O episódio “Memórias e Esquecimentos em Psicanálise” do Podcast de Filosofia e Psicanálise explora de forma aprofundada a tensão entre lembrar e esquecer, articulando a história dos conceitos filosóficos com os mecanismos de defesa descritos pela psicanálise. Na filosofia, desde Platão, a memória foi pensada como uma espécie de “armazenamento” da alma, enquanto Aristóteles a vinculava à experiência sensível e à imaginação. Séculos depois, Santo Agostinho refletiu sobre a memória como interioridade e como lugar da verdade espiritual. Já na modernidade, Descartes e Locke destacaram a memória como função da consciência e da identidade pessoal, e Nietzsche problematizou o excesso de memória como peso cultural, contrapondo-o ao esquecimento criativo. Heidegger e Derrida, por sua vez, trouxeram leituras que enfatizam a memória como abertura temporal e como escrita, sempre marcada por ausência e diferença.Na psicanálise, Freud revolucionou o tema ao mostrar que lembrar e esquecer não são processos neutros, mas atravessados pelo inconsciente. O esquecimento pode ser efeito do recalque, mecanismo de defesa que mantém conteúdos dolorosos fora da consciência, mas que retorna em sintomas, sonhos e atos falhos. Outros mecanismos de defesa, como a negação, a formação reativa e a racionalização, também operam na relação entre memória e esquecimento, revelando como o sujeito lida com experiências traumáticas. Lacan, retomando Freud, enfatizou que a memória não é um arquivo estático, mas uma construção simbólica, sempre mediada pela linguagem e pelo desejo. O esquecimento, nesse sentido, não é falha, mas parte constitutiva da estrutura psíquica: o sujeito se constitui justamente naquilo que não pode ser plenamente lembrado.O podcast mostra que a clínica psicanalítica é o espaço privilegiado para trabalhar essa dialética. O paciente traz lembranças fragmentadas, narrativas incompletas e esquecimentos significativos, e o analista escuta não apenas o que é dito, mas também o que é silenciado. A filosofia ajuda a compreender o estatuto da memória como verdade interpretativa, enquanto a psicanálise revela que o esquecimento é ativo, uma defesa e, ao mesmo tempo, uma condição para novas elaborações. Em síntese, o episódio destaca que memória e esquecimento não são opostos, mas forças complementares que estruturam a subjetividade, e que a psicanálise, em diálogo com a filosofia, oferece uma leitura singular dessa tensão, fundamental para pensar tanto a clínica quanto a cultura contemporânea.