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Ecio Costa - Economia e Negócios

Ecio Costa
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  • Ecio Costa - Economia e Negócios

    No mesmo dia que é divulgado forte déficit fiscal, mais medidas de expansão de crédito são anunciadas

    30/06/2026
    A condução da política econômica brasileira frequentemente flerta com a perigosa linha que separa o fomento ao desenvolvimento do mero populismo fiscal. O retrato mais recente dessa dinâmica ocorreu na revelação dos últimos dados das contas públicas. No exato dia em que o governo central — composto pelo Tesouro, Banco Central e Previdência — divulgou um rombo primário de R$ 53,3 bilhões referente ao mês de maio, anunciou-se, em contrapartida, a criação de mais uma rodada de programas de crédito com recursos estatais.

    Os números fiscais por si só já exigem máxima cautela. O déficit de maio de 2026 é 26,3% pior do que o registrado no mesmo mês do ano anterior. O descompasso é evidente e preocupante: enquanto a receita líquida do governo apresentou um avanço de 5,5% em termos reais, as despesas totais saltaram 9,4%. Em vez de sinalizar uma contenção de gastos diante desse buraco, a resposta governamental veio na forma de novos estímulos, batizados de "Desenrola Adimplentes" e "Fies Empreendedor".

    As iniciativas preveem a injeção de R$ 4 bilhões originários do Tesouro Nacional. A destinação desses recursos foi estruturada em duas frentes. O Desenrola Adimplentes prevê R$ 3 bilhões focados em permitir que trabalhadores informais renegociem ou tomem novos empréstimos pessoais de até R$ 15 mil. Trata-se do saldo devedor remanescente de operações anteriores, agora repactuado com juros supostamente mais baixos. O Fies Empreendedor destina R$ 1 bilhão a egressos do Fies que mantêm o financiamento estudantil rigorosamente em dia, oferecendo linhas de crédito de R$ 80 mil para pessoas físicas e R$ 180 mil para pessoas jurídicas.

    O Ministério da Fazenda argumenta que esses recursos serão utilizados em operações financeiras reembolsáveis, o que, na rígida teoria contábil, não geraria impacto direto no resultado primário das contas públicas. A realidade macroeconômica brasileira, no entanto, é muito menos complacente.

    Convivemos com uma inadimplência estrutural alarmante, agravada por taxas de juros invariavelmente elevadas. Levantamentos da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil atestam que atingimos a impressionante marca de 75,06 milhões de consumidores negativados. Esse contingente representa 44,8% de toda a população adulta do país, com a faixa etária dos 30 aos 39 anos concentrando o maior volume de endividados (18,23 milhões de pessoas).

    Com um histórico de calotes dessa magnitude, a probabilidade de que essas novas linhas de crédito não retornem aos cofres públicos é alta. Na prática, a inadimplência acabará se transformando em passivo para o Estado, repercutindo negativamente sobre uma dívida pública já sob forte estresse.

    A embalagem dessas medidas em pleno ano de eleição presidencial revela um inegável viés eleitoreiro. Incentivar a tomada de novos financiamentos por uma população que, em sua grande maioria, carece de educação financeira sólida é uma estratégia imediatista. Os cidadãos correm o risco de se aprisionar em novas dívidas para manter um padrão de consumo ou de operação irreal, enquanto o Estado aprofunda o seu desequilíbrio fiscal futuro. O desenvolvimento econômico não se constrói com crédito fácil financiado por déficit, mas com responsabilidade nas contas públicas, segurança jurídica e ganhos estruturais de produtividade.
  • Ecio Costa - Economia e Negócios

    O Investimento Estrangeiro Direto no Brasil Continua Salvando o Déficit Crescente das Contas Externas

    29/06/2026
    O cenário macroeconômico brasileiro apresenta uma dicotomia relevante neste ano de 2026. Enquanto o mercado financeiro de curto prazo reflete cautela, a economia real captura um movimento oposto e aparentemente promissor. Os dados mais recentes revelam que o Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Brasil somou US$ 37,9 bilhões apenas entre janeiro e maio. Trata-se do terceiro maior valor já registrado desde o início da série histórica para o período, ultrapassando, em cinco meses, a metade de toda a projeção do Banco Central para o ano.

