PodcastsNegóciosEcio Costa - Economia e Negócios

Ecio Costa - Economia e Negócios

Ecio Costa
Ecio Costa - Economia e Negócios
Último episódio

1663 episódios

  • Ecio Costa - Economia e Negócios

    A força do Tio Sam: O reposicionamento do Dólar e a rota dos juros nos EUA

    09/06/2026
    Até pouco tempo atrás, grande parte do mercado financeiro global apostava em um enfraquecimento do dólar e em um iminente ciclo de cortes agressivos na taxa de juros americana. No entanto, a economia dos Estados Unidos provou, mais uma vez, sua impressionante capacidade de resiliência. Neste cenário recente, a vigorosa retomada do mercado de trabalho e o crescimento persistente das empresas de tecnologia mudaram completamente o tabuleiro macroeconômico global.

    Os dados evidenciam uma economia americana rodando a pleno vapor. A geração de empregos continua robusta, sustentando o consumo das famílias, enquanto os balanços corporativos, especialmente impulsionados pela tecnologia e inovação, mantêm as bolsas de valores em patamares de euforia. Esse dinamismo é a prova de um setor produtivo altamente eficiente, mas que traz consigo um efeito colateral inevitável para a política monetária: o aquecimento da demanda impede a queda rápida da inflação.

    Com o mercado de trabalho apertado e o consumo resiliente, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se vê forçado a recalibrar sua rota. A expectativa de juros mais frouxos no curto prazo foi firmemente substituída pela realidade do higher for longer (juros mais altos por mais tempo). Afinal, o Fed não pode baixar a guarda da política monetária enquanto o risco inflacionário persistir em uma economia que simplesmente se recusa a desacelerar.

    Esta mudança de rota afeta o resto do mundo. A manutenção e a perspectiva de juros elevados nos EUA agem como um ímã gigantesco para o capital financeiro global. Investidores redirecionam seus recursos para os títulos do Tesouro americano (Treasuries), que passam a oferecer rentabilidades bastante atrativas atreladas à segurança da maior economia do planeta.

    Esse fluxo massivo de capitais em direção aos EUA enxuga a liquidez em outros mercados e resulta na imediata apreciação da moeda americana. O dólar, que vinha passando por um ciclo de desvalorização e perda de tração frente a outras divisas, recuperou sua musculatura e voltou a encarecer globalmente.

    Para países emergentes, como o Brasil, o impacto é direto. O fortalecimento do dólar e os juros americanos atrativos limitam o espaço para que o nosso próprio Banco Central possa reduzir a taxa Selic sem causar fuga de capitais ou piora no câmbio. A pujança da economia americana é um motor essencial para o mundo, mas a conta dessa resiliência chega na forma de um dólar mais caro e de um cenário financeiro que exige extrema cautela e responsabilidade fiscal de quem está de fora daquela fronteira.
  • Ecio Costa - Economia e Negócios

    O preço da expansão desenfreada: Porque o mercado já projeta a Selic a 13,50%

    09/06/2026
    O Boletim Focus divulgado nesta segunda-feira pelo Banco Central soou um alarme que não pode ser ignorado por quem acompanha a economia real. A mediana das projeções do mercado financeiro para a taxa Selic ao final deste ano acaba de ser revisada para cima, atingindo o patamar de 13,50% ao ano e já repercutindo na remuneração dos títulos da dívida. Trata-se de um movimento de reprecificação intenso, quando ainda em janeiro, se falava em 12%, mas que encontra justificativa na deterioração das expectativas de inflação, que também voltaram a subir no mesmo relatório.

    O que está forçando o mercado a prever juros ainda mais altos?

    A resposta reside no perigoso choque de forças entre a política monetária e a política fiscal. Vivemos um momento em que o governo federal tem acelerado expressivamente os pacotes de expansão de gastos públicos e a injeção de crédito na economia. Assistimos nas últimas semanas à ampliação agressiva de linhas de crédito com subsídios implícitos, novas rodadas de incentivos ao consumo e aportes massivos via bancos públicos, tudo isso espremido em um orçamento que já não apresenta folga estrutural.

    O problema central dessa estratégia é simples de se entender. Quando o Estado injeta um volume massivo de dinheiro na economia — estimulando a demanda de forma artificial — sem que haja um aumento correspondente na produtividade ou na oferta de bens, o resultado é a pressão sobre os preços. A inflação, que já se mostrava resiliente, ganha novo fôlego. O mercado, percebendo que o esforço fiscal é frouxo, ajusta imediatamente suas projeções de inflação para cima, como vimos no Focus dessa e das últimas semanas.

