Você já reparou como, em muitos terreiros, a incorporação virou uma repetição? Todo Caboclo ajoelha na mesma pose esticando o arco, todo Exu dá exatamente a mesma risada, todo Preto Velho treme a perna igual. Parece um roteiro ensaiado. E muita gente naturalizou isso.
Nesse movimento de embranquecer e organizar a Umbanda, criaram um padrão. Começaram a chamar nossos ancestrais de arquétipos, energias e roupagens fluídicas. Fizeram isso porque é muito mais fácil e confortável lidar com uma energia cósmica do que olhar no olho de quem foi escravizado, marginalizado e expulso da própria terra e admitir que essa pessoa é a sua autoridade espiritual.
Quando a gente exige que o guia se comporte como um indígena folclórico de livro escolar, ou que um Preto Velho aja como um escravizado submisso e dócil, nós estamos reproduzindo o racismo dentro do próprio terreiro. Os nossos guias são contemporâneos! Eles entendem as nossas dores atuais, sabem como o mundo moderno funciona e não precisam fingir que não sabem acender um isqueiro para provar que têm axé. Descolonizar os guias é devolver a humanidade a eles. É aceitar que cada entidade tem sua própria história, linguagem e inteligência.
Neste EP 90 do Risca Ponto, a gente conversa sobre isso.
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