    Esse fluxo de capital produtivo atua como um amortecedor estrutural. Historicamente, o país lida com um forte e crescente déficit em conta corrente — atualmente na casa dos 2,6% do PIB. No entanto, o volume de IED acumulado em 12 meses atingiu US$ 83,3 bilhões, o equivalente a 3,4% do nosso PIB. Na prática, a entrada de recursos estrangeiros voltados para a produção é mais do que suficiente para financiar o nosso rombo nas contas externas com folga, garantindo solvência e afastando pressões mais agudas sobre o câmbio e crises de fuga de capital.

    Mas o que explica esse apetite contínuo do investidor global pelo Brasil? A resposta passa por uma combinação de virtudes internas construídas ao longo do tempo. A atratividade atual é, em grande medida, fruto das reformas econômicas implementadas ao longo da última década, que modernizaram marcos regulatórios fundamentais e deram maior previsibilidade jurídica ao ambiente de negócios.

    Somam-se a isso as nossas exportações elevadas, fortemente impulsionadas pelo ciclo favorável de commodities, e a retomada do crescimento real da renda. Um mercado consumidor interno com mais de 200 milhões de habitantes, cujo poder de compra vem sendo resgatado, torna-se um polo atrativo de alocação. Há ainda um componente geopolítico: em um mundo marcado por profunda instabilidade e tensões, o Brasil consolida-se como um porto seguro logístico e energético, favorecido, também, pelas expectativas otimistas com o avanço do acordo Mercosul-União Europeia.

    Os recursos que desembarcam têm endereço certo, irrigando os setores financeiro, de alimentos, de celulose e de máquinas elétricas. Com projeção de um IED de US$ 79 bilhões até o fim do ano, a mensagem estratégica deixada pelos mercados globais é clara. O investidor especulativo pode até hesitar na hora de alocar recursos de curtíssimo prazo para comprar ações na bolsa de valores em um momento de juros globais elevados. Contudo, o investidor da economia real pensa no longo prazo e nas oportunidades que se apresentam. Os dados mostram que ele está disposto a construir fábricas, investir em tecnologia e fincar raízes no Brasil.
  • Ecio Costa - Economia e Negócios

    A Contradição de Curto vs Médio Prazos: O Discurso do Banco Central e o Choque de Realidade do IPCA-15

    26/06/2026
    A economia brasileira vivenciou um daqueles momentos em que os modelos teóricos de gabinete e a dura realidade das prateleiras parecem habitar universos paralelos. A divulgação simultânea do Relatório de Política Monetária pelo Banco Central e da prévia oficial da inflação, o IPCA-15, expôs uma contradição que exige muito mais do que malabarismos retóricos da nossa autoridade monetária para ser justificada perante o mercado e o setor produtivo.

    De um lado, o Banco Central apresentou um relatório que, embora reconheça as incertezas do cenário global e os crônicos desafios fiscais internos, tenta ancorar as expectativas com um discurso de controle. O documento busca sustentar a narrativa de que a política monetária, mesmo com os recentes ajustes na taxa Selic, permanece em terreno suficientemente restritivo para domar os preços no horizonte relevante. É uma leitura que sugere, nas entrelinhas, que a trajetória de desinflação segue seu curso, permitindo um pouso suave da economia em 2028.

