A divulgação de que o PIB do primeiro trimestre apresentou um crescimento de 1,1% pode, à primeira vista, parecer motivo para comemoração. Contudo, na economia, as manchetes costumam esconder os verdadeiros fundamentos estruturais. Ao olharmos os dados por dentro, a euforia inicial rapidamente dá lugar à preocupação: estamos diante de um crescimento de baixa qualidade, impulsionado por anabolizantes estatais e que cobra um preço alto do nosso futuro.
O grande motor desse avanço trimestral foi o Consumo das Famílias, que registrou uma alta de 1,0%. Mas não nos enganemos: esse apetite não deriva de ganhos reais de produtividade ou de uma expansão orgânica e sustentável da renda. Ele foi fortemente turbinado por injeções diretas de recursos do governo, como a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, os efeitos do programa Desenrola e o salto de 12% na concessão de crédito para Pessoas Físicas, um dado que soa como alerta vermelho quando lembramos que a taxa Selic opera no patamar bastante restritivo de 14,75% ao ano. Na prática, as famílias estão se endividando a um custo altíssimo para sustentar o nível de consumo.
Enquanto o consumo é inflado artificialmente, os alicerces do nosso crescimento futuro definham. A Formação Bruta de Capital Fixo, que mede os investimentos produtivos, até apresentou um respiro de 3,5% na margem do trimestre, mas amarga uma queda de 1,4% na comparação anual. O dado mais crítico aqui é estrutural: a taxa de investimento do Brasil despencou de 17,6% para 16,5% do PIB. Sem o setor privado investindo em máquinas, equipamentos e infraestrutura, a economia perde a capacidade de crescer sem gerar pressão inflacionária.
A estagnação do setor produtivo fica ainda mais evidente do lado da oferta. A Indústria de Transformação, que é historicamente o setor que gera os empregos de melhor qualidade técnica e remuneração, ficou completamente parada, com uma variação pífia de +0,1%. Para piorar a fotografia, o setor externo também não ajudou: as nossas exportações recuaram 1,7%, enquanto as importações avançaram 4,4%, subtraindo do resultado final do PIB.
Estamos vivenciando um crescimento puxado quase que exclusivamente pelo gasto público, e não pelo aumento da nossa eficiência ou produtividade. O ciclo criado é perigoso: o governo amplia estímulos e injeta dinheiro, o consumo responde imediatamente elevando a demanda, a inflação encontra resistência para ceder, o Banco Central se vê obrigado a apertar o cinto com juros altos e, na ponta final, o investimento corporativo murcha.
A atual composição da demanda brasileira é estruturalmente frágil. Ela sinaliza, de forma inequívoca, um menor potencial de crescimento para os próximos anos. Comemorar o número cheio desse PIB é fechar os olhos para a dinâmica real das nossas contas. O Brasil cresce hoje, sim, mas de forma completamente artificial. E, como a história econômica não cansa de nos ensinar, a conta dessa ilusão de curto prazo inevitavelmente chega amanhã.