Em janeiro, a entrada líquida de recursos estrangeiros na B3 somou R$ 26,3 bilhões, o maior volume já registrado para o mês e o mais elevado desde novembro de 2020, quando o fluxo alcançou R$ 30,7 bilhões. O dado chama ainda mais atenção porque, sozinho, supera todo o ingresso observado ao longo de 2025, que havia fechado em R$ 25,4 bilhões. O mais curioso é o timing. Esse movimento não era esperado logo no primeiro mês do ano, ainda mais em um ambiente doméstico marcado por incertezas fiscais e discussões sobre a sustentabilidade das contas públicas.
Boa parte dessa entrada tem explicação fora do país. A mudança no cenário internacional, especialmente nos EUA, abriu espaço para essa realocação. Com a política monetária americana caminhando para um ciclo de redução de juros e Dólar mais fraco, investidores globais passaram a buscar mercados onde o potencial de retorno parece maior. Soma-se a isso o fato de que as ações americanas estão negociando a múltiplos elevados, o que aumenta o incentivo para diversificar e olhar para fora, e o Brasil, junto com outros emergentes, acaba se beneficiando.
Esse movimento teve impacto direto na bolsa. Sustentado pelo forte fluxo externo, o Ibovespa acumula alta de 15,2% no ano e renovou máxima histórica ao atingir 185.674 pontos. Em dólares, o desempenho impressiona ainda mais: o índice avançou 17,4% apenas em janeiro, praticamente o dobro da alta do MSCI Emergentes no mesmo período, de 8,8%. No mesmo intervalo, as bolsas americanas ficaram bem atrás, com ganhos de 1,7% no Dow Jones, 1,4% no S&P 500 e 1,2% no Nasdaq.
Nesse contexto, o Brasil se destaca não só pelo preço, mas também pela escala. A B3 é, de longe, o mercado mais líquido da América Latina, com volume médio diário superior a US$ 1 bilhão, enquanto bolsas como a do México giram em torno de US$ 500 milhões. Mesmo após a alta recente, muitos ativos ainda são vistos como relativamente baratos ou, pelo menos, em linha com suas médias históricas, o que ajuda a sustentar o fluxo.
Daqui para frente, a expectativa é que esse fluxo continue, mas de forma mais seletiva. A tendência é sair um pouco da compra generalizada via índices e avançar para uma escolha mais cuidadosa de setores e empresas, especialmente aquelas mais sensíveis à queda de juros e com fundamentos mais sólidos. Ou seja, o investidor estrangeiro não só voltou, como parece disposto a ficar.
No fim das contas, o recado é claro: mesmo com o fiscal pressionando e as incertezas locais no pano de fundo, o ambiente externo ajudou a recolocar o Brasil no jogo. A combinação de juros mais baixos nos EUA, Dólar mais fraco e busca global por retorno recolocou o Brasil no radar. E, ao menos neste início de ano, esse capital externo tem sido decisivo para sustentar a alta da Bolsa e mudar o humor do mercado.
O olhar difere muito dos investidores individual e institucional brasileiro. Ambos apresentam retiradas líquidas de recursos de janeiro para cá, com quedas de 3,57% e 17,54% respectivamente. O aumento expressivo da relação dívida/PIB, mais de 7 pontos percentuais em 3 anos, fruto de uma política fiscal expansionista e sem controle, traz mais preocupações domesticamente. O risco ao longo do ano é de que esse aumento tão expressivo possa ter características de bolha, com risco de rompimento alto, a depender das guinadas políticas que venham a ocorrer na economia americana, inclusive, de mudança de poder em seu Congresso.