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- O mercado de câmbio voltou a ficar pressionado. Nos últimos dias, presenciamos uma nova escalada do dólar frente ao real, com a moeda americana fechando cotada a R$ 5,19 nesta quinta-feira. Essa pressão cambial é o resultado de uma combinação de fatores externos e das nossas já conhecidas fragilidades internas.
O Departamento do Tesouro dos EUA confirmou que a dívida pública do país ultrapassou a assustadora marca de US$ 40 trilhões pela primeira vez na história. Esse endividamento trilionário, impulsionado por sucessivos déficits e altos gastos públicos, eleva a desconfiança dos investidores e pressiona os rendimentos dos títulos americanos para cima. Quando os juros nos EUA sobem, ocorre um efeito de aspirador global: o capital foge de mercados emergentes em direção ao porto seguro americano, forçando a desvalorização de moedas como o real. Somado a isso, o aumento das tensões geopolíticas, marcado por ameaças de sanções e declarações de guerra econômica da Casa Branca ao Irã, reduz ainda mais o apetite ao risco no exterior.
Contudo, não podemos culpar apenas o cenário internacional. O Brasil tem feito a sua parte para afugentar o investidor e encarecer o dólar. O aumento da sensibilidade do mercado às incertezas políticas, movimento que se acirra naturalmente com a aproximação da corrida eleitoral presidencial, ajuda a pressionar fortemente a nossa moeda. O investidor exige um prêmio de risco maior para alocar seus recursos no país diante da nebulosidade sobre a sustentabilidade do nosso arcabouço fiscal e o controle da nossa própria dívida.
Apesar dessa volatilidade de curtíssimo prazo, as projeções para o encerramento do ano mostram uma tentativa de estabilização. Segundo os dados oficiais do Boletim Focus, a mediana do mercado financeiro projeta que o câmbio encerre 2026 cotado a R$ 5,20, estimativa que se mantém inalterada há nove semanas consecutivas. Para conter os impactos inflacionários da moeda desvalorizada e manter a âncora econômica, a autoridade monetária continuará a aplicar um remédio amargo: o relatório Focus também projeta a taxa Selic a 13,75% ao final deste ano.
Os juros elevados e o crédito caro cobram uma fatura pesada do nosso desempenho econômico. No entanto, no atual cenário global e doméstico, eles funcionam como a principal barreira de contenção para evitar que o dólar dispare ainda mais e desorganize completamente a inflação e a economia real brasileira. - O cenário econômico brasileiro emite mais um sinal vermelho intenso. O salto de 13,64% na inadimplência empresarial em julho na comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo dados do SPC Brasil, representa o aumento do sufocamento do setor produtivo nacional, que vem lutando contra um ambiente macroeconômico adverso e limitador.
Os dados do SPC Brasil também apontam que em julho, 69,02% das negativações de empresas correspondiam a negócios reincidentes, ou seja, que já haviam aparecido no cadastro de inadimplentes nos 12 meses anteriores. Desse total, 44,12% ainda não haviam quitado dívidas antigas, enquanto 24,89% haviam deixado o cadastro nos últimos 12 meses, mas voltaram a ser negativadas.
Para entendermos a raiz desse agravamento, precisamos olhar para o custo do dinheiro no Brasil. A manutenção da taxa básica de juros (Selic) em patamares restritivos tem cobrado um preço altíssimo de quem produz e emprega. O crédito encareceu vertiginosamente, transformando a obtenção de capital de giro — essencial para a operação diária de qualquer negócio — em uma armadilha financeira. O empresário busca recursos para fechar a conta do mês, mas é esmagado pelo peso do serviço da dívida.
Esse estrangulamento das pessoas jurídicas está intimamente ligado à crise que afeta as pessoas físicas. As famílias brasileiras enfrentam níveis recordes de endividamento, com o poder de compra corroído pela inflação e drenado por gastos não produtivos. Com o consumidor sem margem no orçamento, o comércio e a indústria amargam estoques parados, queda nas vendas e retração nas receitas. Sem faturamento sustentável, a conta não fecha e a inadimplência empresarial torna-se inevitável.