    Com as expectativas desancoradas, o Comitê de Política Monetária (Copom) fica sem alternativa. É a velha analogia econômica: se o Executivo pisa fundo no acelerador dos gastos e do crédito subsidiado, o Banco Central é obrigado a pisar com os dois pés no freio dos juros para evitar que o custo de vida fuja do controle.

    A perspectiva de uma Selic a 13,50% é, na prática, a fatura sendo cobrada pelo desequilíbrio das contas públicas. Enquanto a agenda governamental priorizar estímulos de curto prazo em detrimento do corte efetivo de despesas, o crédito continuará proibitivo para o setor produtivo e a conta do endividamento público ficará mais pesada. O ajuste nas projeções de hoje é a prova de que o crescimento impulsionado por gasto público cobra seu preço — e quem paga, via juros, é a própria sociedade, que não consegue financiar a compra da casa própria, da produção de bens e do financiamento do consumo.
  • Ecio Costa - Economia e Negócios

    A falsa promessa do ganho rápido: Por que o Brasil tem mais apostadores em bets do que investidores na bolsa?

    08/06/2026
    O Brasil vivencia hoje uma transformação comportamental que acende um alerta vermelho para a nossa saúde financeira e macroeconômica. Uma febre silenciosa tomou conta dos smartphones de milhões de brasileiros, drenando a renda das famílias e competindo diretamente com o consumo, poupança e investimento. O crescimento das bets tem trazido muita preocupação e destruído famílias.

    Quando cruzamos os dados do mercado financeiro com os do setor de apostas, o retrato é alarmante. No primeiro semestre de 2025, cerca de 17,7 milhões de brasileiros realizaram apostas online, com o Ministério da Fazenda apontando que esse número ultrapassou a marca de 24 milhões de CPFs ao longo do ano. Em contrapartida, a B3 — a nossa bolsa de valores — contabiliza pouco mais de 5,3 milhões de investidores pessoa física em renda variável. Na prática, o Brasil tem hoje mais do triplo de apostadores em relação ao número de cidadãos que investem no setor produtivo por meio de ações. Mas o que explica essa discrepância e quais são os impactos reais na nossa economia?

    O Custo de Oportunidade e o Erro Conceitual

    A principal força motriz desse fenômeno é a promessa do dinheiro fácil, impulsionada por uma lacuna histórica de educação financeira no país. Um dado revelador da Anbima mostra que 20% dos apostadores encaram as bets como uma modalidade de investimento. Trata-se de um erro conceitual gravíssimo.

    Apostas são jogos de azar: A matemática das bets é desenhada com uma expectativa de retorno negativa para o usuário. Pela “lei dos grandes números", a casa sempre fica com a maior fatia no longo prazo. Não há geração de valor, apenas transferência de riqueza com base na sorte e em probabilidades desfavoráveis.

    Investimento é alocação em ativos produtivos: Ao comprar uma ação na bolsa de valores, você adquire uma fração de uma empresa real. Seu retorno está atrelado ao lucro, à eficiência, à geração de empregos e à distribuição de dividendos. Há riscos, naturalmente, mas eles são mitigados por análises técnicas, diversificação e horizonte de longo prazo.

    Para se ter uma ideia do custo de oportunidade, o gasto médio mensal do brasileiro ativo em apostas gira em torno de R$ 164 a R$ 195. Se esse valor fosse direcionado mensalmente para a compra de ações de boas empresas pagadoras de dividendos ou até mesmo para o Tesouro Direto, estaríamos construindo uma geração de poupadores com patrimônio acumulado, e não uma legião de superendividados.

    O Impacto no Consumo e na Economia Real

    O desvio de bilhões de reais para o mercado de apostas não afeta apenas o indivíduo; ele asfixia a economia real. Dados do Banco Central já detectaram transferências bilionárias via Pix para essas plataformas, inclusive comprometendo recursos de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.

    O dinheiro que vai para a conta da bet no exterior é o mesmo que deixa de circular na padaria do bairro, na compra de vestuário, no pagamento da conta de luz e no varejo em geral. O resultado direto dessa dinâmica é a corrosão do poder de compra e o aumento vertiginoso da inadimplência. Estudos recentes do varejo e de instituições de proteção ao crédito já apontam que mais de um milhão de brasileiros entraram no vermelho diretamente por conta do descontrole com os jogos online.

