhum Márcio.
Foi assim que ela descobriu que tinha um outro irmão, mais velho que ela, filho do seu pai biológico.
Aos 29 anos, depois de ouvir da mãe que ela era a cara do pai biológico, Marta decidiu procurá-lo. Encontrou seu nome na lista telefônica e marcou um primeiro encontro.
Foi na Praça da Sé, em um dia de garoa no fim do ano. Marta esperou escondida atrás de um presépio, com medo de atravessar a praça e descobrir quem era aquele homem. Quando finalmente se aproximou, ele reconheceu nela o rosto de uma das filhas mais novas.
Mas havia outra pessoa que Marta ainda tinha medo de encontrar: o Márcio. Ela temia que ele carregasse alguma mágoa por sua existência. Até que, um dia, o telefone da Marta tocou. Era o Márcio.
O medo durou pouco porque os dois se aproximaram, descobriram semelhanças, passaram a frequentar a casa um do outro e construíram uma relação de irmãos.
Anos depois, fizeram um teste de DNA que confirmou aquilo que, para eles, já estava escrito: Marta e Márcio eram filhos do mesmo pai.
Marta nunca quis transformar essa história em uma disputa entre culpados. Para ela, não existem vilões na história, todos ali eram adultos e fizeram suas escolhas, assumiram as consequências e seguiram a vida.
E, nessa vida, Marta foi bem criada pela mãe, manteve o amor pelo pai que a criou, criou laços com seu pai biológico e ainda ganhou um irmão.
Hoje, ela e Márcio se amam. Isso mostra que algumas histórias de família não precisam terminar com culpados ou vítimas. Às vezes, elas podem terminar com duas pessoas que nasceram separadas, se encontraram depois de adultas e escolheram, simplesmente, caminhar juntas. Cresci vendo minha mãe sofrer violência doméstica e precisei protegê-la aos 13 anos
24/09/2026 | 12minIsabela tinha três anos quando começou a guardar na memória cenas que nenhuma criança deveria precisar lembrar. O pai agredia a mãe dentro de casa, e ela ainda se recorda da mesa, da irmã atrás dela e do lugar exato onde ele estava quando um soco quebrou os dentes da mãe.
A mãe tinha cinco filhos e não podia trabalhar porque o marido não permitia. Quando ele ficou doente e deixou de ser caminhoneiro, a família passou a enfrentar dificuldades, até que ela voltou a fazer unhas para sustentar a casa.
Mesmo trabalhando, a mãe continuava sendo controlada. O marido aparecia bêbado no trabalho, fazia escândalos e, dentro de casa, qualquer motivo podia virar violência física.
Isabela cresceu naquele ambiente conturbado até que, aos 13 anos, chegou em casa e encontrou o pai agredindo novamente a mãe. Pela primeira vez, sentiu que era grande o suficiente para enfrentá-lo, pegou um pedaço de madeira e entrou na sala. Aquele seria o último dia que ele levantaria a mão para alguém dentro daquela casa.
A violência diminuiu depois disso e anos depois, o pai morreu. Para Isabela e a família, a morte trouxe uma sensação inesperada de alívio.
Foi também depois disso que ela viu a mãe reconstruir a própria vida, as duas voltaram a estudar juntas e sua mãe chegou à faculdade, mudando a realidade da família.
Anos depois, já casada, Isabela viveu a própria violência doméstica. Grávida, foi agredida pelo companheiro e conseguiu fugir quando ele saiu para trabalhar. Com as coisas que conseguiu carregar, foi para a casa da mãe.
Quando abriu o portão, encontrou o acolhimento que talvez mais precisasse naquele momento. Ali, entendeu que tinha uma casa, tinha uma família e tinha para onde voltar para encerrar aquele ciclo.
A partir da própria experiência, Isabela passou a trabalhar para que outras mulheres e crianças tenham acesso às possibilidades que sua mãe não teve.
Hoje, ela carrega a ausência da mãe, que morreu em 2024, mas também tudo o que aprendeu com ela.- Em poucos anos, Keila Maria perdeu o filho, o pai, o marido e a mãe. Mas, em meio a tantos lutos, encontrou uma missão que fez com que ela continuasse de pé: cuidar de 110 pessoas com deficiência.
Em 2017, seu filho morreu em um acidente de carro no interior do Ceará, aos 24 anos. A notícia chegou de forma inesperada, e Keila entrou em um período de profunda depressão. Ela, que tinha uma vida confortável e muitos bens, percebeu que nada daquilo era capaz de preencher o vazio que ficou.
Foi então que recebeu um convite para assumir um instituto que estava fechado e cuidar de pessoas com deficiência. Começou com sete assistidos. Um ano depois, já eram 30.