Agrava-se a essa conjuntura a falta de previsibilidade. As persistentes incertezas em relação ao compromisso fiscal do governo mantêm o prêmio de risco do país nas alturas. Para ancorar as expectativas inflacionárias, o Banco Central vê-se forçado a manter o pé no freio monetário. Cria-se, assim, um ciclo destrutivo: o desajuste das contas públicas afasta a confiança, a desconfiança sustenta os juros altos, os juros quebram as empresas, gerando demissões e reduzindo a própria arrecadação de impostos do Estado.
O avanço expressivo na inadimplência das empresas atua como um prelúdio para uma dolorosa onda de recuperações judiciais e falências. O Brasil precisa resgatar com urgência a sua credibilidade fiscal e pavimentar o caminho para a redução estrutural do custo do crédito. Sem oxigênio financeiro, corremos o risco de sacrificar os pequenos e médios negócios, segmento importante na geração de empregos da economia. - O varejo brasileiro agoniza em uma espécie de UTI econômica, e o diagnóstico é claro: uma combinação de juros proibitivos, restrição severa de crédito e uma inflação persistente que corrói impiedosamente o poder de compra da população. O setor que, historicamente, pulsa como o coração do consumo nacional, hoje respira por aparelhos, acumulando meses sucessivos de retração e queda livre nas vendas.
O caso emblemático mais recente e mais ruidoso dessa deterioração é o Grupo Casas Bahia. A gigante, que por décadas foi sinônimo de crediário e acesso a bens para a classe média emergente, protocolou um pedido de recuperação judicial nesta semana, sufocada por um passivo que chega a R$ 17,32 bilhões. O movimento ocorreu após o grupo amargar um prejuízo contábil gigantesco de R$ 10,1 bilhões apenas no segundo trimestre deste ano, o que resultou no fechamento de quase 300 lojas e na demissão de cerca de 3.000 funcionários em um único mês.
O que levou um ícone do varejo a essa situação limite? A resposta está no asfixiamento da economia real. Com a taxa Selic estacionada em 14% ao ano, o custo do capital de giro para as empresas tornou-se insustentável. Ao mesmo tempo, o acesso ao crédito para o consumidor final evaporou. Como consequência, segundo o IDV - Instituto para o Desenvolvimento do Varejo, o setor de varejo tem desempenho real médio negativo há 18 meses.
Essa multidão de negativados e asfixiados por juros não tem margem para comprar geladeiras ou televisores. Pior: uma fatia assustadora da renda que deveria oxigenar o comércio está sendo drenada para plataformas de apostas esportivas, as bets, que hoje capturam cerca de R$ 30 bilhões mensais do orçamento dos brasileiros, penalizando frontalmente as classes C e D.
Enquanto a rede de lojas físicas luta para sobreviver ao custo Brasil e ao descalabro fiscal, a concorrência asiática e global de marketplaces (como Mercado Livre, Amazon e Shopee) avança de forma agressiva. Essas plataformas criaram ecossistemas digitais eficientes, serviços financeiros ágeis e preços imbatíveis, tornando o modelo tradicional de grandes lojas, repletas de estoques e funcionários, cada vez mais obsoleto e caro de manter. O fato de a Marabraz também ter pedido recuperação judicial, com dívidas de R$ 140 milhões, logo antes das Casas Bahia, prova que não é um problema isolado.
Os recentes indicadores de retração nas vendas varejistas apontam que o ciclo de crescimento baseado no consumo impulsionado artificialmente se esgotou. A lição que o colapso das Casas Bahia nos deixa é amarga. Enquanto não atacarmos as raízes da ineficiência fiscal que mantém os juros altos, e não devolvermos o poder aquisitivo real para o bolso das famílias, veremos o nosso comércio tradicional definhar, fechando portas e ceifando empregos pelo país afora.
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