    Do outro lado, contudo, o IPCA-15 de junho caiu como um balde de água fria sobre qualquer otimismo precoce. A prévia da inflação apontou para a maior leitura do indicador desde 2022 — um ano que foi historicamente marcado por severos choques globais e desarranjos nas cadeias de suprimentos. O que torna o dado atual tão alarmante não é apenas a manchete assustadora do índice cheio, mas a sua composição qualitativa subjacente. Observamos uma resiliência perigosa na inflação de serviços, que reflete diretamente a pressão de demanda, somada a uma nova escalada em itens essenciais que penalizam frontalmente o orçamento das famílias.

    A contradição passa por um desalinhamento estrutural entre as políticas monetária e fiscal. Enquanto o BC tenta esfriar a economia mantendo o custo do crédito elevado, a máquina pública continua operando com o pé pesado no acelerador dos gastos. A injeção constante de liquidez via expansão de despesas obrigatórias mantém a demanda artificialmente aquecida, neutralizando o esforço contracionista dos juros.

    A conclusão desta superposição de dados conflitantes é clara e exige pragmatismo. O Banco Central precisará recalibrar urgentemente seus modelos de projeção e adotar um choque de transparência em sua comunicação. Com o IPCA-15 retornando a patamares de 2022, o espaço para condescendência monetária evaporou. Se a autoridade não assumir uma postura incontestavelmente firme agora, o custo para resgatar a credibilidade da meta de inflação será cobrado no futuro com juros ainda mais altos e uma freada muito mais dolorosa no nosso crescimento.
  • Ecio Costa - Economia e Negócios

    IBC-R de abril comprova o protagonismo de Pernambuco com maior crescimento no Nordeste

    25/06/2026
    A economia pernambucana tem demonstrado uma resiliência e uma força motriz impressionantes em 2026. Os dados mais recentes do Índice de Atividade Econômica Regional (IBC-R), a principal prévia do PIB calculada pelo Banco Central, traduzem em números que Pernambuco assumiu a dianteira e consolidou-se como o grande eixo econômico da sua região, impulsionado por resultados sólidos no mercado de trabalho, no comércio e na indústria.

    Os Números do IBC-R: Liderança Regional

    A análise do IBC-R do Banco Central revela um desempenho estadual excepcionalmente robusto.
    Acumulado do Ano: A atividade econômica de Pernambuco registrou uma expansão expressiva de 5,91% até abril.
    Cenário Nacional e Regional: Trata-se do segundo maior crescimento de todo o território nacional, ficando atrás apenas do Rio de Janeiro, que obteve 5,99%. Com isso, o estado consagrou-se como o líder no Nordeste, puxando a média inteira da região, que alcançou um avanço geral de 3,18% no mesmo período.
    Consistência a Longo Prazo: O estado também anotou um crescimento de 5,44% na variação trimestral e de 3,29% no acumulado de 12 meses em abril.

    Emprego e Renda: O Termômetro do Caged e da PNAD

    O salto do IBC-R é reproduzido no aquecimento real do mercado de trabalho. De acordo com o Caged, Pernambuco sustenta um saldo de 8.648 vagas no acumulado do ano até abril. Essa forte absorção de mão de obra — especialmente nos setores de Serviços, Comércio e da Construção Civil — se comprova, também, nos dados da PNAD Contínua do IBGE, que apontam para uma contínua e forte redução da taxa de desemprego no estado, uma queda de 2,4 pontos percentuais em um ano, para 9,2% no 1º trimestre de 2026, a maior redução do país no período. Menos desocupação significa mais massa salarial circulando, o que devolve capacidade direta de consumo a milhares de famílias pernambucanas.

    Indústria e Varejo: Destaques em 2026

    Para sustentar um crescimento de quase 6% no IBC-R, é indispensável que a base produtiva e o balcão das lojas respondam à altura.
    A Força da Indústria: A Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do IBGE evidencia o ótimo desempenho da indústria pernambucana, com crescimento de 19,7% no acumulado do ano até abril. A indústria de transformação local tem registrado crescimentos expressivos nas últimas leituras, alavancando as cadeias logísticas e operando acima da média nacional, o que atrai novos investimentos para o estado.
    A Retomada do Varejo: Na ponta do consumo, a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) comprova que o varejo de Pernambuco vem apresentando excelentes volumes de vendas, com crescimento acumulado até abril de 11,9%, bem acima da média nacional de 1,8%. Com mais empregos gerados, o comércio local vende mais, esvazia estoques e retroalimenta as encomendas para a indústria.

