Durante muito tempo, o sincretismo religioso foi ensinado como sinal de tolerância e como essência da Umbanda.
Mas essa narrativa costuma esconder um dado fundamental: o sincretismo nasce da violência colonial, não da igualdade entre culturas.
Associar orixás a santos católicos foi, historicamente, uma estratégia de sobrevivência do povo negro diante da perseguição, da criminalização e do terror religioso. Isso não diminui a inteligência ancestral de quem criou essas estratégias. Pelo contrário: revela sua potência.
O problema começa quando essa estratégia deixa de ser lida como resposta histórica e passa a ser tratada como fundamento eterno da religião.
Quando aquilo que nasceu do medo vira tradição incontestável.
Quando a África desaparece do altar, ela também desaparece da narrativa, da formação espiritual e da identidade do povo de santo.
Se hoje não somos mais proibidos de cultuar nossos orixás, por que ainda precisamos escondê-los atrás de santos católicos?