Neste episódio, Claudia Inhaia conversa com Sabrina Ribeiro, uma das autoras do artigo, sobre um conceito ainda pouco discutido na terapia intensiva brasileira.
Claudia é médica paliativista atualmente parte da equipe do Grupo Hospitalar Conceição, idealizadora e uma das apresentadoras do PalliPapers, projeto que traduz a pesquisa em cuidados paliativos para uma linguagem acessível. Sabrina, é da Universidade Federal do Ceará, integra o grupo de autores que propôs a definição de “extubação de mão única” (one-way extubation) nas páginas da Critical Care Science.
A proposta nasce de um dilema frequente na UTI: o que fazer com o paciente que já preenche os critérios respiratórios para extubação, mas tem risco de falha acima da média e para quem reintubar não faria mais sentido diante de seus valores e de sua trajetória?
Para responder, vale separar três conceitos que costumam ser confundidos:
Extubação clínica (convencional): retira-se a ventilação mecânica do paciente que se recuperou da doença aguda e preenche tanto os critérios respiratórios quanto os neurológicos. O risco de falha é o habitual, espera-se recuperação completa ou parcial e, se houver falha, a conduta prevista é a reintubação.
Extubação de mão única (one-way): retira-se a ventilação do paciente que melhorou o suficiente para preencher os critérios respiratórios, mas não necessariamente os neurológicos, e que carrega risco de falha acima da média. Exige uma discussão prévia de objetivos de cuidado e uma ordem de não intubar/não reanimar (DNI/DNR) já estabelecida. Há possibilidade razoável de sobrevivência; caso a extubação falhe, segue-se com cuidados de conforto, e não com reintubação, reconhecendo que a falha pode refletir o curso natural do morrer. Os autores a entendem como uma forma de cuidado proporcional , e não como retirada de suporte de vida, já que o desmame segue os protocolos habituais e os critérios de extubação estão preenchidos.
Extubação paliativa: interrompe-se a ventilação no paciente com doença terminal, quando o suporte é considerado inapropriado, para honrar seus valores, priorizar o conforto e permitir a morte natural. A extubação é feita o quanto antes, independentemente da estabilidade clínica, e o desfecho mais provável é a morte em horas ou dias.
Entre a manutenção do suporte de vida e a extubação paliativa, a extubação de mão única se apresenta como um caminho intermediário: busca a recuperação sem comprometer o paciente com um suporte prolongado que contrarie seus valores, preparando equipe e família para a possibilidade da morte, caso a melhora não venha.
Dê o play e venha refletir com a gente.
Ribeiro SC, Tavares AL, Lopes FG, Greco FP, Forte DN. “One-way” clinical extubation: an alternative to tracheostomy or palliative extubation in patients receiving inappropriate mechanical ventilation? Crit Care Sci. 2026;38:e20260248.
#CuidadosPaliativos #ExtubaçãoDeMãoÚnica #TerapiaIntensiva #DecisõesNoFimDaVida #PalliPapers