    O Caminho da Conscientização

    A regulamentação do setor pelo governo federal foi um passo necessário para tributar as empresas e tentar frear o avanço descontrolado da publicidade agressiva, mas não é a solução definitiva. A verdadeira virada de chave exige um esforço conjunto entre Estado, instituições financeiras e sociedade civil para conscientizar sobre os riscos das apostas online no comprometimento da renda das famílias.

    É preciso, também, mostrar ao brasileiro que a construção de patrimônio não acontece num passe de mágica ou no acerto do placar de uma partida de futebol aos 45 minutos do segundo tempo. A riqueza se constrói com disciplina, juros compostos e paciência. Investir é ser sócio do crescimento do país; apostar é, no fim das contas, transferir a sua renda para o enriquecimento de terceiros.
  • Ecio Costa - Economia e Negócios

    A Ilusão do PIB: O Crescimento Artificial e a Fatura que Chegará Amanhã

    06/06/2026
    A divulgação de que o PIB do primeiro trimestre apresentou um crescimento de 1,1% pode, à primeira vista, parecer motivo para comemoração. Contudo, na economia, as manchetes costumam esconder os verdadeiros fundamentos estruturais. Ao olharmos os dados por dentro, a euforia inicial rapidamente dá lugar à preocupação: estamos diante de um crescimento de baixa qualidade, impulsionado por anabolizantes estatais e que cobra um preço alto do nosso futuro.

    O grande motor desse avanço trimestral foi o Consumo das Famílias, que registrou uma alta de 1,0%. Mas não nos enganemos: esse apetite não deriva de ganhos reais de produtividade ou de uma expansão orgânica e sustentável da renda. Ele foi fortemente turbinado por injeções diretas de recursos do governo, como a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, os efeitos do programa Desenrola e o salto de 12% na concessão de crédito para Pessoas Físicas, um dado que soa como alerta vermelho quando lembramos que a taxa Selic opera no patamar bastante restritivo de 14,75% ao ano. Na prática, as famílias estão se endividando a um custo altíssimo para sustentar o nível de consumo.

    Enquanto o consumo é inflado artificialmente, os alicerces do nosso crescimento futuro definham. A Formação Bruta de Capital Fixo, que mede os investimentos produtivos, até apresentou um respiro de 3,5% na margem do trimestre, mas amarga uma queda de 1,4% na comparação anual. O dado mais crítico aqui é estrutural: a taxa de investimento do Brasil despencou de 17,6% para 16,5% do PIB. Sem o setor privado investindo em máquinas, equipamentos e infraestrutura, a economia perde a capacidade de crescer sem gerar pressão inflacionária.

    A estagnação do setor produtivo fica ainda mais evidente do lado da oferta. A Indústria de Transformação, que é historicamente o setor que gera os empregos de melhor qualidade técnica e remuneração, ficou completamente parada, com uma variação pífia de +0,1%. Para piorar a fotografia, o setor externo também não ajudou: as nossas exportações recuaram 1,7%, enquanto as importações avançaram 4,4%, subtraindo do resultado final do PIB.

    Estamos vivenciando um crescimento puxado quase que exclusivamente pelo gasto público, e não pelo aumento da nossa eficiência ou produtividade. O ciclo criado é perigoso: o governo amplia estímulos e injeta dinheiro, o consumo responde imediatamente elevando a demanda, a inflação encontra resistência para ceder, o Banco Central se vê obrigado a apertar o cinto com juros altos e, na ponta final, o investimento corporativo murcha.

    A atual composição da demanda brasileira é estruturalmente frágil. Ela sinaliza, de forma inequívoca, um menor potencial de crescimento para os próximos anos. Comemorar o número cheio desse PIB é fechar os olhos para a dinâmica real das nossas contas. O Brasil cresce hoje, sim, mas de forma completamente artificial. E, como a história econômica não cansa de nos ensinar, a conta dessa ilusão de curto prazo inevitavelmente chega amanhã.
  • Ecio Costa - Economia e Negócios

    A Balança da Reforma Tributária: Como as Mudanças Afetam a Inflação, os Serviços e as Regiões do Brasil

    05/06/2026
    O ano de 2026 marca o início oficial de uma das maiores transições estruturais da história econômica brasileira: a implementação da Reforma Tributária sobre o consumo. Com a introdução gradual da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), começamos a nos despedir do emaranhado de tributos como ICMS, ISS, PIS, Cofins e IPI. Mas a grande pergunta que chega aos lares e às empresas é prática: qual será o impacto dessa mudança no nosso bolso e no comportamento da inflação?