Enquanto reconstruía a própria vida, Keila precisou enfrentar outros lutos: do pai, marido e da própria mãe. Nesse meio tempo, já havia 110 pessoas esperando por ela no Instituto Léa Rosenberg.
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Quer nos ajudar a contar mais histórias, considere apoiar o Histórias de ter.a.pia com um pix de qualquer quantia: contato@historiasdeterapia.com - Aos 12 anos, Bianca era uma criança que acreditou ter encontrado na internet um amigo que finalmente enxergava nela tudo aquilo que ela mesma não conseguia ver. Do outro lado da tela, porém, estava um homem adulto de 24 anos.
Durante três anos, enquanto ela ainda crescia, ele foi transformando aquela amizade em uma relação de controle, até fazer Bianca acreditar que obedecê-lo era uma forma de não perdê-lo.
Tudo começou quando ela, aos 7 anos, começou a jogar um jogo para crianças no computador. Nesse jogo, ela fez muitos amigos virtuais, mas todos jogavam de forma anônima. Até que um adulto, se passando por criança, começou a demonstrar interesse não pelas partidas, mas por saber quem era a Bianca.
Ele começou a encher ela de elogios, e isso a motivava a continuar naquela relação digital. Aos poucos, o homem passou a influenciar suas roupas, seu cabelo e sua rotina, e o que parecia cuidado começou a se transformar em controle.
Ele queria saber onde Bianca estava, com quem falava e o que fazia. Fez com que ela se afastasse de outras pessoas, inclusive da própria mãe, e passou a usar cobranças e ameaças para controlar suas emoções.
A relação chegou a um ponto em que Bianca era pressionada a enviar imagens do próprio corpo diariamente. Ela se sentia mal, mas tinha mais medo de desobedecer.
Foi quando ele pediu que ela viajasse sozinha até sua casa para acompanhá-lo em uma suposta cirurgia. Nesse momento, Bianca finalmente percebeu que precisava interromper aquilo.
O fim não trouxe alívio imediato. Durante anos, Bianca acreditou que a culpa era dela, pensava que não deveria ter respondido a um adulto, que não deveria ter confiado, que talvez tivesse provocado tudo aquilo.
Só muito tempo depois começou a compreender: ela era uma criança.
Quando conseguiu contar para a mãe, foi à delegacia e reuniu tudo o que ainda tinha sobre aquele homem. Ele desapareceu depois do fim da relação, e o processo segue em sigilo.
Bianca decidiu transformar aquilo que viveu em informação. Criou um canal para falar sobre violência e passou a ajudar outras pessoas a reconhecer situações que, assim como ela, talvez ainda não consigam nomear.
Porque uma criança não tem como saber se proteger da manipulação de um adulto. E Bianca passou anos precisando aprender isso depois que tudo aconteceu. - Durante toda a infância, Ana Beatriz acreditou que o pai era o homem que mais cuidava dela. Até descobrir que o que os “carinhos” dele, na verdade, escondiam uma violência que ela só conseguiu nomear após ver uma matéria sobre abuso infantil na TV.
Como a mãe trabalhava fora para sustentar a família, Bia passava muito tempo em casa com o pai. Ele brincava com os filhos, jogava bola, fazia tranças no cabelo dela. Era presente, amoroso, e talvez por isso ela tenha demorado tanto para entender o que estava acontecendo.
A ficha caiu quando uma reportagem sobre abuso infantil passou na TV. Pela primeira vez, ela reconheceu algo que também fazia parte da sua vida. E percebeu que a violência não vinha de um desconhecido, mas do próprio pai.
O conflito ficou ainda maior porque ela o amava e tinha medo de perdê-lo. Também tinha medo de que a mãe não acreditasse nela e de destruir a família que conhecia.
Aos 16 anos, Bia encontrou coragem para denunciar o pai ao Conselho Tutelar. A denúncia não encerrou o sofrimento. Foram anos de espera, audiências e perguntas que fizeram Bia reviver aquilo muitas vezes.
O pai permaneceu em casa por um período, até que sua mãe, que nunca duvidou da filha, encontrou forças para tirá-lo de lá. Depois de sete anos de processo, ele foi preso.
Hoje, Bia transformou a própria experiência em trabalho. Formada em Serviço Social, pesquisa formas mais humanas de acolher crianças vítimas de violência e escreveu um livro para ensinar outras crianças a se protegerem, chamado Carro Cris (https://hotmart.com/pt-br/marketplace/produtos/hagsxd-carro-cris-bvqz6/O103370091J)
Ela sabe que não pode mudar o que aconteceu. Mas pode fazer com que outras crianças sejam ouvidas antes. E talvez essa seja a maior transformação da sua história: aquilo que um dia fez Bia acreditar que estava sozinha hoje é justamente o que a faz lutar para que nenhuma criança precise passar por isso sem alguém que a escute.
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