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    PalliPapers EP24 - Psicodélicos em cuidados paliativos: uma nova possibilidade para o sofrimento existencial?

    01/09/2026 | 1h 11min
    No episódio 24 do PalliPapers Podcast, Claudia Inhaia conversa com Ana Cláudia Mesquita Garcia, enfermeira, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Alfenas, sobre o potencial das terapias assistidas por psicodélicos no cuidado de pessoas com doenças graves.

    Embora os cuidados paliativos reconheçam o sofrimento em suas dimensões física, psicológica, social e espiritual, nossa prática — e grande parte da produção científica — ainda se concentra nos sintomas físicos. Diante do sofrimento existencial, da desmoralização, do medo da morte e da perda de sentido, profissionais e equipes frequentemente se deparam com limites terapêuticos e com a própria sensação de impotência.

    É nesse território que as terapias assistidas por psicodélicos vêm sendo investigadas.

    Falamos sobre substâncias como psilocibina, LSD e DMT sobre a diferença entre o uso isolado de uma substância e uma intervenção terapêutica estruturada e sobre os três momentos que habitualmente compõem essa abordagem:

    * preparação;
    * sessão de dosagem acompanhada;
    * integração da experiência.

    A substância não atua sozinha. O vínculo terapêutico, a comunicação compassiva, o preparo do ambiente (set and setting), a seleção criteriosa e a elaboração posterior da experiência são partes essenciais do processo.

    Os estudos disponíveis sugerem possíveis benefícios sobre ansiedade, depressão, desmoralização, medo da morte e sofrimento existencial. Entretanto, as evidências ainda são limitadas, os protocolos são heterogêneos e os resultados não ocorrem em todas as pessoas. Não se trata de uma solução milagrosa nem de uma recomendação para uso autônomo ou fora de contextos legalmente autorizados.

    Talvez seu potencial mais instigante não esteja em “apagar” o sofrimento, mas em permitir que ele seja atravessado, simbolizado, metabolizado e integrado à narrativa da vida. Em algumas experiências, a doença permanece, mas a história que a pessoa conta a si mesma sobre a doença, a morte e a própria existência pode se transformar.

    O episódio também apresenta o conceito de paliadélicos, substâncias ou terapias apoiadas por substâncias capazes de favorecer estados ampliados de consciência que possam mitigar ou atenuar o sofrimento diante da morte. A criação do termo busca dar identidade e visibilidade a um campo científico emergente.

    Artigos mencionados no episódio:

    Maia LO, Beaussant Y, Garcia ACM. The therapeutic potential of psychedelic-assisted therapies for symptom control in patients diagnosed with serious illness: a systematic review. J Pain Symptom Manage. 2022;63. doi: 10.1016/j.jpainsymman.2022.01.024.

    Garcia ACM, Maia LO, Reed PG. Exploring psychedelics for alleviating existential and spiritual suffering in people with serious illnesses: links to the Theory of Self-Transcendence. J Holist Nurs. 2025;43(3):303-315. doi: 10.1177/08980101241257836.

    Garcia ACM, Bonifácio MCAC, Maia LO. Contributions of the compassionate care approach to psychedelic-assisted therapies in hospice and palliative care. Prog Palliat Care. 2024;32(4). doi: 10.1080/09699260.2024.2374602.

    Garcia ACM, Teixeira F, Maia LO. Integrating holistic communication into psychedelic-assisted therapies in hospice and palliative care: an approach based on Peplau’s Theory. J Holist Nurs.2025. doi: 10.1177/08980101251374371.

    Garcia ACM, Isidoro GM, Silva CP. Psychedelic experiences and finitude in serious illness: a qualitative synthesis. J Pain Symptom Manage.2026;72(1). doi: 10.1016/j.jpainsymman.2026.03.012.

    Vinasco Barco JA, Garcia ACM. Palliadelic: a neologism that refers to the use of psychedelics in hospice and palliative care settings. *Prog Palliat Care.2025.

    #CuidadosPaliativos #Psicodélicos #SofrimentoExistencial #Espiritualidade #PalliativeCare #PsychedelicAssistedTherapy #ExistentialDistress #Palliadelics #PalliPapers
  • Pallipapers Podcast

    PalliPapers EP23 - Extubação de mão única: você sabe o que é isso?

    01/07/2026 | 1h 11min
    Neste episódio, Claudia Inhaia conversa com Sabrina Ribeiro, uma das autoras do artigo, sobre um conceito ainda pouco discutido na terapia intensiva brasileira.
    Claudia é médica paliativista atualmente parte da equipe do Grupo Hospitalar Conceição, idealizadora e uma das apresentadoras do PalliPapers, projeto que traduz a pesquisa em cuidados paliativos para uma linguagem acessível. Sabrina, é da Universidade Federal do Ceará, integra o grupo de autores que propôs a definição de “extubação de mão única” (one-way extubation) nas páginas da Critical Care Science.