    A resposta não é única. A transição não terá um efeito linear no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O impacto será fortemente segmentado, atuando como uma verdadeira balança: enquanto alguns setores e regiões puxarão os preços para baixo, outros, inevitavelmente, pressionarão o custo de vida.

    O Efeito Gangorra: Produtos vs. Serviços

    A espinha dorsal da reforma é a não cumulatividade plena — ou seja, o fim da cobrança de "imposto sobre imposto" ao longo da cadeia produtiva. Isso cria uma dicotomia clara entre o que consumimos:

    Produtos e Indústria (Vetor Deflacionário): Os bens manufaturados tendem a ficar mais baratos. A indústria brasileira, que historicamente carrega a maior carga tributária do país, será a grande beneficiada ao poder descontar integralmente os tributos pagos nas etapas anteriores. Além disso, a criação de uma Cesta Básica Nacional de Alimentos com alíquota zero trará um alívio direto nas prateleiras dos supermercados, reduzindo o custo da alimentação em domicílio.

    Serviços (Vetor Inflacionário): Aqui reside o ponto de atenção. O setor de serviços (que inclui desde escolas e planos de saúde a academias, streamings e profissionais liberais) atualmente paga impostos menores, centrados no ISS municipal e no PIS/Cofins cumulativo. Com a unificação e uma alíquota padrão que pode orbitar a casa dos 27,5%, os serviços sofrerão um aumento de carga tributária. Como a maioria das empresas do setor possui cadeias operacionais curtas e poucos insumos para gerar créditos tributários, a tendência natural é o repasse desse custo adicional para o preço final, pressionando a inflação de serviços.

    A Dinâmica Regional: Quem Ganha Mais?

    Outro eixo transformador da reforma é a mudança da cobrança do imposto do princípio da origem (onde o produto é fabricado) para o destino (onde ele é efetivamente consumido). Essa alteração redesenha a geografia da inflação no Brasil:

    Norte e Nordeste: Por serem regiões predominantemente consumidoras — que importam um grande volume de bens industriais do eixo Sul-Sudeste —, tendem a sentir uma redução mais sensível nos preços dos produtos. O fim da guerra fiscal do ICMS e a eliminação da tributação em cascata sobre a logística baratearão o custo do frete. Adicionalmente, como as famílias dessas regiões comprometem uma fatia proporcionalmente maior de seus orçamentos com alimentação básica (agora desonerada), a sensação de alívio inflacionário será sentida mais rapidamente. O novo mecanismo de cashback (devolução de tributos para famílias cadastradas no CadÚnico) também terá um impacto profundo na manutenção do poder de compra local.

    Sul e Sudeste: Sendo regiões com maior renda per capita e com forte base no setor terciário, o consumo de serviços tem um peso significativamente maior no orçamento dessas famílias. Portanto, o impacto inflacionário gerado pelo encarecimento dos serviços deverá ser sentido de forma mais aguda pelas classes média e alta concentradas neste eixo econômico.

    A Reforma Tributária é, sem dúvida, um passo vital para destravar a produtividade e estimular o crescimento a longo prazo do Produto Interno Bruto (PIB). O fim do "Manicômio Tributário" trará clareza, mas o sucesso dessa travessia dependerá do compromisso das empresas em repassar a efetiva queda de custos aos consumidores e, fundamentalmente, da capacidade do governo em manter o equilíbrio fiscal, garantindo que a nova alíquota padrão não se torne um fardo ainda mais pesado para a sociedade.
Mais podcasts de Negócios
Sobre Ecio Costa - Economia e Negócios
CEDES - Consultoria e Planejamento
Site de podcast

Ouça Ecio Costa - Economia e Negócios, Os Economistas Podcast e muitos outros podcasts de todo o mundo com o aplicativo o radio.net

Obtenha o aplicativo gratuito radio.net

  • Guardar rádios e podcasts favoritos
  • Transmissão via Wi-Fi ou Bluetooth
  • Carplay & Android Audo compatìvel
  • E ainda mais funções