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- O cenário inflacionário brasileiro acaba de apresentar um respiro para a economia. O IPCA de julho trouxe um alento: o índice veio abaixo do registrado no mesmo período do ano passado. Com esse resultado favorável, a inflação acumulada no intervalo de 12 meses recuou, voltando a se posicionar abaixo do teto da meta, de 4,5%, estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Na prática, um IPCA comportado e dentro das bandas da meta é o ambiente ideal para alimentar as expectativas do mercado financeiro e do setor produtivo por uma nova rodada de cortes na taxa básica de juros, a Selic. Afinal, com o custo de vida sob controle, abre-se espaço técnico para baratear o crédito, estimular o consumo das famílias e impulsionar os investimentos das empresas. Contudo, a condução da política monetária exige uma leitura que vai além da manchete principal do indicador.
A Ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada esta semana, jogou uma dose de realismo em quem esperava uma flexibilização mais rápida dos juros. O documento foi taxativo ao elencar uma série de riscos que ainda pairam sobre a economia. Entre as principais preocupações destacadas pela autoridade monetária estão as incertezas em torno da execução e consolidação do cenário fiscal, a volatilidade da taxa de câmbio — que encarece insumos e produtos importados — e a persistente desancoragem das expectativas de inflação para prazos mais longos.
Mas o verdadeiro calcanhar de Aquiles apontado pelo Banco Central continua sendo a inflação de serviços. Diferente dos preços de alimentos in natura ou combustíveis, que oscilam rapidamente, os serviços (como educação, aluguéis, reparações e alimentação fora de casa) possuem uma forte inércia e estão intimamente ligados ao aquecimento do mercado de trabalho e ao aumento da renda. O Copom demonstrou clara preocupação com a resiliência desse setor, que se recusa a ceder na mesma velocidade que a inflação geral.
Diante desse ponto, a equação para a próxima reunião do Copom torna-se complexa. De um lado, o IPCA cheio de julho mostra um quadro benigno. Do outro, a teimosia dos serviços e os riscos fiscais e cambiais sinalizados na Ata do Copom exigem prudência. O resultado dessa balança aponta para a manutenção de um posicionamento conservador por parte do Banco Central. A autoridade monetária deverá avaliar mais de perto os próximos dados da atividade econômica antes de se aventurar em uma redução da Selic mais forte, garantindo que o alívio temporário de hoje não se transforme no descontrole inflacionário de amanhã. - A diplomacia comercial brasileira decidiu levar o embate contra o protecionismo norte-americano à Organização Mundial do Comércio (OMC). Em resposta à abertura do painel pelo Brasil contra o recente tarifaço, os EUA adotaram uma postura diplomaticamente calculada: afirmaram estar à disposição para dialogar e iniciar as consultas formais. Esse movimento inaugura um jogo de xadrez geopolítico, onde as peças no tabuleiro vão além das fronteiras bilaterais.
As alegações brasileiras na OMC são de que as sobretaxas impostas por Washington violam as regras do comércio internacional. O tarifaço, fundamentado em supostas práticas desleais e retaliações unilaterais, é visto como uma barreira artificial e discriminatória, projetada para estrangular as exportações nacionais e proteger a indústria americana sem amparo técnico nas normas multilaterais.
No entanto, o que era para ser uma disputa técnica entre Brasília e Washington ganhou um contorno explosivo: o interesse da China em ingressar na ação como terceira parte interessada. Pequim, que é o alvo principal e sistêmico da guerra comercial americana, enxerga no contencioso brasileiro uma oportunidade para enfraquecer o regime de sanções dos EUA por vias institucionais.
A entrada da China na disputa altera o peso político da ação e traz consequências severas para a economia brasileira. Ao ter seu pleito endossado pela superpotência asiática, o Brasil corre o risco de ser visto por Washington não apenas como um parceiro comercial insatisfeito, mas como uma engrenagem na máquina de influência chinesa.