    A proposta nasce de um dilema frequente na UTI: o que fazer com o paciente que já preenche os critérios respiratórios para extubação, mas tem risco de falha acima da média e para quem reintubar não faria mais sentido diante de seus valores e de sua trajetória?

    Para responder, vale separar três conceitos que costumam ser confundidos:

    Extubação clínica (convencional): retira-se a ventilação mecânica do paciente que se recuperou da doença aguda e preenche tanto os critérios respiratórios quanto os neurológicos. O risco de falha é o habitual, espera-se recuperação completa ou parcial e, se houver falha, a conduta prevista é a reintubação.

    Extubação de mão única (one-way): retira-se a ventilação do paciente que melhorou o suficiente para preencher os critérios respiratórios, mas não necessariamente os neurológicos, e que carrega risco de falha acima da média. Exige uma discussão prévia de objetivos de cuidado e uma ordem de não intubar/não reanimar (DNI/DNR) já estabelecida. Há possibilidade razoável de sobrevivência; caso a extubação falhe, segue-se com cuidados de conforto, e não com reintubação, reconhecendo que a falha pode refletir o curso natural do morrer. Os autores a entendem como uma forma de cuidado proporcional , e não como retirada de suporte de vida, já que o desmame segue os protocolos habituais e os critérios de extubação estão preenchidos.

    Extubação paliativa: interrompe-se a ventilação no paciente com doença terminal, quando o suporte é considerado inapropriado, para honrar seus valores, priorizar o conforto e permitir a morte natural. A extubação é feita o quanto antes, independentemente da estabilidade clínica, e o desfecho mais provável é a morte em horas ou dias.

    Entre a manutenção do suporte de vida e a extubação paliativa, a extubação de mão única se apresenta como um caminho intermediário: busca a recuperação sem comprometer o paciente com um suporte prolongado que contrarie seus valores, preparando equipe e família para a possibilidade da morte, caso a melhora não venha.

    Dê o play e venha refletir com a gente.

    Ribeiro SC, Tavares AL, Lopes FG, Greco FP, Forte DN. “One-way” clinical extubation: an alternative to tracheostomy or palliative extubation in patients receiving inappropriate mechanical ventilation? Crit Care Sci. 2026;38:e20260248.

    #CuidadosPaliativos #ExtubaçãoDeMãoÚnica #TerapiaIntensiva #DecisõesNoFimDaVida #PalliPapers
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    PalliPapers EP22 - O desafio do prognóstico na demência avançada

    25/05/2026 | 39min
    No novo episódio do PalliPapers Podcast, Cláudia Inhaia e Rodrigo Santos conversam sobre um dos temas mais difíceis — e mais importantes — no cuidado de pessoas com demência avançada: como reconhecer quando alguém está se aproximando dos últimos meses de vida.

    O artigo utilizado para esta discussão é o “Determining six-month prognosis among people with dementia living in care homes: a systematic review of prognostic tools”, uma revisão sistemática publicada na Age and Ageing, que avaliou ferramentas prognósticas desenvolvidas para estimar mortalidade em 6 meses em pessoas com demência vivendo em instituições de longa permanência.

    O estudo identificou 11 ferramentas prognósticas, mas mostrou grande heterogeneidade entre elas. Apenas duas — Mortality Risk Index e ADEPT — apresentaram desempenho discriminativo inicialmente aceitável, sem validação externa robusta ou replicação consistente dos resultados.

    O ponto central para a prática é que prognosticar na demência avançada continua sendo incerto. Idade, piora cognitiva, dependência funcional, redução da ingesta oral, perda de peso e intercorrências clínicas ajudam na avaliação, mas nenhuma ferramenta substitui o olhar clínico longitudinal, a comunicação honesta e o planejamento antecipado de cuidados.

    Mais do que “acertar uma data”, reconhecer a trajetória de declínio pode ajudar equipes, pacientes e famílias a evitarem intervenções desproporcionais, ampliarem o cuidado paliativo e tomarem decisões mais alinhadas com conforto, dignidade e valores.

    Referência:
    West E, Mulligan L, Paudyal P, Quinn TJ, Burton JK. Determining six-month prognosis among people with dementia living in care homes: a systematic review of prognostic tools. Age Ageing. 2026;55:afag087. doi:10.1093/ageing/afag087.

    #CuidadosPaliativos #DemênciaAvançada #Prognóstico #PalliPapers #palliativegeriatrics
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    PalliPapers EP21 - Nudge em cuidados paliativos

    01/04/2026 | 1h 18min
    No episódio de hoje do PalliPapers, Cláudia Inhaia, Arabella Freitas, Rodrigo Santos e Fernando Xavier conversam sobre Nudge em Cuidados Paliativos e exploram como pequenas mudanças na forma de apresentar escolhas, organizar fluxos e estruturar decisões podem influenciar profundamente o cuidado em saúde, inclusive em contextos de alta complexidade, sofrimento e vulnerabilidade.