    O desafio imposto daqui para frente é manter esse ritmo de aceleração de forma sustentável. Com a continuidade de um ambiente de negócios favorável, diversos anúncios de investimentos em infraestrutura e responsabilidade fiscal, Pernambuco detém hoje todas as credenciais para se manter não apenas como a locomotiva nordestina, mas como um grande modelo de pujança econômica para o restante do Brasil.
  • Ecio Costa - Economia e Negócios

    R$ 140 Bilhões para a Nova Indústria Brasil e mais Risco Fiscal em 2026

    23/06/2026
    O governo federal anunciou mais R$ 140 bilhões para impulsionar a Nova Indústria Brasil, política industrial do atual governo, somando R$ 750 bilhões de anúncios no atual mandato. A intenção de reindustrializar o Brasil e inserir o país em cadeias globais de valor é válida, mas os meios escolhidos e o timing da medida acendem alertas. É impossível ignorar que este pacote robusto chega ao mercado em meados de 2026, a poucos dias do meio do ano, o que inevitavelmente levanta questionamentos sobre mais uma expansão de gastos.

    O pacote apoia-se fortemente no uso de recursos estatais, tendo o BNDES (R$ 102,5 bilhões) e a Finep (R$ 37,5 bilhões) como impulsionadores. A utilização agressiva de crédito subsidiado e fomento via bancos públicos cobra um custo elevado. Embora as taxas favorecidas ajudem a alavancar projetos no curto prazo, elas sobrecarregam o Tesouro Nacional e pressionam a política monetária, reduzindo a potência das taxas de juros e dificultando o trabalho do Banco Central no controle da inflação. A conta desse subsídio implícito, mais cedo ou mais tarde, chega ao contribuinte em forma de maior endividamento público.

    Na ponta da destinação, os recursos miram setores estratégicos fundamentais. As áreas beneficiadas incluem a modernização do agronegócio, o fortalecimento do complexo industrial da saúde, além de investimentos pesados em infraestrutura sustentável, transição digital, bioeconomia e defesa nacional. São vetores vitais para o desenvolvimento. O grande desafio estrutural é garantir que esses bilhões sejam direcionados com rigor técnico, promovendo o ganho real de produtividade, e não servindo como sobrevida para empresas ineficientes ou como uma perigosa reedição da política dos campeões nacionais.

    Os segmentos beneficiados incluem: fertilizantes; máquinas agrícolas; insumos farmacêuticos ativos; biofármacos; terapias avançadas; mobilidade sustentável; inteligência artificial; audiovisual; minerais críticos; e, tecnologias duais.

    A apreensão reside no calendário. Lançar um estímulo de R$ 140 bilhões em um ano de eleições mistura política industrial com a tentação do ciclo político-econômico. O risco é que o fomento se transforme em instrumento de estímulo artificial da atividade econômica visando ganhos nas urnas. O Brasil navega em um cenário fiscal sensível, em que as regras fiscais exigem extrema disciplina para estabilizar a trajetória da dívida pública. Despejar esse volume de recursos agora pode desancorar as expectativas do mercado, mais uma vez, pressionando a curva de juros futuros e o câmbio.

    O desenvolvimento da indústria brasileira não será resolvido com canetadas de crédito farto. O verdadeiro salto de competitividade exige o contínuo ataque ao Custo Brasil, com segurança jurídica inabalável, educação de ponta e infraestrutura logística eficiente. Sem isso, pacotes bilionários correm o risco de ser apenas uma injeção de adrenalina, deixando como herança uma conta fiscal que todos nós teremos que pagar no futuro.
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