As possíveis retaliações americanas não devem ser subestimadas. Se os EUA perceberem um alinhamento estratégico entre Brasil e China na OMC, a resposta pode vir de forma punitiva e agressiva. O risco imediato é a ampliação das barreiras comerciais para setores que haviam sido poupados da primeira rodada de tarifas, a redução arbitrária de cotas de importação, a exclusão de programas de preferências tarifárias e um distanciamento deliberado em acordos de cooperação tecnológica e atração de investimentos.
A abertura para o diálogo sinalizada pelos EUA é, portanto, a janela de oportunidade que o Itamaraty precisa explorar com urgência. O Brasil deve adotar pragmatismo na fase de consultas bilaterais. É fundamental buscar um acordo que preserve nossas exportações e alivie a pressão sobre o nosso setor produtivo, sem permitir que o país seja usado como instrumento de manobra na guerra comercial entre as duas maiores potências do planeta. O pragmatismo e a negociação direta sempre custam menos do que o conflito prolongado. - A economia brasileira renovou mais um recorde extremamente preocupante. De acordo com os dados mais recentes da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), elaborada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o endividamento das famílias alcançou a assustadora marca de 82,0% em julho. Este é o maior patamar registrado desde o início da série histórica em 2015. No levantamento, 29,8% estão inadimplentes e 19% têm mais da metade da renda comprometida com o pagamento de dívidas a vencer ou em atraso. Quando oito em cada dez lares do país possuem dívidas a vencer, isso representa o sintoma de uma engrenagem econômica adoecida, que inevitavelmente impulsiona o aumento da inadimplência.
Para compreendermos como chegamos a esse nível crônico de sufocamento, precisamos analisar as peças que compõem esse cenário adverso. O primeiro e mais danoso fator é a combinação trágica de juros altos com políticas de expansão de crédito. O governo tem reiteradamente facilitado e estimulado a tomada de crédito para manter o consumo aquecido. O problema central é que, com a taxa Selic mantida em patamares restritivos, o custo desse dinheiro é proibitivo. As famílias tomam empréstimos fáceis na porta de entrada, mas são esmagadas pelo peso do serviço da dívida na hora de pagar.
O segundo agravante é um fenômeno comportamental recente que atinge a economia com força de tsunami: as plataformas de apostas esportivas, as famosas bets. O que deveria ser estritamente uma forma de entretenimento tornou-se um silencioso e perigoso ralo de renda, especialmente para as classes mais vulneráveis, aquelas que ganham até 3 salários-mínimos, que também são as mais endividadas e inadimplentes. O orçamento doméstico, que antes era destinado ao consumo básico, à poupança ou ao pagamento de dívidas, agora é pulverizado em apostas diárias. Esse desvio de capital não gera riqueza, esvazia o setor produtivo e agrava brutalmente o desequilíbrio e a inadimplência dentro de casa.
Tudo isso esbarra frontalmente em uma deficiência estrutural e histórica do Brasil: a ausência de educação financeira. Sem instrução adequada, ferramentas como o cartão de crédito e o cheque especial deixam de ser conveniências de curto prazo para se tornarem, ilusoriamente, extensões do salário. Quando a fatura chega, a falta de planejamento e o desconhecimento sobre os juros rotativos criam uma bola de neve praticamente impagável.
Por fim, a inflação persistente atua como o golpe de misericórdia. Mesmo com o índice oficial apresentando aparente estabilidade em alguns momentos, o custo de itens essenciais e serviços continua corroendo de forma silenciosa o poder de compra da população. Com o orçamento apertado no limite e o custo de vida elevado, o brasileiro é forçado a usar o crédito para pagar a feira do mês e garantir a própria subsistência.
O recorde de 82% de endividados é um sinal de alerta máximo. É o retrato nítido de um país que precisa urgentemente repensar suas políticas de incentivo ao crédito, regulamentar com rigor a sangria das apostas, investir massivamente em letramento financeiro e combater a inércia inflacionária. Sem atacar essas causas raízes, as famílias continuarão afundando na areia movediça das dívidas e o país não encontrará a trilha do crescimento sustentável. - O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) optou por reduzir a Taxa Selic em 0,25 ponto percentual para 14% ao ano, sinalizando que o cenário externo ainda permanece incerto por conta da indefinição do conflito no Oriente Médio e da incerteza da política monetária em países avançados, principalmente nos EUA. No ambiente interno, ressaltou que os indicadores econômicos apresentaram uma moderação gradual da atividade econômica, com sinais mistos entre setores, embora com mercado de trabalho ainda aquecido.