    Este foi também um episódio diferente, gravado em roda de conversa durante o congresso de oncologia da Rede D’Or, realizado em março de 2026, no Rio de Janeiro, o que trouxe à discussão um tom mais espontâneo, vivo e próximo da prática real.

    Ao longo da conversa, o episódio aborda heurísticas e vieses cognitivos que atravessam a prática clínica e as decisões de pacientes, familiares e profissionais, como ancoragem, disponibilidade, representatividade, excesso de confiança, vieses de omissão e comissão, além da força dos defaults e de outros elementos que moldam escolhas mesmo quando nem sempre são percebidos de forma consciente.

    Também entram em cena as questões bioéticas relacionadas ao uso do nudge em Cuidados Paliativos: em que situações ele pode favorecer deliberação, comunicação mais clara e decisões mais alinhadas a valores, e em que momentos pode se aproximar de manipulação, paternalismo ou enfraquecimento da autonomia.

    Mais do que apresentar o nudge como ferramenta, este episódio convida a uma reflexão importante: em saúde, a neutralidade muitas vezes é apenas aparente. Sempre existe um contexto, uma linguagem, uma ordem de opções, um padrão institucional. E talvez uma das mensagens centrais da conversa seja justamente esta: não fazer também é fazer. Afinal, todos estamos expostos a diferentes nudges ao caminhar pelo mundo; a questão ética não é apenas reconhecer que eles existem, mas pensar como utilizá-los de modo responsável, transparente e centrado na pessoa.
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    PalliPapers EP20 - Alimentação e hidratação em condições graves: como decidir com clareza, evidência e valores

    02/03/2026 | 59min
    Neste episódio a conversa foi entre Danielle Brito-Rodrigues, Edison Iglesias de Oliveira Vidal e nossos hosts Claudia Inhaia e Rodrigo Lima dos Santos sobre um dilema frequente e doloroso na prática: o que fazer quando comer e beber pela boca se tornam difíceis ou inviáveis em uma condição grave de saúde?
    Danielle nos apresenta a sua tese de doutorado “Alimentação e hidratação nas condições graves de saúde: validação de uma ferramenta de apoio à decisão”, que nasce da experiência clínica com adultos e idosos com disfagia, inapetência, seletividade e/ou recusa alimentar — e com as “violências silenciosas” que surgem quando a via artificial é indicada sem conversa real com paciente e família. A tese propõe e valida uma FAD (Ferramenta de Apoio à Decisão), pensada para letramento em saúde e tomada de decisão compartilhada, com linguagem clara e informações imparciais sobre opções, riscos e benefícios — para apoiar decisões alinhadas aos valores, metas e preferências da pessoa doente e do seu núcleo de cuidados.
    Quais opções a FAD ajuda a colocar na mesa (sem “receita de bolo”)?
    • Via oral de conforto / oferta oral segura (foco em conforto, prazer oral e memórias, mais do que “quantidade”)
    • Via artificial (sonda/gastro/jejuno) quando a via oral está impedida/prejudicada, com reflexão cuidadosa sobre propósito e benefícios no contexto grave
    • Via mista (oral + artificial), incluindo a ideia de teste clínico e reavaliação
    • Quando não alimentar: possibilidade de jejum como mecanismo protetor em cenários específicos, além de cuidados de conforto; e via subcutânea para hidratação/medicações quando indicado
    Como a ferramenta foi construída e validada?
    A pesquisa teve duas fases: (1) validação por especialistas (método e-Delphi) e (2) piloto com usuários (pacientes/familiares/cuidadores) usando escala de conflito decisório antes e depois.A FAD foi considerada útil, com 94% de concordância média dos juízes.
    E o que mudou quando as pessoas tiveram acesso à FAD?
    No piloto, houve redução discreta da escolha por via artificial exclusiva, aumento da via mista e — o dado mais marcante — a escolha por via oral exclusiva dobrou após a exposição à ferramenta.
    Neste episódio, a gente traduz esses achados para o dia a dia: bioética, comunicação, prognóstico, “risk feeding”, sofrimento, culpa, segurança, e como sustentar decisões revisáveis ao longo da trajetória — com o cuidado centrado na pessoa.
    Onde encontrar a FAD e a Danille: @apoioadecisao
    #PalliPapers #CuidadosPaliativos #TomadaDeDecisãoCompartilhada #Bioética #NutriçãoEmCondiçõesGraves
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Sobre Pallipapers Podcast
PalliPapers é um podcast dedicado à análise e discussão de artigos científicos em cuidados paliativos. Nosso objetivo é transformar conhecimento acadêmico em ferramentas práticas, ajudando profissionais de saúde a integrar evidências em sua prática clínica, promovendo cuidado compassivo e de qualidade.
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