A inflação apresentou desaceleração recente, mas ainda acima do teto da meta, com expectativas para 2026 e 2027 permanecendo acima da meta, segundo o Boletim Focus, em 5,0% e 4,2%, respectivamente. Tal situação ainda demanda uma política monetária contracionista, observando os desenvolvimentos da política fiscal e seus impactos na política monetária.
Quanto aos fatores de risco inflacionários, destacou:
(i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia;
(ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo;
(iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada; e
(iv) estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária.
Em relação aos fatores de risco de baixa:
(i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação;
(ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de um cenário de maior incerteza; e
(iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
A decisão veio alinhada com as expectativas do mercado, que ainda projeta uma nova queda da Selic para 13,75%, mantendo-se assim até o final do ano. O comentário final do Copom numa decisão unânime pela redução dos juros ainda foi de que: O cenário atual, caracterizado por significativo aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados em torno do cenário base, demanda serenidade e cautela na condução da política monetária.
Você acha que o Copom agiu corretamente, mesmo com todas essas explicações? Não se engane, existe sim déficit nas contas públicas. Entenda o déficit público e a armadilha dos juros
06/08/2026Se você gastar mais do que ganha todos os meses, precisará pegar dinheiro emprestado no banco. O banco, percebendo que você não consegue equilibrar suas próprias contas, vai cobrar uma taxa de juros altíssima pelo risco de levar um calote. Na economia de um país, a lógica é exatamente a mesma. E é justamente isso que explica o atual cenário macroeconômico brasileiro.
Para entender de forma didática: o Brasil está no vermelho. Segundo os dados mensais do Banco Central, o país vem gerando déficits consecutivos nas suas contas públicas há três anos e meio. Isso significa que, mês após mês, a arrecadação com impostos é inferior ao montante que o governo gasta para manter a máquina pública e seus programas funcionando. A essa diferença damos o nome de déficit primário.
A grande questão é que esse buraco não desaparece por mágica. Para fechar a conta do mês, o governo precisa emitir dívida, ou seja, pegar dinheiro emprestado com os investidores. E é aqui que entramos na segunda parte do problema: o déficit nominal, que nada mais é do que o déficit primário somado aos juros que o país paga por essa dívida gigantesca.
Muitas vezes, o debate público inverte a lógica, sugerindo que a culpa do rombo nas contas são os juros altos. A realidade, porém, é exatamente a oposta. A montanha de juros que o Brasil paga hoje só atinge patamares tão estratosféricos por conta do descontrole das contas públicas ao longo desses últimos anos. A irresponsabilidade fiscal assusta os investidores. Sem a garantia de que o governo terá dinheiro para honrar seus compromissos no futuro, os juros disparam.
Para evitar a fuga de capitais, frear a inflação que nasce inevitavelmente desse descontrole fiscal e convencer o mercado a continuar financiando o Tesouro Nacional, o Banco Central é forçado a agir com rigor. A única ferramenta disponível para isso é manter a taxa básica de juros, a Selic, em patamares fortemente elevados. Os juros altos são, portanto, o sintoma e o remédio amargo, e não a causa da doença. A doença crônica é a gastança desenfreada sem lastro.
Enquanto o governo não fizer o dever de casa — cortando despesas, otimizando o orçamento e apresentando superávit —, continuaremos presos nessa armadilha. Importante, inclusive frisar, que a solução não passa por novos impostos ou o aumento dos já existentes. O déficit gera desconfiança, a desconfiança gera juros altos, e os juros altos encarecem a dívida, estrangulando o crédito e penalizando as famílias e os pequenos negócios que precisam produzir. A conta da indisciplina fiscal sempre